EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

PALAVRA FIANDEIRA 153


Um poço de emoções, de sonhos, de coragens e também incertezas – com certeza!


PALAVRA FIANDEIRA

ARTE, EDUCAÇÃO, LITERATURA
Publicação digital de divulgação cultural
EDIÇÕES SEMANAIS
ANO 5 — Edição 153
31 MAIO 2014

EVANDRO NAVARRO



1.Quem é Evandro Navarro?
 Há vinte oito anos compositor e músico. Nascido em 1965, sobre o solo de Muzambinho - MG e sob o signo de sagitário.Filho da D. Lourdinha e do saudoso Sr. Nestor, pai da Mariah e Nina.Um poço de emoções, de sonhos, de coragens e também incertezas – com certeza!
Teimoso, às vezes ainda ingênuo e noutras desconfiado. Mineiro né!. Querendo, pro outro, ser pau-pra-toda-obra e, de repente, pedindo algum socorro também. Com fortes tendências (graças a Deus!) a ser feliz e otimista. Um chorão (emotivo) por natureza.
E mais tanta coisa, que me conheço, e as que nem sei, ainda.


2.Apresentou-se em Ribeiro Preto na Orquestra Sinfônica da cidade com uma composição sua. Conte-nos sobre essa sua apresentação. Quando foi, como foi...

 Aconteceu em novembro de 2012. Com certeza uma das grandes, e raras, oportunidades de minha carreira foi apresentar-me junto com a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. E ainda por cima mostrando uma canção de minha autoria: Alto Paraíso; arranjada pelo clarinetista Bogdan Dragan e regidos pelo Maestro José Gustavo Julião de Camargo.
“Orquestra e Amigos” foi um Projeto que convidou artistas de Ribeirão Preto. Imagina: você se ver no palco do Theatro Pedro II (monumental), olhar pra frente e ver a casa cheia, olhar para trás (e dos lados) e ver dezenas de músicos da mais alta qualidade, todos empenhados em um trabalho seu. Uma vibração musical estonteante. Pensa a responda, a beleza, a sonoridade, a emoção disso.

3.Foi para o Rio de Janeiro para batalhar pela sua carreira musical. Conte, por gentileza, aos leitores da Fiandeira, sobre essa decisão, e como está sendo essa batalha.
 O Rio de Janeiro marca um novo momento de minha vida e carreira. Transferir pra cidade maravilhosa minha batalha é um grande desafio. Inspirador. E que exige também uma outra determinação; eu que sempre vivi na barra da saia de uma família fraterna e acolhedora, no convívio de amigos tão queridos. Já chorei bastante (rs), mas também tem muito sorrir nesta história de pouco mais de um ano. Componho diariamente, motivado por isto tudo. E só isto já valeria esta fase e o intento. Mas tem tanta coisa junto, nisto, que não dá mesmo pra “fiandar” tudo aqui. rs

4.Além de cantor e compositor, realiza também uma atividade jornalística. O que pode nos comentar sobre ela?
—Não sei se é bem um “jornalismo”, mas também não sei se deixa de ser.
Convidado pelo Coletivo Fuligem (de Ribeirão Preto) faço parte, há quase um ano, do programa de tv: Fuligem no ar. No qual sou, acho que posso dizer,“repórter”. Fiz varias matérias culturais e entrevistas no Rio e algumas também em Ribeirão. Gosto muito e acho que tem gente gostando também. rs
Há algum tempo, eu havia sido entrevistador de um quadro musical, num programa do SBT regional; onde tive uma experiência bonita e motivadora, o que me ajudou a achar que devia aceitar este novo convite.


5.Você assinou o roteiro e a direção de um musical intitulado “O Brasil Bate Tambor”. Conte à Fiandeira, por favor, sobre esse projeto.
 —Poxa!, vejo este Show como outro desafio; por se tratar de um trabalho de pesquisa.
Levar para o palco algo que trate da negritude, acho importantíssimo, rico e de muita responsabilidade. A proposta foi ter em cena músicos afrodescendentes, com repertório, também todo relacionado à proposta, de compositores ou textos que tratassem da questão. Convidado pelo Instituto Plural, uma ONG de Ribeirão que tem também como objetivo a valorização da identidade e cultura afro; onde fui professor de violão e regi um coral de crianças. Inesquecível o aprendizado ali.

6.Você de um modo geral valoriza especialmente a amizade. Além da amizade, que outros tesouros considera assim na vida?
 Caramba!!! Falar sobre a amizade e amigos? Quantas entrevistas você me dá pra isto? rs Na verdade nem sei se saberia, em palavras, me aprofundar tanto o quanto sinto. Tenho mesmo como alta importância na vida buscar me relacionar da forma mais afetiva, comprometida e responsável possível. Se realmente consigo, não sei. Quem poderia dizer melhor são os próprios amigos e a história que vou deixar. Mas neste momento me ocorre tentar me expressar, a respeito, com um trecho da maravilhosa canção: Solar, do Milton e Brant: “Saí de casa para ver outro mundo, conheci. Fiz mil amigos na cidade de lá. Amigo é o melhor lugar...”
Outros tesouros? Meu Deus! Não são poucos não.
Cito alguns aqui: família, a música, lugares, gentes dos lugares, tanta vida...


Com Claudio Barria
7.Aprecia a Literatura Infantil? Tem composto canções infantis?
—Aprecio muito. Muito mesmo. Mesmo já “adulterado”, posso sim a qualquer momento optar por uma leitura do gênero, com o mesmo prazer e interesse que teria por um texto de “gente grande”. Também nem vou entrar no mérito da riqueza e importância dos livros na, e pra, vida de uma criança. Entre tantos, falo de dois aqui que o menino Evandro ensinou ao grisalho Navarro, de hoje, pra sempre, gostar: “A mina de ouro” de Maria José Dupré e “O menino do dedo verde” , do francês Maurice Druon.
Ah, e quase ninguém sabe, tenho, faz tempo, um rascunho pronto, pra virar livro: Lucas e a nuvem.
Canções infantis? Sim, tenho muitas e adoro compôr dentro deste universo. Inclusive uma linda ideia já bem formada, por se materializar, o livro- cd ecológico: Um canto e meio; com o parceirinho poeta-ilustrador Arnaldo Martinês Bacco Júnior. Ainda estes dias atrás escrevi um textinho pra ser canção: Caiporinha. Naquele dia mesmo, lá na FLIST, no Rio de Janeiro; naquela tarde linda, em que conheci você, meu querido-novo-amigão, Marciano Vasques.  


8.Como a música surgiu em sua vida? Em que momento e por quais acontecimentos um dia decidiu que queria ser músico?
 Vixi! a música em minha vida???
Talvez porque a música já fosse histórica na vida de minha família. Bisavós, avós, tios, um montão de primos, todos muito ligados à música. As rodas musicais em minha casa, desde sempre. Tenho várias imagens-lembranças de mim muito menino dormindo no colo de algum adulto - em meio a alguma cantoria. Irmãs e irmão mais velho tocam, cantam, compõem. Mas profissionalmente, em casa, só eu e outro irmão; os outros todos trabalham. rs Somos oito.
Em 1986, meu professor de violão da época (Vicente Caetano) resolveu, por mim, me profissionalizar; me intimou a substituí-lo num bar de Ribeirão e nunca mais parei.


9.Insistência da PALAVRA FIANDEIRA num assunto já meio ultrapassado: Acredita no fim da era do livro de papel?

—O livro só acaba quando o ser humano se individualizar de vez. E viver completamente sozinho, a ponto de não carecer de mais ninguém, de nenhum companheiro.
Pois, melhor companhia que um bom livro, é difícil. Notebook nenhum, ou coisa parecida, consegue fazer esta função.
O livro carrega em si uma magia inexplicável.
Não depende de bateria, de pilhas, energia elétrica... Mesmo à noite, basta uma simples vela acesa e pronto.
Ninguém, mais que um livro, te convida a sonhar, voar e cruzar o mundo; as galáxias, por que não?
Ou te encoraja pra uma incursão linda e desbravadora de si mesmo.
Ninguém mais que um livro respeita, e permite, o que você sente e imagina.
Acabar uma coisa assim??? Que jeito?


10.Tem CD gravado? E, além disso, tem algum projeto musical que já pode revelar? Considerando que também faz a arte do cinema, poderia aproveitar e nos contar sobre o curta - metragem que realizou, intitulado “O poeta das quatro cord4s”?


 Tenho 5 CDs produzidos, que os considero como obras de minha carreira.
Três deles são com outros intérpretes cantando coisas minhas e me encantando.
Novos projetos? Sou um desassossegado-sonhador, se eu revirar aqui meu íntimo, vou achar vários desejos . Mas prefiro falar aqui de show que já esteja na estrada, o Brasil Caboclo, por exemplo.
Brasil Caboclo

A arte do cinema em minha vida é muito recente; e aconteceu porque conheci uma moça chamada Monique Franco. Esta Professora me convidou pra conhecer o seu lindo Projeto chamado Laboratório Audiovisual Cinema Paraíso, na UERJ de São Gonçalo. E depois sabendo da minha vontade de filmar o curta metragem O poeta das quatro cord4s, disse: Vamos lá! Vamos fazer isto ser verdade. E então ganhamos a parceria do Coletivo Fuligem, do qual vieram somar com a gente o cinegrafista Rafael Vital e a produtora Mariah Navarro. Que alegria, termos podido contar, em 24 minutos, um pouco da vida do sambista Miguelzinho do Cavaco, que mora no Morro Chapéu Mangueira – no Leme, Rio.




                                             
11.Como interpreta em seu coração esse encontro com escritores e artistas, em seu cotidiano?
 A música (arte) tem provocado, e promovido, em minha vida experiências de situações e encontros impagáveis. Hoje já são tantos irmãos queridos, cujas amizades foram amadrinhadas pela arte, que nem dá pra contar em números.
O mais recente deles, não por coincidência, é este querido entrevistador que nos fala, Marciano Vasques. rs O padrinho, desta vez, foi o, nosso querido amigo em comum, também escritor, André Luís Oliveira.



12.Deixe aqui a sua mensagem final. Qual a sua PALAVRA FIANDEIRA?
 —Poxa, uma palavra fiandeira?
Pode ser um verso? (de improviso)

Mas, antes, conto que aprendi que: “Con-fiar é fiar juntos”.

Agora sim, agradeço pelo papo, e, desfio umas linhas:

Sigo confiando, porque fiando vou
Vivo acreditando, pois desconfiando a nada me levou
Sinto que são fios, a trama dos rios, virando cachoeira
A água que sai de um fio lavra, palavra fiandeira



PALAVRA FIANDEIRA

ARTE, EDUCAÇÃO, LITERATURA
Publicação digital de divulgação cultural
EDIÇÕES SEMANAIS
ANO 5 — Edição 153
31 MAIO 2014

EDIÇÃO: 
EVANDRO NAVARRO

PALAVRA FIANDEIRA: 
fundada pelo escritor Marciano Vasques

Foto de Ieda Luttgardes


sexta-feira, 23 de maio de 2014

PALAVRA FIANDEIRA 152

Nós, autores, temos que ser muito verdadeiros no que escrevemos e falamos.





PALAVRA FIANDEIRA

ARTE, EDUCAÇÃO, LITERATURA
Publicação digital de divulgação cultural
EDIÇÕES SEMANAIS
ANO 5 — Edição 152
24 MAIO 2014

SUSANA MARIA FERNANDES


1.Quem é Susana Fernandes?

—Sou carioca, formada em Jornalismo, pós - graduada em Literatura, Arte e Pensamento contemporâneo e também em Literaturas de países de língua portuguesa. Torço pelo Botafogo, amo o Rio de Janeiro, literatura, música, boa comida e um bom vinho.



2.Poderia, gentilmente, contar aos leitores da FIANDEIRA , sobre o seu livro GENTE VESTIDA DE NOITE? O que nos poderia dizer sobre ele?
—Este livro trata da importância do olhar, de como você vê o outro e como é importante você se ver no outro e verificar de que é um igual, dentro da diferença.



3.Ao ouvi-la num evento no Rio, reparei de imediato a sua preocupação e consciência com relação ao racismo e outras enfermidades da “cultura” nacional contemporânea. Fale um pouco sobre isso, por favor.

—A minha preocupação maior, não é bem com o racismo que é uma praga que não vai acabar enquanto existir o ser humano. A minha preocupação como pessoa e escritora é de como o negro se comporta frente ao racismo. Temos que ter em mente que não somos inferiores a ninguém, somos pessoas capazes de viver com dignidade, somos seres pensantes e inseridos nesta sociedade, e temos o direito de sonhar e lutar pelo que queremos. O negro não tem que se importar com o racismo, quem tem que se importar é o racista. Somos herdeiros de uma raça vitoriosa, pois vencemos 300 anos de cativeiro e erguemos uma nação sobre o manto da dor e hoje chegamos com lágrimas para sermos artistas, escritores, advogados, juízes, médicos, engenheiros, modelos, designers, poetas e o que mais chegar.
O que vivemos hoje nesta contemporaneidade virtual, com internet por todos os lados é resultado de uma demência cultural, é resultado do tédio de ter tudo à mão e também desta máxima de que você pode tudo, mas só você, o outro não.


4.Esteve na Feira de Livros no Parque das Ruínas num domingo ensolarado. O que representou para você a sua participação nesse evento?

—Foi a maneira que encontrei para fazer o lançamento do meu livro, num lugar diferente e bem bonito. Eu confesso que não esperava que fosse tão bom, porque conheci pessoas muito interessantes, como você por exemplo, e agora estou dando esta entrevista.

Lançamento do primeiro livro


5.O que pensa sobre a Literatura Infantil? Acredita que ela seja apenas para crianças?

—Eu não acredito em literatura infantil, eu acredito em texto literário com signos infantis, que podem ser lidos até por uma criança. Mas.. esta divisão em literatura infantil, literatura feminina, literatura marginal e outras mais tem a ver com a questão mercadológica. Eu gosto de ler bons textos e gosto de viajar por mundos diferentes e vislumbrar novos encantamentos. É bom despertar a criança que mora dentro de nós, assim nos ligamos com o divino e aí a magia acontece e o livro passa a ser o nosso mais recente amigo de infância.

Em evento no Rio de Janeiro, em 18 de Maio.

6.Poderia nos brindar com o seu pensamento sobre a tão recentemente alardeada fim da era do livro de papel?

—Creio que o livro em papel não vai acabar. Isso já está sacramentado. Os e-books vão ficar juntamente com o livro em papel, uma coisa não invalida a outra. O livro em papel faz parte da nossa vida, mesmo para aqueles que transitam com desenvoltura no mundo virtual, o livro da maneira que ele é perpetuará por muitos e muitos anos. O livro em papel pertence ao nosso cotidiano, ele torna o nosso momento de leitura mais aconchegante.


7.Seu livro “Gente Vestida de Noite” é também uma poesia visual. Quem é o ilustrador? E o que pensa sobre a importância da arte da ilustração num livro para crianças?

—A ilustradora do meu livro é a artista plástica Vera Ferro,que tem um traço maravilhoso. A ilustração deixou o texto mais forte, na realidade são dois textos o escrito e o ilustrado e os dois textos se completam. Para a criança isso é muito importante, o entendimento é mais fácil e fixa mais a história e mexe totalmente com o imaginário. A viagem literária fica mais rica.




8.Hoje os atrativos e chamamentos de indústrias gigantescas como a do cinema, de certa forma até distanciam a criança da leitura. Como vê essa questão? Teria, outrossim, uma ideia para aproximar os pequenos dos livros prioritariamente?

—Acho que tudo é relativo. A criança pode ler, ir ao cinema, brincar no computador, tudo bem. A questão é dosar, ter um critério para que as coisas não extrapolem e a criança ignore a existência do livro.
No meu tempo de menina, não tinha computador, mas tinha a televisão e o cinema e eu assisti muita televisão e fui muito ao cinema, mas nunca me separei do livro e o livro não era a minha prioridade, a minha prioridade era brincar com as minhas bonecas.


9.Tem tido contato com crianças em colégios e eventos literários? Como vê esses encontros entre autor e os novos leitores?

—Tive contato com crianças autistas quando lancei o meu primeiro livro Que vida eu quero ter? foi uma experiência sensacional, porque as crianças tinham vários níveis de autismo , mas elas trabalharam o meu livro com os professores e criaram um livro delas, onde elas diziam o que elas gostariam de ser na vida.
A melhor coisa para o autor, na minha opinião é ter contato com o leitor, esta troca é muito boa, porque surge uma emoção muito verdadeira. O autor toma consciência da importância do seu trabalho, do quanto ele pode transformar a vida daquele leitor. A responsabilidade é muito grande, principalmente tratando-se de um público em formação. Nós, autores, temos que ser muito verdadeiros no que escrevemos e falamos.



10.Tem algum projeto que já pode anunciar aos nossos leitores?

—Ainda não tenho nenhum projeto fechado, mas assim que tiver, avisarei aos leitores. Penso em algumas coisas, mas ainda estão em processo de maturação.

Com amigos em confraternização após lançamento.

11.Acredita que a Literatura de um modo geral possa atualmente, em nossa era tecnológica, influenciar de alguma forma a nova geração?

—Sim, entretanto é preciso saber que tipo de leitura a moçada está fazendo. Mas, independente da literatura sempre fica algo daquilo que se lê, espero que as boas leituras tenham força para trazer um equilíbrio para a garotada, que eles não achem que porque o mundo está querendo ser tecnológico, não caiba um pouco de poesia, de beleza singela, um pouco de pé descalço no chão de terra batida.



12.Deixe aqui a sua mensagem final. Qual a sua PALAVRA FIANDEIRA?

—A Literatura fala da gente com tratamento artístico.




PALAVRA FIANDEIRA

ARTE, EDUCAÇÃO, LITERATURA
Publicação digital de divulgação cultural
EDIÇÕES SEMANAIS
ANO 5 — Edição 152
24 MAIO 2014
Edição: SUSANA MARIA FERNANDES
PALAVRA FIANDEIRA:
Fundada pelo escritor
Marciano Vasques




sábado, 26 de abril de 2014

PALAVRA FIANDEIRA 151

Detalhe de ilustração de livro infantil da CORTEZ


e toda escolha é difícil e delicada 
Obra de Rodrigo Abrahim

Em minha experiência na Educação e pelo país, 
observo que as pessoas gostam, sim, de ler.



PALAVRA FIANDEIRA

ARTE, EDUCAÇÃO, LITERATURA
Publicação digital de divulgação cultural
EDIÇÕES SEMANAIS
ANO 5 — Edição 151
26 ABRIL 2014

AMIR PIEDADE

1.Quem é Amir Piedade?

—Primeiro sou professor, depois editor. Gosto muito de apresentar-me assim. Há uma identificação imediata das pessoas com os professores. Ainda exerço e com muito prazer a docência no Ensino Fundamental e também no ensino superior. Paranaense por nascimento e paulista por escolha, sou apaixonado por São Paulo, pela sua gente, pela agitação e correria da cidade, pelos museus, pelos bares, pelos teatros, bibliotecas, pela vida pulsante.



2.Como é ser um editor?

—É um trabalho de seleção. Ler, analisar e separar aquele original que você considera o mais indicado naquele momento para a editora e para o leitor. Isso significa deixar muitos, muitos originais – com excelente qualidade – de fora. É sempre uma aposta. Não há certeza nem garantia que o original selecionado será um sucesso. Não há uma fórmula para resolver o melhor modo de selecionar. E, penso sempre na tristeza do autor e da autora quando recebem a negativa de publicação. Tenho uma brincadeira que diz que se o livro vende bem os departamentos de vendas, marketing e divulgação fizeram um bom trabalho, mas se o livro não vende, o editor escolheu errado. Se o editor aprova um original e ele não vende, deu prejuízo à editora. Se ele devolve o original que é publicado por outra casa editorial e vende bem, deu prejuízo indireto à editora. É sempre uma escolha e toda escolha é difícil e delicada e traz ônus.


Na Bienal do Livro
3.Qual o primeiro livro que você aprovou?

—Foi O sonho da bolinha de gude, de Eunice D’Amico, na editora Ave-Maria.

4.Comente sobre os 10 anos de Literatura Infantil da CORTEZ, uma história da qual você faz parte.

—Trabalho na Cortez Editora desde 2001, como editor da Coleção Docência em Formação, coordenada pela prof. Selma Garrido Pimenta. É uma coleção voltada para a formação inicial na graduação e formação contínua de professores na Educação Básica. Em 2003, quando a editora decidiu abrir uma coleção de literatura infantil e juvenil, como eu tinha experiência de criação de catálogo de literatura infantil (Editora Ave-Maria e Editora Elementar), fui convidado pelo senhor José Xavier Cortez, presidente da editora, para iniciar essa tarefa com uma orientação “Faça livros que não fujam à linha editorial da Cortez, que promovam a reflexão, o debate, mas também o despertar para a leitura”. Com essa ordem pus mãos à obra e chamei autores e ilustradores para desenvolverem o projeto inicial. Contei ( e conto até hoje) com o auxílio inestimável do Mauricio Rindeika Seolin, meu editor de arte, mais o talento de excelentes revisores. A Coleção saiu com o slogan “Ler, gostosa brincadeira!”. Foi tão feliz o projeto que o jornal O Estado de São Paulo, conheceu vários títulos antes do lançamento oficial em 24 de março de 2004, e no dia anterior, deu destaque na primeira página do Caderno 2, comentando sobre o ousado projeto de literatura, os autores e ilustradores. Pronto! As escolas, livrarias, órgãos públicos etc tomavam conhecimento do nascimento da coleção. Isso ajudou a divulgação de uma forma espetacular.


CORTEZ: Dez anos de Literatura Infantil

5.Conte, por gentileza, aos leitores da FIANDEIRA, sobre a sua ida a Bolonha, e que significado teve esse acontecimento, não apenas em sua vida, mas na Literatura Infantil, expondo a importância desse evento para o livro do Brasil.

—Desde que fui à Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, observei que lá é uma grande universidade do livro infantil. Você  conhece o trabalho de editoras do mundo inteiro. Vê a beleza das imagens, os projetos gráficos, o cuidado primoroso na edição. É um encanto para os olhos, uma compreensão literária para a alma!
No caso da Cortez Editora, há um projeto de internacionalização dos autores e ilustradores brasileiros. Por isso, vamos sempre com o objetivo de vender direitos autorais, não de comprar. E tem dado muito certo. Vendemos mais de treze títulos para Estados Unidos, Colômbia, Espanha, Egito, China.
Para o Brasil é o momento de mostrar o que nossos autores e ilustradores produzem e que não ficamos devendo nada aos livros publicados no exterior.


6.Fez Filosofia. De que forma a Filosofia contribuiu com a sua vida?

—Filosofia é a reflexão cotidiana. O encontro do espírito com as angústias do homem. A esperança de errar menos, de saber o que você é e da sua contribuição para este mundo.

7.Com vê, de modo geral,  a blogosfera e também espaços culturais e de divulgação literária no universo virtual? E de modo específico, acredita que eles contribuem para a consolidação da ampliação de leitores?

—Todo e qualquer mídia que o livro ganhe espaço, estimula e chama à leitura. Temos um grande problema que é fazer o livro chegar ao leitor. Não gosto da frase sobre o brasileiro não gostar de ler. Em minha experiência na Educação e pelo país, observo que as pessoas gostam, sim, de ler. Apenas precisamos colocar o livro  nas mãos delas. Por isso, as redes sociais desempenham um papel importante na divulgação do livro.



8.Desde que o conheço sei o quanto preza a ilustração num livro infantil ou juvenil, sei o quanto aprecia a estética nas páginas. Como vê, concretamente, a valorização do ilustrador e o reconhecimento do artista de traços e cores, como um segundo autor do livro, um grande parceiro das letras?

—Aqui é um trabalho delicado. Os ilustradores acreditam que não são valorizados o suficiente. Aliás, pelo nossa (minha e sua) experiência na docência, ninguém é valorizado o suficiente. Não posso falar pelas outras editoras, mas na Cortez Editora sempre cuidamos com carinho também do ilustrador. Pagamos direitos autorais sem retirar isso do autor, além do valor acertado (que não entra como antecipação de direitos autorais) na entrega das artes.
Gostamos muito de trabalhar com profissionais que conversam tranquilamente e sabem como é o risco de se editar livro no Brasil, e, por isso, não exageram nas exigências e na negociação. A relação tanto entre autor, ilustrador e editor é e deve ser de absoluta transparência e respeito. E conseguimos isso. Dá gosto escutar  a fala de nossos autores e ilustradores contando que a Cortez Editora paga tudo rigorosamente em dia, sem ninguém precisar ir atrás para receber, enviando, inclusive com antecedência os extratos de direitos autorais.
E, nosso trabalho de editor é sempre mostrar ao ilustrador que ele é coautor da obra, por isso, a ilustração não deve se sobressair ao texto, mas constituir um trabalho em harmonia, integrado e elegante.


Ilustração de Livro Infantil (Banho de Bicho)

9.Também é autor. Poderia comentar um de seus livros  que tenha proporcionado alegrias em sua alma?, embora, claro, cada livro seja importante para o escritor.

—Ultimamente sou mais editor que escritor. Mas um dos meus primeiros livros e voltado para a escola foi O aniversário do seu Alfabeto. Vende muito bem. Visito escolas e conversos com as crianças e professores. Outros títulos entraram em programas governamentais. Quando escrevo penso sempre nas crianças para quem lecionei e leciono hoje. Talvez por isso minha produção seja bem mais paradidática.



10.Você é do sul, não é? Esteve recentemente em sua terra. Poderia expôr, gentilmente, as suas emoções e impressões ao ver pessoas  e paisagens queridas?

—Nasci no Paraná e toda minha família vive lá. Quando chego e avisto os imponentes pinheiros tenho uma sensação maravilhosa de filho voltando à terra natal. Volto sempre mais alegre, entusiasmado e comprometido com a vida e o trabalho. É um bálsamo na corrida do dia a dia.
Sempre com a família em encontros queridos 
11.Geralmente autores de Literatura Infantil têm encontros com crianças, nos colégios, feiras literárias, Bienais, etc... E você como autor, certamente já participou disso. Como é estar com crianças conversando sobre assuntos tão preciosos como Poesia, Histórias, Contos, Literatura Infantil, lendas?

—Crianças renovam qualquer pessoa. São estimulantes, curiosas, não veem a maldade que os adultos estão mergulhados. Tem esperança porque a vida ainda está começando para elas. Cada vez que vou à escola, e adoro  visitar escolas, conversar com as crianças e professores, sinto que a esperança ainda tem espaço e muito espaço em nosso mundo. E, que podemos sempre melhorar, transformar, amar.


Contação de histórias
12.Deixe aqui a sua mensagem final. Qual é a sua PALAVRA FIANDEIRA?

—Palavra fiandeira, fios, união, amarração, criação. Tudo isso e mais um pouco é o trabalho de escritores e ilustradores que, junto aos editores, dão vida à imaginação, tornam real  os sonhos, multiplicam as esperanças.

Com amigos 

Livro de Amir Piedade

Amir trouxe da Capadócia para embelezar a sua casa.

PALAVRA FIANDEIRA

ARTE, EDUCAÇÃO, LITERATURA
Ano 5 — Edição 151
AMIR PIEDADE

Palavra Fiandeira: 
Fundada pelo escritor Marciano Vasques

Com Mara Cortez
Com pessoas queridas