EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

sábado, 20 de outubro de 2012

PALAVRA FIANDEIRA 88





PALAVRA FIANDEIRA

REVISTA LITERÁRIA

Publicação digital de Literatura e Artes

ANO 4 —Nº88 — 20/OUTUBRO/2012
EDIÇÕES AOS SÁBADOS

NESTA EDIÇÃO:

NEZITE ALENCAR



Mulheres tocando viola de cocho/Sebastião Mendes©

Direitos reservados: ilustração de poesia de Dalinha Catunda©


Nome de um popular blog de difusão do cordel©

convite/©


Literatura de Cordel/imagem©




1.Quem é Nezite Alencar?

Uma professora aposentada, que usa o engenhoso mundo do cordel para voltar à sala de aula de vez em quando.

A autora/foto©


2.Então temos “A Inconfidência Mineira em Cordel”. Pode nos contar sobre esse livro? A partir de qual momento surgiu a ideia de escrevê-lo?

A partir de minha experiência como professora do ensino fundamental. Os textos de História, geralmente longos, tornam-se quase sempre enfadonhos para os alunos; o cordel, é um texto atrativo, agradável de ler, quase musical. Então pensei numa forma de ajudar os alunos a gostarem das aulas de História.


3.É autora de livros infanto juvenis. Pode, gentilmente, nos falar sobre a sua produção nesse segmento?

Acho que já respondi a esta pergunta. Durante quase quarenta anos trabalhei com alunos do ensino fundamental, sendo completamente apaixonada pelo meu trabalho. Escrever para eles é uma forma de continuar na escola.


4.Vive no Ceará e lançou no início deste ano um livro no SESC de Crato. Como foi esse evento e qual foi a obra?

Moro na cidade de Crato. Lançamos o nosso “Cordel das Festas e Danças Populares”,
que conta para as crianças como surgiram as principais manifestações populares no gênero, em todo o Brasil. O SESCCrato gentilmente promoveu o nosso lançamento no dia 6 de janeiro, festa dos reis magos; Foi uma linda festa, com a presença de brincantes de Reisado , Coco e Ciranda. Fiquei muito gratificada.

5.Qual a sua trajetória como cordelista e quando surgiu em sua vida essa modalidade de literatura?

Cresci ouvindo clássicos da Literatura de Cordel, como “O Pavão Misterioso”, “O valente Zé Garcia” e outros, cantados à beira do fogo ou ao luar, nos terreiros do sertão e nas casas de farinha. Já nos meus primeiros anos de magistério, costumava transformar textos de História e Geografia em cordel, para que as aulas fossem mais prazerosas e de fácil compreensão.
Ilustração para o cordel "O Pavão Misterioso"—ARI/direitos reservados©
6.Considera que atualmente o cordel esteja mais valorizado ou reconhecido como uma rica contribuição cultural para as letras?

Claro que sim! Até porque o público leitor também mudou: hoje o cordel saiu das feiras, para entrar nas universidades, nas editoras mais respeitadas e também na TV e na internet. E cada vez mais é considerado uma ótima ferramenta para o ensino-aprendizagem.
Novela apresentada pela Rede Globo©
7.Uma de suas obras que despertou muito a atenção da Fiandeira foi AFRO BRASIL em cordel. Pode, por gentileza, aos leitores, expor a trajetória desse livro e a sua importância no contexto brasileiro?

A motivação para escreverAfro Brasil em cordelfoi a lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o estudo da África e dos africanos na educação básica. Publicado em 2007, temos a grata satisfação de vê-lo agora em 3ª. Edição; Confesso que este cordelzinho sempre foi para mim a menina dos olhos. É a minha humilde contribuição para que um dia , espero não muito distante, se chegue ao fim do racismo em nosso País e se faça justiça aos povos afrodescendentes, saldando a imensa dívida histórica que temos para com a África e seu povo.


8.Tem visitado escolas em suas andanças literárias. Poderia nos contar o que para você representa esse contato com os alunos?

Como já ficou dito acima , estes são os meus melhores momentos, pois representam o reencontro com a minha paixão!

Nezite Alencar visitando escola/imagens©
9.Bem recentemente, em setembro, na Casa do Ceará, ocorreu o
1º Encontro dos Escritores Cearenses em Brasília”. Esteve presente ou nos poderia narrar algo sobre esse evento?

Infelizmente, não estive presente. Tudo que posso dizer-lhe é que com certeza os escritores de cordel cearenses estiveram bem representados, na pessoa do meu amigo, o grande poeta Marcos Mairton e, com certeza por outros, que não são do nosso conhecimento.
Com amigos especiais

Batistinha Job, Dalinha Catunda e Nezite Alencar/fotos©
10 É autora deCanudos, o movimento e o massacre em cordel. Fiandeira pode considerá-la uma historiadora do Cordel?

Bem, como de fato sou historiadora, me sinto confortável com esta tão honrosa denominação, uma vez que não pretendo parar por aqui.


11.Além de Dalinha Catunda, que outras mulheres conhece, que atuam, militam nas letras do cordel?

Devo dizer que na Academia dos Cordelistas do Crato, onde com muita honra tenho assento, somos sete mulheres cordelistas. Além destas, temos aqui na região do Cariri, outras meninas que escrevem cordel; Temos também Rosário Pinto, colega de Dalinha na ABLC. Como vê, o cordel, entre outros avanços, também deixou de ser uma arte exclusivamente masculina.
Dalinha Catunda/foto©

Capa de blog de divulgação do cordel/©
Foto de Dalinha Catunda/©

12.Deixe aqui a sua mensagem final. Qual é a sua Palavra Fiandeira?

O cordel que é nordestino,
Virou arte brasileira,
Teceu em rimas seus fios
E ganhou a Pátria inteira;
Eu também sou nordestina,
Fio verso e teço em rima
Sou mulher, sou FIANDEIRA!




Nezite Alencar no seu mundo feliz/©



PALAVRA FIANDEIRA
Publicação Digital Semanal
Publicação de Literatura e Artes
Edições ao Sábados
Edição 88 —NEZITE ALENCAR
PALAVRA FIANDEIRA
Fundada pelo escritor
Marciano Vasques


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

PALAVRA FIANDEIRA 87




PALAVRA FIANDEIRA

REVISTA LITERÁRIA

Publicação digital de Literatura e Artes

ANO 3 —Nº87 — 13/OUTUBRO/2012
EDIÇÕES AOS SÁBADOS

NESTA EDIÇÃO:

RONALDO CAGIANO


créditos das fotos: direitos reservados

1.Quem é Ronaldo Cagiano?
Um homem comum, que elegeu a palavra para comunicar suas angústias e perplexidades e adotou um velho axioma de Kafka, como farol: "Tudo que não é literatura me aborrece."

2.Seu novo livro,“Moenda de Silêncios”, escrito em parceria, já está no ar. Poderia nos falar algo sobre ele?
O livro nasceu de um desafio que nos impusemos: como escrever a quatro mãos. Escrito por volta de 1998, não tínhamos a intenção de publicá-lo. Mas essa parceria numa escrita colaborativa foi se revelando algo instigante, porém a obra hibernou durante esses anos todos em nossos arquivos. Ano passado, resolvemos inscrevê-lo no ProAC, tendo sido contemplado com a verba de publicação. Na verdade, a novela era para ser uma obra juvenil, porém sofreu tantas metamorfoses ao longo desse tempo, tantas correções, ajustes, modificações e adaptação à realidade contemporânea, que a linguagem tornou-se adulta, porém mantendo a leveza. É uma história sobre os desafios na selva de pedra de dois jovens que saem do interior para aventurar-se na moenda urbana da cidade grande. É também uma celebração da amizade e um texto sobre as inquietações individuais e os problemas contemporâneos.
Em Argentina e Uruguai

3.Participou recentemente de um projeto chamado “Quinta Poética”. Conte aos leitores da Fiandeira um pouco sobre esse evento.
Esse projeto desenvolvido há alguns anos pelo escritor José Geraldo Neres e apoio da Escrituras Editora e Casa das Rosas é um formidável espaço para a divulgação da poesia contemporânea. Num país em que se dá pouco espaço à poesia, criou-se uma agenda permanente, que tem possibilitado dar vez e voz a muitos autores, entre veteranos e novos, entre desconhecidos e consagrados. Mais que isso: é a democratização do espaço a todas as vertentes estéticas. Tenho acompanhado esse trabalho e percebido que a poesia ali ganhou seu status, instância que tem permitido conhecer poetas de diversas regiões do País, apesar da negligência e do silêncio da mídia.
Aroldo Pereira; Donizete Galvão; Gilberto Nable
4.”Dicionário de Pequenas Solidões”é o título de uma de suas obras. É um livro de fragmentos de prosa? Uma obra de Poesia? De verbetes da alma? Diga-nos, por gentileza, o que o leitor poderá encontrar nesse seu livro?
É um volume de contos publicado em 2006 pela Ed. Língua Geral, do Rio. Reúne contos curtos, médios e longos, incluindo textos narrativas de várias épocas, o que possibilita um panorama de meu processo criativo, com todas as suas deficiências e evoluções. Os contos têm como pano de fundo as questões que sempre me inquietam: a morte, a passagem do tempo, a insularidade do homem contemporâneo nesse mundo de coisificação e etiqueta, os conflitos e angústias existenciais de todos nós.


5.Você é mineiro. O que nos pode relatar sobre a sua infância em Minas e se ela está presente em alguma de suas obras.
Sem dúvida, Minas é a raiz primeira e ela se espraia por toda minha produção, a poética e a ficcional. Nasci em Cataguases, mas aos 18 anos fui para Brasília, lá passando 28 anos da minha vida. Vim para São Paulo em 2007 e daqui não pretendo sair. Diz um poeta mineiro, radicado em Brasília também, João Carlos Taveira: "Minas está em mim/ anterior ao verso." É uma verdade indissociável para mim. Embora tenha vivido grande parte em Brasília, tudo o que escrevo é ressonância de minhas experiências afetivas, geográficas, históricas. É algo ancestral. E da infância não nos divorciamos, como disse Drummond: ´"É o menino em nós/ ou fora de nós/ carregando o mito."

6.Foi convidado para o “Desconcertos na Paulista”. O que são esses desconcertos?

É uma pena que o projeto não teve sequência, mas era um espaço importante de discussão,criado pelo escritor Claudinei Vieira, que convidava mensalmente autores para discutir sua obra e conversar sobre literatura e processos criativos, numa perspectiva crítica e menos acadêmico, algo que coloca o escritor em interação com o público.

7.Há uma predominância de temas urbanos em sua literatura. Por qual motivo sua abordagem literária é tão presente na urbe?

Creio que não há uma única inclinação no meu trabalho, embora haja predominância daqueles temas que me são caros e desafiadores. Minha prosa e minha poesia comportam certo hibridismo, tanto falo de questões existenciais, quanto políticas; vou da crítica política e social ao enfrentamento de temas amorosos. Mas, essencialmente, os ambientes e cenários dizem respeito à vida urbana, porque minha experiência pessoal é ligada à cidade (seja a do interior ou a metrópole). Não conseguiria escrever sobre o universo campesino, a vida rural, a realidade regionalista do Nordeste, por exemplo (aliás, literatura de que gosto muito), porque não tive essas vivências, não saberia apreender essa realidade física e sensorial.
Com a família
8.Alguns de seus títulos são pura Poesia, como “O Sol nas Feridas” , “Concerto para Arranha-Céus”. Assim sendo, estamos diante de obras poéticas ou de narrativas documentais? Ou diante de uma mescla de sentires? Há uma confissão de vida nesse seu fazer literário?
Há uma fusão de ritmos, estilos, gêneros, modos de falar e escrever. Sempre tive familiaridade com a prosa poética e sou prosaico na poesia e poético na prosa. E tudo o que escre(vi)vemos é interpenetrado pela confissão, pelos detalhes autobiográficos, pela adiposição de experiências íntimas. Nenhuma literatura, creio eu, é isenta de um componente confessional, porque o que vivemos, vivemos e sentimos pega carona no que escrevemos.

9.Você organizou uma Antologia de Contos Brasiliense. Como se deu esse trabalho,e por que sentiu necessidade de realizá-lo?
Organizei mais duas antologias,além dessa: "Poetas mineiros em Brasília" (2001|) e "Todas as gerações - o conto brasiliense contemporâneo"(2006). Foi trabalhoso reunir contistas e poetas, mas valeu a pena tentar mapear a realidade ficcional da Capital da República. Quis fazer um registro, o mais próximo possível (e fiel) da realidade, resgatando importantes nomes da prosa candanga desde a fundação da cidade. Na primeira, incluí autores vivos e mortos. Na segunda, autores contemporâneos, aí entrando novas vozes, inclusive escritores jovens que ainda não haviam publicado em livro, mas vinham produzindo literatura de qualidade em revistas, suplementos, blogs, sites. A de poesia, foi a tentativa de homenagear Minas e reunir os bons poetas das Gerais que viviam na cidade.

10.Na 10ªBienal do Livro da Bahia, participou da “Praça do Cordel e Poesia”, nos diga, por favor, como foi esse evento, e como aconteceu a sua participação nele.
Convidado pelo poeta José Inácio Vieira de Melo, tive o prazer de compartilhar o palco com outros poetas e cordelistas, entre os quais Clodair Eduão e conheci outros excelentes representantes da poética oral. É importante essa interação de gêneros ser contemplada num evento daquela magnitude.
Amor: escritora Eltânia André
11.Quando nos conhecemos, você estava em Brasília, e havia a Revista “Literatura”,que agregava nomes como Nilto Maciel, e outros. Diga à Fiandeira sobre esse período e a importância dele em sua trajetória literária.

A revista foi uma iniciativa pioneira de Nilto Maciel, que durou mais de uma década e possibilitou o intercâmbio de muitos autores com os escritores de Brasília. Depois de mais de 30 anos vivendo lá, Nilto retornou à sua Fortaleza e a revista deixou de circular. Reconheço nela papel importante e decisivo na difusão não apenas da cena literária brasiliense, mas do resto do País e até do exterior, pois o editor, com sua capacidade de agregação, conseguiu conferiu grande visibilidade a esse trabalho e aproximou-nos de outras realidades estéticas.
NILTO MACIEL — Fundador da Revista LITERATURA

Encontros: Na Livraria Cultura

Com Roniwalter Jatobá

Na Livraria Martins Fontes
12.Deixe aqui a sua mensagem final. Qual é a sua Palavra Fiandeira?
Faço minha a palavra fiandeira de Fernando Pessoa: "A literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta."

O trabalho que você vem realizando, tanto como autor prestigiado que é, quanto pelo espaço fiandeiro dessa palavra sempre franqueada ao seu público leitor, é importante na confecção de uma literatura de qualidade, fiandeiro da necessidade de comunicar tantos mundos.



PALAVRA FIANDEIRA
Publicação digital semanal de Literatura e Artes
Edições aos sábados
Edição 87 — RONALDO CAGIANO
PALAVRA FIANDEIRA:
Fundada pelo escritor Marciano Vasques

sábado, 6 de outubro de 2012

PALAVRA FIANDEIRA 86




PALAVRA FIANDEIRA

REVISTA LITERÁRIA
Revista Digital de Artes e Literatura
ANO 3 - Nº 86 — 06/10/2012

NESTA EDIÇÃO:


PAULA LARANJEIRA





1.Quem é Paula Laranjeira?


Professora, blogueira, e como disse um amigo, a entrevistada. Para os outros sou de fácil definição (creio que nem Pessoa conseguiu ser tantos “eus”), porém, ainda estou tentando saber-me neste mundo, pois quando achava que me sabia em todos os cantos e recantos, me vi confusa, sentada no meio de um labirinto, a procura sempre, do fio de Ariadne.



2.Desenvolve um intenso trabalho de resgate e preservação da cultura autêntica em seus retalhos poéticos, divulgando texto de Ariano Suassuna, Luiz Gonzaga, a melhor poesia e ainda escreve sobre a Literatura Infantil. Como vê o esfarelamento cultural tão apreciado e divulgado pelas mídias?


Quando se sabe que por trás de tudo há uma intencionalidade baseada no interesse econômico, e mais que isso, na necessidade de poder absoluto de alguns indivíduos, fica fácil desconfiar de tudo e todos. Tenho visto há algum tempo na televisão e nas rádios a propagação de valores que têm mudado profundamente a sociedade e a “solidez” cultural. Primeiro há uma severa mudança nos valores familiares, onde tudo é permitido e a única lei é o “sim”. Posteriormente há o enfraquecimento qualitativo na educação, fator que nos torna mais maleáveis. E por fim, o “tiro de misericórdia”, o esfarelamento da cultura. Aí pergunta-se: o que sobra? Bem, sobram indivíduos sem valores, sem conhecimento e condição de interpretação e análise dos fatos, além de desprovidos de qualquer conhecimento cultural que o fortaleça enquanto coletividade. E sem nenhum bem simbólico que lhe pertença, “essa” gente, na qual também me incluo, facilmente se deixa manipular, se torna consumidor ativo e desenfreado. O que gera lucros e poder para uma pequena minoria.

Ou seja, esse esfarelamento cultural é algo necessário e parte de um processo que aniquilará de vez o espírito dialético tão necessário a uma sociedade que prima pela democracia e igualdade.

3.Que comentário faria sobre a decadência nas artes, na música, sobretudo a música dirigida aos jovens, a forma de arte que atinge mais diretamente a juventude?


A contra gosto, já ouvi muita coisa: axé, forró, funk, sertanejo, pagode e quase sempre com letras vazias, mensagens estereotipadas, possibilitando a aquisição de valores errôneos, especialmente no que se refere a relacionamento amoroso e sexo e às mulheres. Creio que a música tenha contribuído, em grande parte, para a formação de muitos jovens, por tal, a qualidade da música influenciará de forma positiva ou negativa este ouvinte. Toda geração lida com estas duas possibilidades musicais: a vulgar e a mais refinada, mas penso que nunca antes tenha sido tão direcionada ao esvaziamento intelectual e reflexivo como agora. Porém, também se percebe que muitos destes ouvintes têm fugido desse tipo de música, buscando em autores “das antigas” um repertório mais significativo, o que tem provocado muitas releituras e regravações de músicas do século XX, por exemplo.


4.Nos fale, por gentileza, sobre Pesponteando: Retalhos Literários.



Meu blog! Meu lugar no mundo. Neste dezembro completa dois anos. Nasceu objetivando aniquilar meu vazio. Eu tinha terminado a faculdade e sem absolutamente nada para fazer, apenas alguns livros, quatro anos de estudo e um computador. Tive medo de enlouquecer diante da possibilidade do “nada”. Aí o pari num dezembro chuvoso, pois aqui ainda chove. É um menino ingênuo que muda seu discurso a cada dia, pois todo amanhecer traz novos conhecimentos, e consequentemente, maturidade, reflexão, crítica e autocrítica, o que se reflete em mudança constante, ou melhor, metamorfose. O Pesponteando tem de tudo um pouco, sempre relacionando à arte e cultura. Neste meu pedaço de chão virtual vou tecendo alguns tecidos em meu tear, vou juntando uns retalhos a outros, cozendo à mão ou à maquina novas peças, bordando em certos tecidos bem ao modo da minha mãe, só que meu tecido é o texto, minhas linhas são as palavras, minhas agulhas são ora a caneta ora o teclado.


5.É formada em letras e atua na Educação, no Ensino Médio. Como vê a produção atual de Poesia com o advento da internet como um espaço democrático e infinito? Tem poeta demais no mundo?


Talvez tenha poetas de menos. Com o nascimento do romance a poesia perdeu espaço, já que os leitores, provavelmente pela formação, acabam encontrando mais “facilidades” de compreensão do conteúdo na prosa. Já o leitor deste gênero, a poesia, muitas vezes pauta suas leituras apenas em produções contemporâneas, se afastando de poetas e produções de outros tempos. Além disso, os produtores ou pretensos produtores de poesia, em grande parte, são leitores de poucos poetas e gêneros, o que acaba refletindo em suas produções certa “pobreza”. Os textos são quase circulares. É por isso que penso que temos poetas de menos, há muita gente escrevendo, mas poucos com grandiosidade. Porém, e isso é quase uma contradição ao que acabo de dizer, tenho observado que a internet além de revelar muita poeira embaixo do tapete, também tem revelado pó de ouro. Tem muita gente boa, com boa poesia se mostrando nas janelas da rede, fato que torna a internet uma ferramenta positiva e democrática não só por trazer os tesouros desconhecidos, mas por possibilitar o acesso a livros, bibliotecas, textos raros, entre outros, a quem busca fomentar e enriquecer o intelecto.

6.Mário Quintana, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Manoel de Barros, Castro Alves, Sidónio Muralha, Drummond... A poesia ainda é necessária no mundo atual, tão midiático e dominado pelo imediatismo consumista desenfreado?


Certamente sim, pois além de ser freio, ela é luz. E quem não precisa da luz? O que noto é que não há um poeta ou um leitor deste e de outros gêneros literários que não seja um portador ativo de consciência. E o portador da consciência é avesso ao imediatismo e ao consumismo. Falando em consumismo, é interessante colocar como as pessoas buscam no ato de consumir freneticamente o lugar/estar da felicidade, é onde se encontra o prazer. Porém, há quem consiga o mesmo prazer em um livro. Desta forma percebemos que estamos estimulando hábitos errados. Seria revolucionário a mídia propagar o consumo de livros, mas livros com L maiúsculo. Porém isso não acontecerá, pois as TVs perderão seus telespectadores. E outros meios midiáticos como algumas revistas, perderão seus leitores.


7.Como vê a blogosfera? Atribui ao blog importância no resgate de valores artísticos?


Quando comecei a perambular pelos blogs, confesso que fiquei assustada. Era/é tanta coisa que às vezes tentando me achar, acabava me perdendo para logo em seguida me achar novamente. A blogosfera, termo ainda novo para mim, é um espaço de todos, de todas as manifestações, de todas as artes. Há algum tempo atrás se fazia pesquisa em livros, porém eram poucos e com informações limitadas, hoje há uma janela escancarada para o mundo, infinitas possibilidades, especialmente no que se refere às artes. Tomo como exemplo a Literatura de cordel, antes restrita ao nordeste, hoje está ao acesso de todos na blogosfera. A internet traz essa maravilha: o descortinar daquilo que era escondido, acessível a poucos. Num clique a democracia se instala. Às vezes, alguém cria um blog para culinária, mas acaba visitando e sendo visitado por blogs/blogueiros que tratam de poesia, contos, musica, dança, artes plásticas...e o que era desconhecido de alguns vai se espalhando. Claro que nem tudo possibilita o resgate de valores artísticos, há espaços que acabam atrapalhando com informações equivocadas, mas no geral tem muita coisa boa.

Com o escritor Marco Haurélio
8.Seu blog está recheado de pinturas que abordam bordadeiras e costureiras. Como é para você esse simbolismo? Qual o significado dele em sua vida?


Não me lembro ao certo da primeira vez que vi alguém com tecido e agulha. Mas este ato sempre movimentou alguma coisa em mim. Na condição de observadora do sujeito que movimenta os elementos do universo têxtil, sou capaz de recitar uma poesia concreta de imagens que trago desde a infância. Me lembro de tia Eridalva com o seu tear, a roda de fiar, o fuso, o descaroçador e o algodão. Era o básico para a mágica da construção do tecido.
Também tenho a minha mãe e sua velha máquina de costura. Muitas vezes sentava-se à máquina de costura como a Clarice Líspector à máquina de escrever, construindo no lugar de textos, colchas almofadas, tapetes: uma espécie de texto feito com tecidos. Eu adorava ficar olhando, e ainda o faço algumas vezes, quando ela faz consertos em alguma peça de roupa ou outra coisa.
Lembro - me também de várias vizinhas costureiras. Sempre gostei de frequentar suas casas, ficar ao lado da máquina observando o vai e vem da agulha, a linha, a tesoura e a nova peça que surgia. Era tudo tão lindo!
Já na condição de sujeito que trabalha com o tecido tenho certa experiência. Primeiro com as roupas de bonecas, ainda me lembro do gosto de costurar embaixo da mesa num dia chuvoso algumas roupas para as escassas bonecas. Depois, como não conseguia manipular a máquina, aprendi a bordar com pontos diferenciados: cruz, corrente, cheio, etc. E pela necessidade de reformar algumas roupas também bordei com miçangas e lantejoulas.
Mas foi na faculdade que veio o grande encontro: a costura e o texto. A comparação do texto com o tecido. Não me recordo o autor que faz essa analogia, mas foi/é algo que fica sempre se movendo em mim enquanto escrevo.
As costureiras, as bordadeiras, sempre estiveram presentes em minha vida, mas agora a costura é feita com as letras, as frases, e o papel em branco dá lugar a esta nova tessitura. Me encontrei... e tento ser uma tecelã das palavras, por isso as imagens no blog e todo o contexto sempre chamando a atenção para este universo.

Obra de Vicente Romero
9.Aprecia literatura Infantil, certamente. Ela, essa forma literária, acredita que seja apenas para crianças?


Por algum tempo me limitei a este achismo: literatura infantil é coisa de criança. Mas tenho revisto muitos conceitos e este é um. Estudei um pouco de literatura infantil, e ao fazer isso entrei em contato com alguns textos, busquei os que havia lido na infância e adolescência. Acabei reconstruindo o gosto por esta especificidade literária, aguçando o olhar para várias questões antes ignorada em face ao preconceito etário e, simplesmente, me encantando. Vira e mexe aparece algum livro infantil aqui em casa, e tenho alguns na prateleira. Pena que o livro infantil esteja sendo substituído pelo filme com histórias infantis. A grande maioria dos pais compra DVD para os filhos quando poderia estar comprando livros.
Autoria da foto: Paula Laranjeira
10.Há um livro que possa citar que tenha influenciado de alguma forma na sua vida ou maneira de pensar?


Passei por momentos difíceis: hospitais, cadeira de rodas, desistência dos estudos, etc. E num destes períodos passei a ver muita TV, era uma forma ocupar a mente e esvaziá-la ao mesmo tempo, até que uma prima insistiu para que eu gastasse meu tempo com leituras. Pois bem, ela me emprestou alguns livros e entre eles estava Meu pé de laranja lima. Foi a grande descoberta da minha vida: o livro era vivo e podia mexer comigo, fazer rir ou chorar, pensar. Foi a porta de entrada para outras leituras: por isso tem muita importância em minha vida, já que a leitura possibilitou a descoberta de outros mundos. Tem uma frase do Mário Quintana, que gosto muito. Diz assim: “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas”. Pois é, o livro fez grande mudança em minha vida e eu quero que esta mudança se estenda ao mundo.
Claro que existem outros livros que contribuíram para a mudança de alguns pensamentos/partes de mim de maneira mais objetiva, mas tudo começou com este, já que tudo que li antes ficou restrito ao papel.

11.Há um grupo de poetas de qualquer tempo e idioma, que para você seja representativo da poesia mais autêntica e transformadora de corações e consciências? Poderia citar alguns nomes?


Confesso que me dou mais à prosa que a poesia. Mas gosto dos poetas que surgiram com e a partir do Modernismo. A liberdade de estilo, formas e conteúdo deu mais chances para quem escrevia sem seguir a tendência ditada, por exemplo, pela Europa ou por determinados grupos daqui.
Estudando a historiografia da nossa literatura percebi que mesmo sendo bom poeta, se não seguisse a tendência, muitas vezes acabava sendo marginalizado. Se bem que ainda hoje temos gente sendo colocada num canto por questões regionais. Tem muita gente que acaba indo para o Rio de Janeiro ou São Paulo para alcançar o reconhecimento literário, pois é necessário fazer parte do eixo Rio-São Paulo. Após o Modernismo surgiu espaço para inventar e reinventar poesia.
Alguns nomes brasileiros deste período que conheço por leitura e que destaco: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Vinícius de Morais, Murilo Mendes e Cecília Meireles. Estes me restringindo em um tempo e Língua.

Autoria da foto: Paula Laranjeira


12.Deixe a sua mensagem final. Qual é sua Palavra Fiandeira?



É muito bom, de alguma forma, fazer parte deste projeto – a revista Palavra Fiandeira – tão bem intencionado em promover a arte e a cultura não apenas numa perspectiva nacional, mas trazendo nomes, muitas vezes desconhecidos de outras partes do mundo e/ou trabalhando com temáticas oportunas. Espero que este meu jeito simples de viver, de pensar e trabalhar em prol das artes, em especial a literatura, seja oportuno e provocador de alguma nova reflexão. Estou muito feliz em poder dividir com vocês a alegria de amar a literatura e crer nela e em outras expressões artísticas como meio eficaz para propagação do pensamento reflexivo, que tem início nas artes e se reflete no homem, que por sua vez o projeta na sociedade. Desta iniciante no mundo da leitura um abraço carinhoso...
"Arte não é adorno, Palavra não é absoluta, Som não é ruído, e as Imagens falam, convencem e dominam. A esses três Poderes-Cidadãos não podemos renunciar, sob pena de renunciarmos à nossa condição humana." Augusto Boal





PALAVRA FIANDEIRA
Publicação digital semanal de Literatura e Artes
Edições aos sábados
Edição 86 —Paula Laranjeira 
Edição Especial de 06 de Outubro de 2012
PALAVRA FIANDEIRA
Fundada pelo escritor Marciano Vasques