EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 36



PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA 
ANO 1- Nº 36 - 15/JULHO/2010
 NESTA EDIÇÃO:

ELOÍ BOCHECO
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 MARCIANO VASQUES ENTREVISTA
PARA PALAVRA FIANDEIRA:
ELOÍ BOCHECO


1. Quem é Eloí Bocheco?
Uma professora de língua e literatura, aposentada, que escreve literatura para crianças e jovens, e a quem interessar possa.
2. Já recebeu diversos prêmios literários. Poderia nos falar da importância desses prêmios em sua vida, e de que forma um prêmio pode influenciar na carreira de um autor?
No meu caso, os prêmios abriram caminho para a publicação de alguns livros, como Beatriz em trânsito ( CCMQ), e Batata cozida, mingau de cará ( Literatura para Todos/MEC), cujas premiações incluíram a edição e distribuição da obra.
3) Seu livro POMAR DE BRINQUEDO é encantado. E você demonstra vivenciar com doçura a vida da criança. Como é essa sua relação com o pequeno leitor?


Foi, desde sempre, uma relação de muito afeto, mediada pela literatura. Em classe, na biblioteca, ou como escritora, interajo com as crianças tendo livros por perto. E livros aproximam, criam laços, puxam rodas de conversas, favorecem o convívio amoroso, provocam o desejo de compartilhamento das impressões de leitura e dos efeitos dessas leituras na vida dos pequenos leitores.
3) Atuou a vida toda como professora, até a sua aposentadoria. Conte-nos, por favor, da presença do trabalho como alfabetizadora em sua vida e de que forma esse acontecimento influenciou na edificação da poeta.
Durante algum tempo alfabetizei crianças que repetiam a primeira série há anos, sem aprenderem a ler e escrever. O modo que encontrei para criar nelas o encantamento pela palavra, e motivá-las a querer aprender, já que chegavam enfastiadas de repetir anos a fio a mesma série, foi envolvê-las com a poesia., especialmente, a poesia infantil de Cecília Meireles.
De tal modo ficavam encantadas com os textos poéticos, que se empenhavam ao máximo para dominar o código e ler por conta os textos apresentados, que as fascinavam.
O envolvimento lúdico com a palavra reavivou naquelas crianças o gosto de aprender, que tiveram ao entrarem , pela primeira vez, na escola, mas perderam ao longo dos anos de insucesso. Via-se, nos olhos delas, a surpresa com o modo de ser das palavras dentro do poema. “Bola” “ jogo” “bela” passadas pelo crivo mágico de Cecília Meireles soavam diferentes, criavam sentidos, encantavam. O brilho nos olhos e o pedido para ler de novo, e de novo, o mesmo poema, até sabê-lo de cor, de tanto ouvir , elevou a mil graus minha crença nos poderes mágicos da poesia.
Essa experiência foi marcante e influenciou tanto a decisão de escrever poesia infantil, como o cuidado que tenho com as palavras ao compor um poema, o trabalho exaustivo para que o poema “pirilampeie”, como diz você, e possa ser agradável aos ouvidos dos pequenos leitores. E, se possível, possa despertar gosto por mais leitura.
4. Fale aos leitores da sua trajetória e das alegrias e frutos como coordenadora, idealizadora e editora do jornal de literatura infantil e juvenil O BALAINHO. Aproveite e conte o que é esse projeto que já vai por década.


O Balainho circulou durante dez anos pelo Estado de SC e pelo país.
Nasceu de um sonho meu e da Profa. Zenilde Durli de dialogar com os educadores de nosso Estado, SC, sobre as questões ligadas ao livro e à leitura, com ênfase na Literatura infantil e Juvenil, pela importância deste gênero na iniciação literária e na criação de uma cultura de leitura.
O jornal surgiu em agosto de 1999, com a ajuda de pequenos patrocínios. A repercussão foi muito boa, recebemos muitas mensagens de apoio, e foi, então, que a professora Zenilde Durli apresentou o projeto para a UNOESC. O Jornal foi aprovado e, a partir daí, a Instituição assumiu a publicação e distribuição.
A Secretaria de Estado da Educação de SC distribuía, através de seu malote, para as escolas da rede, garantindo que o Balainho chegasse em todos os municípios de SC, inclusive em todo o interiorzão. Sem essa parceria, não teríamos alcançado tantos leitores.
Além das remessas por mala direta, havia uma divulgação feita pelos próprios leitores, que passavam adiante o Jornal por simpatia, ou amor ao projeto, e também enviavam novos endereços para a mala direta, de modo que, a cada edição, o Balainho encontrava novos destinatários, nos mais diversos pontos do país. O professor Peter O’Sagae, que acompanhou e apoiou o Balainho desde o início, abrigou o Jornal na Revista Eletrônica Dobras da Leitura, e isto ampliou as possibilidades de visibilidade e acesso.
Recebíamos muitas cartas e e-mails com palavras de incentivo de educadores, pais, mediadores de leitura, ONGs, bibliotecários, escritores, especialistas em LIJ das principais instituições ligadas à promoção da leitura no Estado (SC) e no país.
Nos anos de circulação, O Balainho estabeleceu uma relação forte com seus leitores. As edições eram esperadas com expectativa. Quando atrasavam, vinham cartas “pedindo conta” do jornal, reclamando a demora.
Contamos sempre com a colaboração de escritores, ilustradores, especialistas, educadores, que gentilmente cediam um pouco de seu tempo para auxiliar o projeto. As matérias, entrevistas, depoimentos tiveram grande repercussão e ainda têm, pois muitas professores continuam incluindo O Balainho em seus trabalhos pedagógicos com alunos dos cursos de Letras e Pedagogia.
No retorno que tivemos, destaco os depoimentos de educadores que contaram que, com o auxílio do Balainho, mudaram seu modo de ver e tratar a literatura no espaço escolar, tornando-se, eles próprios, leitores de literatura, que não o eram, e, por isso, não haviam descoberto para si próprios nem para seus alunos a relevância de se envolverem com a linguagem da ficção e da poesia.

5. - "Batata cozida, mingau de cará", eis um de seus livros. É difícil falar de um livro em especial, pois todos são importantes, e merecem nosso carinho, mas poderia nos falar de um que muita alegria tenha causado a você?
O Batata cozida, mingau de cará será sempre um livro especial para mim. Surgiu de um desejo de recriar a experiência literária oral da infância, que foi uma experiência rica e inesquecível. O repertório oral era o alimento literário das crianças do campo, nos anos de 1960, pois livros eram uma raridade.
Escrevê-lo foi uma espécie de revivência daqueles reptos lúdico-amorosos que me encantaram naqueles dias. As imagens, as situações, as cenas são outras, mas o procedimento poético adotado é oriundo desse repertório e desse modo de celebrar a vida em versos.
Este livro, que recebeu o I Literatura Para Todos, em tradição oral, e seria, inicialmente, pela proposta do concurso, um livro para os neoleitores do EJA, encontra leitores de todas as idades, inclusive, faz muito sucesso entre crianças das creches. E isto se deve à linguagem do folclore, que é uma linguagem de sempre, de todos, marcada pela afetividade e por ecos líricos que atravessam o tempo e o espaço.

No dia da premiação desta obra, em Brasília, um agricultor de 65 anos, neoleitor do EJA, foi ao palco e leu o poema “Cutia” que faz parte do livro. Leu com a maior elegância e aprumo, sem tropeçar, sem se intimidar, fazendo pausas e marcações na leitura que me fizeram lembrar os declamadores de minha infância. Foram homens e mulheres como aquele agricultor que, sem saber ler e escrever, criaram o manancial do folclore, no qual fui buscar a inspiração para compor o livro. Marcas assim ficam para sempre impressas na história de leituras de um livro.
6. Recolher as histórias que ouviu e as recontar num livro deve ser uma fascinante experiência. Conte, por gentileza, aos nossos leitores essa experiência e as suas gratificações.

Na verdade, não recolhi, recriei aquilo que já estava ( está) gravado na memória, guardado e decantado pelo passagem do tempo. O estudioso Jesualdo diz que a oralidade possui uma expressividade única: pinta, esculpe e até grava a fogo, e está pontilhada de espécies e essências”, palavras que acolho inteiramente.
O folclore é uma referência fundamental para mim. Foi através desse repertório que entrei em contato com a palavra criadora, inventiva, mágica, lúdica, onde não faltam humor e nonsense. Recriar, reinventar, tendo como base esse manancial, é um prazer que me põe em sintonia com os sons que me embalaram na infância e deram a noção de que a palavra podia encantar, podia ser como o barro na mão do oleiro.
7. Meninas e meninos encenando seus poemas, murais de poesia, saraus, sala de leitura: saberia ou conseguiria viver longe da escola?
Procuro estar sempre em contato com as crianças. Gostaria de ir mais às escolas , porém, hoje em dia, os problemas de saúde me impõem certos limites. Mas, quando consigo ir, é uma alegria muito grande.
8. "Os textos poéticos nunca deveriam ser usados para ilustrar a lição didática ou o que quer que seja, como se não valessem por si mesmos, não fossem peças artísticas autônomas e precisassem justificar sua presença, porque, do contrário seriam “inúteis”. Alegria, maravilhamento, sonho, brincadeira, fantasia – coisas que advém do convívio com a poesia não são inúteis, ao contrário, são alimentos preciosos e necessários para o sustento da vida. " Em 2007, escreveu um editorial com o qual PALAVRA FIANDEIRA concorda plenamente. Poderia exemplificar porque isso ocorre, ou seja, porque cresceu e se instalou no trabalho educativo a utilização da Poesia Infantil , e de modo geral, da Literatura Infantil, para 'ilustrar" a lição didática?


Na origem, a literatura infantil está ligada à pedagogia, e não à arte. Creio que essa marca permanece forte, embora a LIJ tenha conquistado há muito tempo seu estatuto de arte. Os poemas, os textos não são chamados pelo seu valor literário, mas porque, de algum modo, “fazem par” com a lição.
É uma atitude pragmática que passa longe das possibilidades de encantamento e envolvimento de um texto. Talvez tenha que mudar a própria relação do mediador de leitura, no caso da escola, do educador, com a literatura. É preciso liberdade para que os textos voem, encantem, emocionem, sensibilizem, criem laços e intimidade com o leitor.
Os cursos de capacitação deveriam cuidar mais da formação literária dos educadores. Há Instituições que oferecem essa formação e dá para sentir a diferença no trabalho dos professores que tiveram, no currículo, subsídios para desenvolver trabalhos com leituras literárias em classe.
9. Seu texto tem "o ligeiro brilho dos insetos que pirilampejam". Um de seus livros conta a história de uma bruxinha que encontra uma chave mágica, e abre três portas, encontra uma chave mágica que abre três portas encantadas no Vale dos Jacarandás. Crianças adoram chaves mágicas que abrem portas encantadas, há sempre um mundo de magia a nos espreitar, esperando por nós. Fale-nos desse livro. Conte-nos dessa personagem.


A personagem é uma bruxinha, filha da terra, da mata, entendida em todos os segredos da floresta. Faz suas mágicas usando as próprios elementos mágicos da natureza, e mais os objetos que ela guarda num baú que foi de sua bisavó. São quatro os livros com esta bruxinha:
O pacote que tava no pote
Contra feitiço, feitiço e meio
A chave que o vaga-lume alumiou
Gaitainha tocou, bicharada dançou
No livro A chave que o vaga-lume alumiou, a chave, que abre três portas no vale dos Jacarandás, foi encontrada pela bruxinha durante a brincadeira com os vaga-lumes. Ela sai para procurar as portas. Depois de cada porta há um risco, um perigo, uma ameaça, um conflito, que ela tem que resolver: “ quem entra aqui nunca mais sai, a não ser que.........”
Ela não se desespera porque, como filha da floresta, sabe os sinais, sabe o compasso, conhece a música da terra, o canto mágico dos pássaros, a força das águas, o brilho dos pirilampos, os rumos dos voos no céu, e invoca esses conhecimentos para formular as soluções até o desenlace final.
Esta coleção da bruxinha, em muitas escolas, é levada ao palco e encenada pelas crianças com muito gosto.
10. Há um interesse explícito e intenso de você pelas coisas da natureza, que ao mesmo tempo, são as coisas da infância, que por outro lado nos remete à ternura da poesia infantil, da sonoridade, do encanto que traduz a beleza e a doçura da simplicidade. Certamente, esse balaio repleto de poesia que vive em você deve lhe causar muita felicidade. O que diria da incessante busca da felicidade que move os humanos?
Em uma crônica belíssima , A Arte de ser Feliz, Cecília Meireles conta sobre as coisas que vê de sua janela e que a fazem feliz. Coisas simples, cenas do cotidiano, tocadas pela poesia. A mesma autora, em um poema, refere-se a “estas vastas nuvens que os homens buscam”. Como alcançá-las? E por que, uma vez alcançadas, tão rápido se dissolvem?
Cada um sabe de suas buscas e do modo, e onde e como buscar contentamento e ventura. Creio que a busca vale a pena quando gera mais vida e humaniza. Aposto muito nas coisas simples, na arte, na literatura, na poesia como fontes permanentes de felicidade. Essas moradas ajudam a entrar em sintonia com valores que a traça e a ferrugem não corroem, por mais que “mudem-se os tempos, mudem-se as vontades”. Os novos tempos programam, direcionam, criam vontades e desejos, interferem nessa busca o tempo todo.
Comprar, trocar e jogar fora os objetos , como se faz na maneira consumista de ser feliz , é um modelo de felicidade não sustentável, que gera destruição e morte.
O filósofo Epicuro dá pistas muito boas para essa procura da felicidade quando aconselha, dentre outras coisas, levar uma vida examinada. Por certo, uma “vida examinada” pende mais para o lado das felicidades duradouras, porque quem examina o vivido não se deixa seduzir facilmente pelas ofertas voláteis de felicidade.
11. Sua poética nos remete de imediato aos tesouros e achados da oralidade, das tradições populares, da poesia oral, das rodas da infância. Como foi a sua infância?
Passei a infância numa pequena localidade do interior de SC. Era uma época em que as crianças andavam soltas, em bandos, pelas estradas de chão batido, ou trepadas nas pitangueiras e araçás, com as bocas lambuzadas de frutas, pés cascudos, cabelos chamuscados de sol.
Tínhamos os serões em que as crianças participavam, olhos muito acesos, atentas às proezas verbais do contador ou declamador. Podiam contar mil vezes a mesma história que a plateia não se cansava nem perdia o vivo interesse.
Cresci num tempo e num mundo em que a vida era feita à mão, no ritmo em que crescem as plantas ou correm as águas dos lajeados. As crianças nasciam em casa, pela mão das parteiras experientes e à luz dos lampiões.
As casas eram pontos de pousadas para quem vinha de longe. Os viajantes pernoitavam e partiam no cantar do galo para seus destinos. As crianças adoravam esta parte, pois os andantes sempre tinham muitas histórias na bagagem, alguns eram muito engraçados, bons falantes, poetas e patrocinavam cenas hilárias que faziam as crianças delirarem.
Até a religião era mágica e, de certo modo, inventada. O ponto de culto era uma igrejinha, fundada por um beato, no meio da mata, tão íntima do verde, que poder-se-ia pensar que nascera junto com as árvores. Havia uma igrejinha católica, no centro do povoado, que às vezes, freqüentávamos, mas nosso encantamento era pela igrejinha do beato.
As vivências lúdicas eram muito fortes e ajudavam a manter o gosto de viver, mesmo na dor, nas perdas, nos sofrimentos do corpo e da alma, nos golpes do destino.
12. Seus poemas incríveis, como MULINHA, são docemente comoventes por nos remeter ao abraço puro da infância. De que forma poderia a poesia ser mais divulgada no âmbito escolar, no trabalho de alfabetização, a ponto de se tornar protagonista num processo educativo de alfabetização, visto que com ela viria o doce teatro da infância e tudo o mais? Diga uma iniciativa que esteja faltando, em qualquer âmbito

Outro dia uma menina da quarta série me escreveu e contou que meu livro Pomar de brinquedo tinha sido seu primeiro livro de poemas e que havia descoberto que era muito gostoso ler poesia. Fiquei feliz com o fato, mas, ao mesmo tempo lamentei que esta criança só tenha encontrado a poesia na quarta série. Passou a alfabetização e as séries seguintes sem poesia em sua vida.
Acredito que temos que criar uma tradição de ler poemas para as crianças, como criamos a tradição de ler e contar histórias. Os educadores que fazem a experiência de oferecer poesia para seus alunos dão testemunho do quanto foi prazeroso e rico o convívio com a palavra poética.
Nunca encontrei uma única criança que descobrisse a poesia e não se apaixonasse, e não pedisse mais e mais poemas para ler. O que falta é dar acesso a este recurso mágico que tanto as faz felizes.
13. Literatura Infantil é apenas para criança?
Considerando que o adulto é o mediador entre a criança e o livro, então, o adulto deve ler a literatura infantil para acompanhar a formação leitora da criança.
Por outro lado, há livros, ditos infantis, que conseguem encantar adultos e crianças ao longo dos tempos.
14. Tem um blog intitulado ELOÍ BOCHECO - SALA DE FERRAMENTAS - O que é esse blog, quais as suas temáticas, a sua semântica, a sua abordagem? O que é a Sala de Ferramentas?
Sala de Ferramentas é o nome de um livro que conta a história da descoberta do livro literário por um grupo de mulheres garis. Clarice, é a moça que conduz a roda de leitura com estas mulheres. As leituras são realizadas na Sala de Ferramentas, onde elas guardam seus instrumentos de trabalho.
O primeiro capítulo deste livro chama-se Não vá embora, Clarice! E recebeu o prêmio Leia Comigo! da FNLIJ, em 2003
Então, nomeei o blog com este nome, em homenagem a estas mulheres e, também, porque o blog aborda questões ligadas ao livro, à leitura, à literatura, – ferramentas valiosas para um viver “examinado”.
15. "Sempre é tempo para alguém se tornar um leitor". Assim diz O BALAINHO. Como um adulto mergulhado, ou melhor, atolado na areia movediça do cotidiano áspero e quase sempre insensato, alvo da "cultura " que se despeja pela televisão, por certa mídia, etc, ou seja, um adulto preenchido por uma vida, poderíamos dizer, sem autenticidade, poderia se tornar um leitor. Que iniciativa deveria o governo realizar, além da compra de livros e ampliação das bibliotecas, tomando por base que "qualquer governo anseia por um povo leitor'
Há pessoas que descobrem o livro aos 60, 70, e até com mais idade e se apaixonam e se tornam grandes leitoras. Lecionei para a educação de adultos - atualmente EJA – e pude comprovar este fato.
Muitos fatores concorrem para a criação de uma tradição de leitura num município, num Estado, num país. O acesso aos livros através das bibliotecas escolares é, inegavelmente, um dos fatores decisivos para criar a prática leitora. Livros de ótima qualidade têm chegado às escolas públicas. Mas, sem o investimento em dinamizadores para estes acervos, bibliotecários, ou responsáveis pelas bibliotecas, corre-se o risco de ver os livros desaparecerem, em pouco tempo, ou ficarem nas caixas, ou, ainda, enfileirados nas prateleiras.
A biblioteca dialoga com o projeto pedagógico da escola porque a prática leitora perpassa todas as disciplinas do currículo. O bibliotecário é mediador e interlocutor no diálogo com as classes, com os mestres, tendo o livro e a leitura como pauta fundamental de seu ofício. Sem este agente fica faltando uma parte indispensável para que os investimentos em livros causem impacto na criação de uma tradição de leitura, a partir da escola.
16. Num de seus blogs você registra cartas, missivas, que recebeu de pessoas queridas. Cartas serão tesouros num futuro que aponta um mundo de tecnologia, um mundo virtual?
Acredito que sim. Quem, ainda, recebe cartas manuscritas deve guardá-las muito bem, pois serão tesouros, como você diz, relíquias, algo de um outro tempo e de um outro mundo. Daqui a alguns anos, o correio entregará contas a pagar, mas cartas, só por milagre.
Uma menina de Curitiba, ano passado, resolveu enviar cartões de natal, com palavras amorosas às amigas. Contou-me que foi um espanto. Ligavam para perguntar por que fizera isso, se estava com o computador quebrado.
17. Suas prosas são saborosas, são companheiras de viagens. Tem algum livro de prosas publicado, no qual poderíamos encontrar prosas que falem do lápis, da doçura das frutas, de escadas, de amores infantis?
Tenho um livro chamado Pedras Soltas, publicado pela EdUFSC, de crônicas editadas, antes, em jornal, e reunidas nessa obra.
19. Mário Quintana, Manoel de Barros... Talvez o Brasil não conheça mesmo o Brasil. Longe de tudo, poderia nos falar sobre um poeta que terá lido e muita alegria trouxe ao seu coração?
Sou devota de muitos poetas, inclusive de Mario Quintana e Manoel de Barros, que você menciona.
Gosto muito dos poetas antigos. Ludovico Ariosto me encanta até a raiz dos cabelos. Seu livro, Orlando Furioso, é uma estação de cura.
Mas, Cecília Meireles é um caso de amor à parte. Como professora lia com as crianças poemas do livro Ou Isto Ou Aquilo: O cavalinho branco, Colar de coral, Leilão de jardim, O Jogo e a bola, Rômulo rema, O sonho de Olga, Procissão de pelúcia, Avó do meninó etc. Com os alunos maiores lia as crônicas, e outros poemas da autora. Os fascínios, meu e de meus alunos, se misturavam nessas leituras, de modo que estas vivências criaram uma ligação eterna com Cecília Meireles.
18. Leu um livro que contribuiu para alterar o rumo de sua vida ou consciência, ou tenha de alguma forma influenciado os seus passos ou os seus dizer.
O livro Solte os Cachorros, de Adélia Prado mudou o rumo de minha vida.
19. Participa de associações ou agremiações (clubes, etc) de poetas ou escritores de literatura infantil?
Faço parte da AEI-LIJ
20. Poderia nos deixar um de seus poemas infantis?
Deixo MARTINA, do livro Ô de Casa! ( atualmente esgotado)

No canteiro
há um girassol
Dentro do girassol
há uma gota de orvalho
Dentro da gota de orvalho
há uma réstia de luz
Dentro da réstia de luz
há um grão
Dentro do grão
há um anel
Dentro do anel
há uma cantiga de roda
Dentro da cantiga de roda
a menina Martina
brinca uma ciranda
com sementes
beijadas de sol.

21. Que palavras deixaria como mensagem final aos leitores de PALAVRA FIANDEIRA?
Tomo a liberdade de imaginar que os leitores de Palavra Fiandeira sejam pessoas que se interessam por semeaduras poéticas, e que, em alguma seara estejam lançando sementes de arte. Então, com base nesta hipótese, deixo umas palavras do Eclesiastes que gosto muito:
Semeia a tua semente pela manhã e, de tarde, não cesse a tua mão de fazer o mesmo”.

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Marciano Vasques 
ESCRITOR E FUNDADOR DE PALAVRA FIANDEIRA


domingo, 4 de julho de 2010

PALAVRA FIANDEIRA - 35


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PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 35 - 04 DE JULHO/2010

NESTA EDIÇÃO:
ELSA GILLARI
DIRETAMENTE DE ARGENTINA

ENTREVISTADA POR
ROCÍO L' AMAR (CHILE)
"Considero que a pintura não deve ser apenas um objeto decorativo." 
Elsa Gillari


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ARTE CONCEITUAL, POESIA E PINTURA, ELSA GILLARI

Realização: ROCÍO L' AMAR


Discurso pictórico

A pintura que quer ser pintura e que não quer ser outra coisa, que não quer ser mais que isso: pintura, nos expressa sua vontade em uma linguagem ardente, em uma linguagem imaginativa, voluntariamente poética, isto é, uma dicção espiritual perfeita. Logo a pintura que não quer ser mais que uma linguagem imaginativa plástica, uma dicção, um dizer algo ou um dizer de algo. O que nos disse e do que nos fala? Que é isso? O que seja, que quer nos dizer, se sua vontade imaginativa trata, sinceramente, de expressar, de dizer, ou nos dizer algo? E como disse-nos?
Porém isto não nos deve confundir, porque, às vezes, de onde menos se pensa, que é donde menos parece que se pensa, costuma saltar a pintura verdadeira, e não saltar em troca, donde mais se a quer ou se a pensa. Por isso, há na pintura a simulação da simulação e os simuladores dos simuladores.
Não é fácil diferenciar claramente até onde um pintor simula, imaginativamente, não uma representação, que é vontade sua da píntura, senão uma representação imaginativa, que é a representação da vontade de outro pintor que lhe há precedido, como costuma simular, sem sabê-lo, a vontade da pintura expressamente manifestada em outro, porque os pintores, como os músicos e os poetas, não somente verificam a imitação da natureza por simulação ou representação imaginativa ou por invenção e criação verdadeira de imagens, mas que também se imitam as pinturas ou as pinturas, ou as poesias às poesias, ou as músicas às músicas, distinguindo-se nestas simulações uma graduação que é a de simuladores de simuladores ou simuladores de inventos.
Entre os primeiros, dificilmente encontraremos algum pintor autêntico. Entre os segundos, encontraremos constantemente muito mais do que poderíamos imaginar.
Sendo assim, aparecem movimentos artísticos, obras gráficas online, tendências que decoram, ambientam espaços com pinturas, desenhos excepcionais em diferentes estilos. E dentro deste fenômeno irrompe a arte conceitual, a pintura conceitual, e/a pintor (a) conceitual.


Arte Conceitual

A arte conceitual, também conhecida como ideia art, é um movimento artístico no qual as ideias dentro de uma obra são um elemento mais importante que o objeto ou o sentido pelo que a obra tenha sido criada. A ideia da obra prevalece sobre seus aspectos formais, e em muitos casos a ideia é a obra em si mesma, ficando a resolução final da obra como menor suporte.

A arte conceitual como movimento emergiu à metade dos anos sessenta, em parte como uma reação contra o formalismo que havia sido articulado pelo influente crítico Clement Greenberg. Todavia, desde as década de 1910 e 1920 o trabalho do artista francês Marcel Duchamp (principal artista) serviria como precursor , com seus trabalhos chamados ready-mades daria aos artista conceituais as primeiras ideias de boras baseadas em conceitos e realizados com objetos de uso comum.
Os precursores imediatos da arte conceitual podem ser buscados no ressurgir das vanguardas após a II Guerra mundial, em uma completa série de intercâmbios culturais entre Europa, EEUU e Japão. Duas figuras destacam como mananciais de novas ideias: o antes mencionado Marcel Duchamp (que imigrou aos EEUU durante a I Guerra mundial) e o compositor estadounidense praticante do budismo zen John Cage. Entretanto, foi nos limites da pintura, onde se concentraram as atividades vanguardistas. Nos EEUU, Robert Rauschenberg e Jasper Johns transformaram a pintura com objetos cotidianos e eventos fortuítos, e questionaram sua situação privilegiada como um objeto especial. No Japão, as obras baseadas na performance do grupo Gutai ampliaram o informalismo e action painting até trasformá-los em atos rituaisde agitação. Na França e Itália, Yves Klein y Piero Manzoni respectivamente desenvolveram práticas vanguardistas paralelas nas quais realizaram o conteúdo ideal da experiência artística a partir de sua concepção alternativa do significado metafísico do monocromo. Em cada passo, a ampliação até a destruição da idéia da pintura despertou um interesse pelo efêmero e o imaterial que prefigurou a "arte conceitual" com consciência de sua própria identidade subsequente.

A arte conceitual emprega habitualmente materiais como a fotografia, mapas e vídeos. Em ocasiões se reduz a um conjunto de instruções documentando como criar uma obra, porém sem chegar a criá-la realmente, a idéia após a arte é mais importante que o artefato em si.

Deste conceito surgiram formas artísticas como fluxus e o mail art.


Surrealismo - Simbolismo - Arte Conceitual

"Os símbolos, nos disse Elsa Gillari, são a linguagem que utilizo para expressar meu mundo interior, são os esboços, são o antes da obra, é essa a ideia que se compõe de vários instantes. Aparece então o símbolo como primeira imagem mental da temática a construir. Não compreendo o significado e permito que navegue até o exterior materializando-se em um ponto referente a desenvolver, ademais não questiono conteúdo nem cor, simplesmente habilito o símbolo para que se expresse em toda a sua dimensão, este geralmente se manifesta em um estado de neutralidade, sendo os eixos da mesmo que transmitem mensagens aplicadas a uma completa cosmovisão. As obras nunca estão terminadas, porque se retroalimentam entre si e são como partes de uma totalidade expressiva. Esta busca infinita e constante gera um tipo de indeterminação criativa. Assim o espírito percebe objetos e emite conceito que plasmo em expressão artística. O simples é a maneira espontânea da artisticidade e a razão não participa, já que contaminaria o conceito."



Linguagem: Papel e Tela.


Elza Gillari está entregue à busca de uma linguagem para a sua poesia, e em sua capacidade expressiva e criativa também para as artes plásticas, ambos inseridos nos cânones estéticos da modernidade. Um espaço escritural criado para a poesia e um espaço pictórico criado para a pintura. Provavelmente, o cerne ou a essência mais substancial seja evidenciar que o fio condutor é a visão, interrogação, experimentação do próprio ser e o ser das coisas e o mundo como uma forma de existência.

Geram-se assim imagens em uma realidade sensível. A poesia assume a busca do absoluto e a pintura atrai o resplandecer do mundo em movimento. Do mesmo modo, a transformação de formas, em uma ou outra.
A cor/luz -na pintura- e a sensação de cor/luz -na poesia - é um elemento que sobrevive em ambas obras artísticas para a estética simbolista porque abarca diversos ou múltiplos significados à hora de mergulhar/buscar/encontrar o tempo íntimo, a hora impapável desta criadora.
Estimulante, sugestiva, chamativa, multi-facetada, são algumas das qualificações que me ocorrem mencionar para a vida e o imaginário de Elsa Gillari.

Assim mesmo, cabe assinalar - ao referir-me aos poemas - que a falante tenta encher o vazio e dar-lhe um novo conteúdo a sua existência, através da capacidade intuitiva e visionária atuando como proveta do inconsciente poético, isto é, assume e aprofunda o processo da escritura, em constante fazer e desfazer formas, atmosfera, leis de gravitações, universos, linhas, pontos, vibrações...

Sonhos construídos ao bordo de certas folhas que sabem sorrir, disse Vicente Huidobro, no poema Altazor. E eu agregaria, apesar de, o homem e a mulher, devam assumir todos os encargos e dores do destino humano.

"és tão especial.../ incólume/ mas não posso adaptar-me/ a teu mundo/ de lagos azuis/ fadas e duendes/ verdes pastagens/ doçuras de mel/ não posso.../ perdi a inocência/.../ és.../ deliciosamente especial/ (me escreves poemas)/ e eu tão ingrata..." (do poema (im) possível e uma imagem em fotomanipulação digital de Elsa Gillari)

Esse apogeu do mágico...

Os pintores e poetas têm em conta as harmonias dos tons que conseguem dar unidade cromática à pintura e unidade sintática ao poema. E a luz é fator determinante no conjunto de ambas composição, serve para criar e conformar o espaço, maior ou menor iluminação incidirá de distintas maneiras no objeto/receptor/espectador, luz compositiva e luz conceitual tem como finalidade a potência da mensagem.
O conteúdo da forma ou a forma dos conteúdos lhe pertence a cada criador, considerando - isso sim- que detrás há uma ideia, um conceito, tanto em poesia como em pintura, sem perder de vista ambos os produtos. E Elsa Gillari sabe muito bem onde está, e aonde quer chegar, tanto no conceitual como formalmente.

Essa belíssima teatralização

Em termos metafóricos se poderia ver a loucura como uma espécie de pensamento desajustado, que não encaixa com o oficial. Porém, é um tema escabroso, porque os loucos não são metáforas nem bandeiras políticas, mas gente que passa mal.
Entretanto, me interessa deixa claro que, tanto a poetas como pintos, lhes atribuem certa loucura. Obviamente, não o que significa culturalmente, não esse mundo dos loucos, ainda há pintores, poetas, artistas que estão encerrados e sofrendo em êxtase em seu território escuro.

Qualquer um que veja duas ou três pinturas de Elsa Gillari e leia seus poemas ao pé de essas obras, verá que está diante de uma louquinha com nome e sobrenome, conectada com o seu redor, isto é, a naturalidade, a originalidade, a pureza, a autonomia...

Sem dúvida, seu divino entusiasmo, razão pela qual a temos convidado de Argentina a ampliar seu território metafórico nesta PALAVRA FIANDEIRA.



1. Pude visualizar que você tem uma postura anti-pintura em suas obras. Tem consciência disso?


- Considero que a pintura não deve ser apenas um objeto decorativo. Deve transmitir mensagens que gerem abertura mental e novas consciências. Que o espectador se encontre identificado nela em um ou vários aspectos e se produza nele uma mudança. Minha pintura é surrealista, simbolista e conceitual - quando utilizo a razão são conceituais, especialmente em arte digital -. Surgem-me imagens ao modo de fotografias em seguida a um processo de gestação em meu interior do qual não sou consciente. Quando aparecem é o momento de pintar sem esboço prévio já que contaminaria a imagem. Tive dois períodos, que só poderia pintar sob angústia, e chorando diante da tela com emoções devia liberar e assim poder sublimar. Mais que um desfrute, era uma tortura, estava totalmente envolvida. Porém ao terminá-la conseguia ter paz. Supostamente, são as mais mobilizam o espectador. Minha postura anti- pintura não é premeditada. Simplesmente que ao ter formação em oficinas "não estou academizada". Adquiri a técnica, porém não perdi minha autenticidade nem estou estruturada. Se pode ver que em minhas pinturas o primeiro plano parece flutuar no ar por não fundi-lo com o fundo como pede a academia. Rompo com os cânones da velha escola, buscando uma visão fresca, nova e espontânea.

3.Que pretende você contar através de sua arte conceitual, considerando que o espectador recolhe imagens, ideias, um objeto ou algo similar?


A ideia é traduzir o ser humano atual em toda sua dimensão, basicamente, sob um conceito bio-psico-social deixando vestígios destes tempos atuais. Hoje, não existe a censura na arte, o artista se expressa livremente. Percebo uma humanidade consumista, poderes políticos corruptos, corpos siliconados como modelo de beleza artificial, se deve ser jovem e belo discriminando ao ancião, fonte de sabedoria. A pobreza e a desnutrição infantil. A globalização, que gerou miséria e desemprego a tal ponto, que chegamos a uma crise econômica mundial. Uma instalação na qual trabalhei dois anos é " Humano Ser-Ser-Ser Humano", composta de traços fragmentados sobre modelo vivo, deixando a impressão dos corpos na que chamo Neo-Escultura.
Também o avanço da cibernética que se impôs na sociedade modificando-a notavelmente. Aqui surge minha instalação Cibervínculo.
Sinto uma profunda admiração pela arte conceitual de Marcel Duchamp, Man Ray, e outros precursores do movimento, que gestaram ao estilo Dadá "arte-anti-arte" com o qual me identifico plenamente, já que a ideia prima sobre o objeto suporte, é o sentido que a criou. Surge o Ready-Made. Digamos que me fundamento na ideia ou conceito que logo transformo em objeto visual, por exemplo, minha obra "A Globalização".
Em arte conceitual é muito importante o título da obra, já que passa a completar o conceito, forma parte da ideia dando maior compreensão ao objeto.


3. A rigor, você nos mostrou suas pintura em um tempo não muito distante em uma rede social literária, e logo, talvez um ano, a temos visto excursionar em poesia e narrativa. Qual foi o seu motivo fundamental para ir completando as dita artes, e qual é sua aposta hoje em dia, que lhe diz sua razão?

Escrevia em uma linguagem plástica e em associação livre como outra forma de expressão e investigação artística, componentes filosóficos e conceitos. Vários desses textos os incorporei a algumas pinturas unificando texto e cor. Fiz uma série. Porém, sentia uma falta, não me sentia completa em minha expressão, necessitava uma nova forma de manifestar-me literariamente. Incorporei-me à rede literária mostrando minhas obras visuais já que a pintura também é poesia, tem texto. Com o tempo, de tanto ler , de tanto ler diariamente narrativas, poesias e poemas me animei a escrever começando com poemas, seguindo com narrativa e prosa poética. Quanto mais escrevia, mais desaparecia essa falta que sentia. Acreditava ser só artista visual desconhecendo que também tinha talento a desenvolver para as letras. No princípio, observava minhas pinturas, e expressava uma leitura sobre elas com poemas, completando-as já que as via inconclusas. Isso tornei hábito e ainda o faço. Às vezes acontece o inverso: um poema me inspirou e logo crio a imagem unificando-as. Não estão dissociados caneta e pincel, e podem considerar-se complementos.

Continuando, aposto aprendendo e aperfeiçoando minhas letras sem me exigir, me permito fluir como em minhas outras expressões artísticas em absoluta liberdade, sem ajustar-me à Academia.

Sou criativa, não apenas artista visual e digital. Permito-me todo tipo de criatividade no momento que surge, como acontece com a minha pena. Nunca assisti a uma oficina literária, minhas letras brotam e se concretizam em seu estado puro.

4. Que ideias ou conflitos consegue consigo mesma, se os que a perturbam para salvar-se um uma tela ou papel, porque é evidente que ambas artes constituem uma questão para resolver?

Sou mais emotiva que racional, em mim predomina a emoção. Ninguém está livre de conflitos, alguns os resolvemos e outros não. O moto que me leva a criar é meu inconsciente, onde anelam minha emoções, conflitos, frustrações, alegrias e tristezas do passado ou presente situações que me motivaram ou me estão motivando, sejam boas ou más, e necessitam manifestar-se previamente a gestação em meu interior em nível inconsciente em um processo criativo. Em minha poesia predomina a lírica. Constantemente me questiono a existência, o motivo da vida, a evolução ou involução do ser humano. Ainda que em meus textos nem sempre escrevo o que acontece em mim. Tomo histórias emprestadas, leio ao outro, uso a imaginação, porém sempre, sem exceção, existe um mínimo componente parecido que me pertence e, se exterioriza em uma pulsão inconsciente que não percebo no momento. Tomo consciência às vezes pelos comentários. O que me causa conflito é a morte. Temo pela morte de meus seres queridos e a minha própria. Isso faz com que minha obra seja dramática, ainda em ajuda a ser otimista, positiva e possuir sentido de humor. Por isso sublimo traduzindo ou escrevendo. Libero em parte ou em sua totalidade minha zona conflitiva. Tampouco estou
embalada nas letras, às vezes necessito rir-me com a poesia ou conto e assumo temáticas divertidas.

5. Pessoalmente, vejo que sua poesia é analítica, do ponto de vista da decomposição dos objetos tal como sua pintura, assim mesmo sintética, se a comparamos com a ruptura da sintaxe porém ambos casos se resgatam em cenas interiores. Poderia ser figurativa?

Sou demasiada analítica. Começo por um todo até chegar à síntese. Pulo o objetivo ou sujeito até chegar a sua essência. Daí que minha poesia é sintética e resgato somente o essencial sem enfeitá-la, às vezes sem estar sujeita ao ritmo, porém sim a imagem e sentimentos. Algumas vezes sou figurativa, muito concreta. Especialmente em meus poemas sociais onde denuncio e protesto. Com respeito à pintura, componho tal como a síntese, a mensagem que desejo transmitir brincando com as cores frias e cálida, os contrapondo para destacar a minha ideia, algumas parecem figurativas, porém não o são. De fato, nunca pinto natureza morta ou paisagens, mas sim retratos. Não estou enquadrada, sou multi-facetada.

6. Que pintura lhe causou impacto, e quem é seu autor (a)?
Tenho visitado e visito museus e galerias de arte, onde encontrei pinturas e esculturas que produziram em mim um forte impacto por sua temática ou composição. Por outro lado, o estar diante de "As Meninas" de Diego Velázquez, ou cometer a infração de tocar "Os Girassóis" de Van Gogh, "O Beijo" e "O Pensador" de Rodin, "Mulher na escada" de Duchamp e uma longa lista de pinturas e esculturas que me é difícil eleger uma em especial. Um forte impacto me produziu a exposição de Vangelis, já que todas suas obras têm a vibração e a cor da música tal qual a sente esse artista genial, conseguindo pinceladas musicais, especialmente sua pintura "O Anjo", todas suas pintura têm seu selo de músico e grego, fiquei fascinada com sua obra pictórica, "Mulher Golpeada", uma pintura que me impressionou, criação de um colega amigo Fabián Vastasimon, a qual adquiri, visto que tanto em impactou.


7. Desfragmentaremos a poesia. Com que ossos ficaria você? E que poeta é sua referência a tal ponto que o tenha tomado como modelo?


Sim, a quebraremos."literalmente em ossos", e fico com a coluna vertebral. Se bem que eu seja sintética, respeito basicamente um começo, desenvolvimento e final que deve ter todo texto poético ou narrativo. Dou minha importância ao desfecho. Não tomei como referência a nenhum poeta, não tenho modelos adquiridos de outros, creio que tenha sido por haver lido a tantos escritores e poetas, porém sabemos que inconscientemente copiamos sempre algo de quem admiramos. Tenho influências de André Breton. Admiro a Mario Benedetti.


8 . Você se expressa através de figuras humanas, fragmentadas ou mutiladas muitas vezes, utilizando inusitados materiais. Seria acaso um impulso de abstração das qualidades essenciais dos membros do corpo humano, ou simplesmente é uma ideia abstrata a construção mental disso?

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Os corpos fragmentados são as Neo-culturas conceituais. Não são corpos mutilados. Faço uma leitura rápida diante do modelo vivo nu, lhe peço que faça diferentes movimentos até encontrar a pose que busco, o fragmento de seu corpo com sentido estético, plástico e se possível, com movimento. O primeiro passo é a ideia, o conceito que me leva a buscar o corpo que necessito. Por exemplo, "Siliconas" necessitava um modelo que tinha os seios com silicone. Tracei os seios e parte do tronco, se seguisse com outras partes do corpo sairia do contexto dispersando-se a ideia de expressar unicamente a beleza anti-natural, produto da cirurgia plástica.

9. O que atrai a sua atenção?
Todo o novo para mim, donde acho que posso aprender. Sou ávida de conhecimentos. É meu alimento.
10. Que lugar ocupa em você a espiritualidade?
Ocupa um primeiro plano. Creio na reencarnação. Na elevação espiritual através de diferentes vidas. Trato de evoluir constantemente no plano espiritual. Não é nada fácil subir as escadas imaginárias da evolução. Sou um ser espiritual por natureza, com marcante sensibilidade e uma percepção extra-sensorial generalizada. Consigo evoluir só em sintonia com o amor. Minha condição de humana com meus defeitos, falências e erros não me permitem subir até aprendera lição. Oriento-me pela "Lei Universal" que diz "Não faças ao outro aquilo que não gostarias que fizesse com você". Somos mente, corpo e espírito. Mantenho-me no atemporal do espírito. Controlo meu ego para não cair na soberba e egocentrismo, tentando ser o mais humanamente humilde.
11. Você guarda imagens para o quadro ainda não pintado, esse que o artista sonha em pintar algum dia?
Como mulher, criei a minha melhor obra, que é meu filho. Como artista, não me propus a criar uma determinada obra. Sim, me propus seguir crescendo, sem atar-me a metas, a futuro, visto que me sentiria pressionada por mim mesma e o único que conseguiria seria bloquear-me. Considero que a melhor obra se cria trabalhando e evoluindo na arte com perseverança e disciplina, ainda que apesar disso muitas vezes não se consiga. Porém, o talento e o ser criativo pode dar surpresas, e a melhor obra surge no momento menos pensado. Não me preocupa se morro sem haver criado minha melhor obra artística. Para mim a arte é um meio e não um fim.
12. Os poetas buscam o sentido da vida. Que diria você aos leitores de PALAVRA FIANDEIRA, sabendo que a maioria dos acompanhantes são poetas?...
Como bem disse, questiono o sentido da vida. Nietzsche falou do poder do homem sobre o homem. O poeta tem o poder da palavra, o poder do homem sobre o homem, porém não no sentido que disse Nietzsche, mas com a palavra. O mundo não olha para o poeta, porém o poeta se espelha no mundo. Diria que sigam olhando ao mundo e escrevendo sobre ele, falta bastante por dizer.



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BIOGRAFIA


Nasci sob o signo de Sagitário, fogo e paixão. Filha de italianos emigrantes que depois da segunda guerra mundial chegaram aqui em Buenos Aires, onde nasci. Aprendi a falar a sua língua desde as minhas primeiras palavras, visto que a falavam em casa. Tenho dois irmãos varões, uma maior e outro menor que eu. Tive uma infância feliz, criada em um ambiente de valores humanos e morais. De conceito de família. Passava muito tempo com minha avó materna, que me mimava. Era a sua única neta mulher e preferida. Tudo me agradava. Meu tio me ensinava Geografia e Mitologia grega e romana. Devia estudar todos os países do mundo e suas respectivas capitais, especialmente depois me cobrando em provas. Comecei a ter interesse por viajar pelo mundo.Vivíamos num bairro não muito povoado, com ruas de terras, quase campo. Quando fomos viver nele, tinha três anos. Dessa forma, cresci em contato com a natureza, até que foi sendo povoado. Minha mãe, além dos afazeres domésticos e nos criar, ainda se dedicava à costura fina. De tanto olhar, com ela aprendi a costura.Cursei a escola primária e secundária em colégios de freiras, estreitas e castradoras, das quais não guardo boas recordações. Sempre me destaquei em desenho e pintura. Aos doze anos desenhei em grafite a "Mona Lisa" e a diretora se apoderou do desenho, emoldurando-o e o colocando na diretoria em exibição, sentindo eu que me havia roubado minha obra prima. Ainda se encontra lá. Algumas companheiras me pediam que lhes fizesse as atividades artísticas. Conclui a escola secundária recebendo o bacharelado em colégio estatal misto, muito feliz por não sentir mais a opressão da aberrante disciplina das freiras. Estudei Inglês no colégio Cambridge e o aperfeiçoei no Dante Alighiere o Italiano, sendo que minha família falava o dialeto de seu povo. Desde menininha aprendi a desenhar copiando especialmente os desenhos de Walt Disney, aos que pintava com lápis de cor. Também copiava rostos e corpos de revistas, construções em perspectivas, natureza morta, estudando luzes e sombras, como alçar planos e dar volume com grafites. Aprendi minhas primeiras técnicas na escola, sendo a matéria de Artes a que mais me apaixonava, e obtinha as melhores notas. Em segundo plano, Geografia e Línguas. Aos cinco anos vi pela primeira vez um avião de perto e me apaixonei pelos aviões. Aos quinze, disse aos meus pais que queria ser "piloto". Disseram-me que não, por "ser mulher", além de não poderem financiar a minha carreira. Quando terminei o bacharelado, consegui um trabalho numa empresa de táxi aéreo durante três anos no aeroporto de Cabotaje. Logo passei a trabalhar nas aerolineas argentinas no mesmo aeroporto, no setor tráfico, onde a minha função era recepcionar aos passageiros, antes de viajarem e outras funções diversas. A empresa nos outorgava o benefício de passagens grátis por todo o mundo, o que me permitiu conhecer bastante países, especialmente Grécia, Itália, Nova York. Também trabalhei em uma agência de viagens, conseguindo obter a licença de "Idônea em Turismo". Casei-me com um piloto e engenheiro de voo, meu atual esposo, com quem tive um filho, que está estudando a carreira de piloto, visto que parece que lhe transmitimos a nossa paixão pelos aviões. Prossegui viajando e conhecendo novos países e visitando os famosos museus, como o Louvre, o Museu do Prado, Orsay, o de Augusto Rodin, e outros, assim como galerias de arte. Viajar tanto me permitiu adquirir cultura e conhecer diferentes etnias. Minha formação artística era de oficinas. Comecei a assistir de muito jovenzinha, aperfeiçoando-me quando adulta ao começar a assistir à oficina do Professor Angel Borissoff, que me ensinou todas as técnicas, principalmente o estudo do modelo vivo feminino e masculino. Possuo o privilégio de ter boa memória visual. Registro imagens que não esqueço para logo traduzi-las. Estudei três anos "Humor Gráfico", aprendendo especialmente caricaturas e estudando os grandes cartunistas. Paralelamente assistia no mesmo Instituto à oficina de desenho e pintura artística, o que me complicava demais, visto que as técnicas gráficas são opostas. Seguia sendo copista, porém já de mestres da arte, além de fazer desenhos do natural ou fotografias. No terceiro ano de assistir à oficina de José Marchi, deixei de copiar e criar a partir de mim, gerando minha própria linguagem e expressando-me em diferentes estilos aprendidos, que chamo o meu primeiro período na pintura. Li e leio bastante, principalmente aos grandes mestres da arte, que marcaram estilos e tendências. Sou seletiva nas leituras. Prefiro as que me ensinam, que me deixam conhecimentos salutares. Meu pai era músico, tocava "o bombardino (Instrumento de vento), que ainda o tenho e o conservo como uma relíquia, e suas partituras junto a uma foto em sépia, com seu uniforme que usava quando tocava na banda de seu povoado natal. Quando chegou à Argentina, seguiu por um tempo visto que seu trabalho não lhe permitia ter tempo livre para a sua vocação. Transmitiu-me o amor pela música. Estudei música tocando o saxofone. Sempre me caracterizei por minha avidez de conhecimento, por aprender e experimentar, ainda hoje. Sou mais emocional que racional, mas quando devo tomar decisões o faço racionalmente. Possuo uma sensibilidade muito marcante e uma percepção extra-sensorial generalizada. Como também crio arte conceitual escrevia textos em uma linguagem plástica expressando conceitos antes de conceber a obra. Também, escrita em associação livre conseguindo liberar conflitos que elaborava extraídos do inconsciente, como faziam os primeiros surrealistas. Em 1203 e 1204 estudei exclusivamente arte conceitual , especialmente a Marcel Duchamp. Visitei três vezes a mostra Dadá, que foi exposta no museu Malba reunidas as grandes obras dessa corrente artística. Foi o tempo em que trabalhei na instalação composta por dezesseis esculturas e foto-colagens. Porém sentia um vazio em mim que não chegava a definir, como se as artes visuais não me completassem, sentia uma falta. Inscrevi-me numa rede social ao final de 2008 como artista visual. Lia diariamente os variados temas que publicavam meus colegas e assim me animei e comecei a escrever. Neste período tenho quatro contos e noventa poemas. Postei um poema acompanhado de uma obra visual ou digital relacionando-se entre si. A obra vem a mim, não a busco. Experimento e investigo. Não posso esboçar. Vou direto ao suporte ou ao word. Surgem -me imagens mentais como fotografias que logo traduzo na tela ou outro suporte. Vou gestando a obra a nível insconsciente até que apareça a imagem. Sublimo na pintura e na escrita. o expressar-me através das letras faz com que já não sinta a falta, o vazio que antes sentia. Na adolescência escrevia poesia que todavia sentia. Criar arte digital me relaxa. Trabalho apenas com Photoshop e desfruto fazê-lo além de ser um desafio. Também tenho desfrutado por ser uma nova experiência quando criei uma instalação de escultura, conceituais, em moldes sobre modelos vivos, corpos fragmentados , que falam da ausência, da presença ao fazêr-lhes uma leitura de seu frente e verso, as quais chamo de Neo-Esculturas. Trabalhei com isso dois anos. O ser criativa me permite infinidade de expressões sem questionar-me o porquê nem se as venderei. amo a arte em toda a sua expressão.



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BUSCANDO A BELEZA



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O espelho seguia intacto por milagre. Resistia estoicamente aos golpes.
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…………………………………….


seu suave e elegante pescoço de cisne havia se transformado

em um triângulo isósceles



e os sulcos em seu rosto falavam sobre o passar dos anos

além...


suas pálpebras caiam cobrindo a quarta parte dos olhos
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……………………………………
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(demonstrada a teoria física sobre a lei e a gravidade)
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…………………………………….


A chamavam "Adelaide das tetas caídas"
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O espelho foi reposto... (já não resistiu)
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Siliconebotoxlipoaspiraçãolevantamentobisturi

Agora a chamam BARBIE!
.
*Fotomanipulación digital Net Art - Elsa Gillari

 


PARANORMAL

esse ser...........................luminoso
assediado por sub-mundos

arbitrários e sinistros
onde moram
escuras entidades
sedentas e famintas de luz

com suas garras o devoram
E-NER-GE- TI-CA-MEN-TE
até que...
seus neurônios
em disfunção...
rebusquem o equilíbrio
e conquistem batalhas
loucura? .................Não!
paranormal!
extra-sensorial!
"É sua natureza"
árduo padecer de espírito elevado
e resplandecer iridescente
que deslumbra as
negras áureas extraviadas
sob baixas dimensões austrais
que famélicas inquietam e devoram
para nutrir-se................................................porém
voltem a expirar em sua melancólica densidade
por que...

“É sua natureza”


*Fotomanipulação digital (Net Art) - Elsa Gillari


.
SOU OUTONO
Recolho-me em meu lar com chaminé
(em meus gélidos invernos)
……………………………………………………….
Incenso, resina e sândalo
junto a luminosas velas brancas
em meu templo...
(medito)

ainda possuo sonhos, conservo-me calma
(importante)
gorjeios do ninho de
minha velha árvore ancestral ( já)
calma
ainda que permaneçam alguns espinhos
e
desenho imagens celestes

deixando invisíveis vestígios
…………………………..
finquei raízes
……………………….....
a ave Fênix ressurgiu
uma vez mais
entre as cinzas

*Arte digital (netart) - Elsa Gillari
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ENTREVISTA REALIZADA POR ROCÍO L' AMAR

Rocío L' Amar: poeta, escritora, jornalista, ativista cultural, 
realiza intenso trabalho de divulgação cultural.
É correspondente e colaboradora de PALAVRA FIANDEIRA no Chile.

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Tradução para o Português:
MARCIANO VASQUES
(Escritor e fundador de PALAVRA FIANDEIRA)

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