EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

domingo, 9 de outubro de 2011



PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
REVISTA DIGITAL LITERÁRIA
12/outubro/2011
ANO 2 — 64

 NESTA EDIÇÃO:
VISÕES: obra de Marília Chartune  
 ARTES E SONHOS DA INFÂNCIA




ANA COELI
Auroras da Infância

No tempo em que eu era criança, os dias eram claros e as brincadeiras seguiam o ritmo das estações. Havia tempo da bola de gude, jogar peão, carrinho de rolimã, toca, barra bandeira, cobra cega, casinha e batizado de boneca. Quando chegava a primavera a natureza se lhes revelava um intenso um rol de possibilidades, carregada de flores e fortes ventos, onde os meninos da vizinhança faziam suas pipas com leves papeis de seda e com elas coloriam o azul do céu, que lá no alto pareciam borboletas esvoaçantes.
Em noites de lua cheia, cantiga de roda nas calçadas, passa anel, estátua, amarelinha, jogar pedrinha, pula corda... Até que a mãe num grito de ordem chamar para dormir. Domingo então era especial, acordar bem cedo com o sino da igrejinha, ficar quieta na cama e contar as sonoras badaladas chamando fiéis para a missa, dia de vestir a melhor roupa, batizado, almoço com os parentes, festa na praça, comer pipoca e girar no carrossel de cavalinhos até ficar tonta de felicidade.

As tardes de verão eram cercadas de alegria, chuva forte e cheiro de terra molhada, logo que o sol surgia, todas as crianças corriam com seus vidros para aprisionar as formigas de asas, pelo qual era motivo de pequenas crueldades infantis. De uma folha de mamona e seu pecíolo fazia-se um canudo. No copo, água e sabão materializavam efêmeras bolinhas de sabão que roubavam as cores do arco-íris em instantes de magia.
No tempo que eu era criança, podia brincar na rua, contar história, trocar gibis do Bolinha, Saci-Pererê, Luluzinha, Mickey, Pato Donald, Zorro, Fantasma, Batman, (os preferidos dos meninos) correr e sentir o vento no rosto, caçar borboletas, deitar na relva, descobrir desenhos nas nuvens e quando fechar os olhos, ouvir distante o canto do pássaro ferreiro quando o sol alcançava seu zênite no céu.
Auroras da minha infância têm aromas de lembranças, recheadas de nostalgia de uma saudade que não tem fim...
Ana Coeli

 ANA COELI é escritora e poeta. Vive na Paraíba — Brasil


 EDSON GABRIEL


JOVENS TARDES DE DOMINGO

O tempo já vai longe. Tão longe que as lembranças se misturam, conectam-se, atrapalham-se. Algumas, mais lúcidas, se apresentam e marcam presença em nossa memória. Dizem presente. Como bem lembrou e escreveu Gabriel Garcia Márquez “a vida que a gente tem é a vida que se lembra para contar”, na introdução do seu livro de memórias Viver para Contar.
Pois bem. Puxo pela memória a vida que tive e a lembrança vai me trazendo aos poucos meus tempos de infância, na cidade mais que pequena, o almoço comedido e esperado de domingo, a divisão milimétrica pelas bordas do copo do refrigerante doce de maçã, os lábios lambidos pela língua molhada com o molho de tomate do macarrão.
Depois do almoço, não tinha a Turma do Didi, porque televisão não tinha não, um certo tempo de espera, em meio às sombras domingueiras e acomodadas das muitas árvores frutíferas do quintal da chácara onde morava, seguido de um banho no chuveiro improvisado, sem cobertura, com a água caindo morna e lavando a poeira que invadia a casa da família erguida quase à beira da rua sem asfalto, sem calçamento, imersa na poeira da terra marrom escura.
Depois do banho, a roupa limpa, lavada e clareada em curtição solar, de fazer dó, roupa de sair, de domingo, de passear (costume que carrego feito raiz fincada profundamente até hoje: tenho roupa de trabalho e roupa de passear, de sair, de visitar amigos, de comer fora, de viajar). O corpo de moleque magrelo e também curtido pelo sol aceitava o esforço de passar pelo ritual, pois o que vinha pela frente era muito bom, muito mais que bom, era essencial para enfrentar a semana que vinha pela frente.
Sem medo do sol ainda teimoso, lá ia eu no meio início da tarde de domingo, ladeira acima, pela rua esburacada e empoeirada, desviando de algum cachorro recalcitrante, a caminho da praça central da cidade, onde ficava o imponente prédio do Cine Granada. Levava no peito a ansiedade da espera e no rosto algumas gotas de suor. Levava no andar garboso o orgulho de ser um dos poucos meninos da periferia da cidade que se aventurava, com o exato valor do ingresso no bolso, nas trilhas da sessão de cinema conhecida por matinê. Nem era assim que se escrevia. Mas nem me lembro de qual adaptação linguística era feita na palavra francesa, com dois “es” e com certo abuso de acentos, peculiar daquela língua. Às vezes tinha uns trocos a mais, que permitia a compra de duas ou três unidades da bala “piper”, dos “dadinhos dizzioli” ou da bala “toffee”. O bombom “sonho de valsa”, nem pensar... o chocolate “diamante negro”, ó céus... Apesar dessas limitações, poder ir à matinê era algo muito maior do que ver e lamber com a testa aquelas gostosuras.
Na entrada do cinema, todas as etapas do ritual eram majestosamente cumpridas: chegar antes e ver os cartazes do filme a ser exibido, trocar poucas palavras com algum conhecido, compor a fila, trocar o dinheiro pelo ingresso, apresentar o ingresso na porta de entrada e... entrar, glória suprema.
Já dentro do cinema, depois da cortinas de tecido vermelho e grosso, uma enorme rampa com fileiras de assentos dobráveis de madeira nobre, nos aguardava. Aos poucos, aqui e ali, uma a uma, as vagas eram preenchidas com os lugares no centro da rampa ocupados mais rapidamente. Enquanto aguardávamos o início da sessão, sempre após o escurecimento paulatino do salão, o vozerio era um entusiasmo só, misturado aos cheiros e aromas das balas, dropps e chocolates, que alguns faziam questão de mastigar com a boca aberta. O último sinal era dado pela música tema do filme “Amores Clandestinos”. Começava a melodia, as luzes se apagavam e a tela dava os primeiros sinais de que o paraíso abria as portas.
E então, num passe de mágica, num clique vitorioso, o maravilhamento começava: Mazzaropi, Tarzan, Marcelino Pão e Vinho...Zorro, Capitão Marvel...
E a vida começava e acabava por ali mesmo, num espaço de cerca de duas horas, no escurinho do cinema, nas matinês das jovens tardes de domingo.



EDSON GABRIEL é escritor. Vive em São Paulo — Brasil


JULIETA FERREIRA



ONDE MORAM OS ESTRANHOS?


Depois de tanto ouvir falar dos estranhos e das repisadas advertências para estar de sobreaviso e se afastar deles, a criança, de olhar límpido e expressão cândida, indagou:
Onde moram os estranhos?
E o adulto vacilou, logo se recompondo. A resposta seria vaga ou nula, como quase sempre que o adulto fala com a criança. Tanta sabedoria e experiência derrubadas de uma assentada, qual pirâmide de blocos que oscila ao mais pequeno sopro. O adulto não quer perder tempo a pensar, tão empenhado que está em educar e proteger a criança. Ou talvez seja uma fuga a camuflar o receio daquilo que ele próprio poderia vir a desvendar.
Onde moram os estranhos?
Será que moram em condomínios ou em barracas? No apartamento do lado ou no lajedo húmido e frio das estações de metro? Nas moradias junto à praia ou nos albergues? Nas avenidas novas ou nos bairros de lata?
E a criança, na sua ingenuidade incomodativa, quis saber:
Quem são os estranhos?
O adulto, tentado acalmar a sua impaciência, sorriu a custo, presenteando a criança com o sinónimo desconhecido, numa parca solvência de tão legítima indagação.
A criança, sem ter aprendido ainda as regras dos diálogos dos adultos, insiste em saber se o pai do menino que vive no segundo andar é um estranho. É que a criança nunca tinha visto o pai daquele menino e não sabia onde ele morava.
O adulto fez um trejeito de enfado e apressou-se a desviar a atenção da criança para os brinquedos abandonados no meio da sala. O adulto não tem tempo para explicações. O tempo é coisa escassa quando se deixa de ser criança.
Quem são os estranhos?
Serão aqueles com quem nos cruzamos, todos os dias, pelas ruas da cidade onde habitamos? Serão aqueles que se sentam ao nosso lado, de semblantes fechados ou sorrisos prazenteiros, nos autocarros a abarrotar? Aqueles que nos insultam ou nos cortejam? Aqueles que comem a mesma comida, na mesa a dois passos de nós, num restaurante qualquer? Ou serão também esses que julgamos conhecer e nos apanham desprevenidos por tanto confiarmos?
Mais tarde, brincando no jardim, a criança ouviu, surpresa e confusa, a admoestação de um passante, dirigida à menina que parara, inadvertida, entabulando conversa com o adulto.
Não te disse, tantas vezes, para não falares com estranhos?
E foi aí que a criança decidiu que jamais viria a ser um estranho.


JULIETA FERREIRA é escritora    — Vive em Lisboa — Portugal



MARÍLIA CHARTUNE

A CRIANÇA NA ARTE


Há como inserir no universo lúdico da infância um espaço para a arte não unicamente para formação e não se deve ter receio de preencher com informações que parecem supérfluas sob o ponto de vista educacional quando se mantém um nível de atividades paralelas saudáveis. Prova disso é a notável tendência de educadores sensíveis e capacitados, tanto no eixo familiar, como na escola, que orienta prováveis talentos para o ofício da arte.
Participando de uma seleção e premiação em um concurso de desenhos alusivos ao aniversário da Base Aérea de Santa Maria, RS, se pôde constatar que as escolas se inscreveram e os alunos participantes pertenciam a um seleto grupo em que professores de educação artística se empenharam em ensinar composição, cor e forma, deixando o cunho artístico e criativo a critério dos alunos. A comissão julgadora, mesmo sem conhecimento prévio, premiou principalmente os que fazem cursos paralelos aos regulares, porque se destacaram tanto na lógica como na técnica dos demais, com honras aos professores e alunos.
Portanto, acredita-se que a formação artística desde a mais tenra idade, proporciona base sólida para o futuro, pois arte é intuição, sobretudo, formação técnica para que se expresse com clareza e senso estético.
O Congresso Latino Americano de Educação Através da Arte realizado no Rio de Janeiro em 1978 trouxe em pauta muitas questões a respeito da preferência literária e dos quadrinhos na formação das crianças. Em uma “Mesa Redonda” com Henfil, Ziraldo, Maurício de Souza, conhecidos criadores de histórias infantis e grandes cartunistas, da qual participei como aluna, se concluiu que a preocupação em mostrar a filosofia inserida nas personagens é compreendida de acordo com o leitor ou observador. Quando se é criança muitas informações passam despercebidas porque o objetivo é a leitura e a imagem, mas ao passar do tempo, o adulto vê que as mensagens subliminares são muito mais fortes do que aparentavam.
Muitas criações, supostamente destinadas ao público infantil, se enquadram no universo adulto e são clássicos. Manifestações culturais como a literatura, a dança e a música geralmente encantam a todas as idades, mas precisam de linguagem técnica na produção, no entanto, considera-se que as artes consideradas plásticas têm uma linguagem universal mesmo sem ser requisito ter uma formação técnica ou acadêmica para serem executadas. A liberdade de expressão da criança pode sofrer perdas à medida que vai acumulando informações e conceitos, mas cabe aos educadores respeitarem a iniciativa e a criatividade, mesmo com o objetivo de formar profissionais.

Marilia Chartune Teixeira
Artista Plástica
Vive no Rio Grande do Sul     —    Brasil


 NIL MEDEIROS

 
Era uma menina,

Que pulava corda,

Dançava roda

Soltava balão







Que nas noites de lua

Corria pra rua

Pés descalços ao chão

E nas festas juninas

Dançava ciranda

Forró e baião

Tinha olhos castanhos

Cabelos compridos

E sorriso em flor



Era Rosa, Amélia

Maria, Camélia

Era Ana e Dasdô

E ao som das cantigas

Sorria pra vida

De um jeito especial

E cantava

E dançava

E vivia sem pressa Num mundo só seu.


NIL MEDEIROS é escritora e poeta.    Vive em Alagoas    — Brasil



REGINA SORMANI
 
VOCÊ GOSTA DE CINEMA?



A história da minha família se mistura com a história do cinema na cidade de Agudos. Meu avô, pai da minha mãe, Fortunato Andreotti foi o primeiro empresário cultural da cidade. Ele arrendou a sala de exibição que pertencia à senhora Carolina Rocha e para lá conduziu a banda Ítalo-Brasileira. Ora, uma banda dentro de um cinema? Sim, estou falando dos filmes mudos nos primórdios do cinema. Essa banda reunia integrantes das famílias dos imigrantes italianos. Dela, faziam parte: meu avô, meu pai, tios primos e amigos, todos músicos de primeira. Uma das funções da banda era acompanhar as cenas dos filmes mudos, interpretar com sons e melodia as cenas que se passavam na tela: paixão, medo, euforia, drama, tristeza, alegria. Tudo isso me foi contado pela minha mãe, que acompanhou o passo a passo da história do cinema em Agudos. Lá, na terrinha querida, nos bons e velhos tempos, juntamente com os bailinhos e as rodas de violão, curtíamos muito o Cine Teatro São Paulo. Durante minha infância e juventude a empresa cinematográfica Zonta possuía os direitos de exibição dos filmes. Crianças, jovens e adultos, podiam, caso desejassem, ir ao cinema, todas as noite, de terça à domingo. Às segundas, quando o filme de domingo era reprisado, a sala ficava praticamente vazia.. O preço do ingresso, muito convidativo, começava com zero, custava apenas alguns centavos. Lembro-me da noite de inauguração da nova sala e do filme de Disney, em cores que foi exibido. Um sucesso! O cinema ficava ao lado do Agudos Tênis Club e de frente para a praça da cidade, onde, à noite, as meninas faziam o footing (do inglês: passear). A maior bilheteria alcançada pelo nosso cinema foi na época do lançamento do “O CORINTHIANO”, produção de Mazzaropi. A fila para comprar ingressos dobrou o quarteirão do cinema e o filme foi reprisado três vezes, para glória dos pipoqueiros e das sorveterias da praça. As garotas do meu tempo suspiraram e se apaixonaram pelo ator-galã que interpretava o marido de Sissi, a Imperatriz, filme estrelado pela graciosa atriz Romy Schneider. As matinês dominicais ficavam lotadas, pois os meninos iam lá torcer pelo Tarzan e pelo Zorro. Claro que o Bem triunfava sempre. E a torcida era enorme. Aos gritos, a gurizada aplaudia os heróis e vaiava os bandidos. Quando acontecia da bagunça ficar insuportável, lá vinha o “lanterninha” para iluminar a cara dos mais assanhados. Era uma diversão à parte! Gosto de entrar no cinema para assistir a um bom filme, em boa companhia e, de preferência saboreando deliciosas pipocas. E você?

REGINA SORMANI é escritora e poeta.    Vive em São Paulo    —    Brasil

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Esta edição temática de PALAVRA FIANDEIRA foi lançada em 12 de Outubro de 2011, e reuniu escritores especialmente convidados por MARCIANO VASQUES 


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PALAVRA FIANDEIRA é uma publicação literária fundada pelo escritor Marciano Vasques
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A obra da capa desta edição é da artista MARÍLIA CHARTUNE
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JULIETA FERREIRA é escritora de Portugal que terá uma edição de PALAVRA FIANDEIRA com sua entrevista.
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sábado, 16 de julho de 2011

PALAVRA FIANDEIRA — 63


PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
REVISTA DIGITAL LITERÁRIA
17/JULHO/2011
ANO 2 — 63

 NESTA EDIÇÃO:
ESCOBAR FRANELAS
"Meu viver é a experiência poética mais completa."
 Escobar Franelas — foto: Raquel Ramos
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Exposição de Fotopoemas—Sacramento, MG —foto: Escobar Franelas


1—Quem é Escobar Franelas?
Escritor e videomaker paulistano. Depois de muito perambular, estou quase terminando uma graduação, em História. Gosto sobretudo de livros, mas também de artes em geral, filosofia e práticas ambientais sustentáveis. É sobre esse quadrado que minha vida está estruturada.
 Escobar Franelas —gravação do CD "Sacha 60" — foto: Akira Yamasaki

2—Já nos encontramos em algumas pontas de uma corrente serena formada por poetas, jornalistas, idealistas, sonhadores, que com suas antologias, suas páginas literárias vão conduzindo essa vontade de divulgar os fazedores de poesia e arte. Entre esses amigos, o Zanoto, que nos deixou recentemente, e o Selmo Vasconcelos, de Rondônia. O que é para você, participar dessa pulsação?
É participar – como você mesmo nos diz – da essência de uma produção devotada ao “fazer”, sem que isso seja simplesmente uma submissão às exigências financeiras ou midiáticas. A maioria desse pessoal (o antigo underground, hoje não sei que palavra usar com exatidão) produz cultura e arte no sentido mais profundo, pois não estão sob sistemas, formais ou não, de dominação de mercado.
A artesania vem da experimentação, ludicidade e prazer que nos levam aos gregos, onde a arte anelava-se ao sagrado. Entendo e professo a arte assim, como o sagrado que se manifesta em vida.

3—Tive a grata alegria de estar algumas vezes com Raberuan. Poderia, por favor, contar aos nossos leitores, sobre esse artista de São Miguel Paulista, de quem tanto gosto?
 Escobar com amigos, entre os quais o cantador Raberuan
Beto Rios; Akira Yamasaki; Escobar Franelas; Raberuan e Eliel Lima — gravação do cd "Sacha 60" — foto: Ceciro Cordeiro
Raberuan é um compositor inspirado, crooner versátil e cidadão como poucos. Não é um artista deslumbrado, antes, é um militante do humano que há na arte.

4—Como você “se achou” trabalhando no mundo do audiovisual?
Iniciei no audiovisual trabalhando numa finalizadora de VHS, em 1988. O videocassete tinha acabado de chegar ao Brasil e havia uma demanda muito grande na produção de filme para o mercado doméstico. Tornei-me operador de vídeo, depois aprendi a ciência da edição de um filme, tradução, legendagem, essas coisas. Com o tempo, veio a vontade de produzir alguma coisa, dirigir... foi aí que finquei parceria com um antigo parceiro, o Gilberto Tavares, com o qual até hoje fazemos manufaturas. Atualmente, estou terminando a montagem de um vídeo experimental sobre a poesia de Dailor Varela, um poeta seminal nas letras brasileiras dos anos 60, ao mesmo tempo que estou produzindo um documentário sobre o Movimento Popular de Arte (MPA), em parceria com o Giba e o Claudemir Santos. O MPA é a principal referência quando se estuda as questões artísticas e culturais na região de São Miguel nos últimos 30 anos.

5— Considero um poema de Bandeira o mais triste e belo de nosso idioma. Sei que gosta de Bandeira, e de outros poetas. Poderia nos dizer até que ponto o contato com a escrita de poetas consagrados pode influenciar o surgimento de um novo poeta?
Quando iniciei meus escritos, imitava o Bandeira pois achava que seria mais fácil escrever como ele, em branco e sem métrica. Quanto engano! Pois se não tenho rimas e metros, tinha que ter assunto, enredo e ritmo, coisas que aprendi (ou, pelo menos, julgo ter aprendido um pouco!) com o tempo, lendo, relendo e treslendo Bandeira.
Teve um momento que pensei em desistir, pois cria que não conseguiria jamais atingir o nível deles. Hoje convivo bem – aprendi com Quintana – sendo passarinho, figurante na beleza fulgurante da poesia brasileira.
Poeta Manuel Bandeira
6—Não podemos negar os benefícios da tecnologia, mas ao ver que estamos entrando numa nova era, será que a poesia, e as artes, podem contribuir de alguma forma para o retorno, ou melhor, para que a era humanista não se vá por completo?
Nunca perderemos essa verve, fique tranquilo. O máximo que acontece às vezes é que interesses de poder e capital dominam a cena por um período. Mas como bem sabemos, o mundo, a vida, são cíclicos. No dia que perdermos totalmente as referências humanísticas, não será mais mundo, ou, pelo menos, não seremos mais gente.

7—Você se assume e se reconhece poeta, “mesmo quando não está escrevendo”. O que é exatamente isso, o que significa se sentir poeta, ter essa consciência de ser?
Sou poeta não porque escreva poesia. Meu viver é a experiência poética mais completa. Isso é o que chamo irmanar a arte com o sagrado. Sempre defendo a idéia de que pode-se ser visceralmente poeta tomando café numa padaria barulhenta às sete da manhã, ou vivendo a intensidade do amor, mesmo que não se profira palavra alguma.
 Escobar Franelas —gravação do CD "Sacha 60" — foto: Akira Yamasaki

8— Você é fotógrafo, é artista audiovisual, é perfomance ambulante, é um camelô a repartir com as luzes da cidade a poesia que está no que pode ser imperceptível no cotidiano, mas pode também jorrar nos olhos de quem se atrever. A poesia é necessária em nossos dias, em nossa sociedade?
Poesia é necessidade orgânica. E, tal como o ar, só sentimos falta dela quando deixamos de “respirá-la” ou quando a sorvemos com as sujeiras que alguém lançou sobre ela.

9—Facebook e outros virtuais inauguraram uma nova era, sem dúvida. Em todos os sentidos. A criança que tem 9 anos, mas 20 no Orkut, etc. Como você traduz essa nova realidade que surge trazendo um novo espírito para a época?
Eu não ousaria traduzir, mas admito minha estupefação. Esse é o transe, a nova perspectiva que não foi dominada totalmente pelos capitalistas de plantão. O Cláudio Prado repete sempre esse bordão, as redes sociais no ambiente holográfico da internet são o novo parque de diversão, o pique-esconde que brinquei e meus filhos não brincam mais. Há uma nova maneira de ligar-se ao outro, novas formas de comunicação que fogem ao contexto de quem cresceu dependendo do mundo físico.

10—Se tivesse que escolher um de seus poemas para o nosso leitor, com qual nos brindaria?
Para não cansar os desavisados, vou com um de meus haicaos, bem curtinho:
A mobília imobiliza / a sala de estar / invente andar” (Tráfego)

11—O que seria para você o clímax poético?
É como o orgasmo, você não o explica. Mas vivencia a plenitude de seu acontecimento. Como explicar a densidade de Clarice Lispector, hein? Como colocar em palavras o que sinto quando leio Drummond? Não dá. Tudo o que falo de Borges, ainda assim não é o Borges legítimo, no original, que, aliás, todos deveriam ler – completo – pelo menos uma vez na vida.
 
Clarice Lispector
Clarice Lispector (divulgação)
12—Tem quem se supõe estrela por ter publicado o seu primeiro trabalho artístico, tem quem não consegue aceitar o outro, pelo fato de o outro não pertencer ao seu grupo, e tem aquele que apenas quer produzir arte, e seguir em frente, tentando embelezar o mundo, os corações e às consciências, e ainda tem os que “utilizam” a própria arte para denunciar as injustiças, etc... Onde vamos encontrar Escobar Franelas?
Putz. Questão difícil essa... Não sei falar de Escobar Franelas. Sabia que até inventei um alter-ego (e ainda por cima feminino!), só para tentar dialogar comigo? Chama-se Maria Dumário e desempenha o papel de psicanalista.
Então, vou pedir para ela responder essa questão. Bem, ela diz que Escobar é pura ficção, mentira das bravas! E pede para você tomar cuidado com ele. (hehehe)
Mas, tomando o microfone dela para retomar a palavra, digo que gosto mesmo é de escrever. A experiência de publicar não me realizou, como eu tinha imaginado. É bonito viver essa situação, os amigos, a festa, o reconhecimento. Mas gostoso mesmo, é ser surpreendido por uma idéia e dela se tornar prisioneiro, até que a coloque no papel.

13—Você tem um carinho especial pelos blog como espaço de cultura, de consciência, como “uma sala de leitura”. O que representa exatamente a blogosfera para você? E terá ela vida longa? Por quê?
É a nova sala de leitura, mais interativa, dinâmica, imprevisível. Sem dúvida ela representa a biblioteca. Hoje temos várias “alexandrias” a um clique dos dedos, e – incrível – não nos damos conta.

14—Certa vez eu comentei que era escritor, e alguém perguntou: qual o seu livro? Eu respondi que não tinha livro publicado, a pessoa murchou, mas eu continuei sendo escritor. Tem algo a dizer sobre isso?
Vejo duas saídas para questões como essa: tentar convencê-lo de que há erros em sua interpretação, ou dar de ombros e sair de perto. Na maioria das vezes, prefiro a segunda alternativa, que é mais rápida e facilmente aplicável.

15—Tenho um apreço especial pelos jornais de bairro, os jornais regionais. Acredita que, de um modo geral, quem tem paixão pela liberdade, busca a sua alma no jornal?
Acho que os jornais são instrumentos muito importantes para a construção do espírito democrático. Embora as instituições religiosas e a ladroada política usem sempre no sentido contrário.

16—Sempre me sopra uma alegria no coração ao ouvir falar de Akira, de Raberuan, de Jocélio Amaro, que nós, os Vasques, amamos, e também Sacha, e outros. Vocé é oriúndo do Movimento Popular de Arte, de São Miguel Paulista, terra de Antonio Marcos? Poderia contar aos leitores, de forma resumida, a história dessa história?
Nunca fui do MPA. Até me aproximei deles em 1998, 99, quando já fazia uns 13 anos que o movimento tinha implodido. Mas colho até hoje as benesses de conviver com gente tão interessante. O MPA nasceu mais ou menos em 1978, fruto de um interesse popular que discutia cultura e arte na região. Ajuntamentos humanos – como sempre repete o Luiz Alberto Mendes – sempre produzem cultura, “somos homos culturalis”, e vários artistas juntos (discutindo arte!), só poderia dar no que deu: um corolário de produção, com muita música, teatro, poesia, artes plásticas e mais, com vigor, inspiração e muita disposição. Por questões diversas, o movimento perdeu um pouco da força com o passar do tempo, mas nos legou uma história de lutas e conquistas. Tanto que Edvaldo Santana, Akira Yamasaki, Sueli Kimura, Sacha Arcanjo, Ceciro Cordeiro, Raberuan, Zulu de Arrebatá, Osnofa, Gildo Passos, Artênio Fonseca, Cláudio Gomes, Nelson Mouriz e muitos outros continuam aí, compondo, fazendo shows, se apresentando, escrevendo, pintando.

17—Pode revelar alguns de seus projetos?
Em literatura, acabei de finalizar um romance, “Antes de Evanescer”, que está na revisão. Vou atrás de editora pois espero publicá-lo ainda esse ano. E tem mais dois livros de poesia e um de contos, mas estes ficarão para depois.
Em audiovisual, estou finalizando um curta metragem experimental cujo enfoque é a poesia de Dailor Varela (ícone do movimento Poema-Processo), e fazendo as captações de imagens para o documentário sobre o MPA, que pretendo lançar no ano que vem.
Também estou publicando muito material na internet, para a revista Ounão (http://www.revistaounao.com.br/), para o Fora do Eixo (http://foradoeixo.org.br/), que é um circuito de produção independente e para a União Brasileira dos Escritores – UBE (http://www.ube.org.br/).

18—Acompanho as suas andanças, e essa persistência de Soldadinho de Chumbo é algo encantador. Qual foi o seu primeiro livro publicado?
A primeira participação foi na Antologia Poética de Pinheiros(Scortecci, SP), em 1988, com dois poemas de dar dó. Essas coletâneas são ótimas pra isso, você aprende muito convivendo com outros que praticam a mesma arte. Depois vieram outras antologias até que consegui lançar meu único livro-solo, em 1998, “hardrockcorenroll”.
Após isso, aconteceram outras coletâneas e até alguns prêmios literários.
Hoje, contudo, meu interesse maior está nas dimensões e ferramentas da cultura digital. É por esse caminho que estou me enveredando cada vez mais.

19—Era uma vez um tempo em que não havia bastidores na vida artística e musical no Brasil e nossa função, segundo alguém comentou, seria a de aplaudir e até, em certos casos, idolatrar, e a internet acabou com isso. Acredita que estamos mais próximos de uma compreensão mais ampla da importância da arte?
Não creio. Acho que surgirão sempre maneiras de tornar qualquer arte rarefeita. É o contraponto natural de qualquer tipo de expressão. Sempre há uma face mais elaborada e outra com apelo mais popular.
Agora, se entendi bem sua questão, vou ao cerne: muitas vezes leio textos, ouço cd, vejo encenações, quadros, tudo de colegas ou pares, e minha opção é não comentar. Por quê? Porque fico em dúvida quanto à qualidade destas obras. Prefiro, nesses casos, guardar silêncio. É evidente que muitas vezes o silêncio é outro, por falta de tempo para fazer um texto bom.
Quando minha humilde compreensão permite enxergar qualidades no trabalho – e há tempo para escrever um texto que dignifique este trabalho – sou o primeiro a “botar a boca do trombone.” Imagina, o artista é bom, não tem retorno de mídia e eu vou campactuar com isso? Sem chance! Alardeio, cito, comento, divulgo, sim senhor! Para isso a internet é ótima.

20—Você teve uma exposição de fotopoemas. Onde e quando isso aconteceu? Pode nos dizer sobre?
A pré-estreia foi em 25 e 26 de junho, quando participei do Festival de Inverno do Parque Náutico de Jaguara, em Sacramento, MG. A estréia mesmo será em 29 de julho próximo, n´A Casa Amarela (http://www.acasaamarela.net/), num sarau que unirá várias linguagens artísticas. Depois disso, ficarão expostos lá por um mês.
Os fotopoemas nasceram de uma combinação não prevista. Sempre uso a câmera de meu celular par fazer fotografias inusitadas. Com o tempo, percebi que elas poderiam dialogar com os poemas curtos que pratico, os “haicaos”. Daí para o casamento entre eles, foi um passo relativamente curto.


21—A partir dessa edição, PALAVRA FIANDEIRA sempre terá 22 perguntas. E você é o primeiro nisso. Poderia, num exercício poético dizer 22 palavras. Apenas isso, 22 palavras?
A palavra, seu processo e seu clímax, obedecem apenas à emoção e ao intelecto. Nessa trama, cria vida quando torna-se teia: fiandeira!”

22. Que mensagem deixará aos leitores da sua PALAVRA FIANDEIRA?
Amem!” “Amém.”

 
ANDANÇAS
COHAB II (Itaquera) — foto: Escobar Franelas


POESIA
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PALAVRA FIANDEIRA
Fundada por Marciano Vasques
A entrevista de Escobar Franelas foi concedida 
ao escritor Marciano Vasques

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