EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 10

 PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA

ANO 1 - Nº 10 - 13/JANEIRO/2010



Algum dia, a humanidade
vai mudar a sua sorte:
haverá fraternidade
sem bandeira e passaporte.

NESTA EDIÇÃO:
MARCIANO VASQUES 
ENTREVISTA
MARIA THEREZA CAVALHEIRO


UMA VIDA DE TROVAS


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Veio ao mundo num 25 de Janeiro, aniversário de fundação da cidade de São Paulo. É mais de meio século de trovas e dedicação total. É a embaixatriz, é a dama. É a Senhora Trova. Jovens enamorados, crianças, homens e mulheres colecionavam as trovas que vinham nos adesivos dentro dos saquinhos de balas. Ela que as selecionava. Em nosso primeiro contato por telefone para combinarmos a entrevista, conta-me que a Trova exige cuidado, esmero, zelo. Para ela, escrever trovas é de uma responsabilidade imensa, e ninguém melhor do que ela, a moradora ilustre da cidade aniversariante, para saber que a trova "nasce" na alma do povo por falar de perto aos seus anseios, e conquista de imediato o coração de crianças, adolescentes e adultos. Maria Thereza Cavalheiro é um coração de quatro versos com sete sílabas poéticas cada, e em suas décadas de criação e dedicação total, tornou-se a maior divulgadora de trovas e trovadores no Brasil. A nossa revista sente um orgulho imenso de poder apresentar ao leitor Maria Thereza Cavalheiro e a sua PALAVRA FIANDEIRA.
                                                                             
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"Quem quiser que diga que a trova é um gênero menor de poesia. Para mim, não há gênero menor nem maior: sendo o poema belo, não importa o gênero, ele é maior, pois nada existe de comparável à poesia. Quanto à trova, não pode haver criação literária mais popular, que fale mais diretamente ao coração do povo. É através da trova que o povo toma contato com a poesia e sente a sua força. Por isso mesmo a trova e o trovador são imortais"

Jorge Amado
Entrevista concedida em 1980, para a coluna "Trovas".


MARIA THEREZA CAVALHEIRO 
A TROVA




1. Como grande divulgadora do gênero, e você mesma trovadora premiada em muitos concursos, no Brasil e em Portugal, fale um pouco sobre essa composição poética.

Podemos dizer que a trova é um poema em miniatura, que se esgota em apenas quatro versos. Transmitir em quatro versos aquilo que se tem de dizer é fácil, mas às vezes é um desafio. A trova exige o poder de síntese. É pequena, rápida, concisa; é um pensamento que voa, é um sentimento que se transforma em poesia. Tudo no invólucro mágico de quatro linhas, que se diz em menos de um minuto. Um minuto, aliás, é o tempo para se declamar um soneto, com seus quatorze versos. A trova é um máximo num minuto. Por ser simples na forma, deve, em contrapartida, conter algo diferente. Deve ser rítmica, de fácil apreensão, sem palavras desnecessárias. cada palavra na trova tem força própria e deve ser bem colocada. Cada uma tem seu valor e deve "cair bem", como certas roupas de tecido liso e corte reto, em que o menor defeito é notado. A trova deve ter o caráter popular, sem rebuscamentos. Mas simplicidade não é vulgaridade. A trova é o fácil difícil, porque tudo o que é muito fácil tende a cair no banal. Então o difícil no fácil é trazer uma novidade, e daí a importância do achado, que pode ser uma metáfora, um trocadilho, uma rima original, enfim, algo inusitado; ou mesmo comum, dito, porém , de modo criativo.

2. Depois voltaremos a falar especificamente sobre a trova, mas quero agora que fale para PALAVRA FIANDEIRA sobre o seu novo livro, que acaba de ser lançado.
Arte da capa: Maria Jaepelt 
Distribuição: Loyola - Lojas no Brasil
Internet: www.livraria.loyola.com.br

- Há livros para jovens e livros para adultos. Mas, às vezes, é difícil uma obra que atinja todas as idades, e que, além de leitura amena, proporcione conhecimentos úteis. E foi esse meu objetivo ao lançar, em fins de 2009, meu décimo livro, "Trovas Para Refletir".

Trata-se de um pequeno volume, de 120 páginas, que pode ser lido até em meia hora, mas cumpre ser também consultado, pois contém, além de trovas, conhecimentos básicos de métrica e versificação, pelo que pode, ainda, interessar a professores que devam dar aulas sobre a matéria.

3. Conte ao nosso leitor um pouco sobre as trovas do seu livro.

- O livro divide-se em duas partes: na primeira, estão 180 trovas de minha autoria, no gênero lírico- filosófico, e de sentido universal. Observo que esses quartetos têm uma peculiaridade: neles não aparece a palavra "eu". Os temas são os mais variados.

4. Diga-nos alguns dos temas que aparecem nessas trovas:

- Alegria, amizade, amor, árvore, bem, bonança, caminho, ciúme, criança, destino, Deus, egoísmo, erro, escola, esperança, estrela, família, felicidade, guerra, humanidade, ideal, inveja, juventude, livro, mar, medo, paciência, paz, pureza, remorso, renúncia, saudade, velhice, entre outros. Ainda que alguns temas sejam marcadamente filosóficos, todas as trovas da primeira parte são revestidas de lirismo e com uso frequente de metáforas.

5. E a segunda parte?

- É uma síntese de meu livro "Segredos do Bom Trovar - como fazer trova" - publicado em 1989, com exemplos de 200 trovadores vivos e falecidos. Além dos exemplos de trovadores que já nos deixaram, nesta segunda parte encontram-se doze tópicos úteis, práticos e apropriados aos que estudam ou querem se dedicar ao exercício da trova.

6. As trovas deste novo livro são inéditas?

- Pergunta bem apropriada. Gostaria de observar que em "Trovas para Refletir" não constam trovas minhas já publicadas em outros livros de minha autoria. São, portanto, inéditas em livro meu.

7. Tem algum outro livro só de trovas suas e inéditas?

- Sim, tenho outro livro também só de trovas minhas: "Estrelas e Vaga- Lumes", de 1988, com 111 quadras até então inéditas. Inclui 32 trovas em meu "Encontros e Desencontros", de 1992, que traz 31 poemas e sonetos. esse livro obteve menção honrosa no II Concurso Nacional da Academia Ribeirão Pretana de Letras, em 1979, quando inédito.

8 . Fale de algumas de suas obras premiadas ao longo de sua carreira.

- Tenho dois livros premiados: "Relâmpagos", de poemetos (com 2 e 3 versos) publicado em 1990, o qual, quando inédito, obteve em 1981 o 2º lugar em concurso da SUAM, do Rio de Janeiro, entre 9.767 concorrentes. E o meu penúltimo, em prosa: "Cabeça de Mulher", com Menção Honrosa no "Prêmio Eça de Queiroz/Categoria "Conto", da União Brasileira dos Escritores - UBE - RJ, para livros publicados em 1998. Além desses, conquistei outros prêmios avulsos.

9. Conte-nos um pouco sobre a sua atividade como jornalista.


- Minha primeira reportagem foi em 1957, e nunca parei, tendo trabalhado em vários jornais, revistas e editoras, e em órgãos de empresas ou entidades jurídicas (IRIB). Orgulho-me de ter recebido, como ecologista, em 1956, a Medalha "Comemorativa da Campanha de Educação Florestal, concedida em 1956, pelo Serviço Florestal do MInistério da Agricultura.

10. Você mantém uma coluna de trovas que é publicada sem interrupção há muitos anos. Fale sobre essa coluna.

- Atualmente, realizo a coluna "Trovas" para o "BALI - Boletim Acadêmico Letras Itaocarenses," de Itaocara, editado pelo idealista Kleber Leite. É uma bonita revista mensal.

Durante mais de 30 anos (desde 1977), realizei essa coluna para o jornal "O Radar", de Apucarana - PR, na pagina de sua diretora Rosemary Lopes Pereira, também uma lutadora pela melhoria da humanidade através das letras. O Radar parou de circular em Dezembro último.

11. Além dessa coluna, sempre publicou e divulgou a trova em jornais e revistas. Poderia nos citar alguns?
- Realizei "Trovas" no jornal "Ultima Hora", "A Gazeta Esportiva" e "Notícias Populares", todos da capital paulista. E publiquei "Trovas", sempre de autores vários, nas revistas "Capricho" e "Carícia", e nas extintas "Simpatias que curam" e "A Sorte é Você". Também realizei em 1976 o quadro "Trovas e Poesias", em programa semanal na TV Gazeta. Por muitos anos, forneci seleção de trovas de vários autores para a hoje extinta fábrica das "Gotas de Pinho Alabarda", que as divulgava em adesivos. dentro dos saquinhos de balas.

12. Participa de alguma entidade de trovadores ou literária?

- Atualmente, não sou membro de nenhuma Entidade Literária, mas, com a colaboração de minha prima Amaryllis, fundei a seção Municipal de São Paulo, da União Brasileira de Trovadores - UBT, em 11 de Setembro de 1969, à qual presidi até 1976. Penso, no entanto, que, como historiadora de trova, fico mais à vontade para falar e escrever sobre todas as entidades que se ocupam do assunto, e que são muitas, embora eu não esteja oficialmente presa a nenhuma. Como jornalista, gosto de ser o mais independente possível.

13. Que diz sobre o fato de a trova ser objeto de menosprezo em alguns círculos, especialmente quando ela fala de amor?

- Ao longo dos anos, a trova vem convivendo com todas as escolas, sempre atual, motivando poetas de todas as tendências literárias. E aí está, transpondo divisas, correndo o Brasil. Há, no entanto, de fato, intelectuais desapercebidos dessa realidade, que insistem em dizer que a trova é gênero superado. É tempo de acabar com essa falsa ideia, como bem disse Murillo Araújo, em entrevista que me concedeu em outubro de 1970.

14. Teria algum conselho para trovadores principiantes?

- Poderia dar algumas sugestões, que servem para qualquer pessoa que deseja trilhar o caminho das letras: conhecer bem o idioma pátrio (mesmo que seja para depois contrariá-lo), saber métrica (ainda que tencione fazer somente poesia livre), exercitar-se na escrita, ler bons autores (de todas as escolas), e ter humildade, como preconizava o padroeiro dos trovadores, São Francisco de Assis. A estrada a percorrer é longa e demanda dedicação total ao ideal.

15. Deixe a sua mensagem final para o leitor de PALAVRA FIANDEIRA.

- Meu lema é "Sempre Recomeçar". E as palavras de Ulpiano constituem minha filosofia de vida: "Dar a cada um o que é seu, viver honestamente, não ofender a ninguém.".

Acredito na lei de causa e efeito. Acho que é semeando que colhemos, embora nem sempre possamos colher na mesma seara. São apenas as nossas ações que levaremos na grande viagem. E o que somos intrinsecamente nunca nos será tirado.

16. Escolha algumas trovas para PALAVRA FIANDEIRA.

- Quais trovas eu gostaria de ver publicadas nesta revista? Ora, todas são minhas filhas queridas, mas prefiro deixar a escolha ao gosto e à sensibilidade de meu caro entrevistador.

TROVAS DE MARIA THEREZA CAVALHEIRO


Pode o livro ser tesouro
que alguém garimpou por nós;
 é o amigo imorredouro,
que não fala, mas tem voz!





Quem vive só de futuro
e esquece a vida que passa,
descobre claro no escuro 
que fez projetos de graça.





Riqueza não vale a pena
se vem e nos leva a paz...
No prado, a bela açucena
com a luz do sol se compraz!





        Cabelos soltos ao vento...
        Pés de leve sobre a grama...
        A vida toda é um momento
        no coração de quem ama!!




Se anoitece no teu dia,
pega um facho de luar,
laça uma estrela vadia,
vai outro amor procurar!


                                        Quem perde a oportunidade
                                        por medo de ser feliz,
                                        não colhe nem a saudade,
                                       que arrancou pela raiz!






O luar, lascivo e amante,
abre o vestido da mata,
e em seu corpo exuberante
passeia os dedos de prata...





 Inquieto, pairando apenas
 o colibri em seu afã
é uma linda flor de penas
  junto ao seio da manhã.


Num lugar do coração
habita sempre o menino
que faz bolhas de sabão
para iludir seu destino.








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MARIA THEREZA CAVALHEIRO




Nasceu em 25 de Janeiro de 1929. Escritora, jornalista, advogada, tradutora e ecologista. Publicou os livros:
Antologia Brasileira da Árvore (Bartira, 1960, com 2ª edição no mesmo ano); Poema da Cidade - Sinfonia de Brasília (Cupolo, 1963).
Nova Antologia Brasileira da Árvore (paradidático, em verso e prosa - Iracema, em coedição com a Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo do Estado de São Paulo, 1974); pela Scortecci: Colombina e sua Poesia Romântica e Erótica
(biografia e antologia, 1987); Estrelas e Vaga- Lumes (trovas, 1988); Segredos do Bom Trovar - Como fazer trova - Exemplos práticos - Antologia (1989) Relâmpagos (poemetos, 1990 - 2º lugar, quando inédito, em concurso da SUAM, Rio de Janeiro, entre 9767 concorrentes); Encontros e Desencontros (poesia, 1992, com 2ª edição em 1995 - Menção Honrosa, quando inédito, no II Concurso Nacional de Poesia da Academia Ribeirãopretana de Letras); Cabeça de Mulher (Menção Honrosa no Prêmio Eça de Queiroz/Categoria Conto, para livros publicados em 1998); Trovas para Refletir (Elite, 2009). Fez verbetes para a Enciclopédia Badem (Iracema, 4ª edição, em diante, 1976). Traduziu (Francês) em versos as Centúrias de Nostradamus e o Inquietante Futuro, de Ettore Cheynet, e O Mundo Mágico dos Sonhos, de Mário Mercier ( Pensamento, 1983). Redatora (parcial) de Prestes, por Ele Mesmo (Martin Claret, 1994). Obteve muitos prêmios avulsos, com vários primeiros lugares, em Concursos de Poesia, Trova, Haicai, Conto, Crônica e Slogan, no Brasil e em Portugal. Numerosas inclusões em livro como prêmio. Por sua atuação jornalística, fez jus a duas Moções de Aplausos, em 1959 e 1966, aprovadas pela Câmara Municipal de São Paulo, por proposição, respectivamente, dos Vereadores Jayme Rodrigues e Dulce Salles Cunha Braga. Como ecologista, recebeu diversas honrarias, como a Medalha "Comemorativa da Campanha de Educação Florestal", concedida em 1956 pelo Serviço Florestal do Ministério da Agricultura. Em 11/ 09/1969, fundou, com a colaboração de Amaryllis Schloenbach, a Seção Municipal de São Paulo da União Brasileira dos Trovadores - UBT, à qual presidiu até 1976. Desde 1973, vem realizando a coluna "Trovas", em vários jornais e revistas da Capital Paulista, e, em 2007, registrou 30 anos dessa publicação em O Radar, de Apucarana - PR, jornal editado por Rosemary Lopes Pereira. Desde 2004, a coluna é estampada também em BALI - Boletim Acadêmico Letras Itaocarenses, de Itaocara - RJ, editado por Kleber Leite. Tem poesias musicadas por Américo Antonio Pastor e gravadas por Francisco Egydio e Katia Castelar ( Odeon). Em 1997, completou o Cinquentenário de Literatura.

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Marciano Vasques é o fundador de PALAVRA FIANDEIRA

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Esta edição de PALAVRA FIANDEIRA é dedicada à
ROSEMARY LOPES PEREIRA
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Créditos das fotos e imagens:
1. LUAR: Blog "Contando Nossa Arte Através da Poesia
2. Bolhas de Sabão: Blog "Minha Victória"
3. Colibri: Site North American WilLife
4. Rosemary Lopes Pereira - Acervo Jornal "O radar" - Apucarana - PR

3 comentários:

  1. É sempre gratificante ler as suas entrevistas Marciano. Eu também adoro as quadras populares e apraz-me fazer algumas. Partilho convosco 2 que apesar de não serem de rima cruzada entram no ouvido.
    (Política
    O povo está saturado
    envergonhado por quem nos guia.
    Falta algo nestes protetores
    talvez um poeta ou mestria.

    a uma mãe
    Por ter perdido o amor
    do ser mais adorado,
    encontro em vós, senhora
    alegria de ter namorado.)

    Beijo e abraço
    Carmen Ezequiel

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  2. felicitaciones, interesante entrevista,

    beijos, Ro

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  3. VIVA MARIA THEREZA
    UMA EXCELENTE ESCRITORA
    SUAS TROVAS TÊM BELEZA
    É AUTÊNTICA TROVADORA!

    Rouxinol do Rinaré

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