EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

domingo, 4 de julho de 2010

PALAVRA FIANDEIRA - 35


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PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 35 - 04 DE JULHO/2010

NESTA EDIÇÃO:
ELSA GILLARI
DIRETAMENTE DE ARGENTINA

ENTREVISTADA POR
ROCÍO L' AMAR (CHILE)
"Considero que a pintura não deve ser apenas um objeto decorativo." 
Elsa Gillari


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ARTE CONCEITUAL, POESIA E PINTURA, ELSA GILLARI

Realização: ROCÍO L' AMAR


Discurso pictórico

A pintura que quer ser pintura e que não quer ser outra coisa, que não quer ser mais que isso: pintura, nos expressa sua vontade em uma linguagem ardente, em uma linguagem imaginativa, voluntariamente poética, isto é, uma dicção espiritual perfeita. Logo a pintura que não quer ser mais que uma linguagem imaginativa plástica, uma dicção, um dizer algo ou um dizer de algo. O que nos disse e do que nos fala? Que é isso? O que seja, que quer nos dizer, se sua vontade imaginativa trata, sinceramente, de expressar, de dizer, ou nos dizer algo? E como disse-nos?
Porém isto não nos deve confundir, porque, às vezes, de onde menos se pensa, que é donde menos parece que se pensa, costuma saltar a pintura verdadeira, e não saltar em troca, donde mais se a quer ou se a pensa. Por isso, há na pintura a simulação da simulação e os simuladores dos simuladores.
Não é fácil diferenciar claramente até onde um pintor simula, imaginativamente, não uma representação, que é vontade sua da píntura, senão uma representação imaginativa, que é a representação da vontade de outro pintor que lhe há precedido, como costuma simular, sem sabê-lo, a vontade da pintura expressamente manifestada em outro, porque os pintores, como os músicos e os poetas, não somente verificam a imitação da natureza por simulação ou representação imaginativa ou por invenção e criação verdadeira de imagens, mas que também se imitam as pinturas ou as pinturas, ou as poesias às poesias, ou as músicas às músicas, distinguindo-se nestas simulações uma graduação que é a de simuladores de simuladores ou simuladores de inventos.
Entre os primeiros, dificilmente encontraremos algum pintor autêntico. Entre os segundos, encontraremos constantemente muito mais do que poderíamos imaginar.
Sendo assim, aparecem movimentos artísticos, obras gráficas online, tendências que decoram, ambientam espaços com pinturas, desenhos excepcionais em diferentes estilos. E dentro deste fenômeno irrompe a arte conceitual, a pintura conceitual, e/a pintor (a) conceitual.


Arte Conceitual

A arte conceitual, também conhecida como ideia art, é um movimento artístico no qual as ideias dentro de uma obra são um elemento mais importante que o objeto ou o sentido pelo que a obra tenha sido criada. A ideia da obra prevalece sobre seus aspectos formais, e em muitos casos a ideia é a obra em si mesma, ficando a resolução final da obra como menor suporte.

A arte conceitual como movimento emergiu à metade dos anos sessenta, em parte como uma reação contra o formalismo que havia sido articulado pelo influente crítico Clement Greenberg. Todavia, desde as década de 1910 e 1920 o trabalho do artista francês Marcel Duchamp (principal artista) serviria como precursor , com seus trabalhos chamados ready-mades daria aos artista conceituais as primeiras ideias de boras baseadas em conceitos e realizados com objetos de uso comum.
Os precursores imediatos da arte conceitual podem ser buscados no ressurgir das vanguardas após a II Guerra mundial, em uma completa série de intercâmbios culturais entre Europa, EEUU e Japão. Duas figuras destacam como mananciais de novas ideias: o antes mencionado Marcel Duchamp (que imigrou aos EEUU durante a I Guerra mundial) e o compositor estadounidense praticante do budismo zen John Cage. Entretanto, foi nos limites da pintura, onde se concentraram as atividades vanguardistas. Nos EEUU, Robert Rauschenberg e Jasper Johns transformaram a pintura com objetos cotidianos e eventos fortuítos, e questionaram sua situação privilegiada como um objeto especial. No Japão, as obras baseadas na performance do grupo Gutai ampliaram o informalismo e action painting até trasformá-los em atos rituaisde agitação. Na França e Itália, Yves Klein y Piero Manzoni respectivamente desenvolveram práticas vanguardistas paralelas nas quais realizaram o conteúdo ideal da experiência artística a partir de sua concepção alternativa do significado metafísico do monocromo. Em cada passo, a ampliação até a destruição da idéia da pintura despertou um interesse pelo efêmero e o imaterial que prefigurou a "arte conceitual" com consciência de sua própria identidade subsequente.

A arte conceitual emprega habitualmente materiais como a fotografia, mapas e vídeos. Em ocasiões se reduz a um conjunto de instruções documentando como criar uma obra, porém sem chegar a criá-la realmente, a idéia após a arte é mais importante que o artefato em si.

Deste conceito surgiram formas artísticas como fluxus e o mail art.


Surrealismo - Simbolismo - Arte Conceitual

"Os símbolos, nos disse Elsa Gillari, são a linguagem que utilizo para expressar meu mundo interior, são os esboços, são o antes da obra, é essa a ideia que se compõe de vários instantes. Aparece então o símbolo como primeira imagem mental da temática a construir. Não compreendo o significado e permito que navegue até o exterior materializando-se em um ponto referente a desenvolver, ademais não questiono conteúdo nem cor, simplesmente habilito o símbolo para que se expresse em toda a sua dimensão, este geralmente se manifesta em um estado de neutralidade, sendo os eixos da mesmo que transmitem mensagens aplicadas a uma completa cosmovisão. As obras nunca estão terminadas, porque se retroalimentam entre si e são como partes de uma totalidade expressiva. Esta busca infinita e constante gera um tipo de indeterminação criativa. Assim o espírito percebe objetos e emite conceito que plasmo em expressão artística. O simples é a maneira espontânea da artisticidade e a razão não participa, já que contaminaria o conceito."



Linguagem: Papel e Tela.


Elza Gillari está entregue à busca de uma linguagem para a sua poesia, e em sua capacidade expressiva e criativa também para as artes plásticas, ambos inseridos nos cânones estéticos da modernidade. Um espaço escritural criado para a poesia e um espaço pictórico criado para a pintura. Provavelmente, o cerne ou a essência mais substancial seja evidenciar que o fio condutor é a visão, interrogação, experimentação do próprio ser e o ser das coisas e o mundo como uma forma de existência.

Geram-se assim imagens em uma realidade sensível. A poesia assume a busca do absoluto e a pintura atrai o resplandecer do mundo em movimento. Do mesmo modo, a transformação de formas, em uma ou outra.
A cor/luz -na pintura- e a sensação de cor/luz -na poesia - é um elemento que sobrevive em ambas obras artísticas para a estética simbolista porque abarca diversos ou múltiplos significados à hora de mergulhar/buscar/encontrar o tempo íntimo, a hora impapável desta criadora.
Estimulante, sugestiva, chamativa, multi-facetada, são algumas das qualificações que me ocorrem mencionar para a vida e o imaginário de Elsa Gillari.

Assim mesmo, cabe assinalar - ao referir-me aos poemas - que a falante tenta encher o vazio e dar-lhe um novo conteúdo a sua existência, através da capacidade intuitiva e visionária atuando como proveta do inconsciente poético, isto é, assume e aprofunda o processo da escritura, em constante fazer e desfazer formas, atmosfera, leis de gravitações, universos, linhas, pontos, vibrações...

Sonhos construídos ao bordo de certas folhas que sabem sorrir, disse Vicente Huidobro, no poema Altazor. E eu agregaria, apesar de, o homem e a mulher, devam assumir todos os encargos e dores do destino humano.

"és tão especial.../ incólume/ mas não posso adaptar-me/ a teu mundo/ de lagos azuis/ fadas e duendes/ verdes pastagens/ doçuras de mel/ não posso.../ perdi a inocência/.../ és.../ deliciosamente especial/ (me escreves poemas)/ e eu tão ingrata..." (do poema (im) possível e uma imagem em fotomanipulação digital de Elsa Gillari)

Esse apogeu do mágico...

Os pintores e poetas têm em conta as harmonias dos tons que conseguem dar unidade cromática à pintura e unidade sintática ao poema. E a luz é fator determinante no conjunto de ambas composição, serve para criar e conformar o espaço, maior ou menor iluminação incidirá de distintas maneiras no objeto/receptor/espectador, luz compositiva e luz conceitual tem como finalidade a potência da mensagem.
O conteúdo da forma ou a forma dos conteúdos lhe pertence a cada criador, considerando - isso sim- que detrás há uma ideia, um conceito, tanto em poesia como em pintura, sem perder de vista ambos os produtos. E Elsa Gillari sabe muito bem onde está, e aonde quer chegar, tanto no conceitual como formalmente.

Essa belíssima teatralização

Em termos metafóricos se poderia ver a loucura como uma espécie de pensamento desajustado, que não encaixa com o oficial. Porém, é um tema escabroso, porque os loucos não são metáforas nem bandeiras políticas, mas gente que passa mal.
Entretanto, me interessa deixa claro que, tanto a poetas como pintos, lhes atribuem certa loucura. Obviamente, não o que significa culturalmente, não esse mundo dos loucos, ainda há pintores, poetas, artistas que estão encerrados e sofrendo em êxtase em seu território escuro.

Qualquer um que veja duas ou três pinturas de Elsa Gillari e leia seus poemas ao pé de essas obras, verá que está diante de uma louquinha com nome e sobrenome, conectada com o seu redor, isto é, a naturalidade, a originalidade, a pureza, a autonomia...

Sem dúvida, seu divino entusiasmo, razão pela qual a temos convidado de Argentina a ampliar seu território metafórico nesta PALAVRA FIANDEIRA.



1. Pude visualizar que você tem uma postura anti-pintura em suas obras. Tem consciência disso?


- Considero que a pintura não deve ser apenas um objeto decorativo. Deve transmitir mensagens que gerem abertura mental e novas consciências. Que o espectador se encontre identificado nela em um ou vários aspectos e se produza nele uma mudança. Minha pintura é surrealista, simbolista e conceitual - quando utilizo a razão são conceituais, especialmente em arte digital -. Surgem-me imagens ao modo de fotografias em seguida a um processo de gestação em meu interior do qual não sou consciente. Quando aparecem é o momento de pintar sem esboço prévio já que contaminaria a imagem. Tive dois períodos, que só poderia pintar sob angústia, e chorando diante da tela com emoções devia liberar e assim poder sublimar. Mais que um desfrute, era uma tortura, estava totalmente envolvida. Porém ao terminá-la conseguia ter paz. Supostamente, são as mais mobilizam o espectador. Minha postura anti- pintura não é premeditada. Simplesmente que ao ter formação em oficinas "não estou academizada". Adquiri a técnica, porém não perdi minha autenticidade nem estou estruturada. Se pode ver que em minhas pinturas o primeiro plano parece flutuar no ar por não fundi-lo com o fundo como pede a academia. Rompo com os cânones da velha escola, buscando uma visão fresca, nova e espontânea.

3.Que pretende você contar através de sua arte conceitual, considerando que o espectador recolhe imagens, ideias, um objeto ou algo similar?


A ideia é traduzir o ser humano atual em toda sua dimensão, basicamente, sob um conceito bio-psico-social deixando vestígios destes tempos atuais. Hoje, não existe a censura na arte, o artista se expressa livremente. Percebo uma humanidade consumista, poderes políticos corruptos, corpos siliconados como modelo de beleza artificial, se deve ser jovem e belo discriminando ao ancião, fonte de sabedoria. A pobreza e a desnutrição infantil. A globalização, que gerou miséria e desemprego a tal ponto, que chegamos a uma crise econômica mundial. Uma instalação na qual trabalhei dois anos é " Humano Ser-Ser-Ser Humano", composta de traços fragmentados sobre modelo vivo, deixando a impressão dos corpos na que chamo Neo-Escultura.
Também o avanço da cibernética que se impôs na sociedade modificando-a notavelmente. Aqui surge minha instalação Cibervínculo.
Sinto uma profunda admiração pela arte conceitual de Marcel Duchamp, Man Ray, e outros precursores do movimento, que gestaram ao estilo Dadá "arte-anti-arte" com o qual me identifico plenamente, já que a ideia prima sobre o objeto suporte, é o sentido que a criou. Surge o Ready-Made. Digamos que me fundamento na ideia ou conceito que logo transformo em objeto visual, por exemplo, minha obra "A Globalização".
Em arte conceitual é muito importante o título da obra, já que passa a completar o conceito, forma parte da ideia dando maior compreensão ao objeto.


3. A rigor, você nos mostrou suas pintura em um tempo não muito distante em uma rede social literária, e logo, talvez um ano, a temos visto excursionar em poesia e narrativa. Qual foi o seu motivo fundamental para ir completando as dita artes, e qual é sua aposta hoje em dia, que lhe diz sua razão?

Escrevia em uma linguagem plástica e em associação livre como outra forma de expressão e investigação artística, componentes filosóficos e conceitos. Vários desses textos os incorporei a algumas pinturas unificando texto e cor. Fiz uma série. Porém, sentia uma falta, não me sentia completa em minha expressão, necessitava uma nova forma de manifestar-me literariamente. Incorporei-me à rede literária mostrando minhas obras visuais já que a pintura também é poesia, tem texto. Com o tempo, de tanto ler , de tanto ler diariamente narrativas, poesias e poemas me animei a escrever começando com poemas, seguindo com narrativa e prosa poética. Quanto mais escrevia, mais desaparecia essa falta que sentia. Acreditava ser só artista visual desconhecendo que também tinha talento a desenvolver para as letras. No princípio, observava minhas pinturas, e expressava uma leitura sobre elas com poemas, completando-as já que as via inconclusas. Isso tornei hábito e ainda o faço. Às vezes acontece o inverso: um poema me inspirou e logo crio a imagem unificando-as. Não estão dissociados caneta e pincel, e podem considerar-se complementos.

Continuando, aposto aprendendo e aperfeiçoando minhas letras sem me exigir, me permito fluir como em minhas outras expressões artísticas em absoluta liberdade, sem ajustar-me à Academia.

Sou criativa, não apenas artista visual e digital. Permito-me todo tipo de criatividade no momento que surge, como acontece com a minha pena. Nunca assisti a uma oficina literária, minhas letras brotam e se concretizam em seu estado puro.

4. Que ideias ou conflitos consegue consigo mesma, se os que a perturbam para salvar-se um uma tela ou papel, porque é evidente que ambas artes constituem uma questão para resolver?

Sou mais emotiva que racional, em mim predomina a emoção. Ninguém está livre de conflitos, alguns os resolvemos e outros não. O moto que me leva a criar é meu inconsciente, onde anelam minha emoções, conflitos, frustrações, alegrias e tristezas do passado ou presente situações que me motivaram ou me estão motivando, sejam boas ou más, e necessitam manifestar-se previamente a gestação em meu interior em nível inconsciente em um processo criativo. Em minha poesia predomina a lírica. Constantemente me questiono a existência, o motivo da vida, a evolução ou involução do ser humano. Ainda que em meus textos nem sempre escrevo o que acontece em mim. Tomo histórias emprestadas, leio ao outro, uso a imaginação, porém sempre, sem exceção, existe um mínimo componente parecido que me pertence e, se exterioriza em uma pulsão inconsciente que não percebo no momento. Tomo consciência às vezes pelos comentários. O que me causa conflito é a morte. Temo pela morte de meus seres queridos e a minha própria. Isso faz com que minha obra seja dramática, ainda em ajuda a ser otimista, positiva e possuir sentido de humor. Por isso sublimo traduzindo ou escrevendo. Libero em parte ou em sua totalidade minha zona conflitiva. Tampouco estou
embalada nas letras, às vezes necessito rir-me com a poesia ou conto e assumo temáticas divertidas.

5. Pessoalmente, vejo que sua poesia é analítica, do ponto de vista da decomposição dos objetos tal como sua pintura, assim mesmo sintética, se a comparamos com a ruptura da sintaxe porém ambos casos se resgatam em cenas interiores. Poderia ser figurativa?

Sou demasiada analítica. Começo por um todo até chegar à síntese. Pulo o objetivo ou sujeito até chegar a sua essência. Daí que minha poesia é sintética e resgato somente o essencial sem enfeitá-la, às vezes sem estar sujeita ao ritmo, porém sim a imagem e sentimentos. Algumas vezes sou figurativa, muito concreta. Especialmente em meus poemas sociais onde denuncio e protesto. Com respeito à pintura, componho tal como a síntese, a mensagem que desejo transmitir brincando com as cores frias e cálida, os contrapondo para destacar a minha ideia, algumas parecem figurativas, porém não o são. De fato, nunca pinto natureza morta ou paisagens, mas sim retratos. Não estou enquadrada, sou multi-facetada.

6. Que pintura lhe causou impacto, e quem é seu autor (a)?
Tenho visitado e visito museus e galerias de arte, onde encontrei pinturas e esculturas que produziram em mim um forte impacto por sua temática ou composição. Por outro lado, o estar diante de "As Meninas" de Diego Velázquez, ou cometer a infração de tocar "Os Girassóis" de Van Gogh, "O Beijo" e "O Pensador" de Rodin, "Mulher na escada" de Duchamp e uma longa lista de pinturas e esculturas que me é difícil eleger uma em especial. Um forte impacto me produziu a exposição de Vangelis, já que todas suas obras têm a vibração e a cor da música tal qual a sente esse artista genial, conseguindo pinceladas musicais, especialmente sua pintura "O Anjo", todas suas pintura têm seu selo de músico e grego, fiquei fascinada com sua obra pictórica, "Mulher Golpeada", uma pintura que me impressionou, criação de um colega amigo Fabián Vastasimon, a qual adquiri, visto que tanto em impactou.


7. Desfragmentaremos a poesia. Com que ossos ficaria você? E que poeta é sua referência a tal ponto que o tenha tomado como modelo?


Sim, a quebraremos."literalmente em ossos", e fico com a coluna vertebral. Se bem que eu seja sintética, respeito basicamente um começo, desenvolvimento e final que deve ter todo texto poético ou narrativo. Dou minha importância ao desfecho. Não tomei como referência a nenhum poeta, não tenho modelos adquiridos de outros, creio que tenha sido por haver lido a tantos escritores e poetas, porém sabemos que inconscientemente copiamos sempre algo de quem admiramos. Tenho influências de André Breton. Admiro a Mario Benedetti.


8 . Você se expressa através de figuras humanas, fragmentadas ou mutiladas muitas vezes, utilizando inusitados materiais. Seria acaso um impulso de abstração das qualidades essenciais dos membros do corpo humano, ou simplesmente é uma ideia abstrata a construção mental disso?

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Os corpos fragmentados são as Neo-culturas conceituais. Não são corpos mutilados. Faço uma leitura rápida diante do modelo vivo nu, lhe peço que faça diferentes movimentos até encontrar a pose que busco, o fragmento de seu corpo com sentido estético, plástico e se possível, com movimento. O primeiro passo é a ideia, o conceito que me leva a buscar o corpo que necessito. Por exemplo, "Siliconas" necessitava um modelo que tinha os seios com silicone. Tracei os seios e parte do tronco, se seguisse com outras partes do corpo sairia do contexto dispersando-se a ideia de expressar unicamente a beleza anti-natural, produto da cirurgia plástica.

9. O que atrai a sua atenção?
Todo o novo para mim, donde acho que posso aprender. Sou ávida de conhecimentos. É meu alimento.
10. Que lugar ocupa em você a espiritualidade?
Ocupa um primeiro plano. Creio na reencarnação. Na elevação espiritual através de diferentes vidas. Trato de evoluir constantemente no plano espiritual. Não é nada fácil subir as escadas imaginárias da evolução. Sou um ser espiritual por natureza, com marcante sensibilidade e uma percepção extra-sensorial generalizada. Consigo evoluir só em sintonia com o amor. Minha condição de humana com meus defeitos, falências e erros não me permitem subir até aprendera lição. Oriento-me pela "Lei Universal" que diz "Não faças ao outro aquilo que não gostarias que fizesse com você". Somos mente, corpo e espírito. Mantenho-me no atemporal do espírito. Controlo meu ego para não cair na soberba e egocentrismo, tentando ser o mais humanamente humilde.
11. Você guarda imagens para o quadro ainda não pintado, esse que o artista sonha em pintar algum dia?
Como mulher, criei a minha melhor obra, que é meu filho. Como artista, não me propus a criar uma determinada obra. Sim, me propus seguir crescendo, sem atar-me a metas, a futuro, visto que me sentiria pressionada por mim mesma e o único que conseguiria seria bloquear-me. Considero que a melhor obra se cria trabalhando e evoluindo na arte com perseverança e disciplina, ainda que apesar disso muitas vezes não se consiga. Porém, o talento e o ser criativo pode dar surpresas, e a melhor obra surge no momento menos pensado. Não me preocupa se morro sem haver criado minha melhor obra artística. Para mim a arte é um meio e não um fim.
12. Os poetas buscam o sentido da vida. Que diria você aos leitores de PALAVRA FIANDEIRA, sabendo que a maioria dos acompanhantes são poetas?...
Como bem disse, questiono o sentido da vida. Nietzsche falou do poder do homem sobre o homem. O poeta tem o poder da palavra, o poder do homem sobre o homem, porém não no sentido que disse Nietzsche, mas com a palavra. O mundo não olha para o poeta, porém o poeta se espelha no mundo. Diria que sigam olhando ao mundo e escrevendo sobre ele, falta bastante por dizer.



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BIOGRAFIA


Nasci sob o signo de Sagitário, fogo e paixão. Filha de italianos emigrantes que depois da segunda guerra mundial chegaram aqui em Buenos Aires, onde nasci. Aprendi a falar a sua língua desde as minhas primeiras palavras, visto que a falavam em casa. Tenho dois irmãos varões, uma maior e outro menor que eu. Tive uma infância feliz, criada em um ambiente de valores humanos e morais. De conceito de família. Passava muito tempo com minha avó materna, que me mimava. Era a sua única neta mulher e preferida. Tudo me agradava. Meu tio me ensinava Geografia e Mitologia grega e romana. Devia estudar todos os países do mundo e suas respectivas capitais, especialmente depois me cobrando em provas. Comecei a ter interesse por viajar pelo mundo.Vivíamos num bairro não muito povoado, com ruas de terras, quase campo. Quando fomos viver nele, tinha três anos. Dessa forma, cresci em contato com a natureza, até que foi sendo povoado. Minha mãe, além dos afazeres domésticos e nos criar, ainda se dedicava à costura fina. De tanto olhar, com ela aprendi a costura.Cursei a escola primária e secundária em colégios de freiras, estreitas e castradoras, das quais não guardo boas recordações. Sempre me destaquei em desenho e pintura. Aos doze anos desenhei em grafite a "Mona Lisa" e a diretora se apoderou do desenho, emoldurando-o e o colocando na diretoria em exibição, sentindo eu que me havia roubado minha obra prima. Ainda se encontra lá. Algumas companheiras me pediam que lhes fizesse as atividades artísticas. Conclui a escola secundária recebendo o bacharelado em colégio estatal misto, muito feliz por não sentir mais a opressão da aberrante disciplina das freiras. Estudei Inglês no colégio Cambridge e o aperfeiçoei no Dante Alighiere o Italiano, sendo que minha família falava o dialeto de seu povo. Desde menininha aprendi a desenhar copiando especialmente os desenhos de Walt Disney, aos que pintava com lápis de cor. Também copiava rostos e corpos de revistas, construções em perspectivas, natureza morta, estudando luzes e sombras, como alçar planos e dar volume com grafites. Aprendi minhas primeiras técnicas na escola, sendo a matéria de Artes a que mais me apaixonava, e obtinha as melhores notas. Em segundo plano, Geografia e Línguas. Aos cinco anos vi pela primeira vez um avião de perto e me apaixonei pelos aviões. Aos quinze, disse aos meus pais que queria ser "piloto". Disseram-me que não, por "ser mulher", além de não poderem financiar a minha carreira. Quando terminei o bacharelado, consegui um trabalho numa empresa de táxi aéreo durante três anos no aeroporto de Cabotaje. Logo passei a trabalhar nas aerolineas argentinas no mesmo aeroporto, no setor tráfico, onde a minha função era recepcionar aos passageiros, antes de viajarem e outras funções diversas. A empresa nos outorgava o benefício de passagens grátis por todo o mundo, o que me permitiu conhecer bastante países, especialmente Grécia, Itália, Nova York. Também trabalhei em uma agência de viagens, conseguindo obter a licença de "Idônea em Turismo". Casei-me com um piloto e engenheiro de voo, meu atual esposo, com quem tive um filho, que está estudando a carreira de piloto, visto que parece que lhe transmitimos a nossa paixão pelos aviões. Prossegui viajando e conhecendo novos países e visitando os famosos museus, como o Louvre, o Museu do Prado, Orsay, o de Augusto Rodin, e outros, assim como galerias de arte. Viajar tanto me permitiu adquirir cultura e conhecer diferentes etnias. Minha formação artística era de oficinas. Comecei a assistir de muito jovenzinha, aperfeiçoando-me quando adulta ao começar a assistir à oficina do Professor Angel Borissoff, que me ensinou todas as técnicas, principalmente o estudo do modelo vivo feminino e masculino. Possuo o privilégio de ter boa memória visual. Registro imagens que não esqueço para logo traduzi-las. Estudei três anos "Humor Gráfico", aprendendo especialmente caricaturas e estudando os grandes cartunistas. Paralelamente assistia no mesmo Instituto à oficina de desenho e pintura artística, o que me complicava demais, visto que as técnicas gráficas são opostas. Seguia sendo copista, porém já de mestres da arte, além de fazer desenhos do natural ou fotografias. No terceiro ano de assistir à oficina de José Marchi, deixei de copiar e criar a partir de mim, gerando minha própria linguagem e expressando-me em diferentes estilos aprendidos, que chamo o meu primeiro período na pintura. Li e leio bastante, principalmente aos grandes mestres da arte, que marcaram estilos e tendências. Sou seletiva nas leituras. Prefiro as que me ensinam, que me deixam conhecimentos salutares. Meu pai era músico, tocava "o bombardino (Instrumento de vento), que ainda o tenho e o conservo como uma relíquia, e suas partituras junto a uma foto em sépia, com seu uniforme que usava quando tocava na banda de seu povoado natal. Quando chegou à Argentina, seguiu por um tempo visto que seu trabalho não lhe permitia ter tempo livre para a sua vocação. Transmitiu-me o amor pela música. Estudei música tocando o saxofone. Sempre me caracterizei por minha avidez de conhecimento, por aprender e experimentar, ainda hoje. Sou mais emocional que racional, mas quando devo tomar decisões o faço racionalmente. Possuo uma sensibilidade muito marcante e uma percepção extra-sensorial generalizada. Como também crio arte conceitual escrevia textos em uma linguagem plástica expressando conceitos antes de conceber a obra. Também, escrita em associação livre conseguindo liberar conflitos que elaborava extraídos do inconsciente, como faziam os primeiros surrealistas. Em 1203 e 1204 estudei exclusivamente arte conceitual , especialmente a Marcel Duchamp. Visitei três vezes a mostra Dadá, que foi exposta no museu Malba reunidas as grandes obras dessa corrente artística. Foi o tempo em que trabalhei na instalação composta por dezesseis esculturas e foto-colagens. Porém sentia um vazio em mim que não chegava a definir, como se as artes visuais não me completassem, sentia uma falta. Inscrevi-me numa rede social ao final de 2008 como artista visual. Lia diariamente os variados temas que publicavam meus colegas e assim me animei e comecei a escrever. Neste período tenho quatro contos e noventa poemas. Postei um poema acompanhado de uma obra visual ou digital relacionando-se entre si. A obra vem a mim, não a busco. Experimento e investigo. Não posso esboçar. Vou direto ao suporte ou ao word. Surgem -me imagens mentais como fotografias que logo traduzo na tela ou outro suporte. Vou gestando a obra a nível insconsciente até que apareça a imagem. Sublimo na pintura e na escrita. o expressar-me através das letras faz com que já não sinta a falta, o vazio que antes sentia. Na adolescência escrevia poesia que todavia sentia. Criar arte digital me relaxa. Trabalho apenas com Photoshop e desfruto fazê-lo além de ser um desafio. Também tenho desfrutado por ser uma nova experiência quando criei uma instalação de escultura, conceituais, em moldes sobre modelos vivos, corpos fragmentados , que falam da ausência, da presença ao fazêr-lhes uma leitura de seu frente e verso, as quais chamo de Neo-Esculturas. Trabalhei com isso dois anos. O ser criativa me permite infinidade de expressões sem questionar-me o porquê nem se as venderei. amo a arte em toda a sua expressão.



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BUSCANDO A BELEZA



…………………………………….
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O espelho seguia intacto por milagre. Resistia estoicamente aos golpes.
.
…………………………………….


seu suave e elegante pescoço de cisne havia se transformado

em um triângulo isósceles



e os sulcos em seu rosto falavam sobre o passar dos anos

além...


suas pálpebras caiam cobrindo a quarta parte dos olhos
.
……………………………………
.

(demonstrada a teoria física sobre a lei e a gravidade)
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…………………………………….


A chamavam "Adelaide das tetas caídas"
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……………………………………..
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O espelho foi reposto... (já não resistiu)
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…………………………………..
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Siliconebotoxlipoaspiraçãolevantamentobisturi

Agora a chamam BARBIE!
.
*Fotomanipulación digital Net Art - Elsa Gillari

 


PARANORMAL

esse ser...........................luminoso
assediado por sub-mundos

arbitrários e sinistros
onde moram
escuras entidades
sedentas e famintas de luz

com suas garras o devoram
E-NER-GE- TI-CA-MEN-TE
até que...
seus neurônios
em disfunção...
rebusquem o equilíbrio
e conquistem batalhas
loucura? .................Não!
paranormal!
extra-sensorial!
"É sua natureza"
árduo padecer de espírito elevado
e resplandecer iridescente
que deslumbra as
negras áureas extraviadas
sob baixas dimensões austrais
que famélicas inquietam e devoram
para nutrir-se................................................porém
voltem a expirar em sua melancólica densidade
por que...

“É sua natureza”


*Fotomanipulação digital (Net Art) - Elsa Gillari


.
SOU OUTONO
Recolho-me em meu lar com chaminé
(em meus gélidos invernos)
……………………………………………………….
Incenso, resina e sândalo
junto a luminosas velas brancas
em meu templo...
(medito)

ainda possuo sonhos, conservo-me calma
(importante)
gorjeios do ninho de
minha velha árvore ancestral ( já)
calma
ainda que permaneçam alguns espinhos
e
desenho imagens celestes

deixando invisíveis vestígios
…………………………..
finquei raízes
……………………….....
a ave Fênix ressurgiu
uma vez mais
entre as cinzas

*Arte digital (netart) - Elsa Gillari
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ENTREVISTA REALIZADA POR ROCÍO L' AMAR

Rocío L' Amar: poeta, escritora, jornalista, ativista cultural, 
realiza intenso trabalho de divulgação cultural.
É correspondente e colaboradora de PALAVRA FIANDEIRA no Chile.

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Tradução para o Português:
MARCIANO VASQUES
(Escritor e fundador de PALAVRA FIANDEIRA)

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segunda-feira, 28 de junho de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 34


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 PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 34 - 28 JUNHO 2010

NESTA EDIÇÃO:

JORGE 
RETAMAL 
VILLEGAS

 DIRETAMENTE DO CHILE
 POR ROCÍO L' AMAR

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JORGE RETAMAL VILLEGAS, 
O RIFLE JÁ NÃO É A SOLUÇÃO...


Corrija os costumes rindo, dizia Molière, considerado o pai da Comédia Francesa.

Sabia você que faz mais de quatro mil anos no antigo império chinês, havia uns templos onde as pessoas se reuniam para rir com a finalidade de equilibrar a saúde? Na Índia, também se encontram templos sagrados onde se pode praticar o riso. Nas culturas ancestrais de tipo tribal , existia a figura do "doutor palhaço", ou "palhaço sagrado", um feiticeiro vestido e maquiado que executava o poder terapêutico do riso para curar aos guerreiros doentes. Sigmundo Freud atribuiu às gargalhadas o poder de liberar o organismo da energia negativa, algo que tem sido cientificamente demonstrado ao descobrir que o córtex cerebral libera impulsos elétricos positivos um segundo depois de se começar a rir. Rir-se incrementa a auto-estima e a confiança em pessoas deprimidas, supõe um reforço imunológico, corta os pensamentos negativos, elimina o medo e ajuda a minimizar os problemas, rir antes de se deitar fatiga o corpo e combate a insônia. Victor Hugo dizia que o riso é o sol que afugenta o inverno do rosto humano. Nos últimos anos se tem avançado muito na aplicação do riso como terapia.
Escrever para fazer rir a gargalhadas...
Rir ou não rir. Rir, certamente, sempre será melhor. Entretanto, a pergunta seria, de acordo com o que se há lido, vale a pena ver o mundo com bom humor?
Só ao gênero humano é dada a possibilidade do humor, a vivência do cômico. O homem é o único ser vivo que ri; sua inteligência e sua condição lhe dão a possibilidade de ver o mundo a partir da sua comicidade. Rir e fazer rir...rir-se de si mesmo, chorar de tanto rir, ver o lado cômico da situação, são expressões que ilustram a noção do humor e do cômico como uma maneira de conceber a realidade, como uma forma de construir o mundo, por que estamos convencidos que o riso pode vencer até o desespero, e para produzi-lo e transmiti-lo mediante a palavra se requer bom humor.
Com o riso, isto é, com o riso sincero e aberto, podemos eliminar bloqueios emocionais, físicos, mentais, sanar nossa infância, como processo de crescimento pessoal. Podemos criar um espaço para estar com um mesmo, viver o aqui e o agora, estar no presente (Já que quando rimos é impossível pensarmos) nos ajuda a descobrir nossos dons, abrirmos horizontes, vencermos nossos temores, enchermos de luz, de força, de ilusão, de sentido de humor, de gozo e aprendermos a viver uma visão positiva, intensa, sincera e total.
Riso é uma atividade propriamente humana.
O riso é um dos sentidos fundamentais que há que se exercitar todos os dias. Nos caracteriza diferenciarmos definitivamente dos animais. Isto faz com que alguns autores vejam no riso a marca do espírito, da espiritualidade humana.
O sentido do humor, é um valor em ascensão, o espaço que esse humor ocupa na literatura é cada vez maior.
Entrementes, o riso é o mais curto caminho entre duas pessoas, e isso é o que deseja o autor cada vez que entrega um conto ou uma poesia: que o leitor faça sua a história e que se torne cúmplice da leitura, porque dela gosta, porque o diverte, porque o entretem. Porque promove o riso mediante recursos linguísticos que alteram ou quebram a ordem natural dos fatos ou distorçam as características dos personagens, porque se joga com a linguagem para produzir o cômico, para ironizar, para exagerar, para parodiar, para produzir equívocos, mal- entendidos, etc.



Estimados leitores, esta entrevista vem a complementar ou refundir o antes dito, entre outras coisas a inclusão da valorização - como verbo -, que, seguramente conjugamos pela inteligência, pensamento, postura, experiência e personalidade de outr@s. Sendo assim tão simples a questão, convidamos ao escritor Chileno Jorge Ratamal Villegas, a quem conheço faz algumas vidas, razão pela qual atendeu a entrevista de próprio punho, ainda que não sei até que ponto poderá se aventurar nela.

[Jorge, parece que você se apaixona por rir-se de si mesmo, divertir-se apelando para a ironia, ao ácido sarcasmo, à ingenuidade, ou a picardia num estilo jocoso/humorístico em um tom burlesco através dessa insólita sintaxis que colore seus relatos, sejam eles orais ou escritos, ainda que o tema seja extremamente sério como um panteão, consiga tirar-lhe um sorriso até do ouvinte ou leitor mais fleumático]



Abra-se o diálogo:

1. Sabe-se que o relato ou conto privilegia o desenlace. A comédia descreve, intelectualmente distorcidos, os aspectos concretos e risíveis da vida cotidiana. O objetivo é provocar o riso do espectador. Creio que seu estilo estaria na tragicomédia, que combina elementos fatais e o fato cômico, e que seus personagens, humildes e sinceros - tirados da vida real - ocupam uma praça central na análise do discurso social. Rir lendo, inteligentemente. Voltaire, Dickens, Twain, Wilde, Cervantes, Quevedo..., que outros escritores agregaria você, que prestaram seus serviços e seus caprichos sarcásticos à literatura, até a ponto de modificar a rotina de suas épocas?

- Como emergente... Eu.

2. Realismo e humor, ficção e humor; humor censura; humor reflexão/ observação; humor riso; humor negro e sobrevivência... Em qual deles você se encaixa?
- Certo, certo... O que resulta depois de escrito.

3 - O humor em você é uma qualidade salvadora? Nos dê três razões.

- Uma só: o rifle já não é a solução...
4. Quais são esses risinhos solitários, por assim dizer, instalados em seu infinito enredo...? Queremos conhecer esses diálogos que quebram a crítica social.
- O exercício da minha profissão, constante na fronteira do medo existencial dos meus clientes, faz com que meu ser geminiano recorra a cada instante a trama entre a ira e o riso... Este último é o que deixo conhecer de mim.
5. Uma das maiores virtudes em suas histórias é a linguagem do humor, sendo a ironia o seu forte, e faz do absurdo de algumas situações o mais jocoso de sua obra. A contrapartida semântica entre situações e suas narrações contribuem enormemente para que os leitores tenham as mais diversas emoções, (Estou recordando a solidez e desenvoltura nos contos de seu livro "Cristo me transou", porque obviamente fiz o prólogo). É a realidade que vive que não o deixa sair dela?

- A que tive que viver...Agora, já não creio nem em mim mesmo.

6. Fazer rir a uma mulher é uma arte que se adquire, dizem...em um contexto social. Como se relaciona você com seu ambiente, seu comportamento, os objetivos aos quais se pode destinar nas relações humanas/ próximas que o rodeiam?
- Fazer com que uma mulher ria é tão fácil como fazer feliz a um bebê... temos que mantê-los mudinhos e dar-lhes batatas.
7. Sob um regime tirânico três homens serão fuzilados. O oficial que dirige a execução lhes oferece um último charuto. O primeiro e o segundo o aceitam. O terceiro o recusa. Então, o segundo ao ouvi-lo se volta até ele e lhe responde: - Não tem problemas, Jaime! - Com qual personagem se identifica você? Seria possível que argumentaria a resposta (Porém não me vá dizer que com o oficial, - gargalhada-)
Seguramente pediria que me trocassem o cigarro por um beijo nos lábios do mais feio dos fuzileiros... para que não tenham que viver com a vergonha de haver assassinado a um patriota, mas sim a um simples viado...

8. Para mim, é apropriado recordar a descrição de Bergson de que o riso é como uma espuma que se desvanece quando alguém tenta retê-la. Poderia nos definir o riso através do que NÃO é para você?

- O riso não é uma cara...é um calafrio com coceira que aparece no triângulo que há entre os ombros e o umbigo...e que costuma escapar pela boca...outras vezes a gente simplesmente se mija.

9. Qual tem sido a estupidez mais grande - a seu modo de ver - que nos tem dado nossos velhos dias? Parece irrelevante a pergunta e não existe nenhuma finalidade, porém queremos conhecer sua resposta.
- Não haver feito a mulher com água e barro igual ao homem...uma costela se caracteriza por ser torta, dura e pontuda.

10. Se todo o humano está tecido de palavras, também estas se vão urdindo nos intercâmbios sociais, nos que se manifestam de modo mais ou menos espontâneo. Um cafezinho ou um vinhozinho para conversar?

- O humano não está tecido com palavras, e estas não são determinantes nos intercâmbios sociais, os animais e os vegetais também fazem intercâmbios e se relacionam sem falar...o que os torna admiráveis... o café ou o vinho são meros excitantes para romper a timidez e/ou a suspeita...trate de tomar um litro de água e manter a conversa.
11. Você foi um bibliófilo e um bibliomaníaco de sempre. Até onde tem apontado sua voz/olhos/mãos?
- Jamais fui essa coisa...o que passa é que quando não tive dinheiro para beber ou festa, sublimo lendo.
12. Vou citar duas verdades ou engenhosas mentiras de Mencken ( escritor e jornalista): a) A consciência é a voz interior que nos adverte que alguém pode estar nos vendo. b) O puritanismo é o angustioso temor de que alguém, em algum lugar, possa ser feliz. Fora de sua generosa prudência e de seu habilidoso malabarismo. Ipso facto, qual?
- Terrivelmente fomes dos acertos. Talvez que estava fumando o sujeito quando armou essas frases...Prefiro "A sede move montanhas"... Envio a ti o fundamento ao pé da letra.
13. Você desfruta a vaca quando dá leite, em outras palavras, quando ao leitor se lhe incham as veias...somando risos por suas histórias?
- Perdão? Eu não desfruto disso.. Quando alguém se queima com leite, chora quando vê uma vaca...Só que os anos me têm obrigado a trocar o  domínio pelas perfurações à sedução que o sorriso pode causar.

14. Qual é o seu código ético para viver de forma responsável a vida?
- Só dois: Não morder mais do que pode mastigar e... dos trilhos e do trem faça uma trilha!

15. Está presente no discurso político chileno
- como recurso argumentativo - a ironia, ou o humor?

- A ideologia é Que, Por que e Para que... A política é o Como. A vaidade e a ganância são incapazes de construir um discurso e, por certo, se não há ideologia não pode haver política. Só acordos espúrios e consensos sodomíticos.

16. E para dar por concluída a entrevista, que se feche por si mesma quando esta cai. Sente-se master no Trabalho social e Políticas Sociais, assim mesmo, Doutor em Meio ambiente em um país de cínicos?
- Nada... Na universidade de Concepción tirei ambos os graus por haver formulado a Teoria Geral da Pobreza.
Porém este não é um país de cínicos porquanto esta orientação requer muito esforço...Só é uma bela terra que tem a má sorte de estar ocupada por chilenos.


BIOGRAFIA

Dizem que nasci no inverno do ano de 1952. Não me consta, porque naquela estação era um bebê. Longe , sou o menor dos meus irmãos, o que me transforma em mero pó de curado, pelo que cresci órfão até de mim mesmo, aprendendo maldades no porto de Talcahuano de Chile, no qual aprendi a escrever e ler fluentemente, assim comer com cobertura integral e beber até cair...porque me ensinaram que não era próprio de um cavalheiro beber no chão.

Desempenhei diversos ofícios, exceto o de conservador de minas (tenho um mau erre...), até o dia em que tropecei com ela, quem me disse: Por que não escrevia as mentiras que contava?, eis que desde então me dedico, de vez em quando, à literatura...que é como lhe chamou ao desejo de cristalizar sem me sentir ocioso.
Algum dia, quando o abuso do cigarro venha a deter meus afazeres, pretendo escrever uma história de amor... orgasmica e choramingante... por enquanto, estou meramente recopilando experiência. Ligue já!






A SEDE MOVE MONTANHAS



Houve um casamento em Canaã de Galileia, ao qual foi convidado Jesus com seus discípulos, e não tinham vinho, porque o vinho do casamento havia acabado. Jesus disse aos serviçais que enchessem as tinas de água até a borda, e Ele lhes disse: Pegue agora e leve-o à sala onde todos provarão a água convertida em vinho...Este foi o primeiro milagre que fez Jesus, em Canaã de Galileia. Manifestou sua glória e creram Nele seus discípulos...
Murmurava, demonstrando aborrecimento, o ancião sacerdote sem dar-se conta que a garganta me apertava como se tivesse um nó ao pensar na sorte que significava ter esse poder...transformar a água em vinho...

Tudo ocorria enquanto estávamos a contrair matrimônio religioso na desvencilhada capela situada nas margens do mar em Talcahuano, evento que realizou apesar que os quase dois meses de folga que tínhamos com as pescarias do porto e que, a costumaz, rebelde, teimosa, tenaz, dura e intransigente noiva havia insistido em executar, porque a levávamos muito tempo desonrando a sua família, como ela chamava ao ritual de agitar-se em couros debaixo de mim...e outras vezes acima...ao ritmo da sonora matança.

Meu pai sempre me aconselhava, "O que casa com uma mulher virgem faz bem...O que não se casa faz melhor", porém ela havia conseguido arrancar-me a promessa quando estava com os calções no meio das pernas e sem decidir-se pela entrega...Louco! É seguro que me vai responder? E aqui estava eu, dando-lhe viril cumprimento à promessa dos excitantes, mediante o expediente de estampar minhas impressões digitais direitas em um dos papéis amarelecidos.

E estava mal a coisa.

A paralisação não dava mostras de ceder e a poupança já se havia dissipada. Certo é que, sem trabalhar, mais dinheiro ia com o vinho que com a comida, porém as horas eram largas e os dias se arrastavam tão cansativas como a esperança dos pobres. Para piorar, comentar os encontros com os policiais, esfregando as contusões ou, massageando-se os braços cansados de tanto tirar pedras, sem vinho carecia de poesia.


Assim é que o sacerdote afirmou o agravo à natural condição polígama do varão e, com um "Os declaro marido e mulher" partimos para a casa, como lhe chamávamos ao flamejante modelinho tipo "techosparachile" instalado em uma ocupação de terra, porém com seus respectivos medidores para pagar religiosamente as contas da luz elétrica e água encanada, residência na qual íamos deixar de desonrar à família da noiva, porque agora estaríamos afinando com o livro. Agora nós vamos para a festa! Disse-me a flamejante esposa..."¡y suelte pué… tese tranquilo!".
Todos os convidados apareciam solidariamente carregando a correspondente munição de crista como presente para os noivos, porém em verdade, assegurando-se que não iria faltar vinho. A sogra se rachou com um formoso lavatório e uma baciazinha, ambos de ferro esmaltado que, por estarem novos, usamos o primeiro para armar o peixe enlatado com cebola, e a segunda, para misturar o ponche de morangos.

Alguns dias depois da bebedeira despertei e olhei a noiva, sem uso desde que começou a folia. Não havia desejo em mim... sério... Zero febre!
A única coisa que enchia minha cabeça era a sede. Via oasis de vinho tinto rodeados das verdejantes vinhas e videiras. Recordava como se houvesse passado um século as palavras do sacerdote...todos provaram a água transformada em vinho...
Fingindo-me de mansinho... por uma zebra havia cagado durante a ressaca... e como o que vive de esperanças morre jejuando., olhando-a com um só olho aberto para não vê-la em dobro, lhe perguntei melosamente...


Meu amor, nesta casa não fica nem uma puta moeda? M’eh! por fim despertou a pérola... me agarrou por toda resposta. Meu amor... meu amorzinho... ya po’h... não lhe ponha tanto... não me casei com você para fazê-la desgraçada... porém não sou tão perfeito como para fazê-la feliz a cada instante... ya po’h... não sobra nem uma puta moeda?


Na traqueia apenas a pura prata da água ! Me respondeu de forma enfadonha.
Passe para cá! Ordenei.

E a transformei em vinho.

Louvado seja o senhor!






A ABORDAGEM


Impossível saber se foi mais ruidoso o silêncio que se seguiu, ou o horroroso estrépito que se produziu quando o navio mercadante impactou ao nosso velho "Maria Fernanda II", enquanto nos encontrávamos navegando, a meia máquina, à quadra da Constituição, em busca de uma zona de pesca. A estupefação , ao ver seguir sua marcha o mercador, depois de darmos um apito de advertência que mais soou a gargalhadas que a um alerta, se transformou em pânico ao comprovar que nos havia arrancado uma parte da proa. A graça do andar marinheiro que caracteriza a estes pequenos pesqueiros, se transformou em grosseiro andar de bêbado em beco empedrado, com rolos e trambiques que tornavam sem êxito seu governo.

Fazer hermético o barco! gritou o contramestre. Nos olhamos uns aos outros. (Ninguém reunia a condição de burro absoluto, que não chegasse a baixar o convés de um navio que se poderia alertar a qualquer momento).

Estai lesiando viejooo...! - gritou da popa o tripulante pangueiro, homem de curtidos anos no ofício, e o único a quem se podia dar o luxo de haver indicações à maldição crônica que era o "contra". Baixemos a panga e o bote salva-vidas e nos largamos ao léu! Concluiu.



Só então meteu sua colher o capitão...total, "el día del cuete vai a dejar estanco esta hueá...no v’ís que tiene más huecos que un recital de Juan Gabriel...!" Olhamos aliviados para os deliberantes ( p'a qu vou a dizer uma coisa por outra...não querendo passar por covarde...porém com uma mão, posta de maneira descuidada sobre o gancho que prendia um colete salva - vidas...me maldizia por eu ter embarcado na manhã para uma viagem como substituto do "cuki", quem a sorte de cura não se tinha apresentado na partida por estar como um "cuero").

O "contra", com um duro olhar e sem medir palavras, lhe fez um gesto, seco e cortante, a López, que obrigou a este a dedicar de imediato à tarefa de largar o bote salva - vidas. (Desde que subi a bordo na manhã, esse tripulante me havia surpreendido constantemente. Quando servi ao café da manhã, e como correspondente de todo cozinheiro, havia observado o caráter da tripulação - questão obrigado se não se quer ter problemas em tão delicada função a bordo - do que pude desprender que estava conformada de forma tradicional...desde o depreciativo que aceita a comida como um favor e com a testa franzida - e que geralmente corresponde à "tampa" pela padroeira - até ao par de palhaços que nunca faltam e que encontram seu máximo prazer em instigar aos mais taciturnos... porém López era especial...recebeu seu "valdiviano" e seu pão com um semi - sorriso de agradecimento e se inclinou - como todos- à importante tarefa de sorver e mastigar... porém, como um cão, sem perder de vista a ninguém.


Terminado o extermínio dos mantimentos, e quando chegou o momento em que um estômago pleno e quente convidam à conversa, voltou toda a sua atenção nas palavras que cruzavam o "contra" com o "pangueiro", sem deixar de sorrir mais abertamente diante das terríveis palmadas com que acompanhavam suas gargalhadas os dois palhaços que estavam a bordo.
O mesmo ocorreu durante o almoço, surpreendendo-me ainda mais que ninguém lhe dirigi a palavra, não obstante, que não parecia existir hostilidade em sua contra.

Medida a tarde, efetuamos um lance que resultou "pombo", e enquanto içávamos a rede vazia, de meu posto de trabalho ao lado do "winche", meu assombro aumentou. Era um tripulante de primeira e enormemente disciplinado! Bastava um olhar e um gesto do contramestre para estivesse no lugar e na manobra adequada.

O pior, ao tipo "Se lhe queima o arroz"...... pensei com meus botões, quando me dei conta, que feito um apaixonado, jamais tirava seus olhos da figura do forte contramestre, questão que parecia ser a razão pela qual este último só se dirigia a ele com gestos de brutal autoridade. E estava envolvido nessas reflexões, enquanto preparava a ceia, quando sobreveio o impacto)


López, suando e com os dedos destroçados, conseguiu finalmente abrir os enferrujados seguros que impediam que o bote salva -vidas tombasse só, quando o "contra" lançou uma enorme faca de cobertura - que se cravou a poucos centímetros de sua cabeça - e estalando seus dedos, lhe assinalou as cordas da rede que, com o apoio, caíra na água e tornava perigosa a operação da "panga". Como um gato, López desceu da ponte a lona e se dedicou à laboriosa tarefa de cortar e cortar cabos... (Com tanto medo das represálias por indisciplina como ao próprio naufrágio, o resto de nós aguardava à duras penas a dilatada ordem de abandonar o barco) quando uma forte guinada do navio, inequívoco antecipador de seu afundamento, chegou junto com o bramido do capitão...

Às águas merdas!

Às águas merda!... Respondemos todos com uivos de aviso indígena. E na água fomos todos...entremesclando-nos em um enlouquecedor "splash" que nos levava a agarrar-nos ao bote salva-vidas ou da panga - ou do que quer que fosse - que nos tirasse da inevitável sucção do rodamoinho que, irreversivelmente, haveria de ocasionar o afundamento do pesqueiro (A mistura de água salgada e noite, outorgava uma sensação especial no medo que nos invadia e que, talvez para nos distrair, fazia com que os primeiros que embarcamos, nos agarrássemos onde foram os desesperados nadadores para os içar até a salvação).


El ¡FZFZFZFZ! que provocou a entrada da água na quente sala de máquinas do pesqueiro (que me deixou a inapagável sensação de escutar exalar o último suspiro de um ser humano) fez que todos voltássemos o olhar para o nosso barco...descobrindo horrorizados que López firmemente agarrado à borda do navio morimbundo, nos observava com seu semi-sorriso perene e seus olhos desmesuradamente abertos...



A parte carimbada na Capitania do Porto de Talcahuano, registrou como único falecido no naufrágio o Pesqueiro Maria Fernanda III ... ao surdo López.

* Menção Especial/ Concurso Literário Atina Chile/Nov. 2007


AMOR DE POBRES



A vi... e senti o golpe do amor, não no coração, mas que diretamente à boca do estômago. Como um kamikaze lancei-me em busca de sua atenção. A concorrência pela preciosa daminha era feroz, porém eu era um vira-lata e medindo o expediente de quebrar-lhe a cara e esmagar outras presas aos adversários , consegui postular solitariamente a dançar com ela.

Nunca havia sentido o impacto da atração brutal. Estava bêbado de paixão, e como curado reagi. Ou seja, não soube que merda lhe disse nem o que fiz, porém consegui que me olhasse. Tudo o que eu entendia por beleza se reunia nela. Me envolvia com a neblina espessa do sul. A amei desde o primeiro dia.

Toda a minha experiência nas vielas do Porto reluziram para impedir que galãs melhores parecidos me acercassem.
E aos poucos a ensinei a me querer.

A primeira tragédia havia sido não conquistá-la, a seguinte foi o haver conseguido.
Em confluência "le voltié" os portões de sua virgindade e dali para adiante só foi para mim...
E eu para ela... para sempre preso na armadilha de sua respiração.

A vida... a puta vida que sempre cobra por uns momentos de prazer... nesta ocasião sentiu condolências de minha indigência e me entregou anos, sem faturar-me sua concessão. Um dia me disse que queria um filho meu. Basicamente porque minhas correrias contra o regime militar fizeram supor que minha expectativa de vida era curta.

O embaraço subsequente e prévio ao matrimônio, me pôs no verdadeiro lugar da vida em sociedade.
Sua família me odiou e, a minha, sorriu desdenhosamente... muita mina para este "gueón". Nosso filho querido nasceu...e horas depois ela morreu.
Um desespero terrível começou a subir o gelo da boca de meu estômago. Mais terrível como foi a minha primeira grande tristeza e, por ser a primeira, alguém não sabe se terá alivio.
A nenhuma das famílias lhes importou minha pena. Se limitavam a exibir direitos sobre o recém-nascido.


Porém ela já não estava mais. Solitariamente, levei seus restos mortais ao cemitério. Nada queria mais do que estar nessa caixa para impulsioná-la a erguer-se dando-lhe o calor de meu corpo.
Porém a lógica implacável da razão me dizia que isso não era possível. Os empregados do cemitério atuavam mecanicamente, surpresos ao verem um homem só. Com uma margarida silvestre e um bebê nos braços, deixei seus amados restos mortais ao amparo do estreito nicho.

Cura, bêbado, rebelde, revolucionário, subversivo, nunca terminas nada! Foram os epítetos que escutei de ambas as famílias, como impedimentos conferidos a minha forma de ser, para fazer-se com o recém-nascido.

Porém a desgraça mais insuportável é a que nunca chega...assim é que levei o meu pequeno ao riacho El Soldao para salvar-me de tanta gritaria...e aqui estou.

A solidão...a velha rameira que só te libera a troco da contaminação social, me manteve fora de seu âmbito por insuportavelmente teimosia.

Por anos amei nele o que via de sua mãe...ria, e os gorjeios de prazer eu os traduzia aos privados encontros dos corpos nus com sua progenitora...assim é que produzi seu riso sublimava minha sexualidade...isso era tudo... e compartilhávamos os roncos com meu menininho em um único berço da pobre fazenda do riacho.

O ensinei a assoviar...e quando soube lhe dar inflexões ao assobio e, os cães e ovelhas partiam atrás dele, soube que já sabia todo o que um homem deve aprender.

Até que um dia lhe ocorreu que a mim...lhe doía a boca do estômago quando viu a uma dama...se apaixonou...e quis partir atrás dela. Assim vacilou entre seu pai e sua amada. Vá filho meu! Lhe disse...com medo de que não lhe quisessem como eu o queria. E além partiu com seu carregamento de sonhos e adeuses.


E aqui estou po'h...pela primeira vez não tive força para cobrar as redes... e fiquei arquejando... a rede vem muito carregada, pensei... porém não.

Recentemente tomei conhecimento de minha velhice.

Quantos anos haviam se transcorrido desde que me doeu o estômago a primeira vez?

Dentre o platinado do mar, a imagem dela emergiu nítida. Já será a hora...meu amor...me disse. E aqui estou po'h...

Sirva-me a outra cachorrinho!

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REALIZAÇÃO: ROCÍO L' AMAR

Rocío L'Amar é jornalista, intelectual conceituada, ativista cultural, correspondente e colaboradora de PALAVRA FIANDEIRA no Chile

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Fundador e editor de PALAVRA FIANDEIRA: 
Escritor Marciano Vasques

sábado, 19 de junho de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 33

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PALAVRA FIANDEIRA
 REVISTA DE LITERATURA

ANO 1 - Nº 33 - 19/JUNHO/2010 


NESTA EDIÇÃO:

 


"Com açúcar, com afeto..." Chico Buarque de Hollanda


CAROLINA CARRIÇO


Claro, os olhos também comem! - Carolina Carriço

CARMEN EZEQUIEL ENTREVISTA

DIRETAMENTE DE PORTUGAL

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Não me chegava a ginástica. Tinha de me exprimir de forma criativa” Carolina Carriço
Por cá, há o hábito de dizer que os “olhos também comem”.
É de tal forma verdadeiro que, em Sombras Comuns, falámos com uma doceira de corpo e alma. E que, como ela própria refere “a principal garfada é a dos olhos”.
Aqui, entrevista-se Carolina Carriço, natural de Cedofeita (Porto), mas que encontrou no Alentejo (Vila Boim – Elvas) “toda a vivacidade, luz, alegria” para se expor aos outros.
É empreendedora, palavra que a define e caracteriza; criativa, espontânea, sincera e com um sentido crítico mas prático de como vive no seu quotidiano.
Numa cozinha virtual, imaginamo-la rodeada de utensílios, a produzir, a criar, a moldar, para nos surpreender majestosamente após a confecção de um bolo.
É de tudo e todo o lado que retira a sua inspiração para as mais variadas confecções, e se por um lado não nos admiramos com isso, maravilhemo-nos efectivamente, pois que, do seu curso base, onde lida com agentes farmacológicos construiu uma ponte para trabalhar o açúcar poeticamente, oferecendo aos gulosos olhos uma magnífica sensação de saciedade.
Aqui e agora, vos apresento Carolina Carriço.



PALAVRA FIANDEIRA – Fala-nos um pouco de ti. Quem é Carolina Carriço?
Carolina Carriço – Sou uma jovem que gosta de viver uma vida calma, entre amigos e familiares, cheia de bons momentos e descobertas. Mas, que na verdade, vive a um ritmo louco, frenético, muito intenso, …(risos). Sempre alegre e bem disposta.


Porto
PF – Vamos dar a conhecer um pouco no nosso Portugal aos leitores do Palavra Fiandeira. Com que cidade ou local em Portugal mais te identificas e por que?
CC – É uma pergunta difícil. Nasci no Porto e identifico-me imenso com ele no que toca ao meu eu mais profundo, como fonte de interiorização, calma, recolhimento e até na expressão artística. Por outro lado, o Alentejo contrapõe com toda a vivacidade, luz, alegria, exteriorização desses sentimentos… Quem conhece as duas regiões percebe as diferenças eminentes. Já não conseguiria viver sem ambos e preciso mesmo desse equilíbrio dinâmico. Estão empatados (risos).
Elvas
PF – A tua arte não é a das palavras, ou da captação da imagem ou da transformação da cor em objeto. A tua arte é a de trabalhar o açúcar. De trabalhares o açúcar para adoçares o paladar dos portugueses. Em que altura esta arte apareceu? Descreve-nos um pouco o teu percurso até aqui?
CC – Tirei o meu curso superior (licenciei-me em Farmácia) e tinha tudo para ter uma vida tranquila: estava no quadro (vínculo de trabalho), perto de casa. É uma profissão em que temos de pôr de lado as nossas emoções para auxiliar quem nos procura; ser objetivos e precisos. E, eu sentia necessidade de contrariar isso… não me chegava a ginástica e o exercício físico (risos). Tinha de me exprimir de forma criativa. O açúcar apareceu na minha vida, mais ou menos, por acaso, quando conheci as pessoas certas, no momento exato. Senti uma empatia enorme com os materiais e técnicas e, à medida que os ia e vou conhecendo melhor, cresço também como pessoa.
Acredito que todos nós temos necessidade de arte nas nossas vidas, para nos sentirmos bem, e seja ela que forma for (leitura, teatro, cinema, patchwork, Arraiolos, croché, e, açúcar).
Os meus bolos são para momentos especiais”Carolina Carriço
PF – Achas que os portugueses estão famintos das coisas boas da vida e por isso colmatam essa carência com o excesso de doces e gulodices?
CC – Não. Acho que todas as pessoas, inclusive os portugueses, gostam de coisas boas, criativas e diferentes; que as façam sorrir, enternecer-se, pasmar e até chorar. Podem ser doces ou não, depende do momento, da circunstância. Claro que numa festa o bolo é um elemento principal, cheio de simbolismo e sempre envolto em muita expectativa.
Se, em momentos que não são de festa comemos mais doces e guloseimas, penso que isso tem sobretudo a ver com pressões publicitárias e econômicas, aliadas a uma grande facilidade de acesso a esses produtos, que nos levam a adotar comportamentos de grupo errados.
A Quinta
PF – Numa altura em que se fala de obesidade; em que se fala que as crianças portuguesas estão cada vez mais gordas e, em que a magreza e a anorexia são o “ideal” de beleza; não achas que estás a contribuir para a doença da moda?
CC – Não. Os meus bolos são para momentos especiais, não são para consumir todos os dias. E, numa dieta equilibrada, na minha opinião, podemos permitir-nos pecar em dias especiais. Claro que também existe a possibilidade de fazer os bolos sem açúcar, ou sem ovos. Mas o problema está na forma como nos comportamos no dia a dia e não nos dias de festa.
PF – Qual tem sido a adesão das pessoas às divinais gulodices que crias? Os portugueses são mais exigentes com a apresentação ou com o paladar?
CC – Sem dúvida. Surgem-me pedidos muito variados, tanto em termos de massas, como de recheios. As pessoas começam a ver os bolos como um palco onde tudo é possível (risos). Já tive pedidos muito difíceis de concretizar, por serem equilíbrios complicados ou grandes recortes nas massas. Mas essa exigência é muito boa, pois permite-me evoluir enquanto concretizo sonhos e torno momentos especiais.
O bolo, …, simboliza o prazer de quem recebe” Carolina Carriço
PF – A criatividade dos teus bolos leva-nos a sonhar. Por vezes, há sonhos que se concretizam e os teus bolos estão lá, nesses sonhos. Onde te inspiras para as mais variadas confecções?
CC – (risos) Depende… Tudo pode ser uma fonte de inspiração; um olhar, uma frase, uma cor, um padrão, um tecido, uma foto, uma conversa.

PF – No teu blogue Açúcar e Arte (http://acucar-e-arte.blogspot.com), materializas aos nossos olhos, o amor, o carinho, a paciência e a criatividade dos teus trabalhos adocicados. Os olhos, para além de serem o espelho da alma também comem. É verdade? Quais têm sido as reações das pessoas?
CC – Claro, os olhos também comem! Diria que a principal garfada é a dos olhos (risos). Mas, o conteúdo também é muito importante. É o que faz as pessoas voltarem e quererem mais. Se a intenção fosse apenas estética, não teria de ser necessariamente açúcar, não é? Poderia perfeitamente ser plasticina que se colocava no centro de uma mesa e depois se guardava numa estante. O bolo também simboliza o prazer de quem recebe, em partilhar com os convidados a sua felicidade, através de um doce sabor. Se assim não for, por muita beleza que tenha um bolo, ele não cumpre a sua função.
Quanto às reações têm sido todas muito boas. Da curiosidade ao apoio, muitas vezes entusiasta, principalmente por parte de quem já provou.
A mala da Carolina
PF – “Um momento pode ser tudo. Um bolo pode fazer a diferença. Momentos doces, com história e amor”. Conta-nos a história em que tu sejas o personagem principal, num momento mais marcante da tua vida e, em que efetivamente um bolo pode fazer a diferença. Qual o bolo que te deu mais gosto fazer e por que?
CC – Não consigo escolher um… só posso dizer que todos são diferentes e especiais. Gosto de sentir a expectativa e curiosidade que o bolo traz à festa; gosto quando me apresentam ideias alinhavadas mas com espaço para introduzir a minha criatividade…
Adorava a forma como ficava surpreendida com os meus bolos de criança e de ver a cara dos meus amigos. É um momento mágico. Um ano foi um cisne em 3D, noutro, um comboio. A minha mãe e avó encarregavam-se dessas pequenas grandes surpresas (risos).

PF – É mãe, esposa, profissional de saúde, dona de casa, … e, ainda “Cake Designer”. Onde fica o lugar para a mulher somente? Que capricho podes chamar de só teu?
CC – Uui… perdi-a! (risos) De momento a mulher está em pausa; mas espero rapidamente reequilibrar a minha vida.
PF – Fala-nos da tua experiência no Festival do Chocolate de Óbidos?
CC – Foi muito boa, não só pelo desafio criativo mas também pelas pessoas que conheci. É muito enriquecedor ver o percurso de outros colegas, como se traduz na prática a sua criatividade, as técnicas que utilizam. É incrível o que se pode aprender através de simples conversas. Foram dias de uma enorme sensação de responsabilidade, mas também de apoio e amizade entre colegas. Adorei!
Festival Vilamoura, Maio 2010
PF – No início de Maio participaste, já com algum calejo, no Festival do Chocolate de Vilamoura. Como te sentiste a trabalhares com pessoas a assistir?
CC – Correu lindamente! A forma como se organizou o evento permitiu uma grande proximidade entre os visitantes e expositores, de forma que a relação foi muito pessoal. Permitiu que as pessoas que o visitaram ficassem à vontade para questionarem e aos quais tentei responder da melhor forma. Foi muito giro!
Flores Genealógicas
PF – O que tens a dizer a alguém que queira trabalhar neste ramo de atividade?
CC – Que o faço com amor, paciência, responsabilidade e querendo sempre aprender mais. Pode parecer simples, mas um bolo pode ser a alegria ou a desilusão de uma festa. Acima de tudo, que se divirta, porque criar é divertido!
Vaso Flores
PF – Queres deixar alguma mensagem aos leitores do Palavra Fiandeira?
CC – Sim. Quero incentivar a continuação de muitas e boas criações literárias, que tanta falta nos fazem. A literatura é de fato uma expressão artística maravilhosa! Obrigada a todos por tornarem os nossos dias mais coloridos.
Quero agradecer à Carmen este momento agradável que passamos à conversa.
Comunhão
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(In) Existência

Ser. Ser agora.
Nada. Ser nada e ouvir a chuva lá fora.
Sou eu e mais ninguém.
O som do mar nos meus ouvidos clarifica a minha mente insana e dá-me o prazer do momento.
Carmen Ezequiel – 8/Maio/2010
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Este foi mais um "Sombras Comuns" onde falar com a Carolina foi assim, como o poema que vos presenteei. Em que no âmago da essência do ser nos encontramos, pela humildade desta mulher.

Aqui, fala-se de tudo e de nada.
De tudo o que somos.
De nada que ninguém é.

Carmen Ezequiel – 29 de Maio de 2010

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REALIZAÇÃO:
CARMEN EZEQUIEL
Poeta, escritora, ativista cultural, correspondente e colaboradora de PALAVRA FIANDEIRA em Portugal