EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

terça-feira, 18 de maio de 2010

PALAVRA FIANDEIRA - 29


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PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 29 - 18/05/2010

 NESTE NÚMERO:
ALBERTO PEREIRA
Entrevistado por
Carmen Ezequiel
PORTUGAL
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SOMBRAS COMUNS
Entrevista a Alberto Pereira

Por Carmen Ezequiel
em exclusivo para o Palavra Fiandeira





Escreve para se evaporar no nevoeiro perpétuo do quotidiano”
Alberto Pereira

Por cá, há o costume de se dizer que “viver não custa, o que custa é saber viver”.
Nesta edição de Sombras Comuns, vivemos intensamente as palavras de Alberto Pereira. Inebriamo-nos com o som da alma deste Ser excepcional e, quis a vida, um poeta que se fez.
Aqui, entrevistamos Alberto Pereira que sabe viver um dia de cada vez, pois “todas as vivências são significativas” e que, como ele próprio diz, “é uma ilha como todos os homens”.
Natural da cidade das Sete Colinas (Lisboa), residente na freguesia de Parede, e com 39 anos tem já um vasto curriculum nestas andanças da poesia (e, não só).
Para ele, “em termos literários, Herberto Helder, tornou-se marcante porque desabitou os limites que me tinham encontrado até então. Foi como se as palavras pudessem alvejar a realidade e esta gostasse de desfalecer no imaginário.
A obscuridade como caminho, o caos a deflagrar nas metáforas, o transe a forjar a perfeição. Reportório de enigmas onde há sempre um grito suspenso no pensamento, um precipício a que queremos pertencer. Foi este perseguir da utopia e a não hesitação do encanto, que abriu um novo diálogo nas minhas mãos. Herberto Helder é o poeta que me apresentou a mim próprio”.
E, porque toda a sua entrevista é um poema alargado, aqui vos apresento Alberto Pereira, um “encantador de ilusões”.

“Sempre gostei de desaguar ideias no papel”
“Continuo a acreditar que são os pequenos gestos que nos fazem o destino”
Alberto Pereira


Carmen Ezequiel - Define-te em 3 linhas. Quem é Alberto Pereira?

Alberto Pereira - Alberto Pereira é uma ilha como todos os homens.
Nasceu em 1970 em Lisboa. É licenciado em Enfermagem. Escreve para não se evaporar no nevoeiro perpétuo do quotidiano. De quando em vez, aluga quartos na memória para regressar à infância. Gosta do silêncio e de caminhar fora do destino. Vagueia para se cumprir.



CE - Poeta, radiotelegrafista, enfermeiro, marinheiro, praticante de Tai Chi, Shiatsu, Aikido e Meditação; que mais se pode esperar de Alberto Pereira? O que pesa mais ou é mais relevante para o ser?

AP - Com todo o respeito, não se deve esperar nada. Esperar alguma coisa é um convite para que ela não se concretize. Por isso, resta-nos ficar atentos para ver o que surge, porque para mim também é uma incógnita.
Em relação à importância do que faço, aí tenho uma certeza, neste momento a escrita é o que mais pesa.



CE - Como enfermeiro de um navio de guerra, em além mundo, viajando por “mares outrora navegados”; a escrita foi um escape ou algo que já existia? Como começou esta “forma de fazer transfusões de eternidade”?

AP - A escrita é sempre um escape para nos reinventarmos. Comecei a escrever de forma mais intensa quando saí da Marinha. Sempre gostei de desaguar ideias no papel; frases, pequenos textos, poemas. Mas só quando a vida se gastou na minha mãe, senti a necessidade de fazer das sílabas, alento. Algo me procurava. Uma inquietação que queria salvar-me da noite em que se tinham transformado as horas. Inesperadamente, uma doente que se encontrava internada no serviço onde eu trabalhava, salvou-me. Um acto que me trouxe até aqui. Continuo a acreditar que são os pequenos gestos que nos fazem o destino. Coisas que se atravessam em nós sem sabermos porque, e que significam mais que aquilo que conseguimos ver.
A doente  a que me referi era tradutora e presenteou-me com um livro por si revisto. Atrás do livro, surgiu o impulso de lhe dizer que escrevia. A sua boca desenhou de imediato o que iria encontrar no futuro. A dificuldade de publicar poesia. Aconselhou-me a escrever, romance. Saí dali e quando cheguei a casa, as mãos deram-me ordem para começar. Fi-lo meses a fio, com a inocência que escrevia uma obra-prima, a mesma que mais tarde me ofereceria derrotas. Depois entendi que não estava bem escrita. Era o início de uma batalha à qual não renunciei. O tempo foi-me trazendo evidências. O silêncio explicava lentamente uma solidão que enchia. Mas faltava ainda uma vírgula para as coisas acontecerem em definitivo. Conheci então o poeta Pedro Sena-Lino que me trouxe o rumo. E assim começaram as transfusões de eternidade. Com elas a anemia da ilusão morreu e surgiu o livro “O áspero hálito do amanhã”.
(para adquirir o livro visite: www.ediumeditores.org)


CE - Fala-nos um pouco do teu percurso literário? Como começou e como vês a literatura em Portugal?

AP - O meu percurso literário iniciou-se da forma que referi anteriormente. O que aconteceu depois, foi fruto da consolidação de conhecimentos que adquiri na “Companhia do Eu”, a escola de escrita criativa que frequento há três anos. Tive também a sorte de o editor José Castelo Branco, da Edium Editores, me dar oportunidade de publicar. As pequenas editoras têm mais importância do que aquela que lhes é atribuída. Não estamos a falar das que publicam de tudo a troco de dinheiro, mas daquelas que apesar de precisarem de sobreviver ainda tem critérios de seleção, embora não os mesmos que as grandes editoras, porque se assim fosse, sucumbiam de imediato. Quanto à literatura em Portugal, penso que não se pode opinar sobre o seu futuro, porque vivemos uma época conturbada, com muita agitação política e social, e não havendo dinheiro, a cultura é a primeira a quem arrancam a pele.

 (Paulo Fonseca, Firmino Mendes, Alberto Pereira, Jorge Castelo Branco)

Penso que em Portugal se edita muito, logo também se escreve muito”
Alberto Pereira

CE - Já com algumas obras publicadas, participação em colectâneas e concursos; que dificuldades sentiste. Quais as dificuldades que se sentem para quem quer publicar? Quais “os obscuros labirintos que rodeiam os meandros da edição”?

AP - Em primeiro lugar, escrever é muito trabalhoso. Fazer um esboço do que se pretende não é difícil. O que leva à exaustão, são as inúmeras correções a que temos que submeter o texto. Debelar bloqueios, procurar erros, aceitar as palavras que nos chamam, formatar vezes sem conta, esta sim, é a árdua tarefa da escrita.
Quanto às obras publicadas, participei em algumas coletâneas de conto e poesia, mas individualmente o livro “O áspero hálito do amanhã”, é o único registro até ao momento. Chegar a uma editora é difícil, e a uma grande editora quase impossível. Existem muitas condicionantes. A qualidade é importante, mas não determinante. São esses os obscuros labirintos que rodeiam os meandros da edição.
Em relação aos prêmios, têm peso porque fazem chegar mais pessoas ao que escrevemos. De todos eles, o que mais me marcou, foi o 3º lugar no Prêmio Sepé Tiaraju de Poesia Ibero-Americana, no qual participaram pessoas de 26 países. Os prêmios são um estímulo, numa jornada que tem mais derrotas à nossa espera que vitórias. O que nos vai segurando é o prazer de criar, de lançar para o mundo novas personagens e frases que perduram. É esta a eternidade de quem escreve, deixar uma voz que se prolonga para lá da sua existência.

CE - Em Portugal edita-se pouco? Ou, escreve-se pouco? Ou, ainda, lê-se pouco? Nós, que fomos moldados por Camões, Pessoa, Florbela, Cesário, e outros tantos; onde se encaixa a poesia na sociedade atual? E, nos jovens de hoje?

AP - Pelo contrário, penso que em Portugal se edita muito, logo também se escreve muito. Falta perceber se o que se edita, não é literatura que chega e parte num ápice, porque lhe falta algo. Relativamente à poesia, abre-se hoje um problema de visibilidade; o que eu chamo, tempo do encanto esquecido.
Na sociedade atual, a poesia deve ser vista como uma hipótese de transcendência, algo que está acima da agonia do quotidiano. Cada vez mais os dias copiam os homens que gostam de decapitar as feridas. Talvez esta seja uma das razões porque vende pouco. As pessoas procuram literatura, que não se some ao que já sofrem, e a poesia não serve essa exigência. É um lugar onde as memórias nunca estão fora de validade. Os abismos não morrem, apenas aprendem a clarear com o tempo. Não entender que a escuridão é muitas vezes um convite ao amanhecer, é um erro. Os jovens de hoje, na sua maioria, não gostam da palavra poética. Esta é vendida como uma arte chata, que se pode encontrar no canto pobre das livrarias. Nunca os poetas foram tão silenciados nos grandes espaços livreiros. A poesia sobrevive, porque ainda existem alguns que teimam em acontecer no interior de si próprios.

CE - Achas que as novas tecnologias, como a internet, promovem a literatura e a poesia? Ou, se pelo contrário, pode-se correr o risco de a banalizar e perderem-se os direitos de autor?

AP - A internet ao serviço da literatura é primordial nos dias de hoje. O seu papel na divulgação das letras, a rapidez com que leva ao mundo as ideias e a proximidade que cria entre quem escreve e o público é notória. Mas temos que ter presente que apesar de ser um expoente na democracia do pensamento, local de elevação dos sonhos e montra de talentos, é também um crematório de ilusões. Escrever é uma tarefa difícil que exige sacrifício, e neste prisma penso que a internet por vezes banaliza este conceito.

“Decepar a ilusão é viver morto”
Alberto Pereira

CE - Onde se cruza a poesia e a enfermagem. É a poesia que te faz ser melhor enfermeiro, ou é a enfermagem que te faz ser melhor poeta? É a rigidez e o código secular da Marinha que te transformaram no que és hoje, ou são as filosofias orientais que te fizeram o ser?

AP - O que nos faz o ser, é tudo o que se cruza com os nossos dias. Todas as vivências são significativas, embora umas mais marcantes que outras.
A Marinha foi um expoente porque me mostrou parte do mundo. O mar é uma meditação para quem o quiser ver para lá das ondas. Umas vezes tempestuoso, outras, metido numa serenidade que comove. Foi nele que aprendi a valorizar a ausência, o silêncio, a melancolia, a beleza desmedida. Foi nele que aprendi a deixar mergulhar aves nos olhos, a colecionar crepúsculos, a trazer tempestades para casa. Quando as horas de vazio me embalavam nas marés, deixava entrar livros pelo coração e guardava mundos que hoje sei que existem, porque também os tento criar. Nesta medida, a Marinha moldou-me o destino.
Quanto ao ponto em que convergem, enfermagem e poesia, sem dúvida, na dor. Sendo assim, poeta e enfermeiro, ajudam-se mutuamente. É certo, que trabalhar num local onde o sofrimento grita nos homens grande parte do tempo, aprimora os precipícios. O que se escreve, é reflexo do que nos encontra. Por isso, acredito que todos os livros têm experiências biográficas dos seus autores, mesmo que bem camufladas.

CE - És um “encantador de ilusões que vive nas entranhas da fantasia” porque acreditas que, como diz Vladimir Nabokov “a nossa existência não é mais do que um curto-circuito de luz entre duas eternidades de escuridão”?

AP - Vimos da noite e para ela regressamos. O dia, a luz, são o paraíso possível.
O destino é um curto-circuito que é preciso aprender a prolongar. Para sermos inteiros, temos que elevar em nós as coisas simples; não a grandiosidade que sequiosamente nos oferece um deserto.
António Lobo Antunes, disse há algum tempo atrás numa entrevista - “A morte é uma puta”.
Nada mais certo. Não há um corpo que ela não procure. Tem para todos, a ditadura de um matrimônio. Ninguém escapa à terra. Em todos os homens se escreve o mesmo romance; a escuridão definitiva.


25 de Abril

O dia em que o cheiro fétido da ditadura
sucumbiu ao aroma perene dos cravos.

Não gostaria de ver morrer a liberdade
nas mãos da incongruência,
pois às vezes fazemos dela
uma luxúria desprovida de senso
onde tudo é permitido.
Alberto Pereira

CE - O teu poema 25 de Abril é uma analogia à realidade dos dias de hoje. Que “mãos da incongruência” são essas? São também elas que prendem a poesia de evoluir?

AP - Na liberdade também há regras. Hoje difunde-se a ideia que nada é incongruente. Os homens manejam a liberdade sem cuidado. Todos os sorrisos contêm um fio de neblina, que se pode levantar a qualquer instante. Para isso, basta que o nosso brilho seja analfabeto. A liberdade deve ser, um eu que sabe existir nos outros, e não uma cegueira que imagina ser o mundo.
Quanto à poesia, nada a prende. Os homens é que podem não entender que ela evolui. Mas isso é uma obscuridade que diz respeito a cada um.

CE - Corremos o risco de que essa liberdade seja “uma luxúria desprovida de senso onde tudo é permitido”, mas ao mesmo tempo aguardamos “na posição fetal da fantasia uma alma nômada grávida de utopia”? Que alma é essa? Porquê nômada?

AP - Somos luzes inertes acesas de trevas, mas lá no fundo, naquele canto do corpo que guarda o que não ousamos dizer aos outros, vive a utopia. Gastamos a vida a ter vergonha de ser, o que fomos há muito tempo. A idade em que o pensamento era nômada e nos deixava acontecer.
Tudo isto, se define bem, com uma magistral frase de Herberto Helder;
Tenho uma criança perdida em todos os lugares”.

CE - Em 17 de Abril de 2008 nasceu o blogue “Murmúrios da Utopia” (http://www.murmuriosdautopia.blogspot.com), um espaço criado para “partilhar inquietações, impossíveis e intemporalidades com outros e comigo próprio”. Que inquietações são essas que te levaram a essa necessidade ou, vontade?

AP - Dentro de cada homem, vivem muitos homens. Chega uma época em que ou os absolvemos da prisão perpétua, ou eles, nos obrigam a um abrupto embrutecer. Foi isso que quis evitar. Decepar a ilusão é viver morto.
Escolhi ser um impossível que acontece.

CE - “Bairro de Lata”, um poema teu em prosa, descreve-nos uma das tuas viagens e vivências ao submundo da realidade, ou é pura imaginação? Que local é esse?

AP - Bairro de lata é realidade. Simplesmente o lugar do meu crescer. Foi essa a morada do homem que um dia quer ser poeta. Digo, quer ser, porque ainda falta caminho para que o seja.

CE - “O Poeta é um mundo insubornável que paga em melancolia a arquitetura ardente da transgressão”
Fala-nos desta expressão.

AP - O poeta tenta estar acima do invisível. É um fantasista a quem nenhuma realidade consegue vender o absoluto. Mas para atingir o fascínio, tem que venerar sombras, idolatrar precipícios, cortejar tristezas, adular silêncios.
A sua transgressão é saber acontecer no vazio.

CE - Que noites há que “de tão simples, são eternidade”?

AP - As noites que aqui refiro, são as adversidades que nos vão encontrando. É a escuridão que tantas vezes nos aflige, que nos faz andar para a frente. Um nevoeiro que chega para nos resplandecer.
A manhã precisa da noite. Os homens precisam das feridas. É essa a placenta da eternidade.

 (João Aguardela)

CE - A subjetividade que transmites nos textos em poesia contrasta com o realismo dos contos em prosa. O conto “A última fotografia” é dedicado a João Aguardela. Fala-nos um pouco da pessoa, da experiência que vivenciaste e do que te levou a escrevê-lo.

AP - É preciso compreender que um poema se pode muscular com a metáfora, mas que um conto exageradamente metafórico, se perde do seu objetivo. O leitor sente-se subjugado às frases e não ao enredo, e isso leva-o ao cansaço. Uma das grandes dificuldades de quem escreve poesia, é abandonar a obsessão pelo encanto da palavra. Tive essa dificuldade, e há alturas que ela regressa sem eu perceber porquê. Tento resistir a esse vício.
Quanto ao conto “A última fotografia”, surgiu pela necessidade de homenagear o João Aguardela; um músico português que não conheci no palco, mas sim, numa cama de hospital. Recordo com saudade as conversas que tínhamos sobre literatura. João Aguardela foi líder e fundador dos Sitiados. Posteriormente esteve envolvido em projectos como Megafone, Linha da Frente e A Naifa, numa tentativa constante de combinar a música tradicional portuguesa, com a sonoridade pop e rock. Nesta linha da inovação fica também ligado aos poetas. Rui Lage, José Luís Peixoto, Pedro Sena-Lino, Adília Lopes, foram alguns dos nomes que viram as suas palavras ditas por A Naifa, o derradeiro projecto em que participou.
São estes cruzamentos da vida que a tornam fascinante. Embora nunca tenha convivido com o João fora desse mundo de dor que é um hospital, cresceu em mim uma necessidade de fazer algo por alguém que a doença calou prematuramente. Porque o tempo não lhe permitiu musicar um poema meu, como dizia, fiz-lhe um conto, para que o esquecimento não o encontre. Só isso.
CE - Escolhe um dos teus poemas, aquele que maior prazer te deu ou que te tocou mais e fala-nos dele.

BAIRRO DE LATA

No fim de um estreito carreiro desembarca um mundo perdido.
Uma floresta de tábuas eriçadas que se espreguiçam na miséria, dão abrigo aos homens mudos de sonhos.
A arquitectura desordenada dos telhados de zinco merenda a madeira nua que treme de podridão. Em cima deles, um sem número de inutilidades; pneus, tijolos e lixo reciclado pelas mentes que necessitam de guardar alguma coisa para enganar a desilusão.
Não se ouvem pássaros, apenas gritos e rumores das mulheres que dissecam cada pormenor da vida alheia. Estas não usam cremes, os seus cheiros são meteorológicos, pois o pouco dinheiro que lhes resta serve para saciar a fome à realidade.
As crianças correm, são “livres”, embora habituadas a sentir o álcool enfurecer as mãos dos pais sem razão plausível.
Joga-se à bola, ao berlinde e às escondidas. Realizam-se os jogos olímpicos várias vezes por mês, com prêmios de cortiça e taças feitas com garrafas de óleo, cabos de vassoura e pratas retiradas dos maços de tabaco já consumidos.
Os homens embriagam os dias de esquecimento, os filhos engarrafam a infância na revolta.
Aqui abrem-se as portas à memória.
O tempo acende o sono dos sorrisos e a cada dia que passa nascem ilhas.


AP - Foi este o poema que mais prazer me deu escrever. Tudo o que existe nele aconteceu. O carreiro estreito. O lixo nos telhados. As mulheres a vasculharem a vida alheia. Os homens a beberem a miséria nas tabernas. As crianças espancadas quando o álcool levantava a voz. Mas o que recordo com saudade, são os jogos olímpicos em que participei nesse tempo. Poucas vezes na vida, me comovi tanto, como quando recebia aquelas taças, feitas com garrafas de óleo, cabos de vassoura e pratas retiradas dos maços de tabaco já consumidos. É desse período que trago uma certeza; somos apenas uma ilha cercada pelo espanto, um lugar onde se enlouquece sempre.
CE - Queres deixar alguma mensagem para o leitor do Palavra Fiandeira?

AP - Porque uma entrevista se faz de palavras, e a vida são vocábulos que nos emprestam luz e escuridão, deixo-vos um pequeno texto de Pablo Neruda, antes de terminar.

Persigo algumas palavras… São tão belas que quero pô-las a todas no meu poema… Agarro-as em voo, quando andam a adejar, e caço-as, limpo-as descasco-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas… E então revolvo-as, agito-as, bebo-as, trago-as, trituro-as, alindo-as, liberto-as… Deixo-as como estalactites no meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes das ondas… Tudo está nas palavras.”

Muito obrigado a todos os leitores da Palavra Fiandeira por construírem este espaço de cultura.


Esta foi mais uma entrevista onde se descobre a essência do ser humano, que tem tantas qualidades, mas por vezes, esquecidas nos recônditos da timidez. Enaltecemo-la aqui com Alberto Pereira, cuja “conversa” foi um mimo para mim. Agradeço a forma como vês o mundo e como o embelezas com as palavras.
Aqui, fala-se de tudo e de nada.
De tudo o que somos.
De nada que ninguém é.

17 de Maio de 2010
Carmen Ezequiel

Curriculum Literário de Alberto Pereira

Obras publicadas:
- O áspero hálito do amanhã
Participação nos Livros:
- Intemporal (conto & poesia)
- Poiesis XVI (antologia de poesia e prosa poética)
- Poemas Sem Fronteiras (colectânea de poesia)
- Bicicletas para memórias & invenções IV e V (colectânea de contos)
- Serenidades (colectânea de poesia)
- Fotografias (colectânea de contos)
Prémios:
- 1º Prêmio do Concurso de Poesia “Ora, vejamos” em 2008
- 1º Prêmio do Concurso de Conto “Ora, vejamos” em 2009
- 1º Prêmio no Concurso de Poesia da ACAT.
- 2º Prêmio do Concurso de Poesia “Ora, vejamos” 2009.
- 3º Lugar no Prêmio Sepé Tiaraju de Poesia Ibero-Americana, entre as 3027 obras inscritas de 26 países.
- Menção Honrosa no Prêmio de Poesia, “O Bacalhau”.
- Menção Honrosa nos XII Jogos Florais de Poesia de Monforte.

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CARMEN EZEQUIEL

Carmen Ezequiel: poeta, articulista, ativista cultural, 
é correspondente e colaboradora de
PALAVRA FIANDEIRA, em Portugal.


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domingo, 9 de maio de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 28



PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 28 - 09/MAIO/2010

NESTA EDIÇÃO:
JOTA ENE

Sintra é uma vila portuguesa no distrito de Lisboa. 
A vila de Sintra é Patrimônio Mundial da UNESCO
FOTO DE JOTA ENE

JOTA ENE
LISBOA - PORTUGAL
"Custa-me conviver com pessoas que fazem da mentira o seu modo de vida"  
(JOTA ENE)


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1. Quem é Jota Ene?

No Miradouro da Graça (Lisboa)


- Jota Ene basicamente considera-se uma pessoa simples, educada, afável e discreta... atributos fundamentais para ter sucesso na vida. Quanto aos meus defeitos, porque os tenho, deixo para as pessoas que convivem comigo diariamente ter a última palavra. Haverá um certamente que não me perdoo, sou assim e não sei como ultrapassar, a pessoa que me trai quer sentimentalmente, quer em termos de amizade, dificilmente dou ou darei uma segunda oportunidade.


2. O senhor é rigoroso e perfeccionista. Eis algo bom em nossa contemporaneidade, porém esse rigor, esse perfil meticuloso, organizado, é aplicado ao seu trabalho com a foto, ou seja, somente em sua produção artística, ou também na vida cotidiana? No caso, poderia nos citar alguns exemplos?

- Essencialmente no quotidiano da vida, sou extremamente perfeccionista e de grande rigor... direi que sou o meu maior crítico;
Contudo...
Sou melhor do que as pessoas pensam ... Pior do que elas imaginam ...
As criticas nao me abalam ... E os elogios não me iludem ...
Sou o que sou... E não o que falam ...
Vivo o presente ... Enfrento o futuro ... E recordo o passado!!!

3. Obviamente é uma apaixonado pela fotografia e bem o disse. Poderia, por gentileza, nos contar como surgiu essa paixão, em que circunstância de sua vida, em qual momento, com qual idade?

- Sim, sou um apaixonado pela fotografia, terei iniciado estas lides na década 70/80, primeiramente com fotos exclusivamente de familia, seguidamente com fotos de amigas e ex-namoradas que se prontificavam para posar na vertente do nú artístico, hoje fotografo de tudo um pouco, não há uma temática que se sobreponha. Entretanto, com o aparecimento das câmaras digitais fui evoluindo, tendo hoje um acervo de cerca de 7.000 fotos (ficheiros).


4. Como é o seu interesse em cachecóis? O senhor os coleciona? São as cores que o atraem? Afinal, a sua vida é de cores...


- Fundamentalmente, sou um colecionador por excelência. O interesse por cachecóis nasceu em 2008, tendo nesta altura cerca de 600 exemplares diferentes, referentes ao meu clube (time) de coração: o BENFICA, clube onde jogam actualmente dois jogadores da Seleção Brasileira que estarão presentes na Copa do Mundo da África do Sul (Luisão e Ramires).
Falando de cores... as cores não comandam a minha vida, mas tenho muita simpatia pelo preto.

5. Gosta de futebol. Poderia comentar ao leitor algo sobre a sua visão desse fenômeno que não tem classes sociais, pois é popular e agrada também aos poderosos...De onde viria a magia do futebol?

- Sim, adoro o futebol, é essencial como lazer e faz parte de toda a minha vida desde que me conheço, tanto como praticante, como espectador assíduo.

O MELHOR JOGADOR DO BENFICA
BENFICA é o clube do coração do JOTA ENE, um apaixonado por futebol. 
A divertida foto é de sua autoria.

6. Sou amigo do maior colecionar de gibis de "FANTASMA" - personagem de Lee Falk - , no mundo, e reparo que Jota Ene é também um bravo colecionar, que valoriza objetos, bilhetes, passagens, notas...De onde vem esse apreço por colecionar? Isso reflete um apego à memória, tão desvalorizada em nossa época?

- Sim, sou um colecionador nato, senão vejamos, a minha primeira coleção foi de "caricas (cápsulas) de refrigerantes e cervejas", teria eu 10 anos. A rivalidade com a minha irmã na busca das mesmas levou-nos a juntar mais de 1000! Até que um dia terminou. Penso que tudo tem um ciclo na vida.
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O porquê das coleções?... este é o meu ponto de vista: direi que a necessidade de colecionar objectos utilitários ou outros é contemporâneo e acompanham o homem primitivo desde sempre. Com o tempo essas coleções passam a ter significado, são regulamentadas, repetidas, aperfeiçoadas e revestidas de simbolismo que pode ser transferido a elementos palpáveis.
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O colecionismo ligou-se, desde o início, à idéia de posse que, por sua vez, gerou o conceito de propriedade. Possuir objetos tornou-se manifestação de poder. Assim, a coleção foi ultrapassando sua funcionalidade e tornando mais evidente seu lado simbólico.
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O patrimônio gerado por mim ao longo dos anos é constituído por bens passíveis de serem transmitidos ao herdeiro (filho) e, num sentido mais amplo, é tudo o que me cerca, que reivindico como meu.



7. Seus blogs são encantadores, e sua fotos enchem os olhos, tanto que algumas já foram divulgadas em CASA AZUL DA LITERATURA. Tem fotos publicadas em revistas?

- Sim, tenho registros em duas ou três publicações.
 

8. Tem fotos de lugares, como Sintra, considerada patrímônio mundial, detalhes de museus, conventos, candeeiro ( Baia de Cascais), bela foto, como todas, e divulgada em CASA AZUL DA LITERATURA. O que representam os lugares para Jota Ene? Nostagia? Felicidade?...

CANDEEIRO
Foto de Autoria de JOTA ENE 
publicada em CASA AZUL DA LITERATURA


- Fundamentalmente são lugares lindíssimos e dignos de serem visitados, quem sabe são lugares de pura nostalgia, mas essencialmente para passeios com a família.


9. A impressão é que seu trabalho com fotos é um hobbie, todavia o observador mais atento verifica logo a seguir, que, além do bom gosto e da qualidade, trata-se de um trabalho rigoroso que realiza. A ideia de captar o momento, fixá-lo na imagem da foto, tem alguma ressonância com a ideia de eternizar?


- É, a fotografia tem necessariamente de contar uma história, nem sempre isso acontece, tudo depende do "feeling" e "timing" certo.


10. Aprecia palíndromos e jogos linguísticos, as brincadeiras com o idioma, com a Língua, a arte com a palavra. Já pensou em publicar um livro sobre isso, expondo o seu acervo?


- Palíndromos e capicuas têm-me acompanhado pela vida inteira, coincidência ou não, é um facto. Quanto à publicação de um livro, penso que teria que ter apoios e ser do interesse de um público aficionado e isso para já não existe nesta vertente.



11. Falando em livro, como vê as profecias que anunciam o fim da livro para dentro de uns cem anos no máximo, levando em consideração o avanço tecnológico e as conquistas digitais. O que pensa a respeito? O Livro, em seu formato tradicional, de papel, sobreviverá?


- Sim, com certeza sobreviverá, é pena se assim não acontecer; tenho livros centenários e até uma Bíblia quinhentista (ou não fosse eu um colecionador nato)... penso que os hábitos de leitura sem ser em suporte digital irão perdurar eternamente.


12. Participa de alguma associação, alguma entidade de fotógrafos?

- Sim, sou "freelancer" de uma entidade virada para a fotografia de nome "ImageStock" sediada nos Estados Unidos, onde apresento alguns trabalhos sempre que tenho disponibilidade.


13. Conheço a obra de alguns poucos poetas de Portugal, como Eugenio de Andrade, que morreu num 13 de Junho, exatamente no mesmo dia da absolvição de Michael Jackson, um evento importante sem dúvida a absolvição do astro, mas a morte do poeta ganhou por aqui pequenas notas em jornais. Gosta de poesia? Tem algum poeta de Portugal, da atualidade ou não, de quem mais gosta?


- Penso que é uma pecha (uma lacuna) nos meus conhecimentos, gostaria que a poesia fizesse mais sentido na minha vida, mas infelizmente tenho outras prioridades no tocante a leituras, lamento. Porém, isso não invalida que tenha preferência por dois poetas portugueses com conteúdos diametralmente opostos, refiro-me a Fernando Pessoa e ao poeta Bocage.

14. Um de meus projetos mais antigos é um livro de Poemas a partir das imagens de fotos. Não é um projeto inovador, pois já há livros assim, mas muito quero ainda ter um livro em parceria com algum fotógrafo aqui no Brasil, no qual cada foto apresenta um poema, revelando assim ao leitor dois olhares, o olhar do fotógrafo e o olhar do escritor, do poeta. Já pensou em, aí em Portugal, desenvolver algum projeto em parceria com um poeta ou outro artista? De repente, a fotografia e a música...

- Não, nunca pensei seriamente nessa possibilidade, contudo, será sempre necessário conversar bem, articular pensamentos e alinhavar projetos, é uma hipótese viável dependendo dos respectivos convites.

15. "A alta tecnologia do mundo digital serve para registar, os momentos mais bonitos das pessoas e da vida!". Tem um belo site de fotos, chamado OLHARES, o que demonstra de vez que é um apaixonado por fotografia, e , mais que isso, é um aficionado do mundo digital. Sendo assim, acredita que o objetivo original da tecnologia seja mesmo melhorar a vida do ser humano?


- Sim, penso que a evolução tecnológica acontece fundamentalmente para melhorar a nossa vida em todas os aspectos. É importantíssimo, refiro-me ao mundo dos computadores e da fotografia, onde o "dia de amanhã se torna logo o dia de hoje" completamente obsoleto.

16. Há uma imensa discussão sobre o rumo e o destino dos direitos autorais na internet. Há quem afirme, com lógica argumentativa, que a noção de autoria está passando por uma transformação revolucionária. Está se modificando, e o autor, tal como o conhecemos nos séculos e séculos, será um vulto do passado. O que pensa a respeito?

- Penso que os direitos autorais são fundamentais e um direito que nos assiste. Ninguém gosta de ver os seus trabalhos (escrita, fotografia e afins) serem reproduzidos noutro lado sem no mínimo um pedido de autorização ou referir os respectivos créditos, infelizmente isso ainda acontece. Penso que nessa matéria, as entidades competentes são um pouco permissivas quanto às coimas (multas, penalidades)  a aplicar.

17. Uma fotografia que capta o momento da beleza do plainar de uma libélula, de um pirilampo, ou a inflorescência de uma flor, ou anterozóides depois da chuva, é obviamente, tão importante como a que registra o sofrimento, a dor, a fome, a barbárie. Se também assim pensa, poderia nos revelar uma foto pelo menos, que não seja de sua autoria, que muito o tenha encantado, e que para você tenha se tornado inesquecível?

- As fotos de guerra infelizmente são as que me marcam mais. Sim, há uma foto que me marcou de um amigo meu, ex-fotógrafo dum jornal diário português (Diário de Notícias) e que de algum modo vem-me sempre à memória. Passou-se na antiga guerra colonial de Angola (país hoje independente, mas na época sob domínio de Portugal) a foto "relatava" um enforcamento dum guerrilheiro montado num cavalo, com a respectiva corda presa a uma árvore e com a outra ponta enrolada ao pescoço do mesmo, na altura em que o cavalo era afugentado, esse amigo fotógrafo a mais de 150 metros e com uma potente tele-objectiva registou a morte desse guerrilheiro. Tive conhecimento que esta foto foi premiada pelo "timming" certo, apesar da mesma lidar com a morte de uma pessoa, ou seja, de um ser humano.

18. Uma foto pode mudar o mundo? Pode modificar o rumo da consciência de uma pessoa? Por aqui se diz: "Uma imagem vale por mil palavras". Eu, por exemplo, jamais esqueci da foto da menina correndo queimada pelo bombardeio. Poderia falar de uma foto, certamente no universo jornalístico, que tenha contribuído para o aprimoramento da consciência humana?


- A resposta anterior responde a esta.

19. O que é para Jota Ene a felicidade?

- Bom, tenho uma máxima que, felicidade plena não existe, existirá porventura laivos de felicidade e essa sim temos que saber aproveitá-la.

20. Gosta de cinema? De que forma vê o cinema hoje, com tantos efeitos especiais, tanta sofisticação? Poderia nos falar de alguns filmes que o emocionaram?

- É curioso, não sou apreciador de cinema, tenho centenas de filmes em suporte digital (DVD) e nem um 1/3 desses filmes visualizei.


21. Passa a ideia de ser um bon vivant, no sentido de ser um apreciador da vida, do lado bom da vida, isso é evidente em seus blogs (Benfica do Jota)... Como falei anteriormente sobre o Dedy Edson, o maior colecionador de FANTASMA do mundo, gostaria de saber se JOTA ENE aprecia Revistas em Quadrinhos (gibis), e se tem heróis prediletos, inclusive do Velho oeste...

- Rs... sem duvida sou um apreciador do lado bom da vida, afinal todos nós somos, tento também passar através dos meus blogues, o meu estado de espírito perante a vida, nunca esquecendo que esta vida é efêmera e temos que saber aproveitá-la ao máximo.
Sim, enquanto adolescente era um consumidor (consumista) de Banda Desenhada, havia um Super-Héroi que sem duvida era o meu favorito perante a constelação de Super-Heróis da época... era inevitavelmente o Super-Homem, todo aquele personagem com os seus super-poderes me intrigava e despertava a curiosidade.



22. De tudo que acontece no mundo em nossos dias, ou nos relacionamentos pessoais, ou, enfim, na vida, o que mais entristece Jota Ene?

- No mundo infelizmente entristece-me a fome e as desigualdades sociais, na vida e nas relações pessoais entristece-me lidar com pessoas, cínicas e hipócritas. Custa-me conviver com pessoas que fazem da mentira o seu modo de vida, não lido nada bem com a mentira, talvez por ser o inverso desses pressupostos.


23. Que mensagem deixaria para os amantes da fotografia que pretendem iniciar suas trajetórias?

- Bom, para iniciar um hobbie como a fotografia, não é necessário começar por uma boa câmara fotográfica. O segredo é "bater" muitas fotos e o digital encarrega-se de corrigir os nossos erros sem muitas despesas adicionais. Eu próprio sou (fui) um autodidata da fotografia, aprendi (aprendo), ainda hoje, com os meus erros... Só errando se melhora.


24. Deixe ao leitor de PALAVRA FIANDEIRA a sua mensagem.

- Deixar uma palavra de apreço ao autor desta entrevista, que infelizmente conheço muito pouco, penso que conduziu a mesma de uma forma hábil, brilhante e que mostrou muito conhecimento sobre os meus hábitos, de forma intuitiva ou não, até a mim meu caro Marciano Vasques, me surpreendeu.
Tentei sintetizar esta entrevista para que a mesma não se tornasse fastidiosa.



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MARCIANO VASQUES


Marciano Vasques é o fundador de PALAVRA FIANDEIRA

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sábado, 1 de maio de 2010

PALAVRA FIANDEIRA - 27


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PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 27- 1º/MAIO/2010

NESTA EDIÇÃO:



MARIA CRISTINA OGALDE

CHILE
Por Rocío L' AMAR

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VIOLENTAMENTE PACIFISTA, 
MARIA CRISTINA OGALDE,




A ironia como ferramenta literária .

Ao que chamamos ironia?

Segundo o dicionário da língua Espanhola, o vocábulo ironia é uma figura que consiste em dar a entender o contrário do que se diz, porém, também se pode observar como uma brincadeira sofisticada e dissimulada.
Se atentarmos ao dito por Jaime Rest, o termo ironia, utilizado em literatura se presta a diversas e completas disposições, porém baseados na manifestação de condutas ou enunciados que parecem negar ou prescindir um manifestado conhecimento de quem na verdade acontece ou acontecerá o contrário do que foi expresso.

A ironia é um efeito típico da tragédia grega, donde os acontecimentos narrados eram conhecidos pelos espectadores e intérpretes, porém que pese a isso, os personagens se representavam na ficção cênica como se desconhecessem as consequências nefastas de seus atos,

Traçado histórico da ironia.

A ironia é um conceito que pode ser aplicado a realidades muito heterogêneas. Tem sido ligado à Filosofia e à Psicologia, ao ser considerado como um estado de ânimo, e à Literatura e à Linguística, por ser um fenômeno literário e estilístico.

A palavra eiron eironeía se fala anotada ao grego desde o ano de 400 a. C. O irônico eíron viria a descrever tanto na moral como na sofística, assim como também na comédia helênica a um caráter mais bem negativo, isto é, o de uma pessoa que finge o dissimula até ao grau máximo, aparentemente o simulador por excelência. Observa o humor de alguém em aparência desvalida, porém que ocultando-se e dissimulando bem seu jogo e intenção, consegue estrategicamente aquilo que se traz entre as mãos. Na retórica clássica distingue- se entre ironia como figura de palavras (tropos) e a ironia como figura de pensamento (schéma). A capacidade filosófica do irônico se mostra pela primeira vez, nos diálogos platônicos, quando Sócrates acolhe as expressões características do irônico e mostra os sinais para os leitores - ouvintes acostumados a uma leitura crítica. A atitude do eiron socrático era a de um completo equilíbrio entre certa confiança no instrumento do pensar que apreende a realidade e, ao mesmo tempo, a consciência do limitado de tal ferramenta, o limitado da razão. Aparecem aqui os elementos que constituem a ironia: a dissimulação como caráter do eíron, que persegue de forma permanente o pôr à prova a seu adversário, alterando o conjunto do discutido. Entretanto, a ironia não tardou em cair no descrédito geral, vendo-se nela um simples meio de disputa retórica, sendo considerada mais tarde, entre os estóicos como uma forma velada de sofisma.


Aristóteles não trata do tema em particular. Contudo, pode ver-se de alguma forma o interior da teoria das virtudes como um desvio da veracidade do equilíbrio com o qual se há de construír a virtude. A ironia, é validada como um instrumento e, desta forma, como uma espécie mais requintada e distinguida de simulação. E será permitida como expressão possível de humildade. Por outra parte, Cicerón e Quintiliano desenvolveram o conceito de ironia como figura literária. Para o primeiro, a ironia é um ornamento e um instrumento da eloquencia; para o segundo, uma parte da retórica. Na atualidade, esta concepção da ironia como tropo está representada pelos trabalhos de C. Kebrat Orecchioni, que é quem estudou este conceito como um fenômeno especificamente verbal.

Na retórica tardia vai se sistematizar a ironia como um caso especial de discurso alegórico, e desde esse momento até nossos dias, o fenômeno irônico vai significar um tema de grande interesse tanto para filósofos como os estudiosos da linguagem.
Como temos observado, desde Sócrates a ironia tem o alcance de uma lógica que, como recurso metódico tenta estabelecer os limites da própria razão, portanto, reconhece nela uma tendência essencial ao excesso bombástico a que deve ser corrigida antes de começar a filosofar. A razão irônica, por outro lado, tenta estabelecer as possibilidades que determinam a fronteira do conhecimento alcançavel. Deste modo, a constituição do discurso que encadeia argumentoss põe em evidência, se é interrogado até o final ao modo socrático, sua mesma falência. A ironia então, revela o caráter pseudo do discurso na mesma medida que transpõe a ordem do que se pretende.


E quanto a ironia verbal.



A ironia não tem um fim externo, mas sim um objetivo em si mesma. A ironia envolve um ato de reconstrução de significado desde a intenção do enunciador, sobre a base dos conteúdos implícitos e explícitos que se expressam.
A ironia tenta quebrar por dentro a rede quer tecem as palavras, de modo a torná-las transparentes, para isto não só diz, mas atua ao contrastar o mero dizer com um dizer implícito.

A ironia é um recurso estilístico que serve ao remetente de uma mensagem o discurso, para argumentar e persuadir sobre determinadas questões que em alguns casos é preferível expô-las de um modo linguisticamente diferente, de modo que possa provocar risos no auditório desvirtuando o verdadeiro significado dos enunciados e dos argumentos.

Quando a literatura admite brincadeiras: a ironia ou o sarcasmo são argumentos.
Em " A Caverna do Humorismo", Pio Baroja (1919), disse que em literatura cada humorista é uma ilha. Existe a ilha de Shakespeare, a ilha de Cervantes, a ilha de Rabelais. a ilha de Juan Pablo Richter e a ilha de Dickens. perssoalmente, agregaria - no mesmo tom - a ilha de Jorge Luis Borges, a ilha de Francisco de Quevedo, a ilha de Juan Pablo Richter, a ilha de Nicanor Parra, entre outros.

Então cabe assinalar como o humor e a ironia têm acompanhado sempre a obra literária do/a escritor(a): Se revisamos a história cubana encontramos que o humor foi e é uma constante, peneira na vida cotiidana, se alimenta e é alimentado, ao mostrar o cômico ou ridículo que resultam determinadas situações "Se alguém decide a observá-las a certa luz ou de um ângulo que não seja o habitual", sinaliza Manuel Díaz Martínez em PANORAMA HISTÓRICO DA LITERATURA CUBANA.

Pelo posto, seja esta lúcida em sua atitude, luz e sombra, boca e eco, verdades ou mentiras, sarcasmo choroso ou pungente, humilde cinismo ou sabedoria cética, ironia bem - aceita, mordida criola, caretas requintadas, zombaria benigna, impudência, contradição, humorismo, trágica ou cômica, brilhante ou fosca, se faz verbo para habitar entre os poetas/escritores, à hora de construir uma literatura capaz de dar contar das transformações sociais e culturais que sacodem o imaginário coletivo e individual da pós-modernidade global na qual vivemos.


Ao que parece, a ironia seria uma truta molhada que não é fácil de se capturar, também poderia ser uma luva branca ou uma mão sábia, ou uma mercadoria escassa. Uma reflexão educada e mordaz do que se pode fazer. A encontramos em Cervantes, donde o humor é tela de universos contrafeitos; no Quixote, como uma sequência didática adicional, entre outros autores.

E o sarcasmo seria uma pedrada, inclusive contra um@ mesma, que provoca hematomas, assim mesmo, uma desenfreada chacota, crítica implacável, caracteres e posturas, atendereia a uma sede de vingança, um estalido de cólera, algo impensádo e violento, seria caprichoso como o grandalhão de barro que impõe a sua vontade sacrificando a justiça. O sarcasmo seria útil se de lastimar se tratasse.

Apresentação.


Esta escolha - como as anteriores entrevistas - tão pouco é aleatória. Responde ao caráter dialógico e controvertido de uma escritora chilena, Maria Cristina Ogalde. A ironia, o sarcasmo e o humor supõem um bom exemplo para poder demonstrar como a situração, a intenção comunicativa, o contexto verbal e o conhecimento do mundo, entre outros fatores, são fundamentais como elementos extra - linguisticos, determinando o uso da linguagem.


1. Disse Hernán Montecinos, que em nome da ironia nos vendem gatos por lebre. E ás vezes em lugar de gatos nos dão cachorros, porque quando a ironia late a chamam sarcasmo. Do ponto de vista de sua alta capacidade cognitiva, Maria Cristina, que entende você por ironia e por sarcasmo?

- A ironia é uma trincheira onde se esondem todas as ralés do mundo, ali cabem os analítcos introvertidos que de sua riqueza interior têm a valentia de falar de tudo, os valentes que se atrevem a falar de tudo com inteligência, os inteligentes não sabem sutilmente dizer as coisas com humor negro, os humoristas, os bons humoristas que falam sobre tudo despidamente e nos fazem rir de nós mesmos, a ironia é dinâmica, é poesia em movimento, a ironia é arte, é sutileza, é filosofia e psicologia fundidas, o resto é apenas sardonismo a boca larga, palavreado, verborragia de covardes que se escudam em palavras vís para vomitar seus ressentimentos.


2. A ironia usufrui social, cultural e literariamente de máximo apreço: toda existência inteligente deve ser irônica, chegando-se por este caminho a uma afirmação implícita que a sacraliza: ironia é inteligência seriam a mesma coisa. Porém é a ironia realmente o que os escritores irônicos afirmam que é: um mero dizer que disse outra coisa que não pode ser dita?

- É muito mais que um mero, é a forma de dizer iluminada para iluminar até aos mais estúpidos, aqueles aos quais custa "cair a ficha".

3. A ironia obriga também ao leitor a acionar a uma série de conhecimeentos: históricos, filológicos, linguisticos, psicológicos, sociológicos ou estéticos, que são vistos no momento de sua interpretação. Quem não leu alguma vez nos retalhos de um romance que o autor é ponderável por sua "espumante ironia", ou por sua "visão irônica ou mordaz", ou por seu "irônico sentido do humor". Acredita você que o leitor participa nesse jogo de cumplicidades a que se lança o escritor?

- Lógico que sim, pelo menos a maioria, por que a ironia veste roupas simples, alcançável a todo cérebro, temos o exemplo de quem escreveu os textos da celebrada obra teatral "TRÊS MARIAS E UMA ROSA", quem mostrou situações cotidianas, vividas por todos os chilenos, seja já de uma vereda ou outra, saturada de ironia que faz rir até chorar e continuar o pranto pelas coisa terríveis que estava mostrando com tanta sutileza, a ironia de Alejandro Ananías, que calmamente e com paz nos mostra terríveis verdades, que qualquer um pode entender, ou Mario Vargas llosa, que tem tanta ironia em seus escritos, repetidas vezes que é como estar estudando os apontamentos para a prova em meus tempos de esola, a ironia é a forma divertida para cativar ao leitor, claro está que para as crianças não, para elas está a moral, que é ironia miudinha.

4. "Era pessoa de uma tranquila idiotice"( citação de Borges). Que razão gera em você esta frase?

A palavra "tranquila" me cativa, a idiotice me distancia, porém juntas podem ser um potente disfarce ou um casco para refugio da ironia, oxalá consiga esse justo equilíbrio.

5. Existe o homem/mulher puramente crítico(a) ou o homem/mulher puramente passional do ponto de vista do componente literário, dos elementos ideológicos, das potências estilísticas individuais?

- Sim, os temperamentos nunca são puros: os fleumaticos possuem caracteres de apaixonados coléricos e os coléricos têm traços fleumáticos, e se as ciências se apoiam umas nas outras, não creio na pureza das coisas, mas sim na predominância de caracterísicas.


6. Quem, para seu gosto, ostenta a coroa da ironia e a coroa do sarcasmo na literatura universal?

Thomas Mann, sem dúvidas.

7. Como sempre ocorre, as manifestações originais têm imitadores. Estou pensando no sarcasmo, como uma expressão que pôs na literatura as contradições de uma época - hoje velhas concepcões ou utopias em seguidas - Qual crê você que seja a paixão essencial que envolve o sarcasmo e que se trata de manter até hoje em dia como linguagem nova e fresca...Poderia nomear algum(a) autor (a) chileno (a)?

- Não gosto do sarcasmo. É violento, sua linguagem é irritável, ofensiva, irrita os ouvidos, é uma pálida mostra da sutil ironia, a ironia nos faz refletir, nos abre espaços, o sarcasmo nos mata, nos encaixota, nos transmite ressentimento, a partir de que terminei de ler Henry Miller e Jean-Paul Sartre nunca mais os abri, e nisso já se passam mais de quarenta anos. O ressentimento, a amargura, a frustração, o desespero, a falta de fé. O romancista Fernando Jerez.

8. Sátira ou paródia? Humor crítico ou irônico?

Ambos. Gosto muito das cenas dos trabalhadores em "Sonho de uma noite de Verão", de Tchaikovsky, Refletem perfeitamente as quatro alternativas que mencionas.

9. " O aço é um discurso que serve nas duas extremidades, da matança pela ponta, pela trava de proteção" (Sor Joana). Faço referência a este epígrafe pensando no discurso cadente, contudo na raiva temperada, martelada pelos minuciosos martelos da ironia no discurso feminino; jogo de palavras donde se diz o contrário do que se pretende dizer". Como observa você nesse "eu" como escritora, considerando que profere palestras sobre violência das escrituras, lhe agrada ler a Tchaikovsky, e escreve contos pesados, impetuosos, violentos?

Que contradição de vida, não? Justamente eu, que toda minha vida tenho tratado de educar-me na paz, me atingiu caminhar pela verdade da violência, tenho querido ser fleumática e entretanto resultei ser dominantemente apaixonada, tenho querido ser cordeira porém a cauda de loba aparece por debaixo da saia, por isso que Piotr Ilich Tchaikovsky me harmoniza e meus contos humanizam a violência.

10. Qual é a sua comunhão secreta, seu estilete, seu motor principal, a mão que lhe dá de beber, afinal de conta, para escrever?

As contradiçoes da vida, a minha ou a dos outros.

11. O que anda escrevendo você - como tema - com a mão na ferida, e qual é o seu objetivo?

Os contos de "O musgo cresce ainda sem água" foram absolutamente uma exorcização, se até me parece tê-los escrito com o sangue que emanava de todas as minhas chagas e que a misericórdia de meu parceiro revestido de Deus limpou e curou.

12. E para concluir a entrevista, entre o anedótico, o saboroso - positivo ou negativo - em seu processo de criação. O que nos pode contar?


Em El Salvador, depois de uma semana de cativeiro e tortura enfrentei a um guerrilheiro arrebatando-lhe a metralhadora para defender a vida, venci o pânico à morte para matar e hoje estou aterrorizada pelo terremoto e não consigo vencê-lo, com cada réplica começo a suar, me falta o ar, me dói o peito, tenho pânico que a casa caia sobre mim. Não considera isso terrível? Enfrentei um montão de animais com uma metralhadora que nem sabia usar e senti grande liberdade, agora respira  a "pacha mama" e não consigo vencer o medo de morrer: ironias da vida.


Biografia



María Cristina Ogalde nasce em Talcahuano, Chile. Escritora, contadora de histórias, gestora cultura, Diretora de la Revista Digital Periferia, com estudos de Teologia e Psicologia na Universidade Católica de Valparaíso, na Pontifícia Universidade de Roma e na Universidade do Rio Grande do Sul, Brasil. Por mais de vinte anos atua como missionária na Revista Mensagem, e em diversas revistas europeia e latino-americanas. Tem incursionado em ofinas literárias do Brasil e estudado a cultura escrita do cordão de favelas em Restinga.

É fundadora e presidenta do Centro de Investigações Culturais "A Cadeira", do Coletivo "A Cadeira", diretora de edições "A Cadeira", assessora do CC Amigos por Talcahuano, educadora popular no Município de Talcahuano. Colabora com a Revista Catalejo da Cidade. Como gestora cultural obteve o prêmio "Conselho Nacional do Livro e a Leitura 2008. Publicou no Chile, o livro de contos "O Musgo cresce ainda sem água" e " Cadernos de Crônicas". Atualmente, é diretora e coordenadora de oficinas literárias. Escreve um ensaio sobre a violência contra a mulher no Chile e América Latina.



Publicações em Revistas:

-Artemisa 2006


-Catalejo-2007



IRONIA

Caminhando, caramirando
Busco em meu bolso
O anel que me deste em sonhos
Para não sentir a angústia de te perder algum dia
Caminhando, caramirando
Verto minhas mãos em minhas mãos
E só encontro o fruto de meu cansaço.






PASTAGENS SECAS


O andarilho suava sob o ardente sol de Galícia, as pedras lhe atravessavam as sandálias e retumbavam em seus joelhos. A trilha de rebanhos lhe parecia interminável. O amarelo das pastagens secas lhe agregava ao rosto e avermelhava os olhos. Tinha sede. Muita sede. Sentia a língua gorda e esfarrapada. Lhe doia o esqueleto. O balido das ovelhas o tinha incrustado nos ouvidos, sorriu ao pensar que logo tudo o trocaria pela música da pianola no prostíbulo do povoado enquanto se afogava em cerveja gelada...bem gelada.


OS PEIXES


A anciã estava sentada desde o amanhecer na única rocha ao longo da extensa praia , lisa e envelhecida pelos golpes das ondas. Permanecia instantes em silêncio, momentos murmurando repreensões com as mãos cruzadas sobre os joelhos, embrulhada em espesso manto com mais anos que ela. Inclinou-se para olhar nas águas calmas o reflexo da lua, não o conseguiu, a poluição a tornava mais escura e espessa como a mesma noite que a envolvia. A pesca que se instalou nas proximidades era a responsável. Não apenas arruinou a água como também a vida dos pescadores dessa pequena angra. Os peixes morreram ou desertaram mar adentro. A anciã se enrolou um pouco mais, esperava examinando o horizonte em busca da luz que anunciaria a chegada do bote. Permanecera dois dias e duas noites assim.
Em suas costas ainda se refletem luzes dos barracos, refúgio de seus vizinhos.
Dona Joana saiu de um deles e se aproximou com dor.
-Vamos, dona! Entre que está chegando a madrugada.
- Já estou indo, dona - respondeu a anciã - Só um pouquinho mais, deixe-me despedir- acrescentou com um suspiro.
- Venha para comer algo, senhora. - capaz que adoeça aí - berrou a mulher entrando novamente no barraco.
A anciã resmungou uma vez mais començando a levantar-se. Por sua mente, passava o resto de sua vida sem "seu " velho, que se lançou ao mar em busca de sustento.
- Que onda gigante! Que vendaval te levou ao fundo, meu velho? - Peguntou ao vento.
- Qual será o meu futuro? - se perguntava - Forças para trabalhar já não tenho. A fome ameaçadora terminaria com as poucos que ainda lhe restavam.
- Bom velhinho, que iremos fazer? Boa noite, descanse, velhinho meu.
Mal terminava de pronuciar essa despedida, quando da água negra emal cheirosa saltaram peixes refletidos ao luar, centenas caiam na areia, esvoaçantes, ofegantes fora da água.
A anciá, assustada, recolheu o mais que pôde em seu avental estendido nos braços. Nessa madrugada, o cheiro de pescado recém - cozido, inundou a angra, aromático, forte,. Convidou aos vizinhos para tomarem o café da manhã. Ao meio dia o seu quintal estava repleto de peixes pendurados ao sol para secarem e serem vendidos na cidade. Assim a anciã nas noites enluaradas, sentada na mesma rocha e na mesma hora, contemplando as águas mortas, secas de vida, em um rito sagrado, repetia:
- Boa noite, velho! Descanse, velhinho meu.
No mesmo instante, saltavam peixes dourados e prateados, para ela e seus vizinhos, para vender e convidar.

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ROCÍO L' AMAR
Rocío L' Amar:
Jornalista, ativista cultural, correspondente 
e
colaboradora de 
PALAVRA FIANDEIRA
no Chile
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Tradução do original em Espanhol por
MARCIANO VASQUES
Marciano Vasques:
Escritor e
o fundador de 
PALAVRA FIANDEIRA


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