EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 10

 PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA

ANO 1 - Nº 10 - 13/JANEIRO/2010



Algum dia, a humanidade
vai mudar a sua sorte:
haverá fraternidade
sem bandeira e passaporte.

NESTA EDIÇÃO:
MARCIANO VASQUES 
ENTREVISTA
MARIA THEREZA CAVALHEIRO


UMA VIDA DE TROVAS


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Veio ao mundo num 25 de Janeiro, aniversário de fundação da cidade de São Paulo. É mais de meio século de trovas e dedicação total. É a embaixatriz, é a dama. É a Senhora Trova. Jovens enamorados, crianças, homens e mulheres colecionavam as trovas que vinham nos adesivos dentro dos saquinhos de balas. Ela que as selecionava. Em nosso primeiro contato por telefone para combinarmos a entrevista, conta-me que a Trova exige cuidado, esmero, zelo. Para ela, escrever trovas é de uma responsabilidade imensa, e ninguém melhor do que ela, a moradora ilustre da cidade aniversariante, para saber que a trova "nasce" na alma do povo por falar de perto aos seus anseios, e conquista de imediato o coração de crianças, adolescentes e adultos. Maria Thereza Cavalheiro é um coração de quatro versos com sete sílabas poéticas cada, e em suas décadas de criação e dedicação total, tornou-se a maior divulgadora de trovas e trovadores no Brasil. A nossa revista sente um orgulho imenso de poder apresentar ao leitor Maria Thereza Cavalheiro e a sua PALAVRA FIANDEIRA.
                                                                             
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"Quem quiser que diga que a trova é um gênero menor de poesia. Para mim, não há gênero menor nem maior: sendo o poema belo, não importa o gênero, ele é maior, pois nada existe de comparável à poesia. Quanto à trova, não pode haver criação literária mais popular, que fale mais diretamente ao coração do povo. É através da trova que o povo toma contato com a poesia e sente a sua força. Por isso mesmo a trova e o trovador são imortais"

Jorge Amado
Entrevista concedida em 1980, para a coluna "Trovas".


MARIA THEREZA CAVALHEIRO 
A TROVA




1. Como grande divulgadora do gênero, e você mesma trovadora premiada em muitos concursos, no Brasil e em Portugal, fale um pouco sobre essa composição poética.

Podemos dizer que a trova é um poema em miniatura, que se esgota em apenas quatro versos. Transmitir em quatro versos aquilo que se tem de dizer é fácil, mas às vezes é um desafio. A trova exige o poder de síntese. É pequena, rápida, concisa; é um pensamento que voa, é um sentimento que se transforma em poesia. Tudo no invólucro mágico de quatro linhas, que se diz em menos de um minuto. Um minuto, aliás, é o tempo para se declamar um soneto, com seus quatorze versos. A trova é um máximo num minuto. Por ser simples na forma, deve, em contrapartida, conter algo diferente. Deve ser rítmica, de fácil apreensão, sem palavras desnecessárias. cada palavra na trova tem força própria e deve ser bem colocada. Cada uma tem seu valor e deve "cair bem", como certas roupas de tecido liso e corte reto, em que o menor defeito é notado. A trova deve ter o caráter popular, sem rebuscamentos. Mas simplicidade não é vulgaridade. A trova é o fácil difícil, porque tudo o que é muito fácil tende a cair no banal. Então o difícil no fácil é trazer uma novidade, e daí a importância do achado, que pode ser uma metáfora, um trocadilho, uma rima original, enfim, algo inusitado; ou mesmo comum, dito, porém , de modo criativo.

2. Depois voltaremos a falar especificamente sobre a trova, mas quero agora que fale para PALAVRA FIANDEIRA sobre o seu novo livro, que acaba de ser lançado.
Arte da capa: Maria Jaepelt 
Distribuição: Loyola - Lojas no Brasil
Internet: www.livraria.loyola.com.br

- Há livros para jovens e livros para adultos. Mas, às vezes, é difícil uma obra que atinja todas as idades, e que, além de leitura amena, proporcione conhecimentos úteis. E foi esse meu objetivo ao lançar, em fins de 2009, meu décimo livro, "Trovas Para Refletir".

Trata-se de um pequeno volume, de 120 páginas, que pode ser lido até em meia hora, mas cumpre ser também consultado, pois contém, além de trovas, conhecimentos básicos de métrica e versificação, pelo que pode, ainda, interessar a professores que devam dar aulas sobre a matéria.

3. Conte ao nosso leitor um pouco sobre as trovas do seu livro.

- O livro divide-se em duas partes: na primeira, estão 180 trovas de minha autoria, no gênero lírico- filosófico, e de sentido universal. Observo que esses quartetos têm uma peculiaridade: neles não aparece a palavra "eu". Os temas são os mais variados.

4. Diga-nos alguns dos temas que aparecem nessas trovas:

- Alegria, amizade, amor, árvore, bem, bonança, caminho, ciúme, criança, destino, Deus, egoísmo, erro, escola, esperança, estrela, família, felicidade, guerra, humanidade, ideal, inveja, juventude, livro, mar, medo, paciência, paz, pureza, remorso, renúncia, saudade, velhice, entre outros. Ainda que alguns temas sejam marcadamente filosóficos, todas as trovas da primeira parte são revestidas de lirismo e com uso frequente de metáforas.

5. E a segunda parte?

- É uma síntese de meu livro "Segredos do Bom Trovar - como fazer trova" - publicado em 1989, com exemplos de 200 trovadores vivos e falecidos. Além dos exemplos de trovadores que já nos deixaram, nesta segunda parte encontram-se doze tópicos úteis, práticos e apropriados aos que estudam ou querem se dedicar ao exercício da trova.

6. As trovas deste novo livro são inéditas?

- Pergunta bem apropriada. Gostaria de observar que em "Trovas para Refletir" não constam trovas minhas já publicadas em outros livros de minha autoria. São, portanto, inéditas em livro meu.

7. Tem algum outro livro só de trovas suas e inéditas?

- Sim, tenho outro livro também só de trovas minhas: "Estrelas e Vaga- Lumes", de 1988, com 111 quadras até então inéditas. Inclui 32 trovas em meu "Encontros e Desencontros", de 1992, que traz 31 poemas e sonetos. esse livro obteve menção honrosa no II Concurso Nacional da Academia Ribeirão Pretana de Letras, em 1979, quando inédito.

8 . Fale de algumas de suas obras premiadas ao longo de sua carreira.

- Tenho dois livros premiados: "Relâmpagos", de poemetos (com 2 e 3 versos) publicado em 1990, o qual, quando inédito, obteve em 1981 o 2º lugar em concurso da SUAM, do Rio de Janeiro, entre 9.767 concorrentes. E o meu penúltimo, em prosa: "Cabeça de Mulher", com Menção Honrosa no "Prêmio Eça de Queiroz/Categoria "Conto", da União Brasileira dos Escritores - UBE - RJ, para livros publicados em 1998. Além desses, conquistei outros prêmios avulsos.

9. Conte-nos um pouco sobre a sua atividade como jornalista.


- Minha primeira reportagem foi em 1957, e nunca parei, tendo trabalhado em vários jornais, revistas e editoras, e em órgãos de empresas ou entidades jurídicas (IRIB). Orgulho-me de ter recebido, como ecologista, em 1956, a Medalha "Comemorativa da Campanha de Educação Florestal, concedida em 1956, pelo Serviço Florestal do MInistério da Agricultura.

10. Você mantém uma coluna de trovas que é publicada sem interrupção há muitos anos. Fale sobre essa coluna.

- Atualmente, realizo a coluna "Trovas" para o "BALI - Boletim Acadêmico Letras Itaocarenses," de Itaocara, editado pelo idealista Kleber Leite. É uma bonita revista mensal.

Durante mais de 30 anos (desde 1977), realizei essa coluna para o jornal "O Radar", de Apucarana - PR, na pagina de sua diretora Rosemary Lopes Pereira, também uma lutadora pela melhoria da humanidade através das letras. O Radar parou de circular em Dezembro último.

11. Além dessa coluna, sempre publicou e divulgou a trova em jornais e revistas. Poderia nos citar alguns?
- Realizei "Trovas" no jornal "Ultima Hora", "A Gazeta Esportiva" e "Notícias Populares", todos da capital paulista. E publiquei "Trovas", sempre de autores vários, nas revistas "Capricho" e "Carícia", e nas extintas "Simpatias que curam" e "A Sorte é Você". Também realizei em 1976 o quadro "Trovas e Poesias", em programa semanal na TV Gazeta. Por muitos anos, forneci seleção de trovas de vários autores para a hoje extinta fábrica das "Gotas de Pinho Alabarda", que as divulgava em adesivos. dentro dos saquinhos de balas.

12. Participa de alguma entidade de trovadores ou literária?

- Atualmente, não sou membro de nenhuma Entidade Literária, mas, com a colaboração de minha prima Amaryllis, fundei a seção Municipal de São Paulo, da União Brasileira de Trovadores - UBT, em 11 de Setembro de 1969, à qual presidi até 1976. Penso, no entanto, que, como historiadora de trova, fico mais à vontade para falar e escrever sobre todas as entidades que se ocupam do assunto, e que são muitas, embora eu não esteja oficialmente presa a nenhuma. Como jornalista, gosto de ser o mais independente possível.

13. Que diz sobre o fato de a trova ser objeto de menosprezo em alguns círculos, especialmente quando ela fala de amor?

- Ao longo dos anos, a trova vem convivendo com todas as escolas, sempre atual, motivando poetas de todas as tendências literárias. E aí está, transpondo divisas, correndo o Brasil. Há, no entanto, de fato, intelectuais desapercebidos dessa realidade, que insistem em dizer que a trova é gênero superado. É tempo de acabar com essa falsa ideia, como bem disse Murillo Araújo, em entrevista que me concedeu em outubro de 1970.

14. Teria algum conselho para trovadores principiantes?

- Poderia dar algumas sugestões, que servem para qualquer pessoa que deseja trilhar o caminho das letras: conhecer bem o idioma pátrio (mesmo que seja para depois contrariá-lo), saber métrica (ainda que tencione fazer somente poesia livre), exercitar-se na escrita, ler bons autores (de todas as escolas), e ter humildade, como preconizava o padroeiro dos trovadores, São Francisco de Assis. A estrada a percorrer é longa e demanda dedicação total ao ideal.

15. Deixe a sua mensagem final para o leitor de PALAVRA FIANDEIRA.

- Meu lema é "Sempre Recomeçar". E as palavras de Ulpiano constituem minha filosofia de vida: "Dar a cada um o que é seu, viver honestamente, não ofender a ninguém.".

Acredito na lei de causa e efeito. Acho que é semeando que colhemos, embora nem sempre possamos colher na mesma seara. São apenas as nossas ações que levaremos na grande viagem. E o que somos intrinsecamente nunca nos será tirado.

16. Escolha algumas trovas para PALAVRA FIANDEIRA.

- Quais trovas eu gostaria de ver publicadas nesta revista? Ora, todas são minhas filhas queridas, mas prefiro deixar a escolha ao gosto e à sensibilidade de meu caro entrevistador.

TROVAS DE MARIA THEREZA CAVALHEIRO


Pode o livro ser tesouro
que alguém garimpou por nós;
 é o amigo imorredouro,
que não fala, mas tem voz!





Quem vive só de futuro
e esquece a vida que passa,
descobre claro no escuro 
que fez projetos de graça.





Riqueza não vale a pena
se vem e nos leva a paz...
No prado, a bela açucena
com a luz do sol se compraz!





        Cabelos soltos ao vento...
        Pés de leve sobre a grama...
        A vida toda é um momento
        no coração de quem ama!!




Se anoitece no teu dia,
pega um facho de luar,
laça uma estrela vadia,
vai outro amor procurar!


                                        Quem perde a oportunidade
                                        por medo de ser feliz,
                                        não colhe nem a saudade,
                                       que arrancou pela raiz!






O luar, lascivo e amante,
abre o vestido da mata,
e em seu corpo exuberante
passeia os dedos de prata...





 Inquieto, pairando apenas
 o colibri em seu afã
é uma linda flor de penas
  junto ao seio da manhã.


Num lugar do coração
habita sempre o menino
que faz bolhas de sabão
para iludir seu destino.








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MARIA THEREZA CAVALHEIRO




Nasceu em 25 de Janeiro de 1929. Escritora, jornalista, advogada, tradutora e ecologista. Publicou os livros:
Antologia Brasileira da Árvore (Bartira, 1960, com 2ª edição no mesmo ano); Poema da Cidade - Sinfonia de Brasília (Cupolo, 1963).
Nova Antologia Brasileira da Árvore (paradidático, em verso e prosa - Iracema, em coedição com a Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo do Estado de São Paulo, 1974); pela Scortecci: Colombina e sua Poesia Romântica e Erótica
(biografia e antologia, 1987); Estrelas e Vaga- Lumes (trovas, 1988); Segredos do Bom Trovar - Como fazer trova - Exemplos práticos - Antologia (1989) Relâmpagos (poemetos, 1990 - 2º lugar, quando inédito, em concurso da SUAM, Rio de Janeiro, entre 9767 concorrentes); Encontros e Desencontros (poesia, 1992, com 2ª edição em 1995 - Menção Honrosa, quando inédito, no II Concurso Nacional de Poesia da Academia Ribeirãopretana de Letras); Cabeça de Mulher (Menção Honrosa no Prêmio Eça de Queiroz/Categoria Conto, para livros publicados em 1998); Trovas para Refletir (Elite, 2009). Fez verbetes para a Enciclopédia Badem (Iracema, 4ª edição, em diante, 1976). Traduziu (Francês) em versos as Centúrias de Nostradamus e o Inquietante Futuro, de Ettore Cheynet, e O Mundo Mágico dos Sonhos, de Mário Mercier ( Pensamento, 1983). Redatora (parcial) de Prestes, por Ele Mesmo (Martin Claret, 1994). Obteve muitos prêmios avulsos, com vários primeiros lugares, em Concursos de Poesia, Trova, Haicai, Conto, Crônica e Slogan, no Brasil e em Portugal. Numerosas inclusões em livro como prêmio. Por sua atuação jornalística, fez jus a duas Moções de Aplausos, em 1959 e 1966, aprovadas pela Câmara Municipal de São Paulo, por proposição, respectivamente, dos Vereadores Jayme Rodrigues e Dulce Salles Cunha Braga. Como ecologista, recebeu diversas honrarias, como a Medalha "Comemorativa da Campanha de Educação Florestal", concedida em 1956 pelo Serviço Florestal do Ministério da Agricultura. Em 11/ 09/1969, fundou, com a colaboração de Amaryllis Schloenbach, a Seção Municipal de São Paulo da União Brasileira dos Trovadores - UBT, à qual presidiu até 1976. Desde 1973, vem realizando a coluna "Trovas", em vários jornais e revistas da Capital Paulista, e, em 2007, registrou 30 anos dessa publicação em O Radar, de Apucarana - PR, jornal editado por Rosemary Lopes Pereira. Desde 2004, a coluna é estampada também em BALI - Boletim Acadêmico Letras Itaocarenses, de Itaocara - RJ, editado por Kleber Leite. Tem poesias musicadas por Américo Antonio Pastor e gravadas por Francisco Egydio e Katia Castelar ( Odeon). Em 1997, completou o Cinquentenário de Literatura.

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Marciano Vasques é o fundador de PALAVRA FIANDEIRA

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Esta edição de PALAVRA FIANDEIRA é dedicada à
ROSEMARY LOPES PEREIRA
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Créditos das fotos e imagens:
1. LUAR: Blog "Contando Nossa Arte Através da Poesia
2. Bolhas de Sabão: Blog "Minha Victória"
3. Colibri: Site North American WilLife
4. Rosemary Lopes Pereira - Acervo Jornal "O radar" - Apucarana - PR

domingo, 10 de janeiro de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 9

 PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA LITERÁRIA
ANO 1 - Nº 9 - 10/01/2010

NESTA EDIÇÃO:

EL PICAFLOR DE MI PATIO  II  - Ricardo Emílio Bianco - Missiones - Argentina


ROCÍO L´AMAR 
ENTREVISTA 
ROSSANA ARELLANO


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ANATOMIA DO HAICAI E O SILÊNCIO DE ROSSANA ARELLANO

Tudo aquilo que de uma fotografia se pode fazer, segundo Vicente Haya, é um haicai. Um jogo poético. Uma forma poética japonesa. Um poema breve, não obstante, eterno em importância, em significados, no qual se espera frescor e simplicidade, surpresa e mistério. Poesia da sensação. O haicai - fundamentamos - nos em seu princípio - diz mais com o que silencia do que o que torna evidente. O haicai se separa do abuso do "Eu", do ego, do protagonismo. O haicai faz referência à aproximação do homem com a natureza. Entretanto, atualmente a temática se viu AMPLIADA pela marcha do tempo. A fugacidade das coisas e seus extremos antagônicos, o desalinho ou feiúra da própria beleza, isto é, a nostalgia, a interioridade da consciência do ser humano, o abandono consigo mesmo, os elementos imperfeitos e débeis, o simples, o incomum, o humorístico, a pincelada de ironia - entre outros - são organizados pel@s poetas a criar os haicais.

Mas, o que é um haicai?

Haicai é um conjunto de três versos disposto em 5-7-5. Não tem título nem rima. Esta peça chave da poesia japonesa emerge de uma extensão para dar origem a este novo estilo poético. Alcançou sua forma atual ao final do século XV e deve seu nome ao poeta Shiki (1867 -1902). Quanto à sua forma contemporânea, o haicai não deixa dúvidas: são o fundo e a temática dos elementos mais complexos. Matsuo Basho, considerado como o pai do haicai, afirmava: um haicai é simplesmente o que está acontecendo neste lugar neste momento. Por exemplo, "sopra o poente, e ao oriente empilham / as folhas secas" (de Buson), "Uma velha lagoa/ ao mergulhar de uma rã/ ruído de água" (de Basho). "Vento outonal /dentro do coração/ montes e rios" ( de Kioshi).

Todavia, alguns críticos afirmam que o haicai não é um fenômeno literário, mas apenas uma arte menor. A causa do motivo seria pelo fato de que esteja ao alcance de qualquer um escrever um bom haicai, e que na produção de poetas consagrados hajam haicais medíocres.


Provando-se distintas roupas

Curiosamente, Rossana Arellano não reconhece em si mesma a bandeira de POETA que nela flameja. Não está convencida, embora pese às suas evidentes conquistas - um sem número de elogios e críticas construtivas. Mas o certo é que seu discurso resulta altamente significativo e profundo. A poesia fica assim, por uma parte, convertida num campo benéfico e, por outra, vivendo tanto interna como externamente, dispondo-se de uma realidade herdada como testemunha de primeira fila de um processo próprio da luz de verdadeiras réplicas donde a vida pôs seus acentos, provando - a, enquanto surgem nela amargas tempestades, e ao amparo destas - enraizando-se profundamente - os indícios, ainda que manhosamente Arellano prossiga negando, sua entrada ao discurso poético atual.



Portanto, corresponde frontalmente ao nosso propósito, aprofundar e refletir no espírito da condição humana, transcendente para o plano social/literário.

Entretanto, ainda que não seja uma questão deste tema, quisera fazer um parênteses, com o único objetivo de dar respostas a certos equívocos que parecem frear as habilidades intelectuais desta poeta. Pessoalmente, afirmo: se bem que publicar livros exige oxigênio e asas, como dizem os entendidos, o poeta não deve ter pressa por ver seu livro publicado, porque quando mais madur(@) esteja, melhor.

De modo que, esclarecido o tema, desde o ponto de vista ético, recolhemos os instrumentos para convidar a Rossana Arellano Guirrao, premiada recentemente com o Primeiro Prêmio no Concurso "Lídia Biery" - 2009 de haicais, para escutar sua abordagem de acordo com o tema que nos convoca.




1. Sabemos que o haicai é um poema breve, escrito em três versos e que ao total somam 17 sílabas.. Em sua opinião, o que caracteriza o haicai seria aquilo que o distancia das formas poéticas tradicionais em seu conteúdo?



- Estimada Rocío, primeiramente devo iniciar dizendo que sou uma aprendiz de Poeta, se bem que sempre amei a poesia, mas relativamente à técnica e ao estilo, só comecei a me preocupar há 3 anos. Para mim o haicai talvez seja uma das mais belas expressões poéticas. Diria que não seja que essa forma criativa se distancie dos demais modos de expressão poética, mas que as outras se ponham alheias.

2. Dizia Andrei Tarkovski, que "O leitor de haicai tem que perder - se nele, como na natureza, tem que deixar-se cair nela, perder-se em sua profundidade, como em um cosmos, donde tampouco há um acima e um abaixo...". Entre o leitor e você, Rossana Arellano, qual seria a aventura ou como deveria ser - em sua mente - essa excursão?


Apesar de eu valorizar muito o que disseram os outros antes, pois cada vez com eles mais se aprende, sem ser sorberba, digo: no haicai, como em toda manifestação de arte, o autor é quem deve deixar sua essência ao criar. E só consegue se for autêntico no que faz, é como injetar gotas de seu sangue no leitor, nem mais nem menos.

3. Concordaria que o haicai é uma arte de comunhão espiritual, tanto para quem os escreve como para quem os lê?

- Sim, completamente para quem o escreve, ainda que desconheço como sentem os demais. Veja bem: quisera pensar que não apenas nos lemos entre nós (poetas e aprendizes). Nada há mais que acrescentar.

4. Críticos literários - obviamente alguns - costumam contemplar a simplicidade e a clareza do haicai como sinal de ignorância ou inexperiência do/a poeta. De acordo com seus critérios, em relação à categoria literária - como gênero literário, adiciona ou subtrai?



- Atualmente, os "críticos literários" perderam toda a credibilidade, visto que são como espécie de membros tirados de um arquivo bastante gasto, mas não assim folheado Poucos sabem o que realmente significa um haicai e creem que basta apenas pôr 17 sílabas e já está tudo ok. Com isso, não eximo ao "poeta" porque no geral o que circula são Poetrix e todos vamos caindo no mesmo molde do "facilito". Tal parece que ninguém mais quer pensar ou sentir, "estamos em época que tudo é desejável e qualquer um se denomina "Poeta".

5. Certamente o haicai manifesta um tenaz afastamento da fantasia, e não oculta uma realidade que o leitor possa deduzir. Bashô falava que há que seguir "a naturalidade que procede do coração". Qual seria o cerne ou a luminária que o guia a priori para este exercício/proposta/ideia escritural?


- Não sei se me creiam, porém, para os haicais fecho os olhos e flutuo no ar, ou no mar e inclusive dentro da terra...quando flui a emoção, a melodia do haicai vai se escrevendo. Só há que entregar-se às vozes internas e ouvir o silêncio interior. Não sempre presente.


6. Desde os finais do século XIX uma vanguarda de poetas europeus e hispano-americanos se interessaram pela poesia do haicai. Poetas cuja filosofia existencial se identificou plenamente com a emoção e o sentir íntimo do homem em estreito contato com a natureza. Poderia nomear alguns deles, - como referência da arte do haicai - que sejam ou foram ou serão sempre poetas de consulta de cabeceira de estudo frequente para você?

- Aqui parecerei antipática, entretanto devo confessar que lendo a Borges, cheguei a Benedetti, logo: leio, leio, - Não haicais - porém POESIA, muita poesia e faço muito malabarismo para apontar Tankas a primeira pessoa que me mostrou a beleza desta poesia, é uma espanhola da qual somente posso dizer que se chama Ana.

7. Sendo o haicai filosofia, intuição, provérbios, cânticos, enfim, sínteses de uma preocupação lírica, concisa e totalizadora,e, que, segundo dizem, em estreita relação com a física quântica, que converge em sensibilidades aparentemente antagônicas acerca da existência, será então a compreensão de um mundo interno que escapa dos desígnios da razão, ou é o vazio ou o fluxo e refluxo de uma existência que se vai modificando entre o ser e o não ser? Parece uma ideia abstrata e/ou um conceito metafísico, porém desejamos conhecer sua opinião.


- Pudesse equivocar-me 100% com o resto dos entendidos, instruídos, literatos, etc...todavia reitero, para mim o haicai é um canto desde o mais profundo do ser e sua busca para encontrar essa comunhão antes de pisar o próximo caminho, sem a razão não haveria conhecimento e sem este não poderíamos nos elevar.


É um passo a mais no novo degrau da sabedoria, por outro lado, me agrada desenhar um verso nessa síntese preciosa que somente a entregam essas 17 sílabas e sua ordem. Relembro a nossa Pia Barros e "A Ordem das Coisas", sem esquecer a Foucault.



8. Além disso, também desejamos conhecer aos haicais que mereceram o primeiro prêmio no concurso "Lídia Biery", 2009, que você acaba de receber. Aproveitamos para parabenizá -la publicamente.




1. Entre os ramos
    pássaro e seus ninhos
    dolces gorjeios.





                              2. Línguas ao vermelho
                                  Dançando na madeira
                                  Fina cinza.




3. Copas ao céu
     Pontos de vista tocando
     na clorofila.



Poesia de Rossana Arellano




ENSAIO A PEDIDO

Agarre-o! Agarre o orgulho!

E o exile.
Pegue a alma num sábado!

e a parta em mil pedaços.


Tire-lhe a rebelião
E extirpe-lhe a caneta

Faça-lhe sangrar os escritos

E pise-lhe todos os pomares.

Mate-lhe a paixão pelo provérbio

Rasgue as escrituras sagradas
que marcam a pele

como salmos com olhos.

Sacrifique-a! Depois das palavras

apague-lhe o riso quando amamentas
Roube-lhe a identidade de anjo e demônio

sacrifique - lhe a lógica que cresce em seu texto.


Que baixem os profetas em espírito!

Que os sábios opinem em profecias!
Que os templos vistam-se de metáforas

e a voz da pregação seja íntegra.



Makistakis - Madrid - Espanha

ÁGUIA NO PONTO ZERO

Escaparam as cartas da vida

às três da tarde

levantando uma brisa de luz fragmentada

que gira meu polegar em ponto zero.

Bendito seja o lugar,
o nome, a resposta
a folha, o momento entrecruzado de história

o chamado e aquele rosto adolescente

Bendita a cabala, o proibido que se transforma
O espaço, o prolongamento da vida

Aquelas somas positivas
com hipóteses que sinalizam notas de instantes acrescentados

Bendito o respeito á criação
enfatizada no gênesis

Sem bocejar, nem malícia das horas
sem claudicar no gelo.

Assim, segurando a pele dos novos dias

degolando a maldade

que furtivamente no sangue se arrasta .

Assim, sem delírio ou delito de carne

novamente a mão

preencheu de céu esses olhos.



ALINHANDO PEDRAS

Crescem as empresas nas cinzas

enquanto o homem

traz essencialmente o riso histérico.

O sol se junta para lucrar, inspirado
alinhando pedras humanas

A vida dá à luz

a meninos cegos, que fundem os momentos.

Em um aniversário de morte

se revela a infância

em mensagens isentas de máscaras.


Eles levam através da luz
amada liberdade

como um milagre autêntico

donde brincam

as mãos de Deus

alcançando um amadurecimento,

como um presente.


Francisco Pardo - Papéis de Parede

O NINHO

Vieram em bando

Queriam beber a água dos meus despertares
Bebiam meus sonhos de criança

E até aquela ponta de abandono

Bebiam a tristeza de minhas penas

Bebiam minhas perninhas azuis

Sempre, sempre enfiadas nas águas

Bebiam meus sufocos

A sonolência das minhas invenções

Bebiam no pulsar dos meus prantos a lágrima viva

Bebiam a raridade das minhas umidades

Bebiam minhas debilidades de noites sem estrelas Meu Deus! Bebiam minha inocência!

Enquanto minha face de menino
Permaneceu paralisada além, no ninho.

Onde a senhora tocava o piano

E a cada noite me contava um conto

e eu esperava a minha vez
Sempre, sempre esperei a minha vez


Entretanto, minhas perninhas azuis
Minhas peninhas despojadas de ramos
Morriam de tristeza num trinar de medo!



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BIOGRAFIA 



ROSANA ARELLANO GUIRAO:
Nascida em Santiago do Chile, em 22 de Janeiro da década de 60, viveu durante a sua infância na Décima Região do país, logo se mudando para o extremo Norte para realizar os estudos universitários, que abandona. Trabalha durante dezessete anos numa empresa familiar. Casada, mãe de três filhos, e um anjo. Atualmente vive na capital ( Santiago do Chile).

Participou de Encontros Poéticos Internacionais e Literatura Infantil em Argentina, Panamá e Chile. É membro do grupo poético Transoceánico.

Participou de oficinas literárias de Raúl Zurita, Floridor Perez, e Hector Montecinos.

PUBLICAÇÕES:


Anotologia "Versos Encadenados" a publicar em Fevereiro de 2010.


PRÊMIOS E DISTINÇÕES:

Primeiro lugar no Concurso de Haicais " Lídia B. Biery".
Foro Poético Aires de Libertad

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Rocío L´Amar é correspondente de PALAVRA FIANDEIRA no Chile
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TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS: MARCIANO VASQUES

Marciano Vasques é o fundador da Revista PALAVRA FIANDEIRA



domingo, 3 de janeiro de 2010

PALAVRA FIANDEIRA - 8

PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 8 - 03/JANEIRO/2010



NESTA EDIÇÃO: ROCIO L`AMAR
ENTREVISTA 
ESTHER MORA





UMA FORMA DE SER 
E ESTAR 
EM LITERATURA INFANTIL





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ESTHER MORA: UMA FORMA DE SER E ESTAR EM LITERATURA INFANTIL


Não menos interessante é refletir em um território pouco conhecido. O território da mulher e o papel das mulheres, os efeitos psicossociais e literários e seus impactos, desde ser filha, mãe, avó, através da história. E a tudo isso somamos ESCRITORA, escritora de Literatura Infantil. Medra essa análise sobre a busca de estados alternados de consciência. Esther Mora vive o que difunde e não trabalha pensando em ser complacente em cultuar academicismos, classicismos retumbantes, pelo qual não teme dizer o que pensa nem escrever o que escreve.

Um sonho para adeptos. Adeptos da palavra. Esther Mora compreende a importância da literatura infantil - como aprendizagem - dentro do processo educativo, uma instância de aproximação a uma realidade que é e já fora nossa: a infância. E neste processo de formação da crianç (@) desenha, elabora, constrói propostas literárias/educativas no marco do ensino. Construtiva e participativa. Apreciação e reflexão. Pedagogia. Com todos os obstáculos que se apresentam em nível editorial, econômico, que interferem na vida de um (a) escritor(a) que vive em uma cidade distanciada do parnasso, a capital. Quero dizer, discriminação, paradoxos, considerando que a melhor literatura do Chile teve e tem como plataforma a província (Não esquecer os dois prêmios Nobel de Literatura que o Chile tem).



Os primeiros textos de Literatura Infantil editados no Chile datam do período da instauração da imprensa em 1812. Foram livros de caráter pedagógico e religioso, escritos em sua maioria por sacerdotes espanhóis com o objetivo de educar às crianças chilenas.


Posteriormente, com a passagem de séculos, surgiram novas tendências e autores cuja preocupação central foi educar mediante métodos mais didáticos. Assim, em 1908 veio à tona a primeira revista chilena para crianças. El Peneca, criada pela editora Zig - Zag. Nas décadas seguintes, surgiram outras revistas similares. Além disso, foram publicados os primeiros contos de escritores (as) chilenos (as), entre eles cabe destacar " Aventuras de Juan Esparraguito", ou " El Niño casi legumbre", de Augustin Edwards, um verdadeiro tesouro bibliográfico. Outros precursores foram: Blanca Santa Cruz Ossa, Henriette Morvan (A Daminha Duende) e Ester Cosani, que viria a trabalhar mais tarde com sua filha Beatriz Concha, a quem pessoalmente conheci.


Por essa época vieram escritores (as) mais apegados ao folclore e às traduções populares. Ernesto Montenegro, autor de "Cuentos de mi tio Ventura " (1938) e "Por qué el Petirrojo tiene el pecho rojo". Logo vieram Maité Allamand com seu livro "Alamito el largo" (1950) e Carmen de Alonso, que se inspirou em relatos orais e lendas. Ainda assim, Gabriela Mistral, que compôs poesias dedicadas às crianças, principalmente em suas obras "Tala" e 'Ternura". Posteriormente, outros poetas seguiram essa iniciativa e escreveram poesias para a infância, muitas das quais incluídas em antologias.



Importante passo para a literatura infantil no Chile foi a fundação da IBBY Internacional Board On Books for Young People: organização Internacional para o Livro Infanto- Juvenil, em 1964. Graças a esta entidade, finalmente os escritores podem reunir-se para realizar atividades em conjunto e impulsionar novas publicações.

Por ela, na crença e na certeza da importância da literatura infantil, tanto chilena quando LatinoAmericana, é que convidamos a Esther Mora para abordar, a partir de sua perspectiva de escritora de Literatura Infantil, esta matéria.



1. Que papel, pensa você, cumpre a Literatura Infantil no cultural, social e educativo?



O papel da Literatura Infantil neste momento é mais relevante do que se pensa, pelo seguinte: A tecnologia mudou a forma de viver e repercutiu em nosso hábitos, por exemplo, nos tempos destinados à recreação ou informação, devidos aos diversos estímulos tecnológicos, e influiu também na linguagem escrita juvenil que tende a ser mais breve. Se salvam as vogais. Etc. E o tempo destinado à leitura literária propriamente como tal não existe. Não o alcança, por que além - da falta de interesse - o jovem se acostumou à imagem, ler lhe resulta "mais tarde", aborrecido, significa fixar sua vista em algo que não se está movendo, e como já se acostumou à imagem, torna-se para ele dificultoso concentrar-se.



Entretanto, se tentarmos fomentar a leitura desde a primeira infância, será menos provável que a criança desista de ser um bom leitor posteriormente. Formar o hábito bem cedo, na idade de 4, 5 , 6 anos é o ideal e o que se toma como propósito. Porém, a verdade é que estamos formando um "homo videns". Essa espécie de homem vê muito, mas não pensa. O pensamento fica bloqueado. A menos que venhamos a começar a fomentar a leitura e a escritura, (como fazem os colégios de Concepción,desde o pré, como o como o Kingston College)
A tentativa de ser mais do que um "homo videns" seria o que a literatura infantil pretenderia conseguir nos três âmbitos: Cultural, Social e Educativo. Porém, sejamos realistas: Possui escassos seguidores.

2. Existe uma grande parte da literatura considerada como infantil que permanece em um terreno de ninguém, quero dizer, se acredita que a literatura infantil seja só um ramo da grande literatura. Que opinião tem você? A Literatura Infantil tem suas próprias leis - como assinala Manuel Peña Muñoz, em seu primeiro estudo sobre esta matéria: "História de la literatura Infantil chilena", publicado em 1982 - e pode interessar tanto à criança quanto ao adulto?


Há uma crença de que escrever para crianças é mais fácil do que escrever para adultos. e isso não passa de um preconceito, que pode ser atestado ao se ver quantos poucos escritores estão escrevendo para os pequenos. Talvez vislumbrem que o livro em geral está em decadência, é pouco atrativo diante da avalanche de imagens que mantém as crianças estáticas inibindo-lhes a capacidade imaginativa, lúdica e criadora.
Concordo com o pesquisador e escritor Manuel Peña Muñoz no que se refere a que no princípio havia somente uma literatura, o as crianças se apossaram dos textos para adultos: Gulliver, e vice- versa, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, eram no princípio para crianças mas foi tomada pelos adultos, dando-lhe diferentes conotações. Evidentemente, que a complexidade de escrever para crianças passa pela simplicidade, a transparência e tem suas leis próprias.

3. Há boa literatura infantil no Chile?

Tenho entendido que a qualidade de uma obra infantil se mede em não cair em moralismos, excesso de pedagogia e didática, tratando de ir mais ao entretenimento e ao voo imaginativo. Nem todas as obras escritas no Chile cumprem esse requisito. Caber agregar que isso as próprias crianças têm que manifestar-se. Na realidade, elas são os juízes nesse tema. Temos que reconhecer que é um terreno difícil capturar a atenção de uma criança, submersa constantemente em filmes estrangeiros e caricaturas absorventes, geralmente de tipo estrangeiro.É uma jornada dupla, falta de hábitos de leitura, predominância da imagem tecnológica, sem nos esquecer-mos custos de um texto.
Diante disso, quem poderá se preocupar de que exista ou não boa literatura infantil? Dão facilidades concretas aos criadores de textos infantis? Há espaços destinados nos colégios para que possam mostrar a sua obra? Existem concursos? Agora, se nos aplicar-mos aos estudos realizados a respeito, dos cento e sessenta anos que tem a "Literatura Infantil" no Chile, uma vida curta em comparação aos países europeus, a nossa tem um vocabulário pobre, lugares comuns e não é capaz de criar empatia com os reais interesses da criança de hoje.


4. Marcela Paz, que com Papelucho tentou instalar-se dentro do mercado dos textos escolares, e livros educativos, pois são usados como materiais didáticos em uma etapa de nossa vida, além do mais, livros plenos de ilustrações para crianças, donde Papelucho tem sido retratado uma e outra vez. A Literatura Infantil do Chile tem um campo de ação muito motivado pelos escritores consolidados. Gabriela Mistral também redigiu importantes textos para crianças, os mesmos que até aos dias de hoje se leem e valorizam de forma positiva, entre outr@s escritores (as). Dito assim, como percebe você a Literatura Infantil que se está escrevendo hoje em dia? Ou está longe de ser tão potente como a pena das escritoras citadas?

Bem, admiro muito a nossa Gabriela Mistral. Penso que há uma parte de sua produção chamada de Literatura Infantil, a que fala de crianças, que está dirigida aos adultos, para valorizar, amar e resgatar a infância que sofre. É mais que nada uma conscientização da injustiça e crueldade que somos capazes enquanto sociedade mal organizada. Isso é o que me diz a mim, por exemplo, o famoso poema "Piececitos de Niños". Ela tinha um pensamento muito claro a respeito. Porém creio que esses poemas os criava sem apontar ou enfatizar injustiças, senão que os criava impulsionada numa empatia com o mundo da infância e essa maternidade intrínseca que carregava. Toda a sua obra "Ternura" nos comunica o imenso amor que desejava tornar pródigas às crianças do Chile, e é, no essencial, um livro que ela desejaria ter lido em sua própria infância, segundo se manifestou.
Quanto à Marcela Paz, aqui começa uma etapa mais lúdica e que se identifica com o ser criança no Chile da classe média alta, com uma babá, casas grandes, etc.


Cabe mencionar o livro das perguntas de Pablo Neruda e suas Odes elementares, que também são dirigidas às crianças.

De tal modo que foram feitas grandes obras literário- infantil, porém a criação continua e com muitos bons autores. Podemos relacionar alguns:Ana María Güiraldes,Saúl Scholnik, Alicia Morel, Hernán del Solar. Não podemos deixar de fora a Marta Brunet e a María Luisa Bombal, ambas escritoras relevantes, e seguramente, muitas outras que desconhecemos se estão gestando.

É um desafio cada vez maior tirar as crianças da TV, tanto para que leiam como para que brinquem. Por tudo isto, temo que as mais potentes penas que existam só serão avaliadas, como sempre, por esse grande juiz que é o tempo, conjuntamente com os próprios leitores.

5. Faz um tempo que se criou a Feira do Livro Infantil para se difundir obras, e, por outro lado, o Conselho do Livro e a Leitura tem estimulado o gênero através de concursos e prêmios às melhores obras infantis. Quais novos escritores, em nível nacional, poderia assinalar você, em novos estilos e tendências que estejam a si próprios fornecendo-se à literatura infantil, e quem, em sua opinião, em nível regional, também está sugerindo diversas linhas de trabalho no campo da literatura infantil chilena?

A feira se realiza em Santiago, por ser de província. Não tenho muitas possibilidades de viajar e observar o que se está editando na atualidade. Com relação à sua pergunta, já citei os autores que considero relevantes atualmente, desconheço outros mais recentes que se dediquem a escrever especificamente para a infância. Não estou conectada ainda com essas redes, sobre as quais não me cabe dúvida, foram gestada graças ao poder da Internet.


6- Conte-nos, Esther Mora, até onde se orientam seus relatos: fadas, duendes, mitos, ou ressalta a vida das crianças na atualidade?
 Tudo procede de uma bagagem guardada numa distante infância da autora, donde ansiava intensamente que lhe contassem e não havia pessoas dispostas. E desejava que lhe falassem desses duendes que vivem sob a terra como verdade demonstrada e absoluta.
Meus contos falam do que não vemos, nós, os adultos,  mas, sim, veem as crianças: as fadas, os duendes. Também os animais, todo o zoológico ao meu alcance. E essas crianças que sofrem abandono por causa do incessante trabalho dos pais. E também tratam dos pequerruchos que se agitam e se irritam ao serem levados ao doutor, uma gente desconhecida,  que os manuseiam com as mãos (Vivências de um bebê), e uma bruxa preocupada com o meio ambiente que habita em Kosmito , e das crianças que desejam resgatar os jogos infantis de outrora. Além disso, estou me orientando às fontes, à capacidade das mesmas crianças de criar, e para além apontamos. Criar com elas, penso, deve ser uma experiência imperdível hoje.




BIOGRAFIA

Esther Mora nasceu em Santiago do Chile, viveu sua infância e adolescência em Talcahuano. Estudou no INCOTAL (Instituto comercial de Talcahuano). Logo realizou estudos de Pedagogia na Universidade Católica, sede Talcahuano, e Sociologia na Universidade de Concepción.


Publicou:

“Chiloé y el Olvido”, 1992 (1era Edic.),1993 (2da Edic.)1998 (3era Edic.).
“El Duende Donde”, 1998, Guión Infantil, Ediciones ARTEMISA.
“La Reina de Miel”, 2000, Ediciones ARTEMISA.
“Vivencias de un Bebé”, 2005, Ediciones ARTEMISA.
“El Tomate Tímido”, 2008, adivinanzas, Ediciones ARTEMISA.
“A partir de un Haiku”, 2008, obra minimalista, Ediciones ARTEMISA.
“El Sofá color pistacho”, 2009, novela breve, Ediciones ARTEMISA.
“De Poemas en el Café”, 2009, Ediciones ARTEMISA.

Prêmios e distinções:

V Concurso de Poesia “Vicente Huidobro”, Soc. de Escritores Jovens de Linares. Segundo Lugar, Outubro 1993.

*Primeiro Concurso Regional de Contos “Dolores Pincheira”, 1994, SECH, Menção Honrosa, Concepción, 1994.

*Obtem o Fondart Nacional para publicar a revista ARTEMISA Nº 5 e 6, ano 2007.


Gestão Cultural:

-Noite Furtiva, encontro artístico de poetas locais, Centro Artístico Cultural Comunal de Concepción - 2006.

•Tertúlias à sorte da onda, Centro Artístico Cultural Comunal de Concepción - 2007.


Poesia à Candola- Centro Cultural Artefacto - Julho 2008.
Centro Espanhol "Poetas del Bío Bío" - Março 2009.
Exposição Livros e Charlas, Biblioteca Central Universidad de Concepción/Escritores Independentes. Mês do Libro - Abril 2009.
•Criadora e difusora da revista ARTEMISA.


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A GATINHA FIDELMA


Como toda gatinha, seu olhar era suave e seu passo elástico e silencioso. Gostava de almoçar berinjela com creme ou bem papas com amêndoas e nozes.
Passava muito tempo preocupada com sua roupa. Que iria vestir? E se avistava a uma outra gatinha com um formoso vestido, imediatamente ia ao Shopping Center e buscava um igual. Logo lhe aborrecia tudo o que ela tinha e achava que aquele que tinha suas amigas gatinhas era melhor. Um mal dia, o papai da gatinha Fidelma não mais recebeu dinheiro visto que seu trabalho havia terminado. Seus pratos favoritos não se cozinhavam mais e tampouco poderia comprar vestidos novos.
Tempos depois, Fidelma não era a mesma gatinha caprichosa e presunçosa

As dificuldades vividas a transformaram notavelmente. Olhava ao seu redor com mais carinho e bondade e com menos apego aos objetos. Quando seu pai encontrou um novo trabalho, ela ficou mais feliz do que se tivesse um vestido de pérolas com luzes de ouro.

Desde esse dia, abandonou esse hábito de invejar aos demais e valorizou muitíssimo tudo o que lhe podiam oferecer seus queridos pais.

Compartilhou suas coisas com os que passavam momentos difíceis, que ela tão bem conhecia. E se empenhou em ser diferente e mais simples. A mudança de Fidelma foi para ser uma melhor pessoa. Verdade, crianças? E vocês, agradecem aos seus pais seus cuidados?


A RAINHA DO MEL

Era formosa, os olhos de mel e a voz açucarada. Os cabelos lhe caíam em suaves cachoeiras prateadas, outorgando-lhe um majestoso aspecto, uma áurea de rainha.
Sua diária tarefa consistia em reforçar ou ajudar as demais abelhinhas a sugar o néctar das flores. Campanulas azuis e florizaleias. Assim ocorria todos os dias, até que se desenhou no céu uma nuvem ameaçadora precedida por um ruido atemorizante. Ao divisá - las, as abelhinhas reconheceram aos seus sempre inimigos, os besouros. Eles devastariam em poucos segundos todo o plantio de flores silvestres.
As abelhas se ocultaram no solo sem respirar, mas a rainha do mel enfrentou a ameaça - Stop! Stop! - disse. Desviem - se da rota ou sentirão ferroadas tão fortes no lombo, que morrerão de febre.
O líder dos besouros tão orgulhosamente franziu a carranca e não deu maior atenção à advertência - São umas estúpidas! - pensou. Os covardes podem retirar-se das filas -  rosnou o besouro chefe. Voavam sob o céu e começaram a descer sobre o campo repleto de flores e abelhas.
Produziu-se uma batalha grandiosa e em meio ao tumulto, a rainha do mel se encontrou face a face com o chefe dos escaravelhos. Ocorreu que no coração duro, insípido e sempre frio deste, operou-se uma inesperada transformação tão logo contemplou o doce olhar da rainha. Sua distração atingiu a tal ponto que não foi capaz de confirmar a ordem de arrasar o campo.

No céu abriu-se uma luz claríssima e branca como nata de leite e em vez da balbúrdia própria de uma batalha, ouviu-se uma música melodiosa e romântica que seguramente vinha dos anjos celestes que chegaram justo a tempo de impedir a destruição a qual cairiam as abelhas e as flores campais.

O besouro pousou seus olhos na formosa rainha do mel, que também havia sentido a força do amor, que não destrói, ao contrário, cria mais vida.
Por essa vez, as abelhas e as flores se salvaram e ninguém teria que chorar por elas.
Assim, amiguinhos, o mel que lhes serve no café da manhã, traz escondido uma história de amor que é esta. A maior, de um amor, que é doçura.


Rocío L´amar é correspondente de PALAVRA FIANDEIRA no Chile

Tradução para o Português: MARCIANO VASQUES