EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

sábado, 16 de julho de 2011

PALAVRA FIANDEIRA — 63


PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
REVISTA DIGITAL LITERÁRIA
17/JULHO/2011
ANO 2 — 63

 NESTA EDIÇÃO:
ESCOBAR FRANELAS
"Meu viver é a experiência poética mais completa."
 Escobar Franelas — foto: Raquel Ramos
______________________
Exposição de Fotopoemas—Sacramento, MG —foto: Escobar Franelas


1—Quem é Escobar Franelas?
Escritor e videomaker paulistano. Depois de muito perambular, estou quase terminando uma graduação, em História. Gosto sobretudo de livros, mas também de artes em geral, filosofia e práticas ambientais sustentáveis. É sobre esse quadrado que minha vida está estruturada.
 Escobar Franelas —gravação do CD "Sacha 60" — foto: Akira Yamasaki

2—Já nos encontramos em algumas pontas de uma corrente serena formada por poetas, jornalistas, idealistas, sonhadores, que com suas antologias, suas páginas literárias vão conduzindo essa vontade de divulgar os fazedores de poesia e arte. Entre esses amigos, o Zanoto, que nos deixou recentemente, e o Selmo Vasconcelos, de Rondônia. O que é para você, participar dessa pulsação?
É participar – como você mesmo nos diz – da essência de uma produção devotada ao “fazer”, sem que isso seja simplesmente uma submissão às exigências financeiras ou midiáticas. A maioria desse pessoal (o antigo underground, hoje não sei que palavra usar com exatidão) produz cultura e arte no sentido mais profundo, pois não estão sob sistemas, formais ou não, de dominação de mercado.
A artesania vem da experimentação, ludicidade e prazer que nos levam aos gregos, onde a arte anelava-se ao sagrado. Entendo e professo a arte assim, como o sagrado que se manifesta em vida.

3—Tive a grata alegria de estar algumas vezes com Raberuan. Poderia, por favor, contar aos nossos leitores, sobre esse artista de São Miguel Paulista, de quem tanto gosto?
 Escobar com amigos, entre os quais o cantador Raberuan
Beto Rios; Akira Yamasaki; Escobar Franelas; Raberuan e Eliel Lima — gravação do cd "Sacha 60" — foto: Ceciro Cordeiro
Raberuan é um compositor inspirado, crooner versátil e cidadão como poucos. Não é um artista deslumbrado, antes, é um militante do humano que há na arte.

4—Como você “se achou” trabalhando no mundo do audiovisual?
Iniciei no audiovisual trabalhando numa finalizadora de VHS, em 1988. O videocassete tinha acabado de chegar ao Brasil e havia uma demanda muito grande na produção de filme para o mercado doméstico. Tornei-me operador de vídeo, depois aprendi a ciência da edição de um filme, tradução, legendagem, essas coisas. Com o tempo, veio a vontade de produzir alguma coisa, dirigir... foi aí que finquei parceria com um antigo parceiro, o Gilberto Tavares, com o qual até hoje fazemos manufaturas. Atualmente, estou terminando a montagem de um vídeo experimental sobre a poesia de Dailor Varela, um poeta seminal nas letras brasileiras dos anos 60, ao mesmo tempo que estou produzindo um documentário sobre o Movimento Popular de Arte (MPA), em parceria com o Giba e o Claudemir Santos. O MPA é a principal referência quando se estuda as questões artísticas e culturais na região de São Miguel nos últimos 30 anos.

5— Considero um poema de Bandeira o mais triste e belo de nosso idioma. Sei que gosta de Bandeira, e de outros poetas. Poderia nos dizer até que ponto o contato com a escrita de poetas consagrados pode influenciar o surgimento de um novo poeta?
Quando iniciei meus escritos, imitava o Bandeira pois achava que seria mais fácil escrever como ele, em branco e sem métrica. Quanto engano! Pois se não tenho rimas e metros, tinha que ter assunto, enredo e ritmo, coisas que aprendi (ou, pelo menos, julgo ter aprendido um pouco!) com o tempo, lendo, relendo e treslendo Bandeira.
Teve um momento que pensei em desistir, pois cria que não conseguiria jamais atingir o nível deles. Hoje convivo bem – aprendi com Quintana – sendo passarinho, figurante na beleza fulgurante da poesia brasileira.
Poeta Manuel Bandeira
6—Não podemos negar os benefícios da tecnologia, mas ao ver que estamos entrando numa nova era, será que a poesia, e as artes, podem contribuir de alguma forma para o retorno, ou melhor, para que a era humanista não se vá por completo?
Nunca perderemos essa verve, fique tranquilo. O máximo que acontece às vezes é que interesses de poder e capital dominam a cena por um período. Mas como bem sabemos, o mundo, a vida, são cíclicos. No dia que perdermos totalmente as referências humanísticas, não será mais mundo, ou, pelo menos, não seremos mais gente.

7—Você se assume e se reconhece poeta, “mesmo quando não está escrevendo”. O que é exatamente isso, o que significa se sentir poeta, ter essa consciência de ser?
Sou poeta não porque escreva poesia. Meu viver é a experiência poética mais completa. Isso é o que chamo irmanar a arte com o sagrado. Sempre defendo a idéia de que pode-se ser visceralmente poeta tomando café numa padaria barulhenta às sete da manhã, ou vivendo a intensidade do amor, mesmo que não se profira palavra alguma.
 Escobar Franelas —gravação do CD "Sacha 60" — foto: Akira Yamasaki

8— Você é fotógrafo, é artista audiovisual, é perfomance ambulante, é um camelô a repartir com as luzes da cidade a poesia que está no que pode ser imperceptível no cotidiano, mas pode também jorrar nos olhos de quem se atrever. A poesia é necessária em nossos dias, em nossa sociedade?
Poesia é necessidade orgânica. E, tal como o ar, só sentimos falta dela quando deixamos de “respirá-la” ou quando a sorvemos com as sujeiras que alguém lançou sobre ela.

9—Facebook e outros virtuais inauguraram uma nova era, sem dúvida. Em todos os sentidos. A criança que tem 9 anos, mas 20 no Orkut, etc. Como você traduz essa nova realidade que surge trazendo um novo espírito para a época?
Eu não ousaria traduzir, mas admito minha estupefação. Esse é o transe, a nova perspectiva que não foi dominada totalmente pelos capitalistas de plantão. O Cláudio Prado repete sempre esse bordão, as redes sociais no ambiente holográfico da internet são o novo parque de diversão, o pique-esconde que brinquei e meus filhos não brincam mais. Há uma nova maneira de ligar-se ao outro, novas formas de comunicação que fogem ao contexto de quem cresceu dependendo do mundo físico.

10—Se tivesse que escolher um de seus poemas para o nosso leitor, com qual nos brindaria?
Para não cansar os desavisados, vou com um de meus haicaos, bem curtinho:
“A mobília imobiliza / a sala de estar / invente andar” (Tráfego)

11—O que seria para você o clímax poético?
É como o orgasmo, você não o explica. Mas vivencia a plenitude de seu acontecimento. Como explicar a densidade de Clarice Lispector, hein? Como colocar em palavras o que sinto quando leio Drummond? Não dá. Tudo o que falo de Borges, ainda assim não é o Borges legítimo, no original, que, aliás, todos deveriam ler – completo – pelo menos uma vez na vida.
 
Clarice Lispector
Clarice Lispector (divulgação)
12—Tem quem se supõe estrela por ter publicado o seu primeiro trabalho artístico, tem quem não consegue aceitar o outro, pelo fato de o outro não pertencer ao seu grupo, e tem aquele que apenas quer produzir arte, e seguir em frente, tentando embelezar o mundo, os corações e às consciências, e ainda tem os que “utilizam” a própria arte para denunciar as injustiças, etc... Onde vamos encontrar Escobar Franelas?
Putz. Questão difícil essa... Não sei falar de Escobar Franelas. Sabia que até inventei um alter-ego (e ainda por cima feminino!), só para tentar dialogar comigo? Chama-se Maria Dumário e desempenha o papel de psicanalista.
Então, vou pedir para ela responder essa questão. Bem, ela diz que Escobar é pura ficção, mentira das bravas! E pede para você tomar cuidado com ele. (hehehe)
Mas, tomando o microfone dela para retomar a palavra, digo que gosto mesmo é de escrever. A experiência de publicar não me realizou, como eu tinha imaginado. É bonito viver essa situação, os amigos, a festa, o reconhecimento. Mas gostoso mesmo, é ser surpreendido por uma idéia e dela se tornar prisioneiro, até que a coloque no papel.

13—Você tem um carinho especial pelos blog como espaço de cultura, de consciência, como “uma sala de leitura”. O que representa exatamente a blogosfera para você? E terá ela vida longa? Por quê?
É a nova sala de leitura, mais interativa, dinâmica, imprevisível. Sem dúvida ela representa a biblioteca. Hoje temos várias “alexandrias” a um clique dos dedos, e – incrível – não nos damos conta.

14—Certa vez eu comentei que era escritor, e alguém perguntou: qual o seu livro? Eu respondi que não tinha livro publicado, a pessoa murchou, mas eu continuei sendo escritor. Tem algo a dizer sobre isso?
Vejo duas saídas para questões como essa: tentar convencê-lo de que há erros em sua interpretação, ou dar de ombros e sair de perto. Na maioria das vezes, prefiro a segunda alternativa, que é mais rápida e facilmente aplicável.

15—Tenho um apreço especial pelos jornais de bairro, os jornais regionais. Acredita que, de um modo geral, quem tem paixão pela liberdade, busca a sua alma no jornal?
Acho que os jornais são instrumentos muito importantes para a construção do espírito democrático. Embora as instituições religiosas e a ladroada política usem sempre no sentido contrário.

16—Sempre me sopra uma alegria no coração ao ouvir falar de Akira, de Raberuan, de Jocélio Amaro, que nós, os Vasques, amamos, e também Sacha, e outros. Vocé é oriúndo do Movimento Popular de Arte, de São Miguel Paulista, terra de Antonio Marcos? Poderia contar aos leitores, de forma resumida, a história dessa história?
Nunca fui do MPA. Até me aproximei deles em 1998, 99, quando já fazia uns 13 anos que o movimento tinha implodido. Mas colho até hoje as benesses de conviver com gente tão interessante. O MPA nasceu mais ou menos em 1978, fruto de um interesse popular que discutia cultura e arte na região. Ajuntamentos humanos – como sempre repete o Luiz Alberto Mendes – sempre produzem cultura, “somos homos culturalis”, e vários artistas juntos (discutindo arte!), só poderia dar no que deu: um corolário de produção, com muita música, teatro, poesia, artes plásticas e mais, com vigor, inspiração e muita disposição. Por questões diversas, o movimento perdeu um pouco da força com o passar do tempo, mas nos legou uma história de lutas e conquistas. Tanto que Edvaldo Santana, Akira Yamasaki, Sueli Kimura, Sacha Arcanjo, Ceciro Cordeiro, Raberuan, Zulu de Arrebatá, Osnofa, Gildo Passos, Artênio Fonseca, Cláudio Gomes, Nelson Mouriz e muitos outros continuam aí, compondo, fazendo shows, se apresentando, escrevendo, pintando.

17—Pode revelar alguns de seus projetos?
Em literatura, acabei de finalizar um romance, “Antes de Evanescer”, que está na revisão. Vou atrás de editora pois espero publicá-lo ainda esse ano. E tem mais dois livros de poesia e um de contos, mas estes ficarão para depois.
Em audiovisual, estou finalizando um curta metragem experimental cujo enfoque é a poesia de Dailor Varela (ícone do movimento Poema-Processo), e fazendo as captações de imagens para o documentário sobre o MPA, que pretendo lançar no ano que vem.
Também estou publicando muito material na internet, para a revista Ounão (http://www.revistaounao.com.br/), para o Fora do Eixo (http://foradoeixo.org.br/), que é um circuito de produção independente e para a União Brasileira dos Escritores – UBE (http://www.ube.org.br/).

18—Acompanho as suas andanças, e essa persistência de Soldadinho de Chumbo é algo encantador. Qual foi o seu primeiro livro publicado?
A primeira participação foi na Antologia Poética de Pinheiros(Scortecci, SP), em 1988, com dois poemas de dar dó. Essas coletâneas são ótimas pra isso, você aprende muito convivendo com outros que praticam a mesma arte. Depois vieram outras antologias até que consegui lançar meu único livro-solo, em 1998, “hardrockcorenroll”.
Após isso, aconteceram outras coletâneas e até alguns prêmios literários.
Hoje, contudo, meu interesse maior está nas dimensões e ferramentas da cultura digital. É por esse caminho que estou me enveredando cada vez mais.

19—Era uma vez um tempo em que não havia bastidores na vida artística e musical no Brasil e nossa função, segundo alguém comentou, seria a de aplaudir e até, em certos casos, idolatrar, e a internet acabou com isso. Acredita que estamos mais próximos de uma compreensão mais ampla da importância da arte?
Não creio. Acho que surgirão sempre maneiras de tornar qualquer arte rarefeita. É o contraponto natural de qualquer tipo de expressão. Sempre há uma face mais elaborada e outra com apelo mais popular.
Agora, se entendi bem sua questão, vou ao cerne: muitas vezes leio textos, ouço cd, vejo encenações, quadros, tudo de colegas ou pares, e minha opção é não comentar. Por quê? Porque fico em dúvida quanto à qualidade destas obras. Prefiro, nesses casos, guardar silêncio. É evidente que muitas vezes o silêncio é outro, por falta de tempo para fazer um texto bom.
Quando minha humilde compreensão permite enxergar qualidades no trabalho – e há tempo para escrever um texto que dignifique este trabalho – sou o primeiro a “botar a boca do trombone.” Imagina, o artista é bom, não tem retorno de mídia e eu vou campactuar com isso? Sem chance! Alardeio, cito, comento, divulgo, sim senhor! Para isso a internet é ótima.

20—Você teve uma exposição de fotopoemas. Onde e quando isso aconteceu? Pode nos dizer sobre?
A pré-estreia foi em 25 e 26 de junho, quando participei do Festival de Inverno do Parque Náutico de Jaguara, em Sacramento, MG. A estréia mesmo será em 29 de julho próximo, n´A Casa Amarela (http://www.acasaamarela.net/), num sarau que unirá várias linguagens artísticas. Depois disso, ficarão expostos lá por um mês.
Os fotopoemas nasceram de uma combinação não prevista. Sempre uso a câmera de meu celular par fazer fotografias inusitadas. Com o tempo, percebi que elas poderiam dialogar com os poemas curtos que pratico, os “haicaos”. Daí para o casamento entre eles, foi um passo relativamente curto.


21—A partir dessa edição, PALAVRA FIANDEIRA sempre terá 22 perguntas. E você é o primeiro nisso. Poderia, num exercício poético dizer 22 palavras. Apenas isso, 22 palavras?
“A palavra, seu processo e seu clímax, obedecem apenas à emoção e ao intelecto. Nessa trama, cria vida quando torna-se teia: fiandeira!”

22. Que mensagem deixará aos leitores da sua PALAVRA FIANDEIRA?
“Amem!” “Amém.”

 
ANDANÇAS
COHAB II (Itaquera) — foto: Escobar Franelas


POESIA
      _______________________________________________

PALAVRA FIANDEIRA
Fundada por Marciano Vasques
A entrevista de Escobar Franelas foi concedida 
ao escritor Marciano Vasques

       __________________________________________________

quarta-feira, 13 de julho de 2011

PALAVRA FIANDEIRA — 62



PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
REVISTA DIGITAL LITERÁRIA
13/JULHO/2011
Ano 2 — Nº62

NESTA EDIÇÃO:
REGINA SORMANI 

____________________________________________



1—Quem é Regina Sormani?

—Lembro-me que vc já fez essa pergunta certa vez. Eu respondi que sou uma pessoa que não desiste nunca. É verdade e quero acrescentar que, além disso, aprecio as coisas simples, tais como a vida no campo. Adoro cuidar do meu jardim, minha horta e pomar. E, estando ao lado da minha família, isso me deixa ainda muito mais feliz.

Escritora Regina com o filho artista


2—Você completa o seu mandato de coordenadora da Regional da AEILIJ de São Paulo. Diga primeiro aos leitores, por favor, o que é a AEILIJ:

    —A AEILIJ é a associação de escritores e de ilustradores de literatura infantil e juvenil que está completando 12 anos e da qual eu e você somos associados.



3—Ao sair da coordenação, qual a lembrança mais feliz que levará com você?

    —Uma boa lembrança é a da conquista de um espaço para os associados dentro do Estande das Entidades Apoiadoras, a convite da CBL, durante a Bienal do Livro de 2010 em SP. Foi muito prazeroso ver escritores e ilustradores de Sampa e das demais regionais, ali reunidos, mostrando seu trabalho, autografando, recebendo os leitores.



4—Uma das realizações da sua gestão foram as homenagens na Assembleia Legislativa. Tatiana Belinky, Nelly Novaes Coelho são alguns dos contemplados nesses eventos. Diga o que significou esse projeto para você e como surgiu a ideia.

    —A idéia inicial veio do escritor Edson Gabriel. Ele trabalha na Assembleia Legislativa de São Paulo com o deputado Giannazi que, por sua vez, gentilmente, nos ofereceu sua ajuda. Dessa forma, formamos uma bela parceria e, durante quatro anos desenvolvemos um projeto de homenagens à personalidades ligadas à literatura. Essa foi uma importante iniciativa da regional paulista da AEILIJ.
     Regina com o escritor e colaborador Edson Gabriel
    5—Você teve várias iniciativas, e fez brotar páginas importantes no blog, algumas criadas pelos próprios participantes, e aglutinou em torno delas alguns bons colaboradores. Poderia falar um pouco sobre uma delas, o Pé de Meia Literário, que foi mantido por Edson Gabriel, através de crônicas. Essa página, o que ela representou para você?
    —Convidei o Edson para ser colaborador do blog paulista e ele aceitou, criando a página Pé de Meia Literário. Ele é um excelente escritor, viaja bastante, faz palestras, está sempre trazendo matérias oportunas e interessantes para o blog.





6—Antes de se tornar autônoma, PALAVRA FIANDEIRA surgiu amparada no blog que você tão bem administrou. Como foi uma leitora da revista, poderia dizer quais as entrevistas que lhe foram de alguma forma marcantes, tirando a sua, naturalmente?



—Sou fã da PALAVRA FIANDEIRA, você sabe. As primeiras entrevistas, com a Tatiana Belinky e o Bartolomeu Campos Queirós me cativaram pela sua espontaneidade e simpatia.



7—Pude notar um carinho todo especial de sua parte para a página CANTO&ENCANTO DA POESIA, o que traduziu uma queda sua pela poesia infantil, isso confere?



    —Sim, o Canto&Encanto é a minha página, porque eu realmente gosto de me comunicar pela poesia. Entretanto, preferi abrir a página a todos os associados que queiram enviar seus poemas. Você já esteve por lá, lembra?





8—Seu VICE&VERSA reuniu autores, ilustradores, editores, e, isso que foi a novidade, um entrevistando o outro. Agora que está deixando a coordenação da regional, que destino pretende dar para o VICE&VERSA? Pode revelar algo nesse sentido?

    —O Vice-Versa tem recebido muitos elogios. É mesmo uma novidade, com os dois participantes entrevistando um ao outro. Em agosto, o Vice completará três anos, sem falhar uma vez sequer. Se eu tiver alguma novidade a respeito, com certeza divulgarei.



9—Sem dúvida, além do seu envolvimento com questões importantes para os escritores e os ilustradores, sua participação em encontros na CBL e outros, o blog foi alvo de muita atenção, muito esmero, zelo e carinho. Tem algumas novidades para ele, agora que não mais atuará como coordenadora?

    —Como todos sabem, convidei novas colaboradoras para o blog paulista. Espero por novas páginas, matérias interessantes, muito movimento mesmo. Minha espectativa é que surjam mais e mais seguidores, e que as visualizações, superem em breve a casa das 20.000. Já atingimos mais de 19.000. O blog paulista recebeu pelo terceiro ano consecutivo o selo Top Blog, ou seja a terceira indicação para o prêmio.

10—Sua ideia do conto coletivo, o “Primavera em Sampa”, acabou resultando num “Almanaque”. Poderia, por favor, nos contar essa trajetória, desde a ideia inicial.



—Convidei os associados de Sampa para criar contos coletivos em 2009 e 2010. Em homenagem a eles e à cidade que acolhe a todos, o projeto foi denominado Contos Coletivos Primavera em Sampa. Para abrigar os textos, montei uma revista virtual que batizei de Almanaque Primavera em Sampa cujo terceiro número já está saindo.



11— Quais foram as grandes alegrias durante a sua coordenação da Regional? Você se sentiu plenamente realizada? Tem algo que gostaria de ter feito e não conseguiu?



    —Olha, tenho certeza absoluta de ter tentado fazer sempre o melhor para associação e associados. Gostaria, sim de ter realizado mais eventos, feiras, exposições. Utilizei a lista regional e o blog como instrumentos para aproximar escritores e ilustradores que até pouco tempo mal se conheciam. Mas, na realidade, nunca foi fácil. São Paulo, com quase oitenta associados ainda não tem autonomia financeira e esse fator pesa muito, na hora de agilizar um projeto, realizar uma viagem ou evento importante.



12—O blog é acompanhado por muitos seguidores e se tornou um centro irradiador da presença dos autores em São Paulo. Isso certamente a transborda de orgulho. Pode nos falar sobre essa sensação?



—É verdade que o blog paulista é um sucesso. Aos que iniciam agora a montagem e desenvolvimento de um blog, quero dar uma dica: O blog do EU SOZINHO, não vai emplacar. Façam parcerias, abram páginas e o coração, convidem colaboradores, compartilhem.



13— Um dos lances mais procurados no blog é o MURAL,conduzido pelo Danilo Marques, que traçou sempre um painel do que acontece no mundo literário e cultural de Sampa. Você também esperava pelas notícias do MURAL?



    —Quando comecei a montar o blog paulista chamei o ilustrador Danilo Marques e sugeri um mural para noticiar lançamentos, palestras e todo o tipo de eventos que fazem parte da vida do autor( escritor e ilustrador) Entendi que era uma página muito importante e pedi ao Marchi pra criar um logo que lá está até hoje. Outra página que caiu no gosto do leitor foi a Página do Ilustrador, da qual me orgulho bastante. Conforme você tem conhecimento, tenho dois ilustradores em casa: o Marchi e a Raquel, minha filha que desenha moda.



14—Pessoas novas surgiram, bons amigos, gente que se revelou, como Simone Pederson. Eis uma das conquistas do blog e da sua atuação. Aproximar pessoas, enlaçar autores com o laço da amizade. Esse foi de fato também um de seus objetivos?

    —Sem dúvida. Eu me empenhei muito para fazer com que os escritores e ilustradores do interior do estado e litoral participassem das reuniões, dos eventos e do blog. Temos profissionais excelentes e participativos. Deixo um beijo pra todos.



15—Para fechar nossa entrevista, poderia nos deixar aqui um balanço geral de sua atuação e também os seus agradecimentos aos colaboradores, e tudo o mais que considerar importante dizer?

    —Veja, já fiz minha despedida da coordenação regional na nossa lista e o pessoal me respondeu, em peso, com muito carinho. Pra mim, essa manifestação foi o suficiente para acreditar que meu trabalho foi reconhecido.

Regina entre amigos, escritores e ilustradores, em evento na livraria CORTEZ



16— PALAVRA FIANDEIRA inaugura uma nova fase, com entrevistas mais curtas. Em vez de 26 perguntas, que era a média norteadora da publicação, agora teremos menos perguntas. E você é a primeira entrevistada nessa nova fase. Falando nisso, o que achou da PALAVRA FIANDEIRA em seu novo formato, o formato revista, que continuará simultaneamente com o formato blog?



    —Muito linda a PALAVRA em seu novo formato, com a qualidade de sempre, claro.

Capa da primeira edição de PALAVRA FIANDEIRA em seu novo formato



17—Que palavras deixará aos novos coordenadores da Regional de Sampa?



—Houve mudanças em algumas coordenações regionais e agora, Sampa tem duas

coordenadoras. Acredito que, em dupla, haverá uma maior oportunidade para realizar bons trabalhos, dar uma atenção especial aos associados. Espero, com sinceridade que superem minha gestão em qualidade, generosidade e doação







18— E que mensagem deixa aos leitores de PALAVRA FANDEIRA?



    —Queridos leitores da PALAVRA FIANDEIRA! Parabéns pelo bom gosto! PALAVRA está cada vez melhor.Quero convidá-los para conhecer minha nova revista virtual. Acessem: HTTP://almanaqueprimaveraemsampa.blogspot.com



__________________________________________________

PALAVRA FIANDEIRA
Fundada pelo escritor Marciano Vasques

__________________________________________________________

quarta-feira, 27 de abril de 2011

PALAVRA FIANDEIRA — 61



PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
REVISTA DIGITAL LITERÁRIA
28/ABRIL/2011
Ano 2 — Nº61

NESTA EDIÇÃO:

ANGELA LEITE DE SOUZA
Foto: Marcus Castilho

PALAVRAS EM PLENO VOO

__________________________________________________

TEMPOS DO TEMPO DE ÂNGELA LEITE

1. Quem é Angela Leite de Souza?
— Os que me conhecem mais de perto dizem que são duas: a profissional, cheia de energia, que batalha incansavelmente para manter o espaço conquistado e que teve até coragem de encarar um concurso público aos 53 anos de idade, iniciando nova carreira; e a outra, introspectiva, de pouco falar e muito escutar, quase tímida, um coração de manteiga...


2. Você é feita de coração, e certamente poderá dizer e apontar aos nossos leitores
logo de entrada, um jeito de viver.
— Já percebi tudo, caro entrevistador, você quer me interpretar pelo que escrevo, não é? Um jeito de viver que considero bom é o do personagem do livro que tem esse título e que é até hoje um dos meus best sellers – sonhando e amando, sempre e acima de tudo. Difícil, mas não impossível.




3.Angela Leite, tudo pode ser brinquedo?
— Pode, embora, muito incoerentemente eu tenha a mania de levar tudo muito a sério. Sinto, porém, que a maturidade tem me dado alguma leveza. E, por outro lado, ao me dedicar cada vez mais à literatura infanto-juvenil, escrevendo ou ilustrando, consegui fazer da brincadeira o meu trabalho.

4. Sempre que eu a vejo em foto ou num vídeo, na maioria das vezes está de vermelho, uma blusa, um detalhe... Isso é apenas coincidência, ou tem algum significado?
— Tenho fascinação por vermelho e sei, vaidosa que sou, que essa cor favorece muito as morenas...

5. Fez recentemente sua estreia no mundo digital de vez, com o lançamento de seu primeiro e-book. Consideramos que a emoção de um livro de papel já é nossa velha conhecida, como foi então a sua emoção diante desse seu primeiro livro digital?
— A primeira sensação que tive – afora o encantamento de ir acompanhando a criação das ilustrações, que o JPVeiga me enviava aos poucos – foi a de me jogar em um precipício: o novo, o desconhecido, cercado de tantas reservas... Mas, à medida que vou me “enfronhando” mais nesse mundo digital, sinto que estou no caminho certo e que o futuro pode me reservar muitas alegrias. A emoção de cada “filho literário” que nasce é sempre grande. Mas, para dizer a verdade, quando fica pronto um novo livro meu, e recebo os primeiros exemplares da editora, morro de medo de folheá-lo e me arrepender de alguma coisa, ou descobrir um erro imperdoável! Então, costumo adiar um pouco o prazer do “cheirinho de papel” que o livro impresso oferece.

6. Nesse livro seus poemas resgatam uma antiga arte japonesa, o haicai. Conte como chegou a esta releitura do fazer poético japonês, sendo que já peregrinou por esse caminho em outras obras, sim?
— Realmente, “Tempos do Tempo” é o quarto livro de haicais que publico. Sem contar alguns avulsos que estão no livro “Estas muitas Minas” e mais umas dúzias que ainda vão virar novos livros. Eu sempre fui muito sintética ao escrever e, há muitos anos, estava eu entregando uns poemas para serem publicados no Suplemento Literário do “Minas Gerais”, quando fui apresentada ao poeta Yacilton Almeida. Ele quis conhecer minha poesia e, ao ler, exclamou: “Você é uma haicaísta nata!” Eu nem sabia se estava sendo elogiada ou não... E tive ali mesmo uma pequena aula sobre o haicai, depois complementada por muitas leituras teóricas e de haicais de autores japoneses e brasileiros que praticaram/praticam essa arte. Só então comecei a experimentar o gênero e tentar corresponder ao que o Yacilton dissera. E me exercitei tanto que hoje tenho dificuldade de escrever poemas extensos. Por que gastar tantas palavras se em três versos é possível contar uma história, ou fazer uma reflexão, ou capturar o momento?

7. Ainda sobre o seu primeiro livro digital, poderia nos dizer quais são os tempos do tempo? Sem entregar o ouro do livro, claro.
— O tempo, na nossa língua, tem duas acepções. À medida que um passa, o outro pode mudar muito... Deixo aí a charada e quem quiser decifrá-la, por favor, que entre em alguma livraria virtual e procure encontrar meu eBook, sem perda de tempo!

8. Angela, palavras são pássaros?
— Sim, e acho que a maioria dos escritores sabe que, por seguro, é bom ter um alçapão à mão.


9. Quando sentiu pela primeira vez que as palavras são pássaros? Era uma menininha? Uma adolescente?
— Talvez a menina que escreveu, com letra incerta de principiante, um texto intitulado “Discurso” e que começava assim: “O dono do Brasil morreu” – já intuísse o quanto a vida pode ser efêmera. Daí, a necessidade de prender logo no papel os acontecimentos importantes. Daí, também, a escolha do jornalismo, como primeira profissão. Mas acho que foi na adolescência, ao ensaiar a poesia, que ela descobriu o quanto as próprias palavras são fugidias e ai de quem não segurá-las enquanto estão passando, apressadas, no redemoinho de nossos pensamentos!

10. Pegar as palavras em pleno voo é o seu jeito de fazer poesia e ser poeta. Mas a poesia é também o jeito que achou de não parar mais de brincar. Poderia, por favor, nos falar sobre isso?
—   Acho que já adiantei esse tema ao responder a sua terceira pergunta. Mas posso —   acrescentar alguma coisa. Por exemplo, por que o lúdico tem de desaparecer de nossas vidas quando nos tornamos adultos? Não é brincando que a criança aprende a viver a vida real? Certa vez, uma psicóloga considerou como algo negativo, ou seja, como um sinal de imaturidade, essa “solução” que eu havia   encontrado na vida profissional.. Na época, isso me atormentou um pouco. Hoje acho muita graça: que bom que não matei de todo a criança dentro de mim.
11. Essa imagem de palavras em pleno voo é um encanto. Poderia nos exemplificar um pouco como as palavras podem estar em pleno voo?
— É aquela metáfora que inventei anteriormente: as palavras (ou ideias, ou imagens) começam a se agitar dentro de nós, como pássaros, como insetos, oferecendo-se muito brevemente a nossa escolha. Sem mais nem menos, escapam, e dificilmente conseguimos alcançá-las de novo. Se não tivermos por perto a nossa rede de entomologista – o papel e o lápis, ou o laptop - adeus verso ou frase!

12. E por conta dessa realidade tão virtual, de movimentos incessantes, como deve ser para uma criança estar diante de uma palavra impressa no papel, uma palavra que não se move? Ou a palavra impressa tem movimento? Sendo assim, como levar uma criança a perceber isso?
— Penso que a palavra não precisa se mexer fisicamente para mexer com a cabeça, a imaginação e o senso estético de uma criança. Sua capacidade de fantasiar é tão grande que com toda a certeza, para ela, as palavras dançam, cantam, aprontam sempre. Confio nisso. Porém, penso que o mundo virtual se tornou tão real e tão preponderante para as novas gerações que o caminho talvez venha a ser animar até mesmo as letras. A poesia concreta, por exemplo, já faz isso há muito tempo. Só não contava ainda com a tecnologia digital para ir mais além.

13. Quando aconteceu e como foi a sua comemoração dos 25 anos de carreira?
— Aconteceu em 2006, na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte. A ilustradora e artista plástica Regina Rennó organizou uma retrospectiva da minha produção e houve uma performance surpresa, preparada por um grupo de teatro que interpretou trechos de livros meus. Para culminar tanta emoção –pois compareceram até parentes de outra cidade a essa festa – o grupo “Tudo era uma vez”, formado por Dôra Guimarães e Elisa Almeida, presenteou-me declamando, com competência e sensibilidade, alguns poemas meus. Foram momentos que não vou esquecer.

14. Você enviou de Belo Horizonte um livro para uma menina chamada Melissa, com uma dedicatória repleta de lindeza. Claro que esse seu gesto é altamente revelador da personalidade de sua condição de poeta. O que demonstra não haver contradições entre o ser que escreve poemas e a pessoa que se diz Angela... Para você, isso é natural, não é?

— Como disse lá no comecinho desta conversa, tenho a minha dualidade, como quase todo mundo. Fui uma criança calma, dócil e, ao mesmo tempo, moleca, alegre. Adulta, tornei-me reservada, mas irônica, lutadora, mas que foge de brigas. Unindo tudo isso, tenho uma sensibilidade à flor da pele, que me faz cultivar a delicadeza. Talvez como um meio de me proteger... E esse modo de ser é, sim, muito natural para mim.

15. Participou de um evento ao lado de Lino de Albergaria, e estava radiante, como só poderia, mas conte-nos sobre esse evento.

— Você deve estar se referindo à nossa foto, tirada no dia em que lançamos, em 2009, “sinos_e_queijos.com”, um livro escrito a quatro mãos. Foi um lançamento coletivo promovido pela Editora Dimensão num espaço muito agradável, em Belo Horizonte, e o clima era mesmo de festa e alegria. Esta foi mais uma das muitas parcerias que já fiz com esse grande autor, pois temos uma sintonia fina que permite mesclar nossos estilos com harmonia. E o Lino, além de colega de letras e de trabalho (na Assembleia Legislativa), é um querido velho amigo.

16. Conte como foi para você "chutar o balde", e onde os leitores podem ler essa sua crônica?
— A crônica foi publicada na “coluna virtual” que assino no site www.primeiroprograma.com.br Como é uma colaboração semanal, talvez não esteja mais acessível no link que remete aos textos anteriores... Foi o relato de umas férias que resolvi tirar, por 24 horas, das minhas muitas responsabilidades. É possível, é saudável, é inofensivo, eu recomendo.

17. Envolveu-se com alma numa pesquisa sobre as montanhas de Minas. Poderia, por gentileza, nos falar sobre esse projeto e no que ele resultou?
— Creio que você está se referindo ao meu mais recente e acalentado projeto, que se concretizou no livro “Um verso a cada passo – a poesia na Estrada Real”, publicado pela Editora Autêntica no ano passado. Não foi, portanto, apenas nas montanhas mineiras que me embrenhei e sim nesse longo e histórico percurso que atravessa três estados brasileiros e ainda deriva para a Bahia. Foram cinco anos de pesquisas, leituras e coleta de imagens e materiais com que eu iria ilustrar os poemas que compõem o livro, usando a técnica de bordado e colagem em tecido. Valeu a pena tanto trabalho: ele participou da Feira de Bolonha, na Itália, recebeu o selo “Altamente Recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, FNLIJ, e, mais recentemente, foi selecionado para o Programa Nacional de Bibliotecas Escolares, PNBE. 

18. Seu livro "As Duas Vidas de Helena" é um livro juvenil? Conte algo sobre ele, como pode ser encontrado, etc...



— “As duas vidas de Helena” foi publicado pela Editora Paulus em 2006 e é um livro escrito sobre e para adolescentes. Conta a história das dificuldades de adaptação de uma menina que muda de cidade e de escola, fala do despertar do coração e da necessidade de sermos autênticos para viver com mais felicidade.

19. Minha família ama você.  Fale sobre a sua infância, para que possamos ter pistas do desenvolvimento dessa forma de ser de Angela Leite...
— Esse “declaração coletiva” me acalenta a alma, acredite!
Tive uma infância muito feliz, cercada de pais amorosos e uma grande família – como costumam ser as mineiras – tanto do lado paterno quanto materno. Esses muitos tios e tias, além dos avós, me contavam charadas e adivinhas, lorotas e histórias, formando o repertório de lembranças que venho transpondo para minha obra. Como passei a primeira infância numa Belo Horizonte muito pacata, em casa com quintal, brincando livremente na rua e sem tantas diversões quanto tem a criançada de agora, precisava de recorrer à imaginação, aos materiais caseiros e aos poucos brinquedos industrializados disponíveis para me divertir. E, com isso, exercitei uma habilidade que considero mais preciosa ainda que a criatividade: a de me contentar com muito pouco e nunca sentir tédio.

20. Tem o sobrenome Leite, e dessa palavra vem Leitura, que é, de forma resumida, o leite da alma... Como vê o suposto distanciamento das crianças da leitura nesses dias de apetrechos tecnológicos tão fascinantes, entre os quais o celular, e assim sendo, dê uma dica sobre o que pensa que poderia ser feito para atrair de vez os meninos para a leitura.
— Como disse na resposta anterior, tive de fato essa nutrição, inclusive de muita leitura, em minha formação. Não há outro jeito de levar as novas gerações ao livro, penso, senão lendo com eles desde muito pequenos, enchendo o quarto e a casa de livros, demonstrando através de nosso comportamento o prazer que a leitura traz. Mesmo sabendo que o livro digital certamente irá preponderar num futuro não muito distante, não acredito no desaparecimento do livro de papel. Por isso, nós que temos no livro uma das nossas razões de ser, devemos agir como se seu desaparecimento seja uma impossibilidade e prosseguir cultivando/incutindo o amor a esse objeto mágico, apesar de tão desprovido de tecnologia.

21. Ainda no rastro da pergunta anterior, considera que a escola precisa passar por alguma revolução ou o aluno que tem que ser enquadrado numa escola que de modo geral não satisfaz o espírito da época?
— A escola risonha e bela daquele hino que cantávamos na década de 50 nunca se concretizou, nem mesmo em Summerhill. De lá para cá, a pedagogia passou por n metamorfoses, assumiu posturas as mais diversas – indo de um fantástico Paulo Freire a desastres como o banimento da repetência. Hoje, o que se constata no Brasil é a generalizada deterioração do ensino, em razão de políticas educacionais que não promovem o professor nem incentivam essa carreira. Em suma, ainda está por surgir entre nós o sistema, não digo perfeito, mas suficientemente bom para elevar a qualidade da aprendizagem e, consequentemente, a dos formados e dos futuros mestres. Essa a grande revolução que se espera e que pode fazer do brasileiro um leitor no sentido mais completo do termo.

22. É uma autora voltada para a Literatura Infantil, inclusive com Poesia... Considera que a Literatura Infantil seja somente para crianças?
— Comecei na literatura escrevendo para os adultos e só oito livros mais tarde publiquei o primeiro para crianças. Daí por diante, o gosto de escrever para esse público, somado à possibilidade, que logo descobri, de também ilustrar os textos, me levou à especialização nesse gênero. É claro que tenho uma faixa etária em mira quando crio histórias, poemas ou imagens. Mas, assim como a minha “criança interna” se diverte escrevendo e ilustrando, a de outros adultos certamente poderá se identificar nos livros infanto-juvenis. Um exemplo: uma tia minha, aos 80 anos, tinha na cabeceira um livro meu de poemas para crianças que ela lia todas as noites, antes de dormir. E me dizia que se emocionava sempre... A poesia, especialmente, é uma linguagem que aproxima crianças e adultos, penso eu.


23. De um modo geral é difícil lidar e até romper com os entraves e as dissonâncias do espírito que paira nos grupos, e isso não é definitivamente um fenômeno apenas contemporâneo nem exclusivo do Brasil, mas percebo em você um trânsito de sua alma (nenhum sentido religioso aqui nessa palavra) que faz com que ultrapasse tais coisas com delicadeza e serenidade. Acredita que o amor pela arte da literatura pode modificar circunstâncias?
— O coletivo é sempre muito difícil mesmo de administrar. Estar bem dentro de um grupo composto por pessoas com um interesse comum pode ajudar bastante, mas a consonância não é necessariamente o que acontece. As pessoas são falíveis, trazem bagagens bem distintas umas das outras, o que constitui sua riqueza, têm suas complexidades e, no campo da arte, suas ambições e vaidades também. O que não se pode, quando se é parte de um grupo ou associação, é deixar o bom senso e a serenidade serem vencidos pela paixão e pela parcialidade. Assim sendo, o amor, não somente pela arte, mas também pela harmonia, é o que mais conta.

24.Conte-nos algo sobre o livro "A Cotovia e Outras fábulas".

— “A cotovia e outras fábulas” são criações de Leonardo da Vinci, que eu recontei a partir de outras versões a que tive acesso. O livro foi publicado pela Dimensão e ilustrado, para minha alegria, pelo Rui de Oliveira, o que resultou num primor visual. É mais uma faceta do gênio do Renascimento, que poucas pessoas conheciam – a do fabulista. E o interessante é que são fábulas em geral poéticas e não com aquele habitual cunho moralista, mas somente filosófico.

25. Trabalhou na imprensa, na Revista VEJA, no Jornal do Brasil... O que escrevia? Crônicas? Crítica Literária? Diga aos nossos leitores sobre esse período e essa sua atuação na Imprensa.
— Comecei no jornalismo na editoria de pesquisa de O Globo, como redatora. E esta foi a função que sempre exerci, trabalhando nas mais diversas editorias e áreas. VEJA foi a minha principal escola, porque passei por lá em sua época áurea – fim dos anos 60. Mas, paralelamente ao trabalho de redação, também fazia crítica de livros e de cinema. Para meu espanto, fiquei com fama de impiedosa nesse mister...
Continuei colaborando para diversos jornais e revistas, sempre preferindo fazer resenhas; nos últimos tempos, de literatura infantil e juvenil.

26. Seu livro de estréia foi Amoras com açúcar ? Poderia nos resgatar esse extraordinário acontecimento em sua vida?
— Aos 20 e poucos anos de idade, já casada e novamente morando no Rio de Janeiro (lá vivi quase metade de minha vida), eu tinha na gaveta uma coleção de poemas e muitas dúvidas sobre a qualidade deles. Surgiu então a oportunidade de serem avaliados por dois grandes poetas, freqüentadores do famoso “Sabadoyle”, aquele sarau literário que aconteceu décadas a fio na casa do bibliófilo Plínio Doyle. O primeiro poeta, Homero Homem, não só aprovou meus versos como acabou escrevendo o prefácio de “Amoras com açúcar”, o título que dei à coletânea. E o segundo poeta, Gilberto Mendonça Teles, referendando a opinião de Homero, encorajou-me a mandar os originais para alguma editora ou concurso literário. Foi o que fiz. E assim meu livro foi um dos escolhidos pela comissão que selecionava as obras com mérito suficiente para serem publicadas pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, nos idos de 70. Foi o primeiro prêmio que conquistei e, ao mesmo tempo, a minha estreia na literatura.

27. Você ganhou o Prêmio "Casa de Las Américas"... Foi um romance? Fale um pouco, por favor. Sei que já deve ter respondido muito sobre esse prêmio em sua carreira, mas, só mais um pouco...
— Quinze anos depois de lançar “Amoras com açúcar”, tive a maior alegria de toda a carreira até aqui: meu livro, também de poemas, “Estas muitas Minas” recebeu, por votação unânime, o Prêmio Casa de Las Américas” de Literatura Brasileira, em 1997. Àquela altura, eu já começava a me questionar se estava ou não no caminho certo. Afinal, o meu padrinho literário, Homero Homem, me havia dito quando leu aqueles poemas iniciais: “Ai de ti, poeta!” O aval recebido em Cuba me fez criar alma nova. E pouco importa se a poesia continua sendo um gênero meio marginal nas prateleiras das livrarias e nas estantes domésticas, pois desde então assumi que esta era a minha forma de expressão por excelência.

28. É também ilustradora. Tem alguma história sua ilustrada por você mesma?
— Meu caro, tenho ilustrado principalmente meus próprios livros. Dos 16 que até agora ilustrei, somente três são de outros autores.

29. Tem viajado pelo Brasil, e , inclusive, para o exterior. Poderia nos relatar algum momento mais bonito ou que tenha emocionado o seu coração nessas suas andanças?
— Três lugares em especial me marcaram nessas andanças a que me levou a literatura: Sevilha, onde participei de um memorável congresso do IBBY (International Board of Books for Young People); Cuba, onde estive, quatro anos depois de receber o prêmio, como jurada do prêmio de Literatura Brasileira de 2001; e Goiás Velho, aonde fui dar oficinas pelo Proler e, além de me emocionar com a beleza singela de uma surpreendente cidade colonial, fiz amizade definitiva com uma excelente poetisa goiana, Heloísa Campos.

30. Insisto nessa pergunta e ela está sempre surgindo: O que é para Angela Leite a felicidade?
— Acho que já dei a entender o quanto é importante para mim o afeto, não? Pois é, felicidade é amar e ser correspondida – em toda a dimensão que essa palavra compreende. Consequentemente, ser feliz é ter paz espiritual.

31. Escreveu um livro chamado "Medo de Escola". Qual é a abordagem desse livro? É uma história Infantil?
— Nesse livro, uma história infantil sim, encontrei a forma de exorcizar minha primeira experiência com a escola. Transpus para a ficção uma vivência meio dolorida, pois ao entrar no jardim de infância saí com dificuldade da cálida redoma em que vivia até então. Só que o meu personagem, muito antes de mim, descobriu o lado prazeroso do novo ambiente.

32. Já teve um de seus livros divulgado num programa da Xuxa, pela própria apresentadora. Pode nos contar um pouco sobre isso e qual foi o livro?
— Foi uma agradável surpresa saber que “Palavras são pássaros” tinha sido apresentado por Xuxa em seu programa. Eu nada sabia, até ser avisada pela editora Salesiana, que me mandou o link (este ainda está ativo na página que tenho no site www.caleidoscopio.art.br ). De vez em quando, o autor tem alegrias desse tipo. Certo dia, um amigo me telefonou, dizendo que eu ligasse depressa a TV, pois num determinado programa infantil, cujo nome não recordo agora, o boneco apresentador estava folheando meu livro “Os elefantes” e recomendando-o ao telespectador. Este é o nosso verdadeiro salário – o salário moral.

33. Ilustrou o livro "Aranha Castanha e outras tramas". Como é o seu processo de criação das imagens? Você lê e deixa as cores surgirem? Tem um período de viagem do pensamento na história? Pode revelar algo sobre isso?
— É curioso você perguntar se deixo “as cores surgirem”, pois, exatamente esse livro da Gloria Kirinus é uma obra para jovens e adultos e, assim sendo, teve de ser ilustrado em preto e branco. Quando recebi a incumbência, achei que era o meu maior desafio. Mas, à medida que buscava as soluções visuais para as densas crônicas da autora, descobri as infinitas possibilidades que essas duas cores têm e foi uma delícia ilustrá-lo. Voltando às demais perguntas, meu processo começa com a busca de uma ideia que represente o texto ou que dele derive. Depois, é preciso traduzi-la em alguma imagem que instigue o leitor a pensar e, se possível, ir mais além do texto. Ou que o leve a sorrir. Enfim, que o provoque. E é muito gostoso quando vem o “eureka!” e se pode então partir para o trabalho com as mãos.

34. Tem um poema ou um trecho de algum escrito seu que poderia deixar aqui em sua PALAVRA FIANDEIRA?

— Deixo um dos meus haicais de “Lição das horas” - livro editado pela Miguilim que recebeu um “Altamente recomendável” da FNLIJ e está atualmente esgotado:

À beira do poço
sentei-me com um desejo:
não perder a sede.

35. Tenho que encerrar a entrevista, que foi um De Leite, um devaneio passear na possibilidade de mostrar ao leitor um pouco mais do coração e do fazer literário de você, um momento de rara alegria, e, bem, tenho que encerrar. Mas, para terminar, (Estou abusando, bem sei!) poderia nos expor sobre algum de seus projetos para o futuro?
— Abuso nenhum: para mim foi também delicioso bate-papo, que me fez ir e voltar pelo tempo.
Meu próximo sonho já está em andamento: é conseguir patrocínio para o projeto que criei a partir do livro sobre a Estrada Real e que foi aprovado na Lei Rouanet, pelo Minc. No terreno da ilustração, fazer as artes de um livro de poemas já pronto, cujo tema é o mundo da agulha e linha, nos seus múltiplos sentidos. Mas é claro que a cabeça nunca para de fervilhar, com novas idéias e planos, e isso me faz querer viver até os 100 anos para dar conta de todos eles...



36. Que mensagem final deixaria aos nossos leitores? Qual é a sua Palavra Fiandeira?
— Não se trata propriamente de uma mensagem, mas de uns versos de minha poeta favorita, Cecília Meireles, que ultimamente se tornaram uma espécie de lema para minha vida:
“Levai-me aonde quiserdes.
Aprendi, com as primaveras,
a deixar-me cortar
e voltar sempre inteira.”

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@



ANGELA LEITE foi entrevistada pelo escritor
MARCIANO VASQUES





@@@@@@@@@@@@@@@@@