EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 15


 PALAVRA FIANDEIRA

REVISTA DE LITERATURA

ANO 1- Nº 15 - 07/FEVEREIRO/2010

 

 "A vida é um fio de linha, seja o que Deus quiser."Jamelão

NESTA EDIÇÃO:

ENTREVISTA HISTÓRICA:

DANILO VASQUES 

ENTREVISTA 

JAMELÃO

 

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REMEMORANDO JAMELÃO


Famoso intérprete da Mangueira, morto há quase dois anos, cedeu longa entrevista em 2006 ao jornalista Danilo Vasques. Releia aqui um pouco da história do cantor que dizia que o carnaval já não existe


Por Danilo Vasques


No início de 2006, conheci Jamelão. Digo, conheci o homem sob o indefectível chapéu, dialoguei com aqueles olhos que muito diziam, apertei as mãos que seguiam envoltas nos tradicionais elásticos e que ora buscavam apoio numa bengala. Antes da entrevista, tive a oportunidade de vê-lo soltar a voz no palco de um bar em São Paulo. O show, que durou mais de duas horas, ocorreu na primeira noite de fevereiro daquele ano.

Dois dias depois, encontramo-nos num hotel no centro velho da cidade. Eram dez horas da manhã, ele vestia uma camisa metade verde e rosa, metade vascaína: duas paixões declaradas. A bengala ele recostou de lado e os óculos pôs sobre a mesa junto às chaves do quarto que o hospedava. Começava a entrevista.

José Bispo Clementino dos Santos, o homem por trás do músico, falou sobre a infância, criticou o atual carnaval, comentou as influências que foram argamassa para seu canto e disse que não fazia aquecimento antes de subir ao palco. "Quem tem a garganta boa canta. Quem não tem não pode cantar".

Levando a vida ou sendo levado por ela, disse que entrou no samba porque o caminho assim se fez. Cantou aqui, cantou acolá e quando viu "estava profissional da coisa". A carreira ascendeu, ganhou a avenida e as vitrolas. Jamelão se tornou um nome forte do carnaval carioca, mas não só, cantou também o amor em letras que versavam, entre outras coisas, sobre a solidão e a saudade. Lupicínio Rodrigues seria sempre lembrado por ele.

A conversa garantiu uma edição do programa Refletor1, um título de jornalismo cultural que passou em São Paulo via cabo. Ainda naquele ano, em julho, uma reedição da entrevista saiu publicada no número 47 da revista Ocas"2.

Ainda em 2006, falamo-nos novamente no dia em que ele celebrou seu aniversário (nasceu em 12 de maio, mas a festa foi realizada algumas semanas depois, após novo show). Naquele ano, vieram dois derrames. Jamelão morreu tempos depois, em 2008, passado dos noventa anos (ele havia pedido para não publicar sua idade).

Na intenção de reavivar suas palavras, suas memórias, trago para Palavra Fiandeira a entrevista realizada numa manhã de sexta-feira. Leia a seguir os principais trechos publicados à época. 



O senhor vendia jornais em Vila Isabel aos 15 anos. Ali foi o seu primeiro contato com o samba, com a Mangueira?

Jamelão: Na época em que vendia jornais foi que eu conheci a Mangueira. Eu não vivia em negócios de samba, essas coisas, música, não tinha interesse nenhum nisso ainda. Lutava pela vida, tinha o trabalho que eu fazia para ganhar dinheiro e ajudar em casa. Para mim, samba não era nada, o problema era vender o jornal. Um belo dia, o Lauro do Santos, rapaz que trabalhava também na distribuição de jornais, me convidou para conhecer a Mangueira, uma coisa que jamais pensei que iria participar da minha vida. Fui lá por curiosidade, porque a maioria dos caras que vendiam jornais costumava ir. Eu vendia jornais em outros bairros, em trens, em bondes, andava pelas ruas ali da periferia. O carnaval era coisa que eu não participava. Não nasci no morro, não morava no morro, não conhecia o que era samba. Eu nasci em São Cristóvão (RJ), do outro lado do morro, onde não havia samba. Depois, fui morar em Engenho Novo. De repente, eu me envolvi com a Mangueira, me receberam bem e fui ficando. Eu não tinha nada para fazer e ia dar um pulo lá, ia bater papo, bater uma “pelada” de futebol. Quando eu vi, estava me envolvendo com música. Comecei a conhecer músicos. Depois, fui conhecendo as casas noturnas, fui na gafieira, aprendi a dançar, comecei a frequentar bailes. E como eu tinha queda para cantar, um belo dia me disseram: “Vá cantar no baile”. Entrei e fui cantar. Deu certo. Começou outra vida. Fui tomando gosto e aquilo foi me levando para aquele caminho. E no meio da música, encontrei pessoas que começaram a me ensinar um pouco de música. Comecei a caminhar e fiquei até hoje.

Foi na gafieira que surgiu o apelido Jamelão, correto?

Jamelão: Justamente. Eu frequentava a gafieira e o gerente da casa, seu Euclides, não sabia meu nome e estava me chamando para cantar, como eu não tinha apelido, ele falou “e agora, vou apresentar o Jamelão”. Foi o batismo. Quando eu vi, estava profissional da coisa. Não estava mais fazendo o trabalho do jornal como fazia. Fiquei mais na música porque tinha que trabalhar à noite. Estava amarrado e amarrado fiquei até hoje. Ainda estou rolando igual às pedras. Não posso me queixar, porque tirei algum proveito da coisa, para poder viver melhor, poder pagar minhas coisas, ajudar minha mãe, minha irmã. Tive cabeça para isso, hoje elas não estão mais comigo, mas valeu a pena ajudá-las.

Nesse começo, o senhor ouvia Vicente Celestino, Chico Viola, Orlando Silva, Cyro Monteiro...

Jamelão: É, eu me mirei nesse espelho, porque eles eram as atrações da época: Francisco Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Aracy de Almeida, Dircinha Batista, Linda Batista, depois, surgiu Elizeth Cardoso e outros cantores. Eu fui aprendendo muita coisa com esses veteranos, fui procurando progredir, fazendo conhecimento com compositores. Foi naquela época que conheci Cristóvão de Alencar, Lupicínio Rodrigues e João de Barro. Eram os “cobras” daquele tempo e eu fui aprendendo muitas músicas dessa gente. Um dia, me soltei mais e me levaram para gravar [simula expressão de susto], eu meti a cara e cuidei da minha vida, uma vida dependente de música... Tinha de estar sempre procurando apresentar coisas novas, diferentes. Consegui me tornar uma atração também... Agora é a hora de ficar devagar, não preciso ficar correndo muito, se for preciso, a gente tem que correr. Tudo se acaba, então, a gente não pode ficar dependendo de uma coisa só. Já fiz muitas coisas. Vivendo de música e também fiquei como funcionário público estadual [atuou como investigador de polícia]. Hoje, estou aposentado e procuro tirar proveito do que eu aprendi: música.


Quando o senhor está no palco, o prazer de cantar é o mesmo do início da carreira?

Jamelão: Comigo tem sido assim. Eu acho que sempre que a gente tiver que fazer alguma coisa, deve fazer com o coração, com boa cabeça e coração [aponta para a própria cabeça e bate no peito]. Muita gente não emprega isso. Mas a pessoa tem que se dedicar de corpo e alma, ou se dedica seriamente ou deixa de lado, não atrapalhe os outros, porque sempre tem alguém que quer produzir alguma coisa. Hoje está bem complicado, porque a gente vê muito cara querendo ser sucesso de repente e não é bem assim.



Hoje, o carnaval é muito diferente se comparado a antigamente, os blocos...

Jamelão: O carnaval hoje não existe. Hoje tem o que? Desfile de escola de samba... Aqueles blocos bons acabaram, não aguentaram a parada, se dissolveram. Hoje é mais um comércio. As escolas passaram a comercializar baseadas nos enredos. Apareceram elementos que se autorizaram a dominar o samba. As escolas estão presas a um contrato com a Liga e a Liga presa ao contrato da televisão. Não tem mais bailes. O carnaval passou a ser uma festa de dar lucro. Infelizmente, acabaram com a palavra carnaval. Tem uma festa que eles vão todo ano, pagam, às vezes, um preço grande em cima do desfile e fica aquele povo todo na arquibancada. São pessoas que querem brincar, mas como não tem mais carnaval de rua, de clube, vão para arquibancada e ficam lá vendo passar aquela porção de escola de samba, de horário marcado [enfático]. Samba antigamente não tinha horário marcado, hoje tem... É um galope, o sambista passa [Jamelão gesticula, finge estar caminhando no mesmo lugar] e não tem tempo para dar um “alô” para televisão. Lamentável. Eu acho que cada dia está ficando pior, porque é uma correria. “Vamos que vamos senão perde ponto”. É uma loucura o carnaval. Carnaval? O desfile. O carnaval, continuo dizendo, acabou, não existe. Existe desfile de escola de samba.



Sente saudades?


Jamelão: É uma pena porque em uma época, anos atrás, eles terminavam os desfiles ao meio-dia. Mas você via a qualidade da dança, as fantasias. Hoje, quando você vê já acabou o desfile. É mais ligeiro que um desfile militar... Muita gente vem de fora, paga não sei quanto pela fantasia para passar ali correndo. Ninguém mais pode dizer “ah, brinquei carnaval”. Não brincou, desfilou na escola de samba.

Victor Simón, autor de “Bom Dia, Café”, “O Vagabundo” e “Vagalume”, músicas que fizeram sucessos nas décadas de 1950/60, morreu recentemente em São Paulo (16/5/2005), aos 88 anos, no esquecimento, sem condições financeiras, morando em casa de amigos. O senhor acredita que falte um pouco de memória no cenário musical brasileiro?

Jamelão: Também isso faz parte da coisa, a falta de memória. De uns anos para cá, o público perdeu a memória desses compositores, porque as rádios não tocam mais. As músicas nas rádios que tocam não são essas músicas antigas de carnaval, ninguém quer fazer mais música deste estilo, para fazer samba já é difícil, quanto mais essas marchinhas de carnaval. Aquele samba de carnaval predominava de outubro até fevereiro, o público ficava impregnado de carnaval. Hoje, as escolas de samba competem, mas você aprende, às vezes, somente um samba daquela massa. O autor desaparece porque não toca. As emissoras estão procurando notícias de tiroteios, greves, é só o que você ouve o dia inteiro.

Quando o senhor vai interpretar um samba-enredo, ou encarar um show de duas horas, faz uma preparação especial?

Jamelão: Eu não faço preparação nenhuma. Eu digo “vou tomar um goró” e meto a cara [gesticula como se estivesse bebendo – no show, os copos de Jamelão levam água tônica e cerveja preta]. Vou fazer um gargarejo? Vou fazer um gargarejo coisa nenhuma. Gargarejo vai resolver? O “cara” que tiver que ficar rouco fica mesmo. Negócio de preparação é mentira, quem tem a garganta boa canta. Quem não tem não pode cantar.



Tem uma música que seja especial no momento da apresentação, que o emocione mais?

Jamelão: Bom, tem... É muita coisa [alterna a expressão, parece falar como se estivesse se referindo a outra pessoa: o personagem-cantor]... Ele tem que interpretar, tem que sentir aquilo que canta, se não sentir a música, ele não dá condição. A música pode ser de A, de B, de C, mas cada um tem aquela sua maneira de colocá-la no ouvido do público, fazer com que o público preste atenção. Antigamente, quem dominava? Orlando Silva. Chegava cantando aquelas músicas românticas. Ele, ao meu ver [olhos baixos miram a mesa], sempre foi o mais romântico dos cantores brasileiros. Suas músicas eram tiro e queda, gravar uma música com Orlando Silva era dinheiro em caixa. Cada vez que ele aparecia cantando marcava época. Todo mundo aprendia música dele. 


Muito obrigado.

Jamelão: A vida é um fio de linha, seja o que Deus quiser. 
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 DANILO VASQUES
Danilo Vasques é jornalista e fundador do blog CAFÉ DE OUTUBRO.
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Rodapé:

1 O programa Refletor, uma produção da Universidade Cruzeiro do Sul, foi veiculado pelo Canal Universitário de São Paulo entre os anos 1999 e 2008.

2 Ocas" é uma publicação da Organização Civil de Ação Social. Em www.ocas.org.br é possível conhecer mais sobre ela e sobre o trabalho de integração social desenvolvido.


Créditos da imagens:
Jamelão: Reprodução de TV, programa Refletor, Cruzeiro do Sul TV.
Danilo Vasques: Fotografia realizada por Jéssica Lima.
PALAVRA FIANDEIRA: 
Desfile da Mangueira - Blog de Meire Bottura
Jamelão tirando o chapéu - Estação Primeira. Org
Símbolo do Vasco da Gama, paixão de Jamelão - Google

sábado, 6 de fevereiro de 2010

CASA AZUL DA LITERATURA INFANTIL

CASA AZUL DA LITERATURA INFANTIL
Blog totalmente voltado para a criança, com histórias infantis, clássicos, livros, parlendas, trava - línguas, novidades. Para conhecer e indicar aos pequenos, clique AQUI.

sábado, 30 de janeiro de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 14

PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1- Nº 14 - 30/JANEIRO/2010
Da série: Meninas em Preto e Branco 
Autor: Fábio Dudas
Artista plástico e Músico
- Florianópolis - Santa Catarina/Brasil
NESTA EDIÇÃO:
ROCÍO L´AMAR 
ENTREVISTA
SADY OGALDE
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ERA UMA VEZ...SADY OGALDE, 
O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Dizem que a contação de história é a arte oral de contar, numa oralidade narradora artística, que consiste em comunicar e expressar por meio da palavra, a voz e o gesto vivo, contos e outros gêneros imaginários que o contador de histórias inventa ou reinventa no aqui e agora com um público infantil considerado como interlocutor, e que por ser comunicação não são literais com relação à fonte.
O contador de histórias coleta seu material de fontes da tradição oral ou da literatura, mas o "resignifica" e "recodifica" à oralidade, tornando o conteúdo em sua mensagem pessoal e única, com a qual , "como um fogo que segue devorando e expandindo-se, vai travando o seu ouvinte e o vai enlaçando e enlaçando com imagens, percepções e sensações.

Nas palavras de Antonio Tabucchi (Nascido em Vecchiano, província de Pisa, Itália, em 24 de Setembro de 1943, escritor que abrange novelas, ensaios, teatro, poesia, Professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena), "A Literatura existe porque a vida não basta, e se no começo, quando o mundo era tão jovem, que todos os relatos estavam ainda por estrear, o contador de histórias reinventava a realidade; pouco variou o costume desde então, pois se segue contando, e talvez se acabe por regressar às origens, como a clássica serpente que morde a cauda, ou o que é o mesmo, a pura tradição oral".
Narradores, contadores de histórias, dentro de um conto: metade atores, metade literários.

O primeiro contador de histórias ou narrador ou contador de contos, (que é a arte oral de contar fábulas, historinhas, contos simples) na vida de uma criança é o pai ou a mãe, o avô (a), os irmãos maiores, ou a "babá" de casa, quem narra acontecimentos, anedotas, fatos reais ou fictícios para entreter ou educar ou compartilhar uma mensagem ou preservar valores ou divertir ou criticar ou apresentar possíveis soluções a diversos temas, etc, etc...
"Era uma vez...", e nessa frase, tanto podiam/podem sair fadas, bruxas, duendes, ogros, as "Chapeuzinho Vermelho", Aladins, Brancas de Neve, lobos, anõezinhos, como Sérgio, ou a anãzinha Ermengarda, enfim, personagens que são produtos da imaginação do narrador(a) entregues à avidez infantil, e que ele(a)s nunca se cansam de exigir "mais e mais, outro conto mais".

Este era um gato
com as orelhas de trapo
e a barriga ao contrário.
Queres que te conte outra vez?


Como os contos podem transformar-se em direito à educação.

Esta tradição não imposta, e se agradavelmente aceita, vai mais além de fomentar, influir e ajudar à criança a desenvolver sua imaginação e criatividade, fazer rir, estrear os sentidos, oferecer respostas simples, refletir, atuar como ponte cultural. Por que não esqueçamos que estas narrações orais são um costume que se remonta aos tempos pré - históricos, desde que os membros de uma tribo se reuniam ao redor do fogo para escutar as aventuras dos caçadores.


E ainda que parecesse que nestes tempos de Internet e televisão por cabo, ninguém lê, e pensamos que a narração oral é um outrora dinossauro, desde alguns anos voltou-se a difundir ao redor do fogo para escutar as aventuras dos caçadores.
De modo que as luzes voltaram a brilhar, e os meninos e as meninas, e os pais e professores do Pré, voltam a ser protagonistas do processo educativo como é a brincadeira ou a curiosidade. E como não temos esquecido que a literatura infantil é uma das ferramentas de educação subliminar mais eficaz que existe e que cada história deve ser, não apenas estimulante e divertida, mas que além disso de deve ter uns objetivos muitos claros e definidos que devem transmitir-se de um modo inteligente e intencionado, convidamos a Sady Ogalde, (contador de histórias) quem há poucos anos escrevia na "Ronda dos Sapos" do diário El Sur de Concepción, Chile, histórias infantis que também foram ilustradas, entregando toda sua magia aos domingos.


1. Sady, primeiramente, por que é importante a Literatura Infantil?

- Tem a literatura um extraordinário poder de sugestões e todo grande leitor sabe em que medida os personagens de ficção modelaram a sua vida, sua maneira de sentir e de pensar. Muitos escritores, que antes foram apaixonados leitores, definiram nesta direção a função da literatura: "No universo infinito da literatura - escreve Ítalo Calvino - se abrem sempre outras vidas para explorar, novíssimas e muito antigas, estilos e formas que podem mudar nossa imagem do mundo. Essa fascinação da literatura se acentua quando é um leitor jovem quem se defronta com o imaginário. "A força emotiva com que as crianças se identificam com os personagens da literatura infantil lhe confere um grande poder de sugestão, que é reforçado pelas inumeráveis e coerentes mensagens sociais que se transmitem". A literatura infantil resulta em ser um grande recurso na infância. São muitos os ensinamentos que se podem tirar de um livro, os quais podem vir redigidos de maneira explícito, ou bem, implicitamente. A literatura infantil, consegue, além disso, gerar na criança uma espécie de identificação com os diferentes personagens ou ainda com o escritor, a qual vai se manifestando uma vez que começa a correr o tempo. Os frutos da influência da literatura infantil, como muitos de outros fatores incorporados na infância, vão sendo vistos com o tempo, e claro está que os frutos que brotam da literatura infantil são na maioria das ocasiões, positivos, e que, de uma ou outra forma, desembocam já a um nível mais macro como é a sociedade.

2. Quais benefícios proporciona narrar contos para crianças? Além de estimular a aprendizagem da leitura na mais tenra idade e encantar com os livros?
- Para a grande maioria das pessoas a melhor idade na vida é a idade infantil, é por isso que a literatura infantil tem sido enquadrada dentro de uma das mais importantes nos textos didáticos. Há uma série de textos educativos dentro da venda dos livros infantis, que são ideais para as leituras para crianças, pois não apenas pretendem dar bons exemplos de convivência, mas ensinar a importância do respeito para com outros seres humanos.

3. Narrar contos oralmente é uma maneira de interagir com crianças. Neste sentido, qual é a sua experiência?
- Sempre é uma experiência agradável e enriquecedora, sempre podemos aprender algo novo das crianças. Aprendo os diversos olhares que um conto tem para elas e suas perguntas me provocam ternura e alegria. Uma forma de ensinar coisas aos pequenos, é através dos contos para crianças. Quando alguém é criança, necessita que lhes contem as coisas de uma maneira divertida, didática, dinâmica. A criança não presta atenção à explicação formal sobre uma coisa, a criança necessita de algo diferente e os contos para crianças são uma ferramenta importantíssima e muito boa, para captar a atenção delas. Convidam-me a realizar contação de histórias em muitas escolas da região, em eventos culturais que envolvem às crianças, em oficinas literárias, em bibliotecas periféricas, nos bairros, enfim, quando se espalha a voz de meu trabalho é seguro que me chamem para seu eventos. Há contos para crianças, que são conhecidos de maneira mundial, como o são, por exemplo, Chapeuzinho Vermelho, os Três Porquinhos, e há milhares que eu poderia seguir relacionando, que, entretanto, não vêm ao caso. Veja bem, além de todos esses contos para crianças, conhecidos de maneira mundial e contados por todos os pais a seus filhos, também há milhares e milhares de contos infantis que não são nada conhecidos, mas que são realmente bons.


4. É necessário ser ator, isto é, utilizar disfarces, fantoches, sons, luzes, elementos visuais, assim mesmo, manejar os efeitos de expressividade, como o tom, acentuação, vibração, volume da voz, movimentos corporais, entre outros, para fazer florescer o conto oral, ou o contador de histórias deve passar despercebido, isto é, não deve interpretar os diferentes personagens, mas ser o protagonista junto a eles?
-Quando realizo contação de histórias, não utilizo disfarces, apenas me limito a contá-los dando ênfase na entonação, o tom e os gestos são relevantes e presto muita atenção à reação das crianças. Surgem perguntas ao mesmo tempo, que vou listando e trato de responder com afeto para com a inocência de suas interrogações, em linguagem simples, clara, sem grandes enfeites, a cara descoberta e olhando para elas, nos olhos. Creio que definitivamente não se requer ser ator para realizar contação de histórias.


5. Os personagens viajam até os ouvidos dos meninos e das meninas, e dali, com fantásticos poderes, percorrem mundos fabulosos em suas mentes. As histórias revoam por todas as partes, as palavras soam e ressoam, brincam. Qual é seu método particular, já experimentado, sabendo que neste cenário você é contador de histórias, para fazer voar a imaginação dos pequenos?
- O único método que funciona com as crianças é a honestidade e a empatia que se produz. Isto é, nesse momento sou um deles, e também lhes deixo questões que os leva a participar.



6. Ensinar brincando, através de fábulas, adivinhações, lendas, contos, enfim, o contador de histórias é um narrador oral. Que informação tem você dos contadores de histórias no Chile, dos que vão aos Festivais Internacionais de Contação de Histórias? E é uma profissão que se pode aprender em oficinas de narrativas orais, e exportar como expoentes do Chile, ou nenhuma das anteriores?
- Penso que é uma vocação. Se não puder ensinar a partir dos genes, é impossível a um contador obter êxito. O público infantil não é um público fácil, não se deixa enganar.

7. Dizem que Carlos Genovese, ator, dramaturgo, narrador oral ou contador de histórias e docente, ex integrante do grupo teatral ICTUS de Santiago, (1960- 1964), autor de 20 obras de teatro estreadas, 4 obras infantis, que reside em Valparaíso desde 1995, é pioneiro da Narrativa Oral no Chile, fundador do primeiro gurpo de contadores de histórias de Santiago do Chile, em 1993. Participa você desta premiação - que, obviamente, não a deram seus pares/companheiros/colegas , - ou também compartilha esta fundação com Jorge Diaz? Ou tem outros nomes além dos que apresentamos?
- Entendo que é um ator que dedicou-se ao trabalho com a oralidade. Ele apresenta suas narrações em diversas partes do mundo e cobra por isso. O que eu realizo é uma vocação que pratico por amor, sem fins lucrativos. Pelo menos nesta região, que eu saiba, não pagam. Existem outros grupos: Professores do Pré, alguns escritores da capital, que utilizam a contação de histórias como uma estratégia que possa fomentar a leitura e a produção de textos nas bibliotecas. Tenho encontrado um nicho de trabalho ali, em especial em Santiago. Existem também outras escritoras chilenas criadoras de contos infantis, como: Maria Luisa Silva, Bernardina Muñoz, Valerie Moir, escritores como: Victor Carvajal, Manuel Peña Muñoz, Hector Hidalgo, porém não sei se todos eles realizam contação de histórias.

8. Finalizando, não quero deixar passar a oportunidade de perguntar a você pela experiencia, a etiqueta social que lhe deixou ter escrito para "A Ronda dos Sapos" no Diário El Sur de Concepción há poucos anos. E por que, hoje em dia, segundo seu conhecimento, seu saber, sua intuição, já não se edita o Suplemento La Gaceta del Sur? Tem algo a ver a Internet nisto, ou a troca de editor?
- "La Ronda de los Sapos", sem dúvida, foi uma experiência magnífica. Francamente, estimo que é uma péssima decisão do conselho editorial do Diário, e que não tem relação alguma com a profusão de páginas virtuais, é um espaço que ficou vazio, as crianças ainda perguntam pela Ronda de Los Sapos, os que me conhecem seguem entregando-me seus desenhos e cartas para que eu as leve ao Diário, é uma espécie de fantasma que todavia me persegue.




BIOGRAFIA

SADY HERNÁN OGALDE CÁRCAMO

Nasce em 17 de Junho de 1948 em Talcahuano, Chile. É assessor - colaborador do Diário Eletrônico "La Gaceta Del Biobio"; Coordenador do Colégio Regional de Periodístas; Condutor do Programa Cultural e de Entrevistas da Rádio Oceanía de Talcahuano; Designer artístico da Livraria Paulinas de Chile; Organizador e executor de atividades de Contadores de Histórias em Colégios e Escolas da Região Do BíoBío. Tem participado de Encontros de Escritores "Biblioteca Móvel de Talcahuano", em Eventos Culturais da Fundação "Um Teto para Chile", em oficinas de literatura infantil. É membro Ativo da Associação de Jornalistas do Chile. Escreveu para o Suplemento "La Ronda de los Sapos", da Gaceta del Diario, El Sur de Concepcíon.

PUBLICAÇÕES:
1998 - Obras de Teatro de Natal, Edições Paulinas, Chile
2003 - Contos Infantis Regionais, Fundação Álvarez Castilho, Chile.

PRÊMIOS:

2005- Primeiro lugar no 26º Concurso Artístico de Educação, Ilustre Cidadão de Talcahuano.

2005 - Prêmio Quarto Concurso Nacional "My vida y mi trabajo", Ministério do Trabalho.
2007 - Prêmio Reconhecimento do Colégio de Jornalistas.
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O PROTESTO DOS PEIXES


Aproveitando que no país se celebrava o mês do mar, os peixes e animais dos oceanos decidiram protestar porque a cada dia os homens e as cidades contaminavam mais e mais o mar.
Organizaram-se no fundo marinho e nomearam aos mais valentes, poderosos e resistentes para saírem a reclamar por essa injustiça.
Uma coluna deles, melhor dizendo, um cardume deles, saiu da superfície de um cais do porto de Talcahuano,com umas garrafas de água salgada nas costas para respirar (Isto haviam copiado dos homens-rãs e seus tubos de oxigênio).
Estando na superfície, o tubarão, que liderava o cardume, proferiu um pequeno discurso para pôr a todos de acordo com o que iriam fazer: - Amigos! Iremos à Administração do governo para falar com as autoridades, porém antes passaremos na Escola do Riacho "La Glória", para buscar os meninos e as meninas para que nos acompanhem.
Quando chegaram à escola, os meninos e as meninas estavam muito entusiasmados para acompanhar os seus amigos marítimos e o Diretor lhes disse:
- Que cada peixe e cada animal marinho faça par com algum menino - do riacho!


- Eu vou com o Lucho Medel! - disse a Cavalinha.


- Eu vou com Carmen Guerra! - disse o peixe-serra.
- Eu formarei par com Suzana Espina! - disse a Corvina.


- Vou com a Maria Helena! - disse a baleia.
- Viva! Eu os seguirei com Pepe Roca! - disse a foca.


E partiu a fila de meninos e meninas com os peixes e animais marinhos protestando pelas ruas do porto com faixas e cartazes, rumo ao centro da cidade, para que alguma autoridade os escutasse ou ajudasse. No caminho outros pares se formavam. Mário Marin ia conversando com o golfinho, Enrique Luza cantava com a Merluza e Joana Melado, que comia pão com margarina, ia acompanhada pela sardinha, Margarida Coronado caminhava mais atrás com o linguado,e na primeira fila, gritando a pleno pulmão, marchavam Ivan Nova, e sua amiga, a Pescada.
Assim gritando e cantando, chegaram até as autoridades.
- Senhor secretário! - disseram- viemos falar com o governador.
- Ah! como eu sinto, pois não está. Anda inaugurando um campo de futebol em outra cidade - respondeu o secretário.


- Está bem, muito obrigado! - responderam os manifestantes e foram ao prefeito.


- Senhor Secretário Municipal, queremos falar com o prefeito, porque o mar está muito contaminado, e prosseguem deixando lixo todos os dias - disseram em coro - Sinto muito - disse o Secretário Municipal- O prefeito está inaugurando um campeonato de futebol.


E assim os manifestantes das espécies marinhas e as crianças foram falar com o Governador Marítimo.
Ao chegarem ao Palácio do governo marítimo, o Peixe Espada, que ia com Lily Estrada, falou ao capitão:
- Senhor Capitão! O mar está muito contaminado, e repleto de lixo químico de todo tipo, a tal ponto que não podemos viver.
- Pois eu lamento muito - disse o capitão - porém, vocês têm que reclamar com as indústrias que despejam lixo na água. Além disso, elas não são as únicas que contaminam porque as casas também o fazem, os edifícios, os barcos e as cidades.


Os pequenos e os seres oceânicos, cansados e quase sem água do mar para respirarem, agradeceram ao Capitão por escutá-los e seguiram pelas ruas cantando e gritando para chamar a atenção de todos. Passaram pelas praças e as indústrias , porém em todas as partes lhes diziam que não podiam atendê-los, por estarem sempre muito ocupados.


Por fim, os habitantes dos mares voltaram às suas correntes marinhas, seus ramos e suas rochas, e as crianças às suas escolas, tristes e desolados porque não haviam conseguidos que os ouvissem e os ajudassem a encontrarem uma solução.


O mar recebeu as suas criaturas carinhosamente, porém bravo, porque ninguém quis escutar a seus filhos, e ainda continua sua raiva, sobretudo no inverno, quando mais agita suas águas com grandes ondas que obrigam os barcos a afundarem nos portos. Outras vezes atinge com força os riachos e cais e até ameaça com maremotos as cidades.
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ORIGINAL EM ESPANHOL  - ENTREVISTA REALIZADA NO CHILE 
REALIZAÇÃO: ROCÍO L´AMAR
TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS: MARCIANO VASQUES
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ROCÍO L´AMAR


Rocío L´Amar é correspondente e colaboradora de
PALAVRA FIANDEIRA no Chile
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MARCIANO VASQUES
Marciano Vasques é o fundador de PALAVRA FIANDEIRA

sábado, 23 de janeiro de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 13

 PALAVRA FIANDEIRA 
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 13 - 23/JANEIRO/2010



"É o tempo que dita quem perdura.
Nunca o momento"
Ricardo de Pinho Teixeira


DIREITOS RESERVADOS
Créditos das fotos ao final

NESTA EDIÇÃO:
CARMEN EZEQUIEL 

ENTREVISTA
RICARDO DE PINHO TEIXEIRA
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SOMBRAS COMUNS

Entrevista a Ex-Ricardo de Pinho Teixeira
por Carmen Ezequiel

Exclusivo para Palavra Fiandeira

 Por cá, há o hábito de dizer que quem conta um conto acrescenta um ponto.
Nesta 4ª edição do Sombras Comuns, conto-vos a história de um jovem editor que então com 32 anos de idade e já uma década de actividade artística, acrescenta um ponto em cada área que intervém.
Ele é editor! Criou as editoras Egoiste e CorposEditora. Mais tarde, fundou a comunidade Worldartfriends e a sua própria editora. Ajudou, até hoje, a criar mais de 300 obras literárias.

Ele é músico! Com 2 Cd’s editados.
Ele é performer! Faz peças de teatro e atuações em eventos literários e musicais.
Ele é poeta, escritor, declamador… (e um grande declamador!). Com vários títulos publicados, sendo o seu livro “best of” (1999) o primeiro de muitos que se seguiram.



Aqui, fala-se com um homem que elege o Porto como porto de abrigo, que nos fala do seu percurso profissional e artístico, que enaltece a poesia, em que viver no aqui e agora, conjuntamente com o conhecimento da História, nos permite criar coisas boas, coisas novas, afim de mudarmos o mundo e o seu pensar.
Aqui, fala-se com Ex-Ricardo dePinho Teixeira, um entre muitos e muitos num só.



Carmen Ezequiel: Quem é Ex-Ricardo de Pinho Teixeira?
Ex-Ricardo: É uma extensão de mim mesmo. É o assumir da minha arte como realização em cada um dos meus dias.

CE: Em 2000, foste considerado o mais novo editor português, com apenas 22 anos de idade. Como foi para ti enfrentares essa realidade? Que dificuldades sentiste?

R: Muitas dificuldades. Não tive ajuda de praticamente ninguém da área. Muito pelo contrário. Sempre foram muitos os entraves colocados ao que pretendia fazer.

CE: Sendo um homem dos três ofícios, com consegues conciliar a música, o teatro, a poesia e a publicação? Qual deles é o mais importante?

R: Todos são importantes em igual medida. Todos são parte de mim. Diria até conciliadores. Acabam todos por ir de encontro ao que mais gosto: A Palavra, a Criação e a Ação.



CE: O que distingue as editoras WAF, Egoiste e Corposeditora?

R: Neste momento a maior distinção é a seguinte: quer a Corpos, quer a WAF são editoras para primeiras obras ou para autores ainda não conhecidos. A Corpos é mais voltada para a Prosa, e o WAF mais voltado para a Poesia.
A Egoiste é um projecto que agora surge para tentar chegar às massas. Todos os anos iremos seleccionar alguns autores da Corpos e da WAF e iremos publicar os mesmos na Egoiste. Será um projecto com menos autores mas muito mais forte. O porquê? O WAF e a Corpos são editoras excelentes, na minha opinião as melhores, para dar oportunidade aos ainda não conhecidos.
Mas, é impossível trabalhar nacionalmente todos os seus autores. Principalmente no campo da Poesia. Na Egoiste trabalharemos só 5 a 6 livros ao ano. E só autores já anteriormente publicados na Corpos ou na WAF.

CE: Consideras que qualquer pessoa pode publicar um livro?

R: Hoje em dia isso é possível.


Existem muitas editoras que editam apenas a troco do autor lhes pagar.

Eu, como editor não o aconselho. Apenas deve ser editado um livro com qualidade, mas penso que acima de tudo e vivendo num mundo em que é fácil editar um trabalho, cabe a cada pessoa que escreve ter consciência do legado que quer deixar ao mundo.

Por outro lado, também não pertenço ao círculo dos que só editam obras que consideram comercialmente muito rentáveis ou que consideram intelectuais. Isso de "acrescentar uma vírgula ao mundo" tem muito que se lhe diga.
É o tempo que dita quem perdura. Nunca o momento.

CE: “A arte pode e deve chegar ao povo!”, referiste em determinada altura. Achas que o povo está preparado para chegar à arte? Que qualquer pessoa é capaz de fazer poesia e compreender a literatura?

R: Pois o problema põe-se aí mesmo. Muito do Povo, neste momento, não está ainda preparado para tal. Mas vai estando. São cada vez mais os interessados. Isso deve-se ao nosso crescimento enquanto sociedade. Quanto mais desenvolvidos nos tornarmos, mais interessados haverão na arte. Em relação ao fazer, aí muito mais do que educação é necessário sensibilidade e, como tudo na vida, não são muitos os que têm uma queda natural para a mesma.

CE: Como classificas a literatura em Portugal? O que achas que pode mudar?
R: Pode e deve mudar muita coisa. Mas a revolução deve vir de dentro.

O caso da Poesia, por exemplo, existem inúmeros "poetas" que se orgulham e dizem abertamente que não querem ler Poesia de outros autores. Essa é a primeira coisa a mudar. Só lendo podemos escrever melhor. Um homem para acrescentar algo de novo tem primeiro que ver o mundo à sua volta. O Presente e a História são imprescindíveis se queremos fazer algo de bom ou de novo.

CE: O que é a comunidade WAF (Worldartfriends)? Fala-nos o porquê da criação deste site?

R: A principal motivação foi saber que seria um mecanismo de interacção entre artistas e pessoas que gostam de arte. Seria possível fazer chegar a arte de todos a muito mais gente. O Worldartfriends é uma casa aberta a todos os artistas. Publicados ou não.

CE: Com tanto que já construíste, que mais podemos esperar de Ex-Ricardo dePinho Teixeira?

R: O Futuro é sempre uma incógnita. Mas gostava de experimentar coisas que ainda não fiz: Prosa, Cinema, são alguns dos meus projectos enquanto artista. Enquanto editor são outros mais. A ver se conseguimos fazer chegar a nossa arte a mais pessoas.

CE: Qual a cidade, em Portugal, com a qual mais te identificas e porquê?

R: O Porto. Porque é o meu abrigo. Se um dia o Porto não existisse, Barcelona seria a minha cidade de eleição.
CE: Que pergunta ficou por fazer?
R: Muitas e nenhuma. O que fica por perguntar ou por responder é sempre mais um motivo para voltarmos à conversa. As reticências são sempre mais interessantes que um ponto final.

CE: Queres deixar alguma mensagem ao leitor do Palavra Fiandeira?

R: Partilhem-se. É o que fica no final de tudo. Os momentos em que nos trocamos. Em que ouvimos e somos ouvidos.

Para finalizar este Sombras Comuns partilho convosco um dos muitos poemas de Florbela Espanca que me fizeram…

vaidade






Sonho que sou a Poetisa eleita,


Aquela que diz tudo e tudo sabe,


Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!


Sonho que um verso meu tem claridade


Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!


Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!


Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,


Aos pés de quem a terra anda curvada!


E quando mais no céu eu vou sonhando,


E quando mais no alto ando voando,




Acordo do meu sonho... E não sou nada!
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Aqui fala-se de tudo.
De tudo o que somos.
De nada que ninguém é.
Carmen Ezequiel - Portugal

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Cidade de Barcelona


Florbela Espanca
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PARTICIPARAM NESTA EDIÇÃO:
CARMEN EZEQUIEL (Portugal)


CARMEN EZEQUIEL é correspondente de PALAVRA FIANDEIRA em Portugal.

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MARCIANO VASQUES (Brasil)


MARCIANO VASQUES é o fundador de PALAVRA FIANDEIRA
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Créditos das fotos:
Ricardo de Pinho - Acervo pessoal
Cidade de Porto (capa) - http://www.destination360.com/europe/portugal/porto
Cidade de Porto - Carmen Ezequiel
Florbela Espanca - http://estrela_das_trevas.zip.net/arch2009-04-01_2009-04-30.html
Barcelona - http://praondethamara.wordpress.com/2008/09/12/barcelona-e-seu-dedign/
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