EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

PALAVRA FIANDEIRA — 55

PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
REVISTA LITERÁRIA DIGITAL
EDIÇÃO 55
ANO 2 —  18/FEVEREIRO/2011

NESTA EDIÇÃO:


MÁRCIA KUPSTAS

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A PALAVRA FIANDEIRA DE 
MÁRCIA KUPSTAS

Entrevistada por Marciano Vasques


1. Quem é Márcia Kupstas?


— Uma mulher que tinha o sonho de escrever, desde que era muito criança. Levou um bom tempo pra entender que se pode dedicar tempo aos sonhos e à realidade. Casou; descasou, teve filhos e encontrou a felicidade pessoal num lugar paradisíaco em Ubatuba, ao lado do Paulo, seu novo companheiro. 


2. Seu primeiro livro foi "Crescer é perigoso". Poderia, por favor, nos falar sobre ele?


—Tenho IMENSO carinho por CRESCER É PERIGOSO. Na época, lecionava no colégio Bandeirantes, capital de São Paulo, e tinha mais de 1000 (é sério, mil mesmo) alunos, boa parte deles orientais. Daí a inspiração para o Gustavo, um 'japonesinho' tímido, deslocado com o estereótipo de c-d-f, louco pra namorar, ter amigos, fazer alguma bagunça, sair do meio "nipônico" tradicional... o livro fez grande sucesso na época e detonou minha carreira. Ganhou o Prêmio Revelação Mercedes-Benz de 1988.


3. Alguns de seus livros têm no título a palavra "beijo" (O Primeiro Beijo; Clube do beijo...), parecem ser obras dedicadas ao público juvenil. Assim sendo, fale-nos da recepção desse público aos seus livros.

— Gosto de escrever para jovens. Acredito que é a nossa primeira grande aventura, a de adolescer. Todo mundo tem seu primeiro beijo, primeira decepção amorosa, primeiro grande amor... esses temas atraem e seduzem e modéstia à parte, acho que consigo "ler" a alma jovem com dignidade e realismo.


4. Já recebeu alguns prêmios literários. Poderia, por gentileza, nos contar sobre alguns deles, embora, claro, todos tenham sido importantes em sua carreira.
  
— O primeiro e maior foi o Mercedes-Benz, até porque era a estréia, só havia 2 prêmios e mais de 500 livros concorrendo. Depois o Orígenes Lessa, aí uns prêmios em concursos de contos e o jabuti em 2004, com ELES NÃO SÃO ANJOS COMO EU.


5. Como escritora, naturalmente está inserida no seu tempo. Dessa forma, como é a sua atuação na Internet? Tem blog? Site? Mantém intercâmbio com poetas? Participa de sites de relacionamentos? Enfim, como  pode ser encontrada no mundo virtual?

— Sou uma mulher das cavernas, em termos de informática. Tenho um site básico, biográfico e respondo e-mails com grande satisfação, do mesmo modo que respondia cartas. Abro alguns sites, faço compras pela internet, leio notícias em sites informativos, mas não assino embaixo da exposição gratuita que a internet propõe, na qual quase todo mundo se sente celebridade, conta tudo, diz o que acha de tudo, onde foi o que fez... entrei e saí do FACEBOOK, detestei a experiência. Gosto de preservar minha intimidade, prefiro contatos mais seletivos.


6.  Hoje, ao entrevistá-la, senti saudades do seu livro 9 cois@s e-mail que eu odeio em você , que li quando era Professor Orientador de Sala de Leitura, e lembro-me de como os jovens do "ginásio" o disputavam para os empréstimos. Poderia falar aos nossos leitores sobre a abordagem dessa obra?

— É legal, né? À época, meu filho tinha uns 16 anos e minha filha uns 7. Ele vivia apoquentando a menina, e disse um dia que ia vendê-la por internet, ela ficou furiosa... daí veio a inspiração, as maldades masculinas e as respostas femininas, num jogo de vai-e-volta em correspondência bem franca. Acho que a guerra entre os sexos ficou expressiva no livro, não só para pré-adolescentes; de certo modo essas dualidades masculinas/femininas prosseguem pela vida afora. 


7. Realiza Palestras e Conferências por esse Brasil afora, participando de Bienais do livro, e outros eventos. Como é para você, em termos de satisfação interior, esse contato e essa atividade?
  
— Já fiz muito, viagens demais, participei demais desses eventos. Hoje também sou seletiva, até porque moro em Ubatuba e aceito convites ou que são mais próximos (como a Feira de Parati, que fica a 100 km daqui) ou a Feira do Livro de S. José dos Campos, que será em abril de 2011, também perto.

8. Participou  de dezenas de encontros nos CEUS (Centros Educacionais Unificados). Como foi esse contato na periferia? De que forma essa experiência contribuiu com a sua Carreira Literária?


— Fiquei fã "de carteirinha" dos CEUs. É uma grande experiência educacional, reunindo escola/teatro/piscina/biblioteca tudo num mesmo ambiente, para alunos e comunidade. Pena que o projeto carecia de grande injeção de $ e o governo seguinte cortou muitas verbas. Torço para que seja de novo privilegiado.


9. Já realizou centenas de visitas em escolas. Quando começou essa peregrinação? Lembra qual a primeira escola que visitou?

— Não lembro... foi muito mesmo. Acho que é um caminho importante, ainda mais em começo de carreira, para o escritor "testar" seu público.  Hoje praticamente não faço mais visitas, os convites são muitos e acabam atrapalhando a concentração, no processo de escritura. 


10.  Muitos autores influenciaram a sua vida, e exercerem sobre você um fascínio e um apreço pela leitura. Poderia citar alguns desses escritores?

— Na infância, Lobato. Adorava tanto os seus livros, que ganhei a coleção inteira como  presente de natal e aniversário, um ou 2 por data. Depois, era sócia com mamãe da biblioteca Ambulante do SESI, uma kombi que parava no bairro, lotada de livros. Descobri grandes autores, que amei: José Mauro de Vasconcelos (infelizmente meio esquecido hoje), Agatha Christie, John Stenbeck,  Jack London, Ernest Hemingway. Mais velha, achei o Rubem Fonseca, Stephen KIng, Mario Vargas Llosa, Dean Koontz, Gabriel Garcia Marquez,  e mil outros, sou leitora voraz.

11. Participou da Revista Capricho. Escrevia histórias? Crônicas?  Recebia cartas de leitoras? Qual foi a sua contribuição literária para com a publicação?

— Tive uma coluna, HISTÓRIAS DA TURMA, por 3 anos. Eram contos curtos com a mesma galera, que morava num prédio e dividia descobertas, romances, confidências... o pessoal mandava cartas, colocava leitores como coadjuvantes, foi bem legal. Hoje existe em livro, pela ed. Atual.

12. Você é descendente de Russos, e de Ucranianos. Qual a influência desses povos em sua formação cultural? Ouvia histórias e Lendas quando criança?

— Minha avó morou conosco até meus 18 anos, quando ela faleceu, então a convivência foi grande. Ela era grande conversadora, lembrava de detalhes da Europa, da primeira Guerra Mundial, começo de imigração nos anos 20/30, contava lendas russas, foi um universo de histórias que ela me revelou. 
  
13. A leitura de autores diversos como Edgar Allan Poe, Agatha Christie, Conan Doyle, certamente trouxe algum despertar em você pela literatura policial ou de suspense.  Mesclando isso com o seu prazer em escrever ao público juvenil, é correta a afirmação de que essas leituras em sua adolescência e formação cultural, influenciaram em algum aspecto o seu fazer literário?

— Talvez menos do que eu mesma gostaria. Acabei criando histórias mais  emotivas e familiares do que de suspense/terror. Vai sair um grande livro nessa área, em que de certa forma resgato essa influência, chama-se A GENTE MATOU O CACHORRO? , pela ed. Salesiana.

14. Muitos não reconhecem de forma adequada o valor da Literatura Infantil, chegando ao disparate de a considerar uma arte menor. Outros reconhecem seu valor legítimo e imenso. Acredita que a Literatura Infantil seja exclusivamente para crianças, ou o adulto poderá dela usufruir?

— Sem dúvida, está aí o imenso sucesso de HARRY POTTER no mundo todo que não me deixa mentir. Acho que existe sim muito preconceito, aquele papo de crítico, de "arte menor" e "arte maior'... grandes autores "clássicos" de hoje eram populares em seu tempo e sofreram isso. José de Alencar,por ex, era chamado até de analfabeto pela ELITE PENSANTE de sua época porque vendia jornais, era reconhecido pelo público... o tempo separa joio do trigo, muita gente do "infanto-juvenil" vai ficar para o futuro, pode crer, e será reconhecido, APESAR da crítica.

15. Uma polêmica que aos poucos vai se desbotando é a questão da sobrevivência do livro de papel diante do avanço e do domínio da tecnologia. Para você, o livro no seu formato de papel desaparecerá com o tempo?

— Creio que sim, ou pelo menos vai conviver com dificuldade com o e-book. Mas isso não atrapalha, livro já foi em papiro, em rolo... nada impede  que boas histórias continuem sendo escritas e desfrutadas, seja no formato que for.


16. Participa de alguma entidade de defesa dos interesses dos escritores? 
 

— Não. Sou sócia pro-forma de uma delas, mas não sou lá muito sociável... acho que escritor não é bem uma classe sindicalizável, creio que se quisesse lutar por uma causa comum seria a de não taxar direito autoral como renda, no mais, é cada um batalhando seus próprios trabalhos. 

17. Uma de suas obras tem um título sugestivo: "É preciso Lutar". Sobre qual tema trata esse livro?

 —É um livro legal, ganhou o prêmio Orígenes Lessa, Altamente Recomendável para jovens. É a luta de moradores de uma rua para impedir que uma árvore seja cortada por um motivo fútil. O livro está também em Frankfurt, na biblioteca mundial deles , como Altamente Recomendável também.


18. Também escreve poesia? É verídico ou um pouco lendário certo argumento editorial de alguns de que poesia não vende? Isto é, tem veracidade, tem consistência tal argumento? No caso afirmativo, haveria então uma falta de interesse pela poesia entre nossos contemporâneos?

— Gosto de ler poesia, mas não escrevo. Sou verborrágica, narrativa. Não é minha praia.

19. Seja um livro de poesia, um  para o leitor juvenil, uma obra infantil...: o que deve ter um livro para que seja atraente?

— Um livro tem de ser honesto. As obras nascem das vísceras do escritor, quem é formalista e não sente a obra, geralmente escreve mal e é mal aceito pelo leitor. Personagens bem criados, reais, convincentes, seduzem o leitor e geralmente protagonizam grandes enredos. 


20. Tem algum livro contemporâneo ou clássico, que gostaria de ter escrito? Que você, após ler, poderia dizer assim: "Como queria eu ter sido a autora desse livro!"?

— Muitas vezes penso isso, de tanta gente! Fica até chato citar um.

21. Márcia, além do prazer e da alegria que a leitura causa, no caso da Literatura o que mais deve ela  trazer ao leitor?

— Histórias são maneiras de você aprender sobre sentimentos. Gosto de sugerir a  questão: imagine se você tivesse de sentir na pele, dos 8 aos 18 anos, todos os sentimentos humanos, bons e ruins. Você ficasse órfão e se sentisse solitário, abandonado, com medo, carecesse de proteção, amizade, enfrentasse rejeição, raiva, ódio, depois descobrisse a paixão, a perda, o ciúme etc... provavelmente lhe diriam para escrever uma biografia, tão incomum é sentir tudo na pele. Com os livros, nós aprendemos sobre sentimentos através dos outros, dos personagens que nos são espelhos das emoções. Acho - como já disse Stephen King - que uma boa história, no momento certo em sua vida, pode salvar a sua alma.


22. O que é para Márcia Kupstas a felicidade?

— É viver em Maranduba, curtir a minha praia quando tem pouca gente, dormir cedo, caminhas bastante, escrever coisas que me atraem, namorar o Paulo, ler bons livros. Ah, e um comercial, por favor! Somos  donos do CHALÉS PAUMAR, que tem 4 aptos para alugar em temporada, 2 kitinetes e 2 unidades de 2 quartos. Se alguém quiser conhecer um pouco desse paraíso, apareça! O fone é 012 3849-5262

23. Enredos e dramas juvenis e adolescentes estão, como já vimos, em seus livros. Fazem parte da sua trajetória de escritora. Quando surgiu esse interesse pela alma adolescente?

— Acho que ainda sou adolescente. Tenho grande empatia com esse período de descobertas, de paixões tão fortes, de tamanha insegurança diante do futuro... gosto de retratar gente que tem um "rito de passagem" e aprende a enfrentar a vida, através desse momento decisivo.


24. Além de escritora, é professora. Pode nos falar sobre a sua atuação na área educacional ou acadêmica?

— Lecionei durante dez anos em grandes colégios da capital, mas desde 1992 tive de decidir entre a carreira literária e a acadêmica. Aí fiz minha escolha pelos livros, entro nas escolas pelas suas páginas ou em eventuais projetos, como  palestras ou oficina para professores.

25. Além do que já é feito no plano institucional (compra de livros pelo governo — Notável!, etc) que outras iniciativas poderiam contribuir para facilitar o acesso do brasileiro à leitura?

— Preço. Livro em banca é uma boa, livro como presente em catálogo tipo Avon, venda de porta-em-porta... dessacralizar o livro, tirar o peso de entrar em livraria (pouquíssimas!). Acho que a Internet facilitou bastante isso, mas ainda é pouco. Deveria haver mais livros na televisão, novelas com personagens lendo e divulgando livros que gostem, entrevista com escritores (nesse ponto, um brinde ao Fausto Sival, sempre citando alguns livros em seu programa)

26. O preço de capa sistematicamente foi usado como justificativa para o não acesso do brasileiro  ao livro. Tudo bem: o livro realmente é caro. Mas, poderia apontar outro motivo que possa ser posto como empecilho, barreira, para a democratização e a expansão da leitura?  

—Tradição cultural é uma coisa que pesa. Somos um povo visual (visto o sucesso da TV) e a leitura requer pré-requisito, alfabetização, tempo introspectivo, modelo de incentivo... pais que não lêem dificilmente terão filhos leitores. Há muito que fazer nesse campo.

27. No gancho da pergunta anterior, com relação ao CD (Música), e ao DVD (cinema, filme) a pirataria se expande. Além de ser um problema de ordem cultural, evidentemente, é também de causa social, visto o preço de DVDs originais. Caso ocorresse com o livro tal coisa, ou seja, caso houvesse o alastramento de livros piratas num  contexto no qual que a leitura tivesse a penetração que tem a Música e a cultura de entretenimento na alma do brasileiro, isso, a pirataria de obras literárias vendidas em camelôs, causaria uma revolta entre os escritores, considerando o anseio natural de cada poeta por ser lido?

— Questão complicada, essa... de certa forma somos pirateados pelo xerox, em "n" escolas. Mas a bandalheira em excesso  foi coibida, apesar de que hoje você também tem a chance do pessoal baixar livros em alguns sites... eu mesma descobri o CLUBE DO BEIJO, com capa e tudo, num site, reclamei, tiraram, mas... é difícil. O negócio é o leitor/fã se conscientizar de que pode ter acesso ao livro através de sebo, biblioteca etc sem precisar do pirata. 

28. Teria algum projeto literário em andamento, algum livro em mente, ou então algum sonho, que poderia nos antecipar e revelar aos leitores?

— A GENTE MATOU O CACHORRO? está em provas finais, vai para livrarias mês que vem. Depois, tantos projetos! Vou amadurecer mais as ideias. 


29. Para terminar, que mensagem deixaria aos leitores de PALAVRA FIANDEIRA?


— Não desistam da leitura. Mesmo que haja falta de tempo, ansiedade, muita coisa a fazer, encare alguns minutos com os livros como uma prioridade na sua rotina. Como disse antes, citando Stephen King, uma boa história, no momento certo em sua vida pode salvar a sua alma. 

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PALAVRA FIANDEIRA —
Fundada pelo escritor Marciano Vasques

sábado, 12 de fevereiro de 2011

PALAVRA FIANDEIRA — 54

PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
REVISTA LITERÁRIA DIGITAL
EDIÇÃO 54
ANO 2 — 13/FEVEREIRO/2011


NESTA EDIÇÃO:

EDSON GABRIEL GARCIA

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EDSON GABRIEL GARCIA

Entrevistado por Marciano Vasques

1.Quem é Edson Gabriel Garcia?

— Um cara simples, desapegado de coisas materiais, jeito de interiorano ainda preservado, responsável e apaixonado por seus trabalhos. Um lema: gostar de gostar de gente.
Uma pessoa que sonha muito com um país mais decente e mais justo socialmente.
Aos 61 anos, dói saber que a vida passa tão depressa.

2. Sua apaixonante carreira como educador transcreveu um arco de professor à diretor de escola. Pode nos rememorar esse período e essa trajetória? Incluindo, claro, o seu significado pessoal.

— Durante muito tempo trabalhei em escolas públicas. Também trabalhei em projetos de formação de professores, de reorientação curricular e assessoria pedagógica. Conheço muito o cotidiano de nossas escolas, por isso estou sempre pronto para defender as escolas e os educadores das críticas, muitas vezes injustas, que são feitas às escolas por quem não conhece o seu cotidiano. Ter sido professor, diretor de escola e coordenador de projetos institucionais é um pedaço gostoso de minha vida, uma lembrança que me faz feliz e da qual tenho orgulho. Por onde passei deixei amigos, fãs, parceiros e um trabalho sempre lembrado. Além, claro, da convivência sempre deliciosa com crianças e jovens, farto cenário para os meus escritos literários. A rigor, ainda não sei se fui um educador que se aproveitava do prazer literário ou se sou um escritor que se construiu dentro dos muros das escolas. De qualquer forma, foi um período marcante e teve um significado especial na minha trajetória.

3. Pode afirmar que a sua experiência e aprendizado na Educação está intimamente vinculada com a sua literatura? De que modo isso mais transparece?

— Sim. Tomando o termo literatura como sinônimo de “escritos”, o exemplo melhor disso são as coleções didáticas ou paradidáticas que escrevo. Todas com incrível aceitação na escola. Por outro lado, numa concepção mais específica de literatura, muitos dos meus livros de ficção foram escritos a partir do cotidiano das crianças e jovens escolares. O ambiente escolar reproduz com intensidade a vida como ela é: sentimentos, relações, aprendizagens, grupos, etc...

4. Relendo alguns de seus contos, fica a impressão de que realmente está escrevendo para os alunos adolescentes. Isso confere?

— Confere. Este é meu público. É difícil escrever para essa faixa etária, mas é muito bom buscar esse público.

5. O primeiro livro que li de sua autoria foi um chamado Tantas Historias no Escurinho da Escola. Apaixonei-me pela leveza do estilo saboroso. Poderia falar sobre esse livro?



 — Esse livro faz parte de uma coleção chamada Tantas Histórias. É uma coleção que brinca com a metalinguagem. Além disso, cada um dos livros da coleção tem marcas próprias de uma história enquanto objeto (marcas de sol, marcas de dedos sujos, orelhas, pequenos rasgados, rabiscos, etc). Uma brincadeira com o livro “objeto”, uma história paralela do livro, independente da história ali escrita. A história do Escurinho da Escola é uma deliciosa brincadeira com os contos de fadas. Imagine, à noite, numa sala de leitura fechada, nenhum adulto por perto, as personagens dos contos de fadas criam vida própria, saem dos livros e...

6. Quando li o seu primeiro livro, estava na Cidade Tiradentes. Eu atuava como Professor Orientador de Sala de Leitura. Também viveu essa experiência? Poderia nos falar sobre esse acontecimento em sua vida?

— Nunca fui orientador de sala de leitura, embora tenha ajudado a consolidar essa função na secretaria de educação de São Paulo e em vários outros programas de incentivo à leitura. Entre 83 e 85, coordenei uma equipe que praticamente definiu o Programa de Salas de Leitura das Escolas Municipais de São Paulo. Demos a cara da sala de leitura e a identidade do orientador da sala de leitura que ainda predominam hoje. É uma das experiências que mais me emociona lembrar, pelo alcance do programa, pela qualidade do trabalho e pela longevidade – até hoje, quase trinta anos depois, o programa de salas de leitura continua firme e forte, sem que nenhum prefeito ou secretário de educação tenha ousado desmontá-lo.

7. Grupo de jovens que passam uma noite acampados na escola e outras situações fazem parte dos cenários e das aventuras de seus personagens. Certamente foi no universo escolar que recolheu a inspiração para esses textos. Conte, por gentileza, um pouco ou algo mais dessa história, sobre a qual já deve ter falado na questão 3.

— A idéia básica é essa mesma: uma turma de crianças vai acantonar em sua escola. E à noite, enquanto todos dormem, um dos meninos, sem sono, “saracoteia” pela escola, indo parar na sala de leitura onde muitas coisas acontecem...coisas que somente muita imaginação permitem pensar...

8. O que foi o projeto ou a coletânea "Sete faces do Amor"?

— A coleção Sete Faces foi concebida por uma colega nossa, a Márcia Kupstas. Cada um dos muitos livros dessa coleção abordava um tema da literatura. Sete autores distintos escreviam, criando ou adaptando, uma das faces do livro. Eu participei de dois desses livros: Sete Faces do Amor e Sete Faces do Destino. Uma idéia muito boa, vendeu muito e encantou leitores. Extremamente bem feita. Não sei porque saiu do ar.

9. Participa hoje de uma Associação de Autores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil. Pode nos expor a experiência numa entidade de classe e qual o significado para os autores a existência de tal organização?

— Sou sócio da AEILIJ desde o início, como sócio fundador. Também fui um dos fundadores da APLIJ – já extinta – de vida curta, nos idos dos anos finais da década de oitenta e início da de noventa. Acho muito interessante a existência de uma associação desse porte. Penso que a razão fundamental de uma associação como essa seja a de organizar os seus associados no exercício de sua função profissional, que é escrever e ilustrar. Fora disso é fazer política pública, ser braço auxiliar dos programas de governo, tarefas importantes, mas não da essência de uma associação de profissionais.

10. Conte ao leitor a sua experiência e trajetória com os livros didáticos.

— Eu trabalhei muito tempo como especialista no ensino da Língua Portuguesa. Fui um dos primeiros a batalhar pela inclusão pra valer da leitura e da escrita como atividades essenciais do ensino da Língua Portuguesa, isso em uma época que o ensino da gramática era sinônimo de ensino de língua. Em razão disso, depois de ter dado tantos cursos e palestras, achei que era hora de por em prática algumas das ideias que sugeria aos professores. Tínhamos acabado de sair do governo da Erundina, o Paulo Freire como secretário da educação, muitas coisas na cabeça. Daí nasceu, com um amigo e parceiro, o Antonio Gil Neto, a coleção Nova Expressão, para as séries iniciais do ensino fundamental. Trabalho difícil, mas com bom resultado. Entramos nos programas do governo federal e vendemos muitos livros. Valeu. Depois não quis mais saber de livro didático. Fiquei no meio do caminho: nos paradidáticos.

11. Como pode o adulto se valer da Literatura Infantil para educar os seus pequenos sem transformar o livro numa chatice pedagógica ou didática, com ensinamentos morais, etc?

— Vamos combinar uma coisa: educar, tudo educa. Qualquer livro, qualquer texto, qualquer diálogo. Educa-se pela literatura, pelo didático, pela bula, pela cartilha...a vida é educação permanente. O que diferencia é a intenção didática mais ou menos presente nos textos/suportes/livros. Ninguém escreve no vazio de significações. Todo texto é contextualizado, tem referências, postura ideológica, etc. Então é bobagem ignorar isso. No entanto, creio que devemos considerar que há livros diferentes e intenções diferentes. Por exemplo, eu escrevo muita coisa com o objetivo específico de ensinar conceitos, de discutir comportamentos, etc. Aquilo que alguns chamam preconceituosamente de politicamente correto (aliás, é bom lembrar que o Monteiro Lobato já fazia isso. Leia Emília no País da Gramática e você verá), pode ser escrito de modo interessante e gostoso e ser lido com prazer por crianças e jovens. É possível, portanto, ensinar, pelo livro, pela leitura, sem a chatice que você lembra.

12. O universo da blogosfera ainda não compete com as letras impressas no papel, devido à confiabilidade sedimentada durante séculos pela imprensa escrita no formato tradicional. Mas, a cada ano se alastra as possibilidades do blog. Acompanha esse movimento?

— Acompanho. A meia boca. Ainda não tenho o meu blog, meu site ficou no meio do caminho. Colaboro com alguns blogs, acompanho vários, fuço muito em sites alheios, mas deixo a desejar na minha história. Um dia, uma hora, quem sabe...


13. Tem centenas e centenas e centenas de poetas no mundo da Internet, de modo que podemos dizer que o movimento literário alternativo da década de oitenta hoje se reproduz com a vantagem dos recursos que só a tecnologia pode ofertar. Como vê essa proliferação de poetas?

— Meu caro Marciano Vasques: há centenas de milhares de tudo. De comentarista, de jornalista, de prosadores, de contistas, de ilustradores, de poetas... Acho que é assim mesmo. Sempre foi. Antes ninguém sabia. Hoje, todo mundo se esconde no anonimato da grande blogosfera, cria coragem e mostra sua cara. Não tenho a menor idéia no que vai dar isso... Antes podíamos dizer “ Só Deus sabe!”. Hoje, nem isso podemos afirmar. Acho que até Deus perdeu o controle.


14. O governo brasileiro compra livros, mas falta algo para aprimorar ou até fincar o gosto pela leitura, inclusive entre pessoas que trabalham no campo educacional. Tem alguma sugestão?



— Tenho muitas sugestões. A mais importante delas é incentivar os educadores para que eles sejam sujeitos do seu processo, da escolha dos livros, da montagem do programa. Enquanto meia dúzia de iluminados (bem pagos) continuarem escolhendo os livros para os outros lerem, a coisa fica difícil. Descentralizar a escolha, a compra. Viabilizar recursos para montagem de projetos e programas de incentivo à leitura. Dar verdadeiramente melhores condições de trabalho. Melhorar a formação dos educadores... e vai por aí.


15. Já escreveu um romance? Sonha com isso ou pelo menos já pensou nessa possibilidade?

— Para adultos ainda não escrevi um romance, no sentido tradicional da palavra. Já escrevi alguns pequenos romances para jovens. Não sonho com isso, nem tenho projeto para tal empreitada no momento. Talvez um dia escrever minha trajetória pessoal, de forma romanceada. Quem sabe?

16. Tem algum livro que poderia citar, que tenha causado em você uma profunda impressão e cuja leitura possa ter influenciado de algum modo a sua vida?

— Tem livros que eu li e gostei muito. Não a ponto de causar profunda impressão e ter mudado minha vida. Minha vida pessoal e profissional é muito plana, previsível. Nenhuma grande mudança. A não ser uma separação dolorosa de um casamento de trinta anos. Sofri muito. E mudou um pouco minha vida. E não foi nenhum livro o responsável por isso. Nem o destino. O próprio caminho.
Livros que li e gostei muito??? São tantos...Capitães d’Areia, Autobiografia Precoce, Melhores contos de Machado de Assis, Cem Anos de Solidão, A Casa dos Espíritos, Poemas do Drummond, do Bandeira e do JCMN, Onde andará Dulce Veiga?, Incidente em Antares... e vai por aí...


17. Tem algum livro, de qualquer autor, clássico ou contemporâneo, que possa ser considerado o livro que você gostaria de ter escrito?

— Assim de bate - pronto: Contos de Eva Luna, da Isabel Allende. Pode ser que amanhã o escolhido seja outro. E depois de amanhã, outro... e outro... são tantos!


18. A noção de Direitos Autorais se avizinha numa transformação proporcionada e impulsionada pelo avanço tecnológico. Tem um parecer sobre essa questão?

— Penso que as coisas todas mudam e as últimas gerações, nós aí incluídos, vivemos em meio a transformações rápidas demais, principalmente na questão tecnológica. O suporte, a democratização do acesso, a transmissão, etc. tudo muda muito rapidamente. Mas o direito à autoria é e sempre será um direito inalienável. É o direito ao recebimento pelo trabalho, como qualquer outro trabalhador. E disso, por enquanto ainda não abri mão. Por enquanto, daqui a pouco não sei... a conversa continua.



19. Já escrevi sobre o livro "Amoreco": Um volume com deliciosas histórias com sabor de chuva e coração acelerado. Fale da gratificação desse livro em sua carreira literária.



— AMORECO é um livro muito querido. Gosto muito das histórias, dos pequenos contos ali registrados. São contos que tratam da descoberta – para o bem e para o mal – das coisas do amor pelos pequenos leitores e pequenas leitoras. Aquela sensação diante do desconhecido que todos nós sentimos em algum momento na vida, lá nos anos da doce passagem da infância para a mocidade. São pequeninas histórias do cotidiano de meninos e meninas às voltas com o ensaio e a espera pelo beijo, com as tentativas de escrita do bilhetinho, da escolha da declaração, com a surpresa da traição – que bicho é esse?. Tudo isso, em meio às brincadeiras ainda infantis.
AMORECO também me é particularmente querido pois as ilustrações foram feitas pelo meu filho Kiko. Um livro querido que já rodou o mundo, com sua edição em espanhol, AMORCITO, e já fez parte de muitos programas de leitura.


20. De um modo geral, vale a pena ser escritor no Brasil?



— Vale a pensa ser escritor no Brasil e, creio, em qualquer lugar do mundo. Adoro escrever. Não fico um dia sem escrever.
Escrever me reanima, me ilumina, me faz pensar o mundo, me ajuda a entender as pessoas e eu mesmo, me gratifica, me faz mais parceiro das pessoas, me reequilibra, me faz mais feliz...
Escrever é passar a vida a limpo.
Depois de tudo isso, escrever profissionalmente, ver os livros lidos, divulgados, comprados, adotados... é também muito gostoso e interessante.
Enfim... escrever, aqui, ali ou acolá é uma delícia.
PS. Os problemas relativos à publicação, vendas, prestação de contas, contratos, etc. são muitos, mas creio que fazem parte do ofício. E a gente vai levando e melhorando isso tudo.

21. Uma sociedade saudável, em termos mentais, de um modo geral, prestaria mais atenção em seus escritores, e em seus professores. Entretanto, assistimos ao desmanche dos valores essenciais na sociedade. De que forma a Literatura e a Educação poderiam reverter essa circunstância?

— Literatura e Educação têm muito a ver com a construção de uma sociedade socialmente mais justa, democrática e saudável. Não é à toa que quando o regime aperta educadores e escritores são os primeiros a serem perseguidos, expulsos, exilados, presos, etc.
Educação e Literatura se completam. E podem cumprir uma trajetória especial nessa direção. Desde que, devidamente valorizadas. E não é o que vem acontecendo em nosso país. Mas a gente é daquele tipo que acredita e segue na luta...

22. Dentro de pouco tempo a obra de Monteiro Lobato será de Domínio Público. O que pensa sobre isso?

— Dentro das regras atuais, acho legal. Mas sempre me questiono se uma obra de autoria deve ser de domínio público. Não sei... Talvez esticar um pouco mais o tempo. Ou talvez deixar a critério de cada autor. Fico devendo uma posição mais incisiva.

23. Acompanha o trabalho de seus parceiros? Tem tempo para ler um livro de algum de seus contemporâneos?

— Acompanho e muito. Estou sempre lendo. Claro, não na quantidade que gostaria. Até porque leio um pouco de tudo e tenho cá minhas preferências.

24. Acredita que livros como os de Harry Potter ou os de Paulo Coelho possam de fato proporcionar uma contribuição com a disseminação do gosto e do hábito da leitura?

— Acho que a questão da formação de leitores é um pouco mais complexa do que uma resposta a sua pergunta possa contemplar. Em princípio, a resposta é: sim. Qualquer livro lido é um pontapé inicial, um passo para uma caminhada, mas somente a leitura de um desses autores ou de outro qualquer não formará leitores. Ser leitor pressupõe uma caminhada mais sólida, mais definida, mais bem preparada, etc.


25. Também escreve poemas? Poderia nos comentar sobre essa modalidade de Literatura? É hoje a Poesia necessária? Por quê?

— Adoro ler e escrever poemas. Poemas para ler, eu escolho com muito critério, pois não acho que palavras amontoadas em frases possam ser poemas. Há muita confusão nesse sentido, principalmente das pessoas mais novas. Talvez por isso o mercado, não reconhecendo tanto qualidade na produção poética contemporânea, se recuse a publicar obras poéticas. Há alguma coisa boa publicada, mas escondida, mal divulgada. Para mim, os grandes poetas ainda são os mesmos de ontem: Drummond, Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana, Cecília Meireles. Do povo mais novo, gosto muito das coisas que a Adélia Prado escreve. E de uma amiga minha, Dulce Adorno, ainda inédita.
Eu escrevo poucos poemas. Minha arte não é tão engenhosa neste pedaço. Mas arrisco alguma coisa e... tenho publicado. Ainda recentemente fiz um punhado de poemas para São Paulo, sua gente, sua vida, seus lugares. Inédito, guardado para mim.
A leitura de poesia (de bons poemas) é um combustível necessário para quem escreve, para quem gosta de ver as coisas por outro lado, para quem se acostumou com a beleza dos arranjos palavrados. A arte poética tem a necessária função de re-figurar a vida.



26. Tem alguma pergunta que não foi feita e que gostaria muito de fazer ao Edson Gabriel?



— Foram tantas (e boas) as perguntas...
Acho que ficou faltando, mas fica para outra PALAVRA FIANDEIRA, conversarmos sobre as razões da escrita, sobre as ações centralizadas do governo na compra de livros, sobre selecionadores de livros, sobre atuação da escola, sobre direitos autorais pagos, etc..
Este dedo de prosa fica para outra PALAVRA FIANDEIRA...


26. Que palavras e que mensagem deixaria aos leitores de PALAVRA FIANDEIRA?

— Coisinha à toa: ler e escrever são dois ingredientes fundamentais da vida. Leia e viva. Leia e escreva!

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PALAVRA FIANDEIRA — 
Fundada pelo escritor Marciano Vasques

 Montagem artística de Rocío L'Amar

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

PALAVRA FIANDEIRA — 53

PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
REVISTA DIGITAL LITERÁRIA
ANO 2 — Nº 53 — 08/02/2011
NESTA EDIÇÃO:
Diretamente de Espanha

ANTONIO PORPETTA

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ANTONIO PORPETTA


1. Quem é Antonio Porpetta?

— Um homem que, entre viver e sonhar, sempre elege sonhar (ainda que seja com os pés no chão).


2. Tem viajado pelo mundo e conhecido gente. Fale aos nossos leitores dessa alegria. O que representam para o senhor esses encontros?

Belgrado/ 1997 — Com Maria Kodama e Snezana



Leitura na rua Skardalija


— A oportunidade de conhecer gentes, paisagens, vidas, costumes, apaixonantes. Ter encontros com seres humanos de uma qualidade inimaginável. Comprovar que ser poeta é bem mais do que uma habilidade para "escrever poemas". Reafirmar-me como pessoa entre pessoas. Entregar e receber.

3. Um de seus poemas diz que "nossa vida acaba sendo um dia". Fale, por favor, sobre isso.

— Acredito que os poemas não devem explicar-se: que cada leitor busque e encontre neles sua própria explicação. De todo modo, nesse poema — "Um dia" — trato de resumir a alegria de viver e a esperança em nosso viver cotidiano.

4. Tem um livro em Português. Qual o tema desse livro?

— É uma pequena antologia de quatorze poemas meus relacionados com o mar. Foi publicado, em idêntico formato, em Espanhol, Francês, Italiano e valenciano. Além do Português. O mar está presente com muita frequência em minha obra, como realidade e como símbolo. Amor profundamente "Meu mar" Mediterrâneo.


5. Um poeta que "não entende quase nada de blog". Para muitos, estamos entrando na era da tecnologia, que irá substituir a era humanista. Como vê a influência e o futuro da tecnologia na vida das pessoas?

— A tecnologia é muito útil para nos facilitar muitas coisas. Porém nada mais. Não deve converter-se em obsessão. E, claro, não remover o humanismo, epicentro de nossa dignidade como pessoas. Paradoxalmente, creio que a tecnologia pode nos ajudar a ser mais humanos.

6. Como se tornou poeta? Quando sentiu pela primeira vez que não poderia viver sem a poesia?

— Faz anos, a morte prematura e inesperada de um queridíssimo amigo me impulsionou a escrever algo em suas memória e homenagem. Sem esperar ou ao menos tentar, eis que resultou num poema. Assim me dei conta de que a poesia era para mim o meio idôneo para canalizar os meus sentimentos mais fundos. E desde então, junto a sua leitura, a criação poética foi o foco de minha vida.


7. Tem uma obra considerável: Livros de poemas, de contos, de ensaios, de teses acadêmicas. Qual o seu primeiro livro de poesia?

— Intitula-se "Por un Cálido Sendero" (1978), e é um livro em conjunto com minha esposa, Luzmaria Jiménez Faro (no total: a metade dela e a metade minha, com poemas separados) Foi ideia dela. Desde então, estamos visitando esse caminho - pleno de vida e de poesia -, cada vez mais cálido, com mais ilusão e mais esperança. Como todo primeiro livro, tem mais ternura que técnica.

8. Certamente recebeu prêmios literários. Como vê o prêmio na carreira de um escritor?

— Além de satisfazer o ego e da confirmação do próprio crivo literário, na Espanha servem, sinceramente, para publicar. As editoras raramente apostam na Poesia. Se o prêmio leva, além disso, a um acréscimo econômico, com a publicação do livro premiado, o autor pode ver sua obra difundida, com a possibilidade de ser lida por muitas pessoas.

9. Quais os temas predominantes em sua poesia?

— Não há mais que um: a vida. A vida em todas as suas vertentes, variantes e manifestações. Essa vida a que, em um de meus poemas, chamo "um absurdo milagre", que nos é concedida para nosso desfrute e nossa humana realização.

10. Tem viajado para diversos países da América Latina e de América Central. Poderia falar algo sobre a poesia contemporânea de América de fala espanhola?

— Geralmente, a poesia é muito respeitada e muito querida em quase todos esses países. Há grandes vozes poéticas e os poetas são admirados — às vezes, quase como seres superiores — publicamente quanto reservadamente. Os espanhóis temos muito que aprender com eles.

11. Diz que escreve toda a sua poesia numa torre. Que local é esse?

— É uma torre, na Sierra Madrileña (tem uma foto dela em meu blog), na qual me exilei para escrever, apenas interrompido — melhor, vestido — pelo canto dos pássaros. Dentro tenho um formoso sino do século XVIII, procedente de um velho convento, que sempre faço badalar quando termino um poema, como celebrando o nascimento de um novo ser.

12. A poesia é ainda necessária no mundo hoje?

— Hoje, mais do que nunca. É quase a única coisa que nos poderá salvar da mediocridade, a vulgaridade e o materialismo reinantes. Creio, sinceramente, que sem poesia não valeria a pena viver.

13. Teve livros traduzidos para outras partes do mundo?

— Sim, além dos anteriormente citados, coletâneas poéticas completas de minha lavra, foram levadas ao Alemão, Inglês, Russo, Sérvio, Árabes... Tenho tido sorte nesse aspecto.


14. Tem uma praça inaugurada com o seu nome. Qual é a sensação desse acontecimento e onde fica essa praça?


— A inauguração ocorreu em 30 de Janeiro de 2010, em Elda, meu povoado natal, na província de Alicante (uma cidade de 60.000 habitantes integralmente dedicada à produção de sapatos femininos). Foi uma emocionante demonstração de carinho sobre minha pessoa e minha obra.

15. De acordo com algumas previsões, o livro de papel desaparecerá com o avanço da informática, pois — dizem — o futuro é do livro virtual. O que pensa sobre isso?

— Não sei o que acontecerá. Porém, eu não posso prescindir do "prazer erótico" da leitura: a carícia dos dedos sobre o papel, o gozo sensível ao virar as páginas, o mesmo aroma da folhas, a adoção de uma postura adequada em qualquer lugar da casa ou em qualquer outro recanto, a mesma estética colorida dos livros em uma biblioteca... Um livro é muito mais que "algo" para ler: é "algo" para sentir e para ser mais feliz. O virtual jamais poderá substituí-lo.


16. Borges, nos anos 70, numa conferência na Argentina, disse que o livro é um objeto de culto, não no sentido religioso. Mas como zelo, respeito. Como interpreta essa declaração?

— Absolutamente de acordo, como bem disse na resposta anterior.


17. Conhece algo de Literatura Infantil?

— Conheço muito pouco. Parece-me um gênero extremamente difícil. O mundo das crianças é apaixonadamente complexo: adaptar-se a ele requer uns dotes literários e humanos muito especiais. Eu não os tenho.


18. Poderia citar algum livro que tenha lido e que tenha influenciado a sua vida ou transformado o seu pensamento?

— A lista seria demasiada longa. Cada livro que se lê modifica de alguma forma a vida do leitor, pois lhe proporciona, com maior ou menor impacto, novas experiências vitais, novas perspectivas, ou desperta adormecidas memórias.


19. Diante da tumba de León Tostoy; num encontro internacional de escritores em Belgrado: considera-se um escritor do mundo?


— Sem nenhuma vaidade, sim, considero-me um "escritor no mundo", felizmente cosmopolita. Por uma série de circunstâncias, desde 1985, em que realizei minha primeira leitura fora da Espanha, em Guatemala, tive o privilégio de levar minha poesia, e a poesia espanhola, de maneira geral, a muitas partes e diante de muitos auditórios. Fornecerei a você uns dados: que resumem esses vinte e cinco anos de atividades internacionais: 101 viagens ao exterior, 28 países visitados nos cinco continentes, muitos deles repetidamente. Um milhão de quilômetros de voo (aproximadamente, 25 voltas em torno da Terra), 356 atividades acadêmicas e culturais realizadas em 156 universidades e centros culturais... Que os leitores possam me perdoar por tantas estatísticas, mas é porque me sinto realmente plenamente recompensado por esse trabalho.


20. Se tivesse que escolher um de seus poemas para os leitores de PALAVRA FIANDEIRA, qual deles aqui deixaria?

— Eis que elegeria um muito breve, o menor que escrevi. É de meu livro "Silva de estravagancias", e diz assim:

... E pensar que estas rosas
não sabem que são rosas,
e entrarão na morte sem sabê-lo...



21. Conhece algo da Literatura brasileira?

— Envergonho-me confessar que sei muito pouco de sua Literatura. Porém, considero imprescindível, por exemplo, a poetas como Vinícius de Moraes, Ledo Ivo ( a quem conheci o ano passado — 2010 — em Bogotá), Cecília Meireles, Drummond de Andrade... Grandes vozes da Poesia Universal.

22. O que é o prêmio espanhol "Fastenrath"?


— É o mais antigo prêmio literário de Espanha (creio que surgiu em 1909). É concedido pela Real Academia da Língua Espanhola ao livro mais destacado (alternadamente, de Poesia, Romance e Ensaio) dos cinco anos anteriores. Foi concedido em 1987 ao meu livro de Poemas “Los sigilos violados”.


23. Seu poema "Las Sirenas" considero intrigante e profundo. Poderia nos comentar o que originou esse poema?

As pobrezinhas sereias necessitavam de uma reivindicação: não eram gente más. Sinceramente, nem sabiam que seus cantos encerravam a morte. Se os houvessem sabido, tenho certeza de que teriam permanecido bem caladas. Nesse poema, coloco-me ao lado delas e as defendo. Tinha que fazer isso.


24. Para um poeta basta a inspiração ou a técnica é imprescindível?

— Eu responderia como respondeu San Juan de La Cruz a uma pergunta semelhante: "Alguns versos me são ditados por Deus. Porém, a maioria, eu os invento". Sem chegar a esse contato com a divindade, creio que no processo criativo tem algo de "inspiração" e muito de técnica. O poeta tem que se deixar na folha branca alguns chips de sua própria vida. Ainda que sem magia de nada serviria o fazer poético.

25. Seus pais eram portadores de uma cultura erudita, que incluiu a música clássica e uma ampla biblioteca. Considera que o meio ambiente influencia nos rumos da vida de uma pessoa?


— Tive essa sorte. Todavia o ambiente, às vezes, "influencia", não "determina".


26. Seu livro "HISTORIAS MÍNIMAS Y OTROS DIVERTIMENTOS" trazem contos curtos. Numa época de texto curto (Twitter) o romance de texto longo sobreviverá?

— Naturalmente que sobreviverá! O que não sei é "como" irá sobreviver. Desde os mais velhos tempos todos necessitamos que nos contem histórias, que nos levem com a imaginação a mundo reais ou fictícios, que, de uma maneira ou outra, nos façam sonhar... A literatura cumpre essa função social imprescindível: que o homem consiga "ser" além de "estar".

27. Conte-nos sobre o seu livro "Memórias de um Poeta Errante."

— Eis que é um livro no qual um poeta errante (eu) expõe suas memórias. Agora, falando seriamente: nele recolho detalhadamente todas as minhas andanças literárias pelo mundo. Pessoas — de nosso ambiente ou não — povos, paisagens, anedotas, experiências... Tudo o que foi por mim vivido em minhas viagens pelo estrangeiro, amplamente exposto. Há, como é natural, momentos tristes, alegres, divertidos, preocupantes, perigosos... É um livro, em suma, pleno de vida... Porém, de vida "vivida".

28. Que palavras e mensagem deixaria aos leitores de PALAVRA FIANDEIRA?


— Que não deixem de visitar e recomendar este magnífico Blog, de tanto interesse para os que amam a literatura. Bem construído, atraente, com sugestivos textos... Um luxo para escritores e leitores.
Também, meus agradecimentos aos que aqui chegaram na leitura desta entrevista. (Agradecimentos extensivos, claro, ao Marciano Vasques, que tão amavelmente a propôs e a tornou possível.)
E finalmente, se têm um tempinho livre, lhes agradeceria muito que me visitassem em: http://www.porpettablog.com




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TRADUZIDO DO ESPANHOL PARA O PORTUGUÊS POR 
MARCIANO VASQUES

PALAVRA FIANDEIRA 
Fundada pelo escritor Marciano Vasques

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