EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 34


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 PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 34 - 28 JUNHO 2010

NESTA EDIÇÃO:

JORGE 
RETAMAL 
VILLEGAS

 DIRETAMENTE DO CHILE
 POR ROCÍO L' AMAR

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JORGE RETAMAL VILLEGAS, 
O RIFLE JÁ NÃO É A SOLUÇÃO...


Corrija os costumes rindo, dizia Molière, considerado o pai da Comédia Francesa.

Sabia você que faz mais de quatro mil anos no antigo império chinês, havia uns templos onde as pessoas se reuniam para rir com a finalidade de equilibrar a saúde? Na Índia, também se encontram templos sagrados onde se pode praticar o riso. Nas culturas ancestrais de tipo tribal , existia a figura do "doutor palhaço", ou "palhaço sagrado", um feiticeiro vestido e maquiado que executava o poder terapêutico do riso para curar aos guerreiros doentes. Sigmundo Freud atribuiu às gargalhadas o poder de liberar o organismo da energia negativa, algo que tem sido cientificamente demonstrado ao descobrir que o córtex cerebral libera impulsos elétricos positivos um segundo depois de se começar a rir. Rir-se incrementa a auto-estima e a confiança em pessoas deprimidas, supõe um reforço imunológico, corta os pensamentos negativos, elimina o medo e ajuda a minimizar os problemas, rir antes de se deitar fatiga o corpo e combate a insônia. Victor Hugo dizia que o riso é o sol que afugenta o inverno do rosto humano. Nos últimos anos se tem avançado muito na aplicação do riso como terapia.
Escrever para fazer rir a gargalhadas...
Rir ou não rir. Rir, certamente, sempre será melhor. Entretanto, a pergunta seria, de acordo com o que se há lido, vale a pena ver o mundo com bom humor?
Só ao gênero humano é dada a possibilidade do humor, a vivência do cômico. O homem é o único ser vivo que ri; sua inteligência e sua condição lhe dão a possibilidade de ver o mundo a partir da sua comicidade. Rir e fazer rir...rir-se de si mesmo, chorar de tanto rir, ver o lado cômico da situação, são expressões que ilustram a noção do humor e do cômico como uma maneira de conceber a realidade, como uma forma de construir o mundo, por que estamos convencidos que o riso pode vencer até o desespero, e para produzi-lo e transmiti-lo mediante a palavra se requer bom humor.
Com o riso, isto é, com o riso sincero e aberto, podemos eliminar bloqueios emocionais, físicos, mentais, sanar nossa infância, como processo de crescimento pessoal. Podemos criar um espaço para estar com um mesmo, viver o aqui e o agora, estar no presente (Já que quando rimos é impossível pensarmos) nos ajuda a descobrir nossos dons, abrirmos horizontes, vencermos nossos temores, enchermos de luz, de força, de ilusão, de sentido de humor, de gozo e aprendermos a viver uma visão positiva, intensa, sincera e total.
Riso é uma atividade propriamente humana.
O riso é um dos sentidos fundamentais que há que se exercitar todos os dias. Nos caracteriza diferenciarmos definitivamente dos animais. Isto faz com que alguns autores vejam no riso a marca do espírito, da espiritualidade humana.
O sentido do humor, é um valor em ascensão, o espaço que esse humor ocupa na literatura é cada vez maior.
Entrementes, o riso é o mais curto caminho entre duas pessoas, e isso é o que deseja o autor cada vez que entrega um conto ou uma poesia: que o leitor faça sua a história e que se torne cúmplice da leitura, porque dela gosta, porque o diverte, porque o entretem. Porque promove o riso mediante recursos linguísticos que alteram ou quebram a ordem natural dos fatos ou distorçam as características dos personagens, porque se joga com a linguagem para produzir o cômico, para ironizar, para exagerar, para parodiar, para produzir equívocos, mal- entendidos, etc.



Estimados leitores, esta entrevista vem a complementar ou refundir o antes dito, entre outras coisas a inclusão da valorização - como verbo -, que, seguramente conjugamos pela inteligência, pensamento, postura, experiência e personalidade de outr@s. Sendo assim tão simples a questão, convidamos ao escritor Chileno Jorge Ratamal Villegas, a quem conheço faz algumas vidas, razão pela qual atendeu a entrevista de próprio punho, ainda que não sei até que ponto poderá se aventurar nela.

[Jorge, parece que você se apaixona por rir-se de si mesmo, divertir-se apelando para a ironia, ao ácido sarcasmo, à ingenuidade, ou a picardia num estilo jocoso/humorístico em um tom burlesco através dessa insólita sintaxis que colore seus relatos, sejam eles orais ou escritos, ainda que o tema seja extremamente sério como um panteão, consiga tirar-lhe um sorriso até do ouvinte ou leitor mais fleumático]



Abra-se o diálogo:

1. Sabe-se que o relato ou conto privilegia o desenlace. A comédia descreve, intelectualmente distorcidos, os aspectos concretos e risíveis da vida cotidiana. O objetivo é provocar o riso do espectador. Creio que seu estilo estaria na tragicomédia, que combina elementos fatais e o fato cômico, e que seus personagens, humildes e sinceros - tirados da vida real - ocupam uma praça central na análise do discurso social. Rir lendo, inteligentemente. Voltaire, Dickens, Twain, Wilde, Cervantes, Quevedo..., que outros escritores agregaria você, que prestaram seus serviços e seus caprichos sarcásticos à literatura, até a ponto de modificar a rotina de suas épocas?

- Como emergente... Eu.

2. Realismo e humor, ficção e humor; humor censura; humor reflexão/ observação; humor riso; humor negro e sobrevivência... Em qual deles você se encaixa?
- Certo, certo... O que resulta depois de escrito.

3 - O humor em você é uma qualidade salvadora? Nos dê três razões.

- Uma só: o rifle já não é a solução...
4. Quais são esses risinhos solitários, por assim dizer, instalados em seu infinito enredo...? Queremos conhecer esses diálogos que quebram a crítica social.
- O exercício da minha profissão, constante na fronteira do medo existencial dos meus clientes, faz com que meu ser geminiano recorra a cada instante a trama entre a ira e o riso... Este último é o que deixo conhecer de mim.
5. Uma das maiores virtudes em suas histórias é a linguagem do humor, sendo a ironia o seu forte, e faz do absurdo de algumas situações o mais jocoso de sua obra. A contrapartida semântica entre situações e suas narrações contribuem enormemente para que os leitores tenham as mais diversas emoções, (Estou recordando a solidez e desenvoltura nos contos de seu livro "Cristo me transou", porque obviamente fiz o prólogo). É a realidade que vive que não o deixa sair dela?

- A que tive que viver...Agora, já não creio nem em mim mesmo.

6. Fazer rir a uma mulher é uma arte que se adquire, dizem...em um contexto social. Como se relaciona você com seu ambiente, seu comportamento, os objetivos aos quais se pode destinar nas relações humanas/ próximas que o rodeiam?
- Fazer com que uma mulher ria é tão fácil como fazer feliz a um bebê... temos que mantê-los mudinhos e dar-lhes batatas.
7. Sob um regime tirânico três homens serão fuzilados. O oficial que dirige a execução lhes oferece um último charuto. O primeiro e o segundo o aceitam. O terceiro o recusa. Então, o segundo ao ouvi-lo se volta até ele e lhe responde: - Não tem problemas, Jaime! - Com qual personagem se identifica você? Seria possível que argumentaria a resposta (Porém não me vá dizer que com o oficial, - gargalhada-)
Seguramente pediria que me trocassem o cigarro por um beijo nos lábios do mais feio dos fuzileiros... para que não tenham que viver com a vergonha de haver assassinado a um patriota, mas sim a um simples viado...

8. Para mim, é apropriado recordar a descrição de Bergson de que o riso é como uma espuma que se desvanece quando alguém tenta retê-la. Poderia nos definir o riso através do que NÃO é para você?

- O riso não é uma cara...é um calafrio com coceira que aparece no triângulo que há entre os ombros e o umbigo...e que costuma escapar pela boca...outras vezes a gente simplesmente se mija.

9. Qual tem sido a estupidez mais grande - a seu modo de ver - que nos tem dado nossos velhos dias? Parece irrelevante a pergunta e não existe nenhuma finalidade, porém queremos conhecer sua resposta.
- Não haver feito a mulher com água e barro igual ao homem...uma costela se caracteriza por ser torta, dura e pontuda.

10. Se todo o humano está tecido de palavras, também estas se vão urdindo nos intercâmbios sociais, nos que se manifestam de modo mais ou menos espontâneo. Um cafezinho ou um vinhozinho para conversar?

- O humano não está tecido com palavras, e estas não são determinantes nos intercâmbios sociais, os animais e os vegetais também fazem intercâmbios e se relacionam sem falar...o que os torna admiráveis... o café ou o vinho são meros excitantes para romper a timidez e/ou a suspeita...trate de tomar um litro de água e manter a conversa.
11. Você foi um bibliófilo e um bibliomaníaco de sempre. Até onde tem apontado sua voz/olhos/mãos?
- Jamais fui essa coisa...o que passa é que quando não tive dinheiro para beber ou festa, sublimo lendo.
12. Vou citar duas verdades ou engenhosas mentiras de Mencken ( escritor e jornalista): a) A consciência é a voz interior que nos adverte que alguém pode estar nos vendo. b) O puritanismo é o angustioso temor de que alguém, em algum lugar, possa ser feliz. Fora de sua generosa prudência e de seu habilidoso malabarismo. Ipso facto, qual?
- Terrivelmente fomes dos acertos. Talvez que estava fumando o sujeito quando armou essas frases...Prefiro "A sede move montanhas"... Envio a ti o fundamento ao pé da letra.
13. Você desfruta a vaca quando dá leite, em outras palavras, quando ao leitor se lhe incham as veias...somando risos por suas histórias?
- Perdão? Eu não desfruto disso.. Quando alguém se queima com leite, chora quando vê uma vaca...Só que os anos me têm obrigado a trocar o  domínio pelas perfurações à sedução que o sorriso pode causar.

14. Qual é o seu código ético para viver de forma responsável a vida?
- Só dois: Não morder mais do que pode mastigar e... dos trilhos e do trem faça uma trilha!

15. Está presente no discurso político chileno
- como recurso argumentativo - a ironia, ou o humor?

- A ideologia é Que, Por que e Para que... A política é o Como. A vaidade e a ganância são incapazes de construir um discurso e, por certo, se não há ideologia não pode haver política. Só acordos espúrios e consensos sodomíticos.

16. E para dar por concluída a entrevista, que se feche por si mesma quando esta cai. Sente-se master no Trabalho social e Políticas Sociais, assim mesmo, Doutor em Meio ambiente em um país de cínicos?
- Nada... Na universidade de Concepción tirei ambos os graus por haver formulado a Teoria Geral da Pobreza.
Porém este não é um país de cínicos porquanto esta orientação requer muito esforço...Só é uma bela terra que tem a má sorte de estar ocupada por chilenos.


BIOGRAFIA

Dizem que nasci no inverno do ano de 1952. Não me consta, porque naquela estação era um bebê. Longe , sou o menor dos meus irmãos, o que me transforma em mero pó de curado, pelo que cresci órfão até de mim mesmo, aprendendo maldades no porto de Talcahuano de Chile, no qual aprendi a escrever e ler fluentemente, assim comer com cobertura integral e beber até cair...porque me ensinaram que não era próprio de um cavalheiro beber no chão.

Desempenhei diversos ofícios, exceto o de conservador de minas (tenho um mau erre...), até o dia em que tropecei com ela, quem me disse: Por que não escrevia as mentiras que contava?, eis que desde então me dedico, de vez em quando, à literatura...que é como lhe chamou ao desejo de cristalizar sem me sentir ocioso.
Algum dia, quando o abuso do cigarro venha a deter meus afazeres, pretendo escrever uma história de amor... orgasmica e choramingante... por enquanto, estou meramente recopilando experiência. Ligue já!






A SEDE MOVE MONTANHAS



Houve um casamento em Canaã de Galileia, ao qual foi convidado Jesus com seus discípulos, e não tinham vinho, porque o vinho do casamento havia acabado. Jesus disse aos serviçais que enchessem as tinas de água até a borda, e Ele lhes disse: Pegue agora e leve-o à sala onde todos provarão a água convertida em vinho...Este foi o primeiro milagre que fez Jesus, em Canaã de Galileia. Manifestou sua glória e creram Nele seus discípulos...
Murmurava, demonstrando aborrecimento, o ancião sacerdote sem dar-se conta que a garganta me apertava como se tivesse um nó ao pensar na sorte que significava ter esse poder...transformar a água em vinho...

Tudo ocorria enquanto estávamos a contrair matrimônio religioso na desvencilhada capela situada nas margens do mar em Talcahuano, evento que realizou apesar que os quase dois meses de folga que tínhamos com as pescarias do porto e que, a costumaz, rebelde, teimosa, tenaz, dura e intransigente noiva havia insistido em executar, porque a levávamos muito tempo desonrando a sua família, como ela chamava ao ritual de agitar-se em couros debaixo de mim...e outras vezes acima...ao ritmo da sonora matança.

Meu pai sempre me aconselhava, "O que casa com uma mulher virgem faz bem...O que não se casa faz melhor", porém ela havia conseguido arrancar-me a promessa quando estava com os calções no meio das pernas e sem decidir-se pela entrega...Louco! É seguro que me vai responder? E aqui estava eu, dando-lhe viril cumprimento à promessa dos excitantes, mediante o expediente de estampar minhas impressões digitais direitas em um dos papéis amarelecidos.

E estava mal a coisa.

A paralisação não dava mostras de ceder e a poupança já se havia dissipada. Certo é que, sem trabalhar, mais dinheiro ia com o vinho que com a comida, porém as horas eram largas e os dias se arrastavam tão cansativas como a esperança dos pobres. Para piorar, comentar os encontros com os policiais, esfregando as contusões ou, massageando-se os braços cansados de tanto tirar pedras, sem vinho carecia de poesia.


Assim é que o sacerdote afirmou o agravo à natural condição polígama do varão e, com um "Os declaro marido e mulher" partimos para a casa, como lhe chamávamos ao flamejante modelinho tipo "techosparachile" instalado em uma ocupação de terra, porém com seus respectivos medidores para pagar religiosamente as contas da luz elétrica e água encanada, residência na qual íamos deixar de desonrar à família da noiva, porque agora estaríamos afinando com o livro. Agora nós vamos para a festa! Disse-me a flamejante esposa..."¡y suelte pué… tese tranquilo!".
Todos os convidados apareciam solidariamente carregando a correspondente munição de crista como presente para os noivos, porém em verdade, assegurando-se que não iria faltar vinho. A sogra se rachou com um formoso lavatório e uma baciazinha, ambos de ferro esmaltado que, por estarem novos, usamos o primeiro para armar o peixe enlatado com cebola, e a segunda, para misturar o ponche de morangos.

Alguns dias depois da bebedeira despertei e olhei a noiva, sem uso desde que começou a folia. Não havia desejo em mim... sério... Zero febre!
A única coisa que enchia minha cabeça era a sede. Via oasis de vinho tinto rodeados das verdejantes vinhas e videiras. Recordava como se houvesse passado um século as palavras do sacerdote...todos provaram a água transformada em vinho...
Fingindo-me de mansinho... por uma zebra havia cagado durante a ressaca... e como o que vive de esperanças morre jejuando., olhando-a com um só olho aberto para não vê-la em dobro, lhe perguntei melosamente...


Meu amor, nesta casa não fica nem uma puta moeda? M’eh! por fim despertou a pérola... me agarrou por toda resposta. Meu amor... meu amorzinho... ya po’h... não lhe ponha tanto... não me casei com você para fazê-la desgraçada... porém não sou tão perfeito como para fazê-la feliz a cada instante... ya po’h... não sobra nem uma puta moeda?


Na traqueia apenas a pura prata da água ! Me respondeu de forma enfadonha.
Passe para cá! Ordenei.

E a transformei em vinho.

Louvado seja o senhor!






A ABORDAGEM


Impossível saber se foi mais ruidoso o silêncio que se seguiu, ou o horroroso estrépito que se produziu quando o navio mercadante impactou ao nosso velho "Maria Fernanda II", enquanto nos encontrávamos navegando, a meia máquina, à quadra da Constituição, em busca de uma zona de pesca. A estupefação , ao ver seguir sua marcha o mercador, depois de darmos um apito de advertência que mais soou a gargalhadas que a um alerta, se transformou em pânico ao comprovar que nos havia arrancado uma parte da proa. A graça do andar marinheiro que caracteriza a estes pequenos pesqueiros, se transformou em grosseiro andar de bêbado em beco empedrado, com rolos e trambiques que tornavam sem êxito seu governo.

Fazer hermético o barco! gritou o contramestre. Nos olhamos uns aos outros. (Ninguém reunia a condição de burro absoluto, que não chegasse a baixar o convés de um navio que se poderia alertar a qualquer momento).

Estai lesiando viejooo...! - gritou da popa o tripulante pangueiro, homem de curtidos anos no ofício, e o único a quem se podia dar o luxo de haver indicações à maldição crônica que era o "contra". Baixemos a panga e o bote salva-vidas e nos largamos ao léu! Concluiu.



Só então meteu sua colher o capitão...total, "el día del cuete vai a dejar estanco esta hueá...no v’ís que tiene más huecos que un recital de Juan Gabriel...!" Olhamos aliviados para os deliberantes ( p'a qu vou a dizer uma coisa por outra...não querendo passar por covarde...porém com uma mão, posta de maneira descuidada sobre o gancho que prendia um colete salva - vidas...me maldizia por eu ter embarcado na manhã para uma viagem como substituto do "cuki", quem a sorte de cura não se tinha apresentado na partida por estar como um "cuero").

O "contra", com um duro olhar e sem medir palavras, lhe fez um gesto, seco e cortante, a López, que obrigou a este a dedicar de imediato à tarefa de largar o bote salva - vidas. (Desde que subi a bordo na manhã, esse tripulante me havia surpreendido constantemente. Quando servi ao café da manhã, e como correspondente de todo cozinheiro, havia observado o caráter da tripulação - questão obrigado se não se quer ter problemas em tão delicada função a bordo - do que pude desprender que estava conformada de forma tradicional...desde o depreciativo que aceita a comida como um favor e com a testa franzida - e que geralmente corresponde à "tampa" pela padroeira - até ao par de palhaços que nunca faltam e que encontram seu máximo prazer em instigar aos mais taciturnos... porém López era especial...recebeu seu "valdiviano" e seu pão com um semi - sorriso de agradecimento e se inclinou - como todos- à importante tarefa de sorver e mastigar... porém, como um cão, sem perder de vista a ninguém.


Terminado o extermínio dos mantimentos, e quando chegou o momento em que um estômago pleno e quente convidam à conversa, voltou toda a sua atenção nas palavras que cruzavam o "contra" com o "pangueiro", sem deixar de sorrir mais abertamente diante das terríveis palmadas com que acompanhavam suas gargalhadas os dois palhaços que estavam a bordo.
O mesmo ocorreu durante o almoço, surpreendendo-me ainda mais que ninguém lhe dirigi a palavra, não obstante, que não parecia existir hostilidade em sua contra.

Medida a tarde, efetuamos um lance que resultou "pombo", e enquanto içávamos a rede vazia, de meu posto de trabalho ao lado do "winche", meu assombro aumentou. Era um tripulante de primeira e enormemente disciplinado! Bastava um olhar e um gesto do contramestre para estivesse no lugar e na manobra adequada.

O pior, ao tipo "Se lhe queima o arroz"...... pensei com meus botões, quando me dei conta, que feito um apaixonado, jamais tirava seus olhos da figura do forte contramestre, questão que parecia ser a razão pela qual este último só se dirigia a ele com gestos de brutal autoridade. E estava envolvido nessas reflexões, enquanto preparava a ceia, quando sobreveio o impacto)


López, suando e com os dedos destroçados, conseguiu finalmente abrir os enferrujados seguros que impediam que o bote salva -vidas tombasse só, quando o "contra" lançou uma enorme faca de cobertura - que se cravou a poucos centímetros de sua cabeça - e estalando seus dedos, lhe assinalou as cordas da rede que, com o apoio, caíra na água e tornava perigosa a operação da "panga". Como um gato, López desceu da ponte a lona e se dedicou à laboriosa tarefa de cortar e cortar cabos... (Com tanto medo das represálias por indisciplina como ao próprio naufrágio, o resto de nós aguardava à duras penas a dilatada ordem de abandonar o barco) quando uma forte guinada do navio, inequívoco antecipador de seu afundamento, chegou junto com o bramido do capitão...

Às águas merdas!

Às águas merda!... Respondemos todos com uivos de aviso indígena. E na água fomos todos...entremesclando-nos em um enlouquecedor "splash" que nos levava a agarrar-nos ao bote salva-vidas ou da panga - ou do que quer que fosse - que nos tirasse da inevitável sucção do rodamoinho que, irreversivelmente, haveria de ocasionar o afundamento do pesqueiro (A mistura de água salgada e noite, outorgava uma sensação especial no medo que nos invadia e que, talvez para nos distrair, fazia com que os primeiros que embarcamos, nos agarrássemos onde foram os desesperados nadadores para os içar até a salvação).


El ¡FZFZFZFZ! que provocou a entrada da água na quente sala de máquinas do pesqueiro (que me deixou a inapagável sensação de escutar exalar o último suspiro de um ser humano) fez que todos voltássemos o olhar para o nosso barco...descobrindo horrorizados que López firmemente agarrado à borda do navio morimbundo, nos observava com seu semi-sorriso perene e seus olhos desmesuradamente abertos...



A parte carimbada na Capitania do Porto de Talcahuano, registrou como único falecido no naufrágio o Pesqueiro Maria Fernanda III ... ao surdo López.

* Menção Especial/ Concurso Literário Atina Chile/Nov. 2007


AMOR DE POBRES



A vi... e senti o golpe do amor, não no coração, mas que diretamente à boca do estômago. Como um kamikaze lancei-me em busca de sua atenção. A concorrência pela preciosa daminha era feroz, porém eu era um vira-lata e medindo o expediente de quebrar-lhe a cara e esmagar outras presas aos adversários , consegui postular solitariamente a dançar com ela.

Nunca havia sentido o impacto da atração brutal. Estava bêbado de paixão, e como curado reagi. Ou seja, não soube que merda lhe disse nem o que fiz, porém consegui que me olhasse. Tudo o que eu entendia por beleza se reunia nela. Me envolvia com a neblina espessa do sul. A amei desde o primeiro dia.

Toda a minha experiência nas vielas do Porto reluziram para impedir que galãs melhores parecidos me acercassem.
E aos poucos a ensinei a me querer.

A primeira tragédia havia sido não conquistá-la, a seguinte foi o haver conseguido.
Em confluência "le voltié" os portões de sua virgindade e dali para adiante só foi para mim...
E eu para ela... para sempre preso na armadilha de sua respiração.

A vida... a puta vida que sempre cobra por uns momentos de prazer... nesta ocasião sentiu condolências de minha indigência e me entregou anos, sem faturar-me sua concessão. Um dia me disse que queria um filho meu. Basicamente porque minhas correrias contra o regime militar fizeram supor que minha expectativa de vida era curta.

O embaraço subsequente e prévio ao matrimônio, me pôs no verdadeiro lugar da vida em sociedade.
Sua família me odiou e, a minha, sorriu desdenhosamente... muita mina para este "gueón". Nosso filho querido nasceu...e horas depois ela morreu.
Um desespero terrível começou a subir o gelo da boca de meu estômago. Mais terrível como foi a minha primeira grande tristeza e, por ser a primeira, alguém não sabe se terá alivio.
A nenhuma das famílias lhes importou minha pena. Se limitavam a exibir direitos sobre o recém-nascido.


Porém ela já não estava mais. Solitariamente, levei seus restos mortais ao cemitério. Nada queria mais do que estar nessa caixa para impulsioná-la a erguer-se dando-lhe o calor de meu corpo.
Porém a lógica implacável da razão me dizia que isso não era possível. Os empregados do cemitério atuavam mecanicamente, surpresos ao verem um homem só. Com uma margarida silvestre e um bebê nos braços, deixei seus amados restos mortais ao amparo do estreito nicho.

Cura, bêbado, rebelde, revolucionário, subversivo, nunca terminas nada! Foram os epítetos que escutei de ambas as famílias, como impedimentos conferidos a minha forma de ser, para fazer-se com o recém-nascido.

Porém a desgraça mais insuportável é a que nunca chega...assim é que levei o meu pequeno ao riacho El Soldao para salvar-me de tanta gritaria...e aqui estou.

A solidão...a velha rameira que só te libera a troco da contaminação social, me manteve fora de seu âmbito por insuportavelmente teimosia.

Por anos amei nele o que via de sua mãe...ria, e os gorjeios de prazer eu os traduzia aos privados encontros dos corpos nus com sua progenitora...assim é que produzi seu riso sublimava minha sexualidade...isso era tudo... e compartilhávamos os roncos com meu menininho em um único berço da pobre fazenda do riacho.

O ensinei a assoviar...e quando soube lhe dar inflexões ao assobio e, os cães e ovelhas partiam atrás dele, soube que já sabia todo o que um homem deve aprender.

Até que um dia lhe ocorreu que a mim...lhe doía a boca do estômago quando viu a uma dama...se apaixonou...e quis partir atrás dela. Assim vacilou entre seu pai e sua amada. Vá filho meu! Lhe disse...com medo de que não lhe quisessem como eu o queria. E além partiu com seu carregamento de sonhos e adeuses.


E aqui estou po'h...pela primeira vez não tive força para cobrar as redes... e fiquei arquejando... a rede vem muito carregada, pensei... porém não.

Recentemente tomei conhecimento de minha velhice.

Quantos anos haviam se transcorrido desde que me doeu o estômago a primeira vez?

Dentre o platinado do mar, a imagem dela emergiu nítida. Já será a hora...meu amor...me disse. E aqui estou po'h...

Sirva-me a outra cachorrinho!

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REALIZAÇÃO: ROCÍO L' AMAR

Rocío L'Amar é jornalista, intelectual conceituada, ativista cultural, correspondente e colaboradora de PALAVRA FIANDEIRA no Chile

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Fundador e editor de PALAVRA FIANDEIRA: 
Escritor Marciano Vasques

sábado, 19 de junho de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 33

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PALAVRA FIANDEIRA
 REVISTA DE LITERATURA

ANO 1 - Nº 33 - 19/JUNHO/2010 


NESTA EDIÇÃO:

 


"Com açúcar, com afeto..." Chico Buarque de Hollanda


CAROLINA CARRIÇO


Claro, os olhos também comem! - Carolina Carriço

CARMEN EZEQUIEL ENTREVISTA

DIRETAMENTE DE PORTUGAL

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Não me chegava a ginástica. Tinha de me exprimir de forma criativa” Carolina Carriço
Por cá, há o hábito de dizer que os “olhos também comem”.
É de tal forma verdadeiro que, em Sombras Comuns, falámos com uma doceira de corpo e alma. E que, como ela própria refere “a principal garfada é a dos olhos”.
Aqui, entrevista-se Carolina Carriço, natural de Cedofeita (Porto), mas que encontrou no Alentejo (Vila Boim – Elvas) “toda a vivacidade, luz, alegria” para se expor aos outros.
É empreendedora, palavra que a define e caracteriza; criativa, espontânea, sincera e com um sentido crítico mas prático de como vive no seu quotidiano.
Numa cozinha virtual, imaginamo-la rodeada de utensílios, a produzir, a criar, a moldar, para nos surpreender majestosamente após a confecção de um bolo.
É de tudo e todo o lado que retira a sua inspiração para as mais variadas confecções, e se por um lado não nos admiramos com isso, maravilhemo-nos efectivamente, pois que, do seu curso base, onde lida com agentes farmacológicos construiu uma ponte para trabalhar o açúcar poeticamente, oferecendo aos gulosos olhos uma magnífica sensação de saciedade.
Aqui e agora, vos apresento Carolina Carriço.



PALAVRA FIANDEIRA – Fala-nos um pouco de ti. Quem é Carolina Carriço?
Carolina Carriço – Sou uma jovem que gosta de viver uma vida calma, entre amigos e familiares, cheia de bons momentos e descobertas. Mas, que na verdade, vive a um ritmo louco, frenético, muito intenso, …(risos). Sempre alegre e bem disposta.


Porto
PF – Vamos dar a conhecer um pouco no nosso Portugal aos leitores do Palavra Fiandeira. Com que cidade ou local em Portugal mais te identificas e por que?
CC – É uma pergunta difícil. Nasci no Porto e identifico-me imenso com ele no que toca ao meu eu mais profundo, como fonte de interiorização, calma, recolhimento e até na expressão artística. Por outro lado, o Alentejo contrapõe com toda a vivacidade, luz, alegria, exteriorização desses sentimentos… Quem conhece as duas regiões percebe as diferenças eminentes. Já não conseguiria viver sem ambos e preciso mesmo desse equilíbrio dinâmico. Estão empatados (risos).
Elvas
PF – A tua arte não é a das palavras, ou da captação da imagem ou da transformação da cor em objeto. A tua arte é a de trabalhar o açúcar. De trabalhares o açúcar para adoçares o paladar dos portugueses. Em que altura esta arte apareceu? Descreve-nos um pouco o teu percurso até aqui?
CC – Tirei o meu curso superior (licenciei-me em Farmácia) e tinha tudo para ter uma vida tranquila: estava no quadro (vínculo de trabalho), perto de casa. É uma profissão em que temos de pôr de lado as nossas emoções para auxiliar quem nos procura; ser objetivos e precisos. E, eu sentia necessidade de contrariar isso… não me chegava a ginástica e o exercício físico (risos). Tinha de me exprimir de forma criativa. O açúcar apareceu na minha vida, mais ou menos, por acaso, quando conheci as pessoas certas, no momento exato. Senti uma empatia enorme com os materiais e técnicas e, à medida que os ia e vou conhecendo melhor, cresço também como pessoa.
Acredito que todos nós temos necessidade de arte nas nossas vidas, para nos sentirmos bem, e seja ela que forma for (leitura, teatro, cinema, patchwork, Arraiolos, croché, e, açúcar).
Os meus bolos são para momentos especiais”Carolina Carriço
PF – Achas que os portugueses estão famintos das coisas boas da vida e por isso colmatam essa carência com o excesso de doces e gulodices?
CC – Não. Acho que todas as pessoas, inclusive os portugueses, gostam de coisas boas, criativas e diferentes; que as façam sorrir, enternecer-se, pasmar e até chorar. Podem ser doces ou não, depende do momento, da circunstância. Claro que numa festa o bolo é um elemento principal, cheio de simbolismo e sempre envolto em muita expectativa.
Se, em momentos que não são de festa comemos mais doces e guloseimas, penso que isso tem sobretudo a ver com pressões publicitárias e econômicas, aliadas a uma grande facilidade de acesso a esses produtos, que nos levam a adotar comportamentos de grupo errados.
A Quinta
PF – Numa altura em que se fala de obesidade; em que se fala que as crianças portuguesas estão cada vez mais gordas e, em que a magreza e a anorexia são o “ideal” de beleza; não achas que estás a contribuir para a doença da moda?
CC – Não. Os meus bolos são para momentos especiais, não são para consumir todos os dias. E, numa dieta equilibrada, na minha opinião, podemos permitir-nos pecar em dias especiais. Claro que também existe a possibilidade de fazer os bolos sem açúcar, ou sem ovos. Mas o problema está na forma como nos comportamos no dia a dia e não nos dias de festa.
PF – Qual tem sido a adesão das pessoas às divinais gulodices que crias? Os portugueses são mais exigentes com a apresentação ou com o paladar?
CC – Sem dúvida. Surgem-me pedidos muito variados, tanto em termos de massas, como de recheios. As pessoas começam a ver os bolos como um palco onde tudo é possível (risos). Já tive pedidos muito difíceis de concretizar, por serem equilíbrios complicados ou grandes recortes nas massas. Mas essa exigência é muito boa, pois permite-me evoluir enquanto concretizo sonhos e torno momentos especiais.
O bolo, …, simboliza o prazer de quem recebe” Carolina Carriço
PF – A criatividade dos teus bolos leva-nos a sonhar. Por vezes, há sonhos que se concretizam e os teus bolos estão lá, nesses sonhos. Onde te inspiras para as mais variadas confecções?
CC – (risos) Depende… Tudo pode ser uma fonte de inspiração; um olhar, uma frase, uma cor, um padrão, um tecido, uma foto, uma conversa.

PF – No teu blogue Açúcar e Arte (http://acucar-e-arte.blogspot.com), materializas aos nossos olhos, o amor, o carinho, a paciência e a criatividade dos teus trabalhos adocicados. Os olhos, para além de serem o espelho da alma também comem. É verdade? Quais têm sido as reações das pessoas?
CC – Claro, os olhos também comem! Diria que a principal garfada é a dos olhos (risos). Mas, o conteúdo também é muito importante. É o que faz as pessoas voltarem e quererem mais. Se a intenção fosse apenas estética, não teria de ser necessariamente açúcar, não é? Poderia perfeitamente ser plasticina que se colocava no centro de uma mesa e depois se guardava numa estante. O bolo também simboliza o prazer de quem recebe, em partilhar com os convidados a sua felicidade, através de um doce sabor. Se assim não for, por muita beleza que tenha um bolo, ele não cumpre a sua função.
Quanto às reações têm sido todas muito boas. Da curiosidade ao apoio, muitas vezes entusiasta, principalmente por parte de quem já provou.
A mala da Carolina
PF – “Um momento pode ser tudo. Um bolo pode fazer a diferença. Momentos doces, com história e amor”. Conta-nos a história em que tu sejas o personagem principal, num momento mais marcante da tua vida e, em que efetivamente um bolo pode fazer a diferença. Qual o bolo que te deu mais gosto fazer e por que?
CC – Não consigo escolher um… só posso dizer que todos são diferentes e especiais. Gosto de sentir a expectativa e curiosidade que o bolo traz à festa; gosto quando me apresentam ideias alinhavadas mas com espaço para introduzir a minha criatividade…
Adorava a forma como ficava surpreendida com os meus bolos de criança e de ver a cara dos meus amigos. É um momento mágico. Um ano foi um cisne em 3D, noutro, um comboio. A minha mãe e avó encarregavam-se dessas pequenas grandes surpresas (risos).

PF – É mãe, esposa, profissional de saúde, dona de casa, … e, ainda “Cake Designer”. Onde fica o lugar para a mulher somente? Que capricho podes chamar de só teu?
CC – Uui… perdi-a! (risos) De momento a mulher está em pausa; mas espero rapidamente reequilibrar a minha vida.
PF – Fala-nos da tua experiência no Festival do Chocolate de Óbidos?
CC – Foi muito boa, não só pelo desafio criativo mas também pelas pessoas que conheci. É muito enriquecedor ver o percurso de outros colegas, como se traduz na prática a sua criatividade, as técnicas que utilizam. É incrível o que se pode aprender através de simples conversas. Foram dias de uma enorme sensação de responsabilidade, mas também de apoio e amizade entre colegas. Adorei!
Festival Vilamoura, Maio 2010
PF – No início de Maio participaste, já com algum calejo, no Festival do Chocolate de Vilamoura. Como te sentiste a trabalhares com pessoas a assistir?
CC – Correu lindamente! A forma como se organizou o evento permitiu uma grande proximidade entre os visitantes e expositores, de forma que a relação foi muito pessoal. Permitiu que as pessoas que o visitaram ficassem à vontade para questionarem e aos quais tentei responder da melhor forma. Foi muito giro!
Flores Genealógicas
PF – O que tens a dizer a alguém que queira trabalhar neste ramo de atividade?
CC – Que o faço com amor, paciência, responsabilidade e querendo sempre aprender mais. Pode parecer simples, mas um bolo pode ser a alegria ou a desilusão de uma festa. Acima de tudo, que se divirta, porque criar é divertido!
Vaso Flores
PF – Queres deixar alguma mensagem aos leitores do Palavra Fiandeira?
CC – Sim. Quero incentivar a continuação de muitas e boas criações literárias, que tanta falta nos fazem. A literatura é de fato uma expressão artística maravilhosa! Obrigada a todos por tornarem os nossos dias mais coloridos.
Quero agradecer à Carmen este momento agradável que passamos à conversa.
Comunhão
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(In) Existência

Ser. Ser agora.
Nada. Ser nada e ouvir a chuva lá fora.
Sou eu e mais ninguém.
O som do mar nos meus ouvidos clarifica a minha mente insana e dá-me o prazer do momento.
Carmen Ezequiel – 8/Maio/2010
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Este foi mais um "Sombras Comuns" onde falar com a Carolina foi assim, como o poema que vos presenteei. Em que no âmago da essência do ser nos encontramos, pela humildade desta mulher.

Aqui, fala-se de tudo e de nada.
De tudo o que somos.
De nada que ninguém é.

Carmen Ezequiel – 29 de Maio de 2010

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REALIZAÇÃO:
CARMEN EZEQUIEL
Poeta, escritora, ativista cultural, correspondente e colaboradora de PALAVRA FIANDEIRA em Portugal

sábado, 12 de junho de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 32



PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
SEGUNDA EDIÇÃO TEMÁTICA
ANO 1- Nº 32 - 12/ JUNHO/ 2010

ABORDAGENS SOBRE O AMOR


AUTORES CONVIDADOS: 
CARMEN EZEQUIEL (Portugal); MARIA THEREZA CAVALHEIRO (BRASIL); MARÍLIA CHARTUNE (Brasil); MONTSERRAT (Espanha); NORMA LUGO (Argentina); JÉSSICA LIMA (Brasil); REGINA SORMANI (Brasil); PAULA LARANJEIRA ( Brasil); ROCÍO L' AMAR ( Chile); DANILO VASQUES (Brasil)
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CARMEN EZEQUIEL


Amor?! Nada mais que uma palavra simples.
Nada mais que tudo é.
Sem sujeito ou predicado. Digna pela sua suprema simplicidade.
Mas, afinal como se define esta palavra? Que sentido se lhe pode atribuir?
Tantos que o idealizaram; que o idolatraram; que em “seu nome” em vão morreram; que por amor ou amar viveram.
Tantas formas de amar o amor!
Tantas maneiras de falar de amor!
Esta é mais uma.

O Amor Através dos Tempos (na arte, literatura e poesia)
Qualquer gênero de arte é amor. O artista; cujo objecto final, de um qualquer material, para um fim último ou nenhum; utiliza o amor como suporte para a construção dos seus trabalhos. O artista – foi, é e sempre será – um “mini-deus”, pois materializa o amor em objecto. Permite-nos ver, tocar, cheirar, ouvir (e sentir) o amor… pelo menos, aquilo em que ele próprio acredita ser a sua definição de amor. Pode até ser abismal, sem noção de ser, louco ou agressivo; mas, ainda assim, conseguir corporizar esta ideia do que é o amor. O ideal de beleza e toda a ideia de perfeição. Seja o corpo, pura e simples, como ele foi concebido. Ou, a natureza; ou, ainda, da natureza conseguir retirar a sua inspiração. Até um objecto inerte pode ser sinónimo de amor.
(Amor, uma palavra deveras banalizada e desvanecida entre os povos…)
O artista, só por si, é amor. Porque afinal, o amor não é um objecto, não é uma relação entre ele próprio e a coisa mas, entre ele próprio e todos em redor. O amor na arte é o amor-próprio, o amor do próprio para com os outros, ou o amor ou desamor dos outros para com o próprio. E, o amor platônico? A esse o colocamos num pedestal e o adoramos no dia-a-dia.
Platão, Dante, Shakespeare, Camões, muitos outros, cantaram sem cantar o amor.
O amor, aquela estranha forma de querer outro. Dos amores e desamores, de amores encantados e novelas enredadas. Do muito que se quer sem tão pouco se conhecer. Pelo menos, foi assim em tempos. As mais belas cartas de amor disso são exemplo.
O poeta sempre viu o amor e sempre o viveu com intensidade. Definindo-o nas mais diferentes formas, porque também ele é um sonhador, um “aluado”, sempre de enamorado amor, evocando poeticamente o ocaso, a fim de vislumbrar a luz do dia seguinte.
Citando Percy Bysshe Shelley “a poesia é, na verdade, algo divino”.
Dessa forma, se a arte é amor; se o divino é amor, a poesia também o é. Assim, se pode considerar que todas as formas de arte são amor. Resultado de um estado de espírito inebriado; o amor é um estar embevecido de alma. Sem se conseguir tocar… é abstracto!
Regressa-se, então, à questão principal e que aqui se coloca: como definir o amor?
Qual o verdadeiro significado e sentido do verbo?
Ao nascer, nada me garante que recebemos o amor materno e o iremos manter para sempre, porque muito facilmente perdemos esse tão belo jeito de amar, natural, verdadeiro, maternal, que nos foi oferecido e, por vezes, incompreendido.

O Amor Materno
Tudo é menos perante o amor de uma mãe.
Falo do que recebi e, dessa experiência, confirmo o absoluto e infinito poder do amor. Porque do que recebi, aprendi a dividir com outros. A doar e a doar-me aos que me rodeiam… com uma palavra, um pequeno gesto, um sorriso, uma carícia ou um abraço… uma acção.
É a partir deste “tipo” de amor (digo tipo, porque o amor é idêntico na sua forma; o que muda é que cada qual o sente e o transmite tendo em conta as suas certezas), que iniciamos um caminho ou percorremos por uma estrada, na qual iremos dar e receber amor.
Posso referir que o amor materno, ou a falta dele, é o que nos molda o ser; mas acredito que em determinada altura da nossa vida podemos optar por escolher amar.
Se o amor materno é o mais verdadeiro, enquanto criança aproximamo-nos de um sentir o amor em que a ingenuidade e a sinceridade prevalecem.


O Amor de Criança
Assim se demonstra na afirmação seguinte, em que a definição, só por si, nos transmite simplicidade.
Tenho um sentimento de coração por uma menina.” (GUI, 7 anos, 2010)
Esta é a inocência e a forma mais singela do amor. A isto somente poderemos sorrir e desejar que tudo fosse tão certo como isto. As crianças são uma esponja, absorvem tudo o que os adultos fazem ao seu redor e essa simplicidade pode perder-se se o adulto deixar.
É aqui que se deve actuar permitindo manter essa simplicidade de ver o mundo à nossa volta, tendo em conta a personalidade dela própria. O amor que lhe passamos e a forma como o fazemos são os pilares para saber amar.

O Amor Adolescente
Já na fase do namoro, ou namorico, cortejam-se as meninas. Sempre se cortejaram. Esse galanteio mantém-se, para além da evolução dos tempos, das tecnologias, da emancipação da mulher e absolvição dos sexos. Sejam; as meninas a lisonjear os rapazes, ou, os rapazes a cortejar os rapazes, ou as raparigas a namorar as raparigas; o que se verifica é que os antigos piropos e insinuações são agora ultrapassados por mensagens de texto, pela internet ou o telemóvel, em que os códigos utilizados banalizam e fazem perder a tão frase complexa e difícil de pronunciar – gosto de ti – dos tempos passados. Hoje, diz-se amo-te com frequência, sem certeza, sem sentimento, como se o amor fosse somente uma palavra.
É neste sentido que o amor e o amar acabam por ter uma conotação distinta da que na realidade se pretende ou se lhe faz jus, que é o respeito pelo outro, a aceitação das suas diferenças. Ao compreender, aceitamos; ao aceitar, amamos. Ao saber amar, amamos o mundo inteiro.
O namoro não é uma espécie de sentimento de pertença, de posse; de algo que é de outro, e que pode levar a uma possessividade e incompreensão do conceito. À obsessão do querer, perde-se na totalidade tudo o que antes referi, sem respeito pelo amor, consideração pelo querer do outro e, por si próprio. Deixa de ser namoro, perdendo-se como conhecimento e partilha de emoções e sentimentos, apenas se chamando no calão de “curte”, “de andar”, “de passar o tempo”.
Continuo pois, a achar, que o papel do adulto e da família é a base para um crescimento saudável, a todos os níveis, e o conceito e a vivência do amor pode, de fato, fazer a diferença.
O Amor e a Família
Alterou-se a noção de família, como se alteraram todas as formas de conhecimento, não estivéssemos nós na era das tecnologias.
Alterou-se para melhor, para pior? Não sei e não me cabe a mim decidir isso. O que sei e continuo a referir neste texto é tudo o que me é pessoal, as minhas convicções e ideologias e de que maneira vivo o amor.
Por isso, conto-vos uma pequena história. Todos somos mortais, fisicamente limitados, pelo que mais tarde ou mais cedo, o nosso corpo perece. Que tem isso a ver com amor? Em absoluto, tudo! Quando perecemos; não é a morbidez da morte, ou o sofrimento dos outros, ou, ainda, o último adeus e a despedida; que nos levam a velar o corpo (até porque isso é uma prática antiga e as suas origens a justificam). O que tento salientar é o sentimento de união, o respeito por quem está em sofrimento pela perda, a presença para os acompanhar neste momento. Isso é amor! Nas famílias (algumas), continua presente.
Nesta linha de pensamento afirmo, com a clara consciência, que o amor pode ser tudo aquilo que entendermos como tal, desde que a minha liberdade não interfira com a do outro.

Amor pode ser tudo, bem como, tudo pode ser amor!
Dependerá da forma como o sentirmos, de como nos foi transmitido e de como o passamos aos que nos rodeiam.
Se o aplicarmos junto dos outros, em sociedade, podemos não mudar o mundo, mas mudaremos, algo, ao nosso redor. Vale a pena experimentar.
Como reconhecer o amor nos tempos que correm?
Buscando o conceito, sentindo, conhecendo, compreendendo e o aplicando, evitando que se desvaneça no coração, sem o comparar ao que foi. Sem o procurar nas guerras e ódios que duram desde sempre.
O amor sempre foi amor em qualquer tempo e lugar.
O que o distingue? Nada.
Porque tudo é amor.
CARMEN EZEQUIEL
ESCRITORA
PORTUGAL


ABORDAGENS SOBRE O AMOR
MARÍLIA CHARTUNE

Falar de amor e romance ao longo dos séculos de produção cultural é um assunto inesgotável por ser profundo e emblemático. A “arte do namoro” e o “namoro na arte” são duas expressões distantes no sentido, mas são curiosidades da humanidade desde a sua formação.
Nas artes plásticas houve um período de obscurantismo em que a temática religiosa era preponderante, mas a partir da Idade Média, na Escola Flamenca, mesmo subliminarmente, Jan Van Eyck pintou a tela “O Casal”. A obra representa as figuras em primeiro plano de mãos dadas com a dignidade conferida pelo leve toque de união. Também na escultura, “Apolo e Dafne” de Bernini há uma representação da sensualidade e desejo sem que se fizessem evidentes. Alguns pintores como Vermeer que se dedicaram a reproduzir intensamente cenas do cotidiano com extremo naturalismo, não deixam de ressaltar o sentimento do amor adúltero e proibido, ainda que sutilmente.
Os relacionamentos passionais sempre foram os temas mais interessantes tanto na arte como na literatura, e algumas obras se celebrizaram tanto pela forma quanto pelo conteúdo como as tragédias de Shakespeare, Romeu e Julieta e Otelo. Os romances portugueses “Amor de Perdição” e “Primo Basílio”, representam a paixão proibida, os conflitos de famílias e têm como recurso as cartas de amor e relatos pessoais dos amantes.
Cito alguns Mestres da Pintura, Escultura e Poesia que viveram ,atuaram e abordaram o Amor de maneira notável. O simbolista Rossetti inspirou vários artistas jovens com seus poemas e pinturas. Seus poemas foram enterrados com sua amada mas assim que foi feita a exumação de seu corpo, dez anos mais tarde, foram publicados.
Uma das esculturas mais conhecidas é "O Beijo", tão sensual que sugere que Rodin teve uma vida amorosa tão intensa quanto a sua arte. Gustav Klimt foi um artista polêmico para o seu tempo, acusado de pornografia e perversão excessiva, mas acabou criando uma introdução erótica à sexualidade moderna, da qual o impressionismo e o surrealismo fizeram bastante uso. Sua obra, também intitulada "O Beijo" é a mais bela tradução do amor na arte.

O gênio Pablo Picasso teve uma vida pessoal tão fluida como sua vida artística e suas mulheres foram as musas inspiradoras e modelos de seus quadros em diversas fases, assim como Modigliani e Manet.
O mexicano Diego Rivera teve uma vida amorosa turbulenta e permeada por infidelidades, mas sua obra não foi influenciada pelas emoções como na obra de Frida Kahlo, com quem se casou por duas vezes.
Marc Chagall representou o amor, noivado e casamento em várias obras inspiradas em sua amada mesmo depois de sua morte
Mas foi Egon Schiele que mais representou a conjunção carnal nas artes plásticas. Inspiradas em Klimt, suas pinturas e desenhos foram considerados impróprios, inclusive com referências imorais para crianças e sua obra mais conhecida é “O Abraço” com conotação erótica explícita,
Portanto, uma rápida viagem pelo tempo nos leva a crer que a despeito da banalização do amor pelos relacionamentos fúteis e pouco duradouros, esse sentimento foi relatado exaustivamente em todos os tempos e sua importância está nas obras primas que permearam a fantasia de criadores e criaturas de várias representações culturais. As sociedades evoluiram e a hipocrisia, que às vezes se manifesta nas relações humanas, deu lugar a uma nova forma de comportamento muito mais franca e destemida.
MARÍLIA CHARTUNE TEIXEIRA
ARTISTA PLÁSTICA
BRASIL

AMOR HOMOSEXUAL: La libertad de amar en literatura
ROCÍO L' AMAR


Me enamoré, Athis, de ti, hace mucho tiempo
y me parecías sin gracia, como una pequeña niña.
Sé que más tarde alguien se acordará de nosotras.
Como el viento desenfrenado que en las montañas
cae sobre los bosques, el amor estremece mi ser.
No puedo decidir: hay en mí dos almas.
Hiciste bien en venir, pues te anhelaba
y desfallecía por este deseo que incendia mi alma.

(SAFO)


La voz silenciada del amor homosexual, hasta hace poco tiempo, pero plasmado en los escritos, tanto poéticos como novelas, que despierta en nosotros la curiosidad y la sed de conocer más, el amor entre hombre y el amor entre mujeres resulta un obstáculo y acaso dramático al crear relaciones y apego, pues por un lado, las sociedades íntimamente relacionadas con el contexto socio-cultural dentro del cual se desarrollan y suelen estar respaldadas por una tradición que siempre, total o parcialmente, reafirma, rechaza y renueva, y que largo tiempo, socialmente ha degradado, estigmatizado y acosado de distintas maneras a los homosexuales y, por otro lado, la iglesia, que aunque recientemente aparece benévola, misericordiosa y clemente en algunos países, es argumental con respecto a la homosexualidad, combatiéndola fehacientemente.

Sin embargo, las comunidades en general son más permisivas con sus artistas e intelectuales y toleran comportamientos y elecciones sexuales que no son fácilmente aceptados por la gente común. Quizás por esta razón desde la literatura, el teatro y el cine se han tratado temas urticantes e imposibles de tocar con naturalidad en tiempos de censura: la homosexualidad masculina y femenina.

Nada feliz se ve esa búsqueda del amor, el sexo y la belleza si de historia homosexual se trata, aunque se diga que los armarios se han abierto a nuevos tiempos, si razonamos que, al fin y al cabo, no hace más que reflejar una obsesión de un gran número de homosexuales en la actualidad. No obstante, lo que interesa evidenciar (sin flamear banderas homofóbicas y porque la homosexualidad no es trascendente ni sujeta a encasillamientos), es lo que aportan l@s creadores(as), sean éstos varones, féminas, gays, lesbianas, es su veracidad y credibilidad como seres humanos en la transmisión de la cultura, específicamente, la literatura.

Alguien dijo que el conocimiento de estos ejemplos literarios revelará que el amor homosexual no es un amor de “menor categoría” o “calidad” que el amor heterosexual, guerreándose, de este modo, el estereotipo que caracteriza al homosexual por una conducta sexual desligada de sentimiento amoroso (por el contrario, ligado a un sentimiento egoísta, homosexualidad= perversión), o de toda búsqueda de comunicación y afectividad en la relación amatoria.


Aunque no existe una cultura gay/lésbica abierta y autoconciente, se ha desarrollado un movimiento gay/lésbico que se ha identificado como gay/lésbica.

Así encontramos, a lo largo de distintos períodos en España, (hablaremos de España por la influencia histórica en nuestro país), la apreciación del amor entre hombres y entre mujeres como un culto a la belleza y a la poesía. La poesía en los tiempos bíblicos nos sugiere el hecho de que la homosexualidad era una práctica común, aunque en época medieval este pecado contra natura era castigado con la castración pública seguida con la muerte. Pero en la época del Rey Alfonso V la homosexualidad era vista de una manera indulgente, al menos en los círculos aristocráticos. Testimonios de la inquisición española revelan la existencia de ghettos homosexuales clandestinos, ya que la mayoría de ellos se casaban, de acuerdo a las presiones para contraer matrimonio.

La homosexualidad aparece en la literatura clásica española de manera sutil, en lo que concierne al teatro. Los papeles femeninos a veces eran interpretados por muchachos, y las actrices a menudo interpretaban papeles masculinos. Tirso de Molina destacó especialmente por el uso de travestis y por sus protagonistas “femeninos”. Cervantes presenta, entre sus amistades del mismo sexo, relaciones con matices homosexuales, por medio de la mitología clásica y la literatura pastoril. Luis de Góngora, en su obra “Las Soledades”, el protagonista es descrito como más bello que el garzón de Ida, razón por la cual fue calificado por Quevedo de sodomita. En el siglo XVIII, 1922, la pena capital por homosexualidad fue suprimida. En la época del Renacimiento fueron publicadas obras de autores homosexuales, aunque los escritores más abiertamente homosexuales no pudieron tratar el tema en sus obras, como el dramaturgo Jacinto Benavente, premio Nobel de literatura 1932, el cronista Pedro de Répide, el cuentista Antonio de Hoyos. No obstante hubo homosexualismo encubierto en el estudio de figuras homosexuales como el conde de Villamediana. Progresivamente, como una afirmación homosexual encontramos a Lorca, Prados, Luis Cernuda, Vicente Alexandre, premio Nobel de literatura 1977, Pedro Salinas y Manuel Altolaguirre, quien junto a Prado publicaron la revista Litoral, entre 1926 y 1929.

Oscar Wilde, Andre Gide, Lautréamont.

Entre 1939 y 1975 la homosexualidad volvió a ser clandestina en España. Desde su exilio voluntario, Juan Goytisolo, publicó su obra En los reinos de taifas, en la cual hace su primera declaración pública de autoaceptación homosexual.


Escritores/ poetas GAYS/ LESBIANAS en Chile

Los escritores tuvieron que utilizar estrategias para hablar del tema sin que se notara. Recurrieron a la metáfora. Así, traficaron la homosexualidad, pero no la decían.

Las antologías demuestran que en los años noventa hubo una irrupción en Chile que permitió la circulación de varios textos que pasaban por la temática homosexual. “Se publicaron cosas interesantes y otras que no lo eran, que carecían de enjundia literaria”, afirma Sutherland. En 1994, por primera vez una editorial internacional -Planeta- lanzó un volumen sobre la materia: “Ángeles Negros”, del propio Sutherland. Al año siguiente, Pedro Lemebel publicó “La esquina es mi corazón”, dando estatus literario al arquetipo de “la loca”. En 1998, Sudamericana lanzó “Paisaje masculino”, de Carlos lturra. Y algunos años después, Alfaguara hizo lo propio con “Vidas vulnerables”, de Pablo Simonetti.

Hoy el escenario aparece distinto. “Las editoriales pueden ser atraídas por la temática, pero muestran cuidado”, sostiene Sutherland. Aclara que en el caso de “A corazón abierto”, la discusión se centró en lo literario con el editor, el escritor Germán Marín. La atención estaría dada por cierto conservadurismo, aunque admite que “a estas alturas no se puede publicar sólo porque un texto es de una minoría”.


۩ Gabriela Mistral, Chile, (siglo XX, fallecida). Poeta que ganó el premio Nobel de Literatura 1945.

۩ Luis Gauthier,(Siglo XX, fallecido). Profesor de Estado. Coordinador del Movimiento Unificado de Minorias Sexuales. Encargado de Relaciones Internacionales. Es uno de los primeros líderes que incansablemente lucharon por los derechos de la comunidad GLBT en Chile.

۩ Pedro Lemebel. Uno de los escritores chilenos más interesantes; también es artista de performance (Las Yeguas del Apocalipsis).

۩ Mariana Romo Carmona, escritora que vive en Nueva York. Ha publicado muchos libros incluyendo Latina Lesbians. Escribe en inglés.

۩ Carlos Sánchez Soto, fue líder rebelde estudiantil durante la dictadura de Pinochet y es ahora el líder gay chileno más visible que lucha por los derechos de los homosexuales.

۩ Juan Pablo Sutherland, escritor de renombre.

۩ Héctor Hernández Montecinos, (1979). Es reconocido como uno de los estandartes de la poesía joven –gay.

۩ Tulio Mendoza Belio, (1957), poeta y editor.

۩ Damsi Figueroa, poeta.

۩ Marcelo Mellado, narrador.

۩ Ingrid Odgers, poeta y narradora.

۩ María Cristina Ogalde, narradora.

۩ Víctor Bórquez, cuentista. Víctor Bórquez, narrador.

Entre otr@s.

Y, obviamente, que no olvidamos a Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, aquellos poetas malditos franceses que despiertan curiosidad por las letras y su vida personal.
Observación:

* Cualquier lista de este tipo trae a colación dos aspectos, inclusión y exclusión.

* Al usar los términos lesbiana, gay, se hace referencia a los siguientes aspectos: orientación sexual (lo que se siente), comportamiento sexual (lo que se hace) e identidad sexual (cómo se autodefinen).

* Artículo investigativo para la Segunda Edición de la Revista Palavra Fiandeira, Brasil, editada por Marciano Vasques.


En San Pedro de la Paz, Chile, 25 de Mayo de 2010.



A voz silenciada do amor homossexual, até pouco tempo, porém refletida nos escritos, tanto poéticos como romances, que desperta em nós a curiosidade e a sede de conhecer mais, o amor entre homens e o amor entre mulheres resulta um obstáculo e acaso dramático ao criar relações e apego, pois por um lado, as sociedades intimamente relacionadas com o contexto socio-cultural dentro do qual se desenvolvem e constumam estar respaldadas por uma tradição que sempre, total ou parcialmente, reafirma, rejeita e renova, e que por um longo tempo, socialmente foi degradado, estigmatizado e acossado de diferentes maneiras aos homossexuais e, por outro lado, a igreja, que ainda que recentemente apareça benévola , misericordiosa e clemente em alguns países, argumenta com respeito à homossexualidade, combatendo-a sem arredar pé.



Outrossim, as comunidades geralmente são mais permissivas com seus artistas e intelectuais e toleram comportamentos e escolhas sexuais que não são facilmente aceitos pela gente comum. Talvez por essa razão, desde a literatura, o teatro, e o cinema, se tratou temas urticantes e impossíveis de se tocar com naturalidade em tempos de censura: a homossexualidade masculina e feminina.



Nada feliz se vê nessa busca do amor, o sexo e a beleza se de história homossexual se trata, ainda que se diga que os armários estejam abertos aos novos tempos, se poderarmos que, ao fim e ao cabo, não fazemos mais do que refletir uma observação de um grande número de homossexuais na atualidade. No obstante, o que interessa pôr em evidência (sem atiçar bandeiras homofóbicas e porque a homossexualidade não é transcendente nem sujeita a categorizações), é o que fornecem os(as) criadores (as), sejam estes varões , fêmeas, gays, lésbicas, é sua veracidade e credibilidade como seres humanos na trasmissão da cultura, especificamente, a literatura.





Disse alguém que o conhecimento destes exemplos literários revelará que o amor homossexual não é um amor de "menor categoria" ou "qualidade" que o amor heteroxessual, guerrreando-se, deste moto o estereótipo que caracteriza ao homossexual por uma conduta sexual desligada de sentimento amoroso (pelo contrário, ligado a um sentimento egoísta, homossexualidade= perversão), ou de toda busca de comunicação e afetividade no relacionamento amoroso.




Ainda que não exista uma cultura gay/lésbica aberta e autoconsciente, tem se desenvolvido um movimento gay/lésbico que vem se identicando como gay/lébica.



Assim encontramos, ao longo de diferentes períodos em Espanha, (falaremos de Espanha pela influência histórica aqui no Chile), a apreciação do amor entre homens e entre mulheres como um culto à beleza e à poesia. A poesia nos tempos bíblicos nos sugere o fato de que a homossexualidade era uma prática comum, ainda em época medieval este pecado contra a natureza fosse castigago com a castração pública seguida de morte. Porém na época do Rei Alfonso V, a homossexualidade era vista de uma maneira indulgente, ao menos nos cículos aristocráticos. Testemunhas da inquisição espanhola revelam a existência de guetos homossexuais clandestinos, já que a maioria deles se casavam, de acordo com as pressões para se contrair matrimônio.




A homossexualidade surge na literatura clássica espanhola de maneira sutil, no que concerne ao teatro. Os papéis femininos às vezes eram interpretados pelos rapazees, e as atrizes geralmente interpretavam papéis masculinos. Tirso de Molina ressaltou especialmente o uso de travestis e seus protagonistas "femininos". Cervantes apresenta, entre suas amizades do mesmo sexo, relacionamentos com matizes homossexuais, por meio da mitologia clássica e a literatura pastoril. Luis de Góngora, em sua obra "Las Soledades", o protagonista é descrito como o mais belo que o "garzón de Ida" , razão pela qual foi qualificado por Quevedo de Sodomita. No século XIX, 1922, a pena capital para a homossexualidade foi suprimida. Na época do renascimento foram publicadas obras de autores homossexuais, ainda que os escritores mais abertamente homossexuais não pudessem tratar do tema em seus textos, como o dramaturgo Jacinto Benavente, prêmio Nobel de Literatura 1932, o cronista Pedro de Répide, o contista Antonio de Hoyos. Não obstante, houve homossexualismo encoberto no estudo de figuras homossexuais como o conde de Villamediana. Progressivamente, como uma afirmação homossexual encontramos a Lorca, Prados, Luis Cernuda, Vicente Alexandre, Prêmio Nobel de Literatura 1977, Pedro Salinas e Manuel Altolaguirre, que juntamente com Prado publicou a Revista Litoral, entre 1926 e 1929.

Oscar Wilde, Andre Gide, Lautréamont.


Escritores/ poetas/ GAYS/LÉSBICAS no Chile

Os escritores tiveram que utilizar estratégias para falar do tema sem que se notassem. Recorreram à metáfora. Assim, expuseram a homossexualidade, porém não a diziam.

As antologias demonstram que nos anos noventa houve uma irrupção no Chile que permitiu a circulação de vários textos que passavam pela temática homossexual. "Coisas interessantes foram publicadas e outras nem tanto, que careciam de substância literária", afirma Sutherland. Em 1994, pela primeira vez uma editora internacional - Planeta -lançou um volume sobre a matéria: "Anjos negros", de autoria do próprio Sutherland. Ao ano seguinte,
Pedro Lemebel publicou "A Esquina é o meu coração", fornecendo Status literário ao arquétipo de “la loca”. Em 1998, Sudamericana lançou " Paisagem Masculina", de Carlos Iturra. E alguns anos depois, Alfaguara fez o mesmo com "Vidas Vulneráveis", de Pablo Simonetti.
Hoje o cenário aparece diferente. "As editoras podem ser atraídas pela temática , porém mostram cautela" sustenta Sutherland. Esclarece que no caso de "A coração aberto", a discussão se centrou no literário com o editor, o escritor Germán Marín. A atenção estaria dada por certo conservadorismo, ainda que admita que " a esta altura não se pode publicar só porque um texto é de uma minoria"



۩ Gabriela Mistral, Chile, (Século XX, falecida). Poeta que ganhou o prêmio Nobel de Literatura 1945.
۩ Luís Gauthier, (Século XX, falecido). Professor de Estado. Coordenador do Movimento Unificado de Minoria Sexuais. Encarregado de Relações Internacionais. É um dos primeiroa líderes que incansavelmente lutaram pelos direitos da comunidade GLBT em Chile.




۩ Pedro Lemebel. Um dos escritores chilenos mais interessantes; também é artista de perfomance ( Las Yeguas del Apocalipsis).
۩ Mariana Romo Carmona, escritora que vive em Nova Iorque. Publicou muitos livros incluíndo Latina Lesbians. Escreve em Inglês.
۩ Carlos Sánchez Soto, foi líder rebelde estudantil durante a ditadura de Pinochet e é agora o líder gay chileno mais visível que luta pelos direitos dos homossexuais.



۩ Juan Pablo Sutherland, renomado escritor.
۩ Héctor Hernández Montecinos, (1979). É reconhecido como um dos estandartes da poesia jovem-gay.
۩ Tulio Mendoza Belio, (1957), poeta e editor.
۩ Damsi Figueroa, poeta.





۩ Marcelo Mellado, contador de histórias.
۩ Ingrid Odgers, poeta e contadora de histórias
۩ María Cristina Ogalde, contadora de histórias.
۩ Víctor Bórquez, contista. Victor Bórquez, contador de histórias.


Entre outros (as)


E, obviamente, que não esquecemos de Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, aqueles poetas malditos franceses que despertam curiosidade pelas letras e sua vida pessoal.



* Qualquer lista deste tipo traz à tona dois pontos, inclusão e exclusão.


*Ao usar os termos lésbica, gay, se faz referência aos seguintes aspectos: orientação sexual (o que sente), comportamento sexual (o que faz) e identidade sexual (como se autodefine).


REGINA SORMANI



Os fios invisíveis do amor


Li alguns anos atrás, uma fábula chinesa que contava o seguinte:
Cada pessoa, ao nascer, traz amarrados aos pés, fios invisíveis e muito, muito longos que, durante sua vida devem encontrar seus pares, nos pés de outra pessoa. O destino se encarrega de juntar essas almas gêmeas, de forma, muitas vezes, inusitada. Na fábula, a filha única do imperador se apaixona por um rapaz de família simples e se rebela contra a vontade do pai que pretende casá-la com um príncipe rico e cruel. O rapaz pobre é condenado à morte pela ousadia de se aproximar da princesa e tudo parece perdido para o casal de apaixonados. Porém, na hora da execução, o carrasco percebe que o moço traz no pescoço, um cordão com uma medalha e a entrega ao imperador. Este pedaço da fábula, todo mundo conhece: na verdade, o rapaz é o filho de um nobre e valente amigo do imperador, desaparecido num campo de batalha. A medalha é o documento de identidade do namorado da princesa. Desvendado o mistério, tudo acaba bem. Os fios invisíveis do amor cumprem seu destino. A princesa e seu amado casam-se e vivem felizes para sempre.
Deixando de lado a fábula chinesa e as artimanhas do destino, conheço alguns casos que acontecem no dia a dia e que merecem, pelo menos, alguns segundos da nossa atenção. Acompanhei de perto a história a seguir:
Osmar estava noivo, de casamento marcado com Patrícia. Lá no íntimo, ele não havia esquecido a Tereza, sua namoradinha de infância, que deixara há anos, no interior do Mato Grosso. Quase às vésperas do matrimônio, Osmar foi à Catedral da Sé para um momento de oração e reflexão. Na hora da saída, a moça que estava à sua frente deixou cair um livro de orações. Osmar apanhou o livro e quando foi entregá-lo, ficou frente a frente com Tereza. A partir daí, a história de Osmar começou a mudar. Sim, ele desfez o compromisso com Patrícia e até hoje está casado com Tereza.
Esse reencontro foi obra do destino? Coincidência? Teriam os fios invisíveis do amor se entrelaçado e unido Osmar e Tereza? O importante é que o amor venceu!

A todos, feliz dia dos namorados.

Regina Sormani
ESCRITORA
BRASIL



MARIA THEREZA CAVALHEIRO




Dizem que os poetas - principalmente os que se dedicam à trova - falam demais em amor. Nada de estranho nisso! Pois o amor é a mola do mundo, é o amor que comanda a vida de cada um de nós.
Há quem diga que falar de amor numa época em que os homens se preocupam com conquistas espaciais, com a energia nuclear, é algo obsoleto.
No entanto, o amor sempre presidiu à vida do homem, em todas as épocas. Os poetas do passado e do presente têm tido no amor um motivo permanente de inspiração, direta ou indiretamente. Para mim, as mais belas produções de Vinícius de Moraes são justamente os seus sonetos, numa linguagem nova. E que dizer dos sonetos de Guilherme de Almeida? E de Colombina?
Como declarou Murillo Araújo, em entrevista à minha coluna "Trovas", "Para um artista de gênio não há gênero superados: ele renovará qualquer um, se o quiser, com a força de sua personalidade" (...) E mais adiante: "Quanto ao sentimento que , num absurdo, há quem tente hoje abolir, viverá com o homem. Prescrevê-lo das artes é desumanizar a estética, e até castrar a natureza humana. Sem que nada desapareça totalmente é que as coisas se renovam a cada instante, pois a vida não se repete nunca, nem no espaço nem no tempo".
E assim tem sido desde sempre. Ao tempo da velha Roma, para o casamento, exigia-se 'honor matrimonii" e "affectio maritalis" , isto é, coabitação e propósito firme de amor recíproco. Em nosso Direito, todo baseado no Romano, o amor continua sendo condição para o casamento. Como achar então que o amor está superado? Deve se lembrar que, se o amor é a base do casamento, o casamento é a base da sociedade, e é a sociedade que forma a Pátria. É sempre o amor em primeiro lugar! O amor precede a tudo mesmo quando não está explícito. Há sempre um sentimento de amor que comanda a vida do homem. Assim, quando os poetas em geral e particularmente os poetas trovadores falam de amor, não estão sendo antiquados. E o próprio amor livre, forma mais liberal de amor, não é atual?
Estamos falando do amor à criatura amada, mas há o amor em todas as suas outras formas, como o amor materno, o amor aos pais, aos filhos, aos professores, aos amigos; o amor à natureza - às árvores, às flores; o amor às artes; o amor à Deus! Há o amor-renúncia, quando isso faz alguém feliz. O amor-sacrifício, o amor-dedicação. O amor...oh! o amor...
A trova também está sempre em voga, desde os tempos mais antigos, mas agora com nova roupagem. é a comunicação rápida num mundo em que impera a velocidade, a economia de tempo; implica sonoridade, mensagem, ritmo, beleza, seja para traduzir uma emoção, seja para emitir um conceito.
Em meus livros, sempre falo do amor. No último publicado, "Trovas para Refletir", que está sendo distribuído pela Loyola, tenho trovas assim:

O bem e o mal, em verdade,
deixam profundas raizes,
pois até se tem saudade
dos amores infelizes!
*

Quando existe em nós a chama
de uma alegria interior,
é porque alguém que se ama
corresponde ao nosso amor!

*
 
O amor é sorriso...ou pranto.
O amor é nuvem...ou sol.
O amor é lágrima...ou canto.
O amor é treva...ou farol.


Em meu livro anterior, "Cabeça de Mulher", há um conto - "Giovanna não faz o amor", em que o tema é abordado sob vários aspectos. Um deles é o "amor proibido", em que a personagem declara:
"É um misto de fel e de mel... Paradoxal, pois, se traz felicidade, é o que mais faz sofrer. É um amor que vibra entre a expectativa e o adeus. Alicerça -se na própria insegurança. E, por isso mesmo, talvez tenha a marca da imortalidade...é amor que se alimenta da dissimulação. Traz crises de consciência que geralmente não levam a nada. Tem perigos e angústias. Vive entre o segredo e o escândalo. É feito de pranto, mas em seu âmago estão as maiores alegrias. É amor que condena e redime...Desesperado e calado, não é sempre que permite o soluço. Evidentemente que estou falando do amor proibido no sentido do amor mesmo, não me refiro a passageiras aventuras...Estas têm apenas o sabor de pecado. Amor proibido é o que se multiplica entre sombras. Eu, porém, gosto de amar à luz do sol. Amor, para mim, deve ser dentro do maior companheirismo. Por isso me casei quatro vezes..."
O conto se resume numa entrevista coletiva, na qual a atriz principal de um filme, intitulado "O Amor", responde às perguntas da imprensa sobre o amor, e atesta que "todas as formas de amor são válidas quando se ama verdadeiramente".
A poesia está no homem e na mulher, a espocar quando há o instante maior entre dois seres que falam a mesma linguagem e passam a se querer, com admiração e respeito. A poesia está no amor, responsável pela perpetuação da espécie humana. Os poetas falam de amor? Claro! Não há amor sem poesia nem poesia sem amor. E amor é tudo que existe em nós de bom e de belo! É também o desejo de saber, a alegria de ensinar, a vontade de construir, de trabalhar por um mundo melhor" "Amar"é uma palavra muito abrangente: é servir , é dedicar-se, dar-se; é dividir, compartilhar, receber, ajudar; é ser companheiro, ser amigo, confidente, solidário. Por isso, afirmo:

Se o peito de amor transborda
e as mãos não se veem sozinhas,
dentro em nós um deus acorda
ao som de mil campanhias!

Maria Thereza Cavalheiro é escritora
*
MONTSERRAT


Cuando era pequeña, quizá porque los niños y las niñas estudiábamos por separado, nos enamorábamos con facilidad.

Las niñas, nos preguntábamos-¿ Y a tí ¡quén te gusta ?- A mi,  me gusta Pepito. Y resulta que el tal Pepito  ni siquiera se
enteraba.

Y cuando veíamos al chico de los sueños aunque fuera de lejos, el corazón se aceleraba y una especie de euforia se apoderaba del alma.

Luego al llegar la noche una se dormía y soñaba con el niño en cuestión. Eran sueños inocentes simplemente  que paseaba con el cogida de la mano.

Más tarde cuando de más mayor fui a bailar sardanas, simplemente el cogerte de la mano con el chico que te gustaba ya era una sensación celestial. Y el ni siquiera se enteraba.

Antes las chicas teníamos que guardar los sentimientos. el derecho a declarar el amor solo le estaba permitido a los chicos.
Nosotras úsabamos una inocente coqueteria y si nos miraba un  chico a veces el rubor se apoderaba de nuestras mejillas.

Ellos también tenían una cierta timidez, pues se exponian que al declararse les diéramos calabazas.

¿Cuántos chicos y chicas de mi ápoca se habrán enamorado y por un falso pudor, no se lo habrán manifestado?.

Quando eu era bem menina, talvez por que os meninos e as menina estudavam separados, nos apaixonávamos com facilidade.
As meninas, nos perguntávmos: - De quem você gosta? - Eu gosto do Pedrinho. E resulta que o tal do Pedrinho nem sequer tomava conhecimento.
E quando víamos ao menino dos sonho, ainda que de longe, o coração se acelerava e uma espécie de euforia se apoderava da alma.
Quando a noite caia, uma das meninas dormia e sonhava com o garoto em questão. Eram sonhos inocentes, simplesmente que passeava de mãos dadas.

Mais tarde, quando já maior, fui dançar Sardanas, simplesmente ao toque das mãos com o rapaz de quem gostava já era uma sensação celestial. E ele nem sequer se dava conta.
Antes as mocinhas tinham que guardar os sentimentos, o direito de declarar o amor só era permitido aos rapazes.
Nòs usávamos um inocente coquete e se nos olhava um menino às vezes o rubor se apoderava de nossas bochechas.
Eles também tinham uma certa timidez, pois se expunham que ao se declarar poderíamos lhes dar "abóboras" (um fora).
Quantos rapazes e quantas moças de minha época se terão apaixonados e por um falso pudor, não terão se manifestado?
MONTSERRAT,
ATIVISTA CULTURAL
ESPANHA ( Valência)





 Paula Ivony Laranjeira
O Amor: em busca de conceitos



Um sentimento milenar que promove a felicidade, mas que também pode gerar a tristeza, o amor, é figura fácil nas conversas do cotidiano, em músicas, na literatura, nas artes plásticas, no cinema, e em vários ramos da ciência. Um sentimento tão presente suscita conceitos diferentes. Mas é possível explicá-lo ou descrevê-lo? Quem poderia dizer o que é o amor?
Para tentar responder esta assertiva vamos perambular por este sentimento-aranha que envolve e prende suas presas de tal forma, que o ser capturado não queira se desprender das teias. Explorá-lo não é tarefa fácil, mas muitos são os que se arriscam. Alguns valendo-se de linguagens poéticas conseguem alcançar o sublime, pintando com suas metáforas algo palpável. Outros, apesar dos recursos linguísticos e do alcance popular que seu conceito ganha não consegue, abarcar o inenarrável significado que ele possui.
A literatura está encharcada dessa temática. Poetas e narradores nos embalam em seus delírios líricos-amorosos. Para uns um sentimento implacável, para outros convenção, em uns causa felicidade em outros tristeza mortal. Um dos mais conhecidos conceitos descritivos do amor foi feito por Camões, que sentencia: “Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer” Tem-se neste soneto vários conceitos que subjetivamente descrevem o amor bem como seus efeitos, possibilitando ao leitor que faz uso dos versos, sentir certa intimidade com as metáforas, alcançando o real, antes possível somente nos delírios oníricos. Mário Quintana, nos traz outra acepção: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Nisto entende-se a segurança do estar presente fisicamente num espaço. Morar, habitar, residir em um local que não é seu, não é você, mas que foi conquistado, e por tal, te pertence, é uma extensão sentimental-corpórea recíproca de si. Já para Drumonnd, “Amor é estado de graça e com amor não se paga (...) Amor foge a dicionários e a regulamentos vários”. Assim, o poeta evidencia que o amor é algo gratuito, não precisa ser correspondido, e faz bem a quem o sente, o eleva a um plano superior, quase divino. No entanto, o que mais chama a atenção, neste texto, é o fato do autor anunciar que o amor não cabe em conceitos ou dicionários. Não se explica tal sentimento, ocorrência que é reforçado por Sêneca “O amor não se define; sente-se”.
Além da poesia, a literatura traz uma vertente revolucionária para as relações amorosas: o romance. Por muito tempo o amor viveu várias facetas: animalesco, idealizado, sacralizado, pecaminoso, etc. No entanto, dos ingratos acordos de família, o amor passa a ser vivido pela atração que desperta entre dois seres. Isso mais precisamente no século XIX, com o surgimento dos folhetins que leva à sociedade histórias cheias de amantes que fazem de tudo para viverem suas próprias narrativas de amor. Isso acaba sendo refletido na sociedade, gerando novas conceituações para o amor bem como uma linguagem cheia de imagens simbólicas no intuito de explicar um sentimento que ganha matizes e intensidade diferentes, mas que tem que ser vivido a qualquer custo.
Nas artes plásticas, nos deparamos com a história de amor entre os escultores Rodin e Camille Claudel. Ela, aluna e modelo, ele o mestre. Eles se apaixonam e vivem uma história de amor, como muitas, cheia de sofrimentos. Isso porque Rodin se casa com Rose, e Camille passa a ser a sua amante. No entanto, aos poucos, ele vai se distanciando até não mais procurá-la, fator propício para um desequilíbrio psicológico que a leva ao hospício, estando lá até a morte. Um amor tão intenso faz Camille expressá-lo através de seus entalhes. Assim, a arte e o amor, união belíssima, gera rebentos significativos e expressivos como os produzidos por Camille. As imagens postadas abaixo falam por si, revelam o que vai na alma de quem as produziu. Nas esculturas é possível observar a paixão, o desejo, a dor e o desespero do abandono, o que nos possibilita olhar o amor representando conceitos ora de felicidade ora de sofrimento.


Como diz Honoré Balzac, “O amor é a poesia dos sentidos”. Neste caso, tal sentimento perpassa o corpo, e vai sendo conceituado ou talhado pelas mãos, expressando muito além do que os olhos podem ver ou do que as mãos podem deduzir via toque. Reflete o que envolve a alma de quem modelou ou de quem, defronte o bronze, aprecia.
A variedade de conceitos que abarcam o amor também se faz presente na música. Nela o amor é cantado nas mais variadas formas: para Djavan “vaga entre o lírio/ da luz solar/ e a agonia do quebra-mar/ forjado em ouro
tesouro/ que não existe pra se comprar” (Sentimento verdadeiro, Djavan). Neste vagar musical, o amor busca parada na natureza: na pureza do lírio, no brilho e calor do sol, na força das águas marítimas. E finalmente ganha valor superior ao ouro, metal valioso e cobiçado. Horsth e Feghali também tomam emprestado da natureza elementos para possibilitar uma conceituação mais eficaz do amor, para eles o amor é “Tempestade de desejos/ Um eclipse no final de um beijo/ O amor é estação/ É inverno, é verão/
É como um raio de sol/ Que aquece e tira o medo/ De enfrentar os riscos/ Se entregar...” (Amar é. Comp.: Cleberson Horsth - Ricardo Feghali). Além de dos elementos naturas, este último trecho chama a atenção para o fato de este sentimento retirar o medo. Quem ama corre todos os riscos, enfrenta os próprios medos com a finalidade de viver este sentimento, e alcançar a felicidade. No entanto, Djavan, afirmar que o amor/amar “é um deserto/ E seus temores/ Vida que vai na sela/ Dessas dores” (Oceano. Djavan). Se para Horsth e Feghali o amor faz perder o medo, para Djavan é algo que causa medo, algo que se teme como o deserto. Cabe ressaltar outro conceito para o amor, presente em músicas, que chama ao palco a noção de eternidade. O amor verdadeiro será eterno, como se vê na composição de Roberto e Erasmo: “Um amor de verdade/ (...) é pra sempre/ É pra eternidade/(...)O amor é assim/ Eu tenho esquecido de mim/ Mas dela eu nunca me esqueço”(Amor sem limite, comp.: Roberto Carlos / Erasmo Carlos). É um sentimento nobre, que faz o amante esquecer-se de si em favor do outro. Tudo é feito para o sujeito amado. Porém, cabe lembrar, que fazendo pelo outro, está fazendo por si, visto que, o gozo e a felicidade alcançada com o sublime ato de doação de si, são recíprocos bem como os frutos.
Nota-se que o amor recebe conotações variadas e envolve parte do nosso sistema sensorial nesta elaboração conceitual. Assim, temos a audição (a música), visão (esculturas, pinturas e a leitura de textos) tato (escultura). Por estas vias, a expressão artística do sentimento amoroso adentra o sistema nervoso associando-o com outras infinidades de conceitos. Aos poucos, elementos variados são tomados por empréstimo do mundo real/concreto para tornar palpável um sentimento que perambula entre neurônios, células, músculos, nas esferas psicológicas ou na força imaterial que chamamos de alma, mais especificamente vivificada no órgão cardíaco. Por mais que se conceitue o amor, percebe que ainda temos a necessidade de continuar buscando uma formação frasal que nos abarque em momentos distintos, isto porque devido à individualidade e subjetividade do mesmo, as definições existentes sempre podem ser aperfeiçoadas ou moldadas às nossas necessidades.
Diante do exposto, é viável o comentário de Mary Del Priore, em entrevista a revista Cult, “A liberdade sexual é um fardo para os mais jovens. Muitos deles têm nostalgia da velha linguagem do amor, feita de prudência, sabedoria e melancolia, tal como viveram seus avós. Hoje, a loucura é desejar um amor permanente, com toda a intensidade, sem nuvens ou tempestades. Numa sociedade de consumo, o amor está supervalorizado”. Del Priore ainda reforça, “Sabemos, depois de tudo, que o amor não é ideal, que ele traz consigo a dependência, a rejeição, a servidão, o sacrifício e a transfiguração.  Resumindo: existe um grande contraste entre o discurso sobre o amor e a realidade de vida dos amantes.” Isso nos faz entender que apesar da variedade conceitual-poética do amor há uma diferença entre o que se diz e o que se vive. Assim, devemos levar em contar que o amor cantado em prosa e verso pertence, muitas vezes, a um mundo idealizado, com definições idealizadas. Mas há quem não goste de idealizá-lo?




NORMA LUGO


El amor

Un instante puede ser infinito…
La tierra entera puede caber en una mirada.
Los latidos del corazón pueden galopar alocados o marcar serenamente el ritmo de los años.
Un recuerdo, un aroma, una canción…
Manos suaves en noveles caricias, fuertes acompañando el trabajo o frágiles y aletargadas.
Suele ser lágrima, desgarro y también carcajada.
Huele a incienso, a golosina, a campo después del aguacero, a comida caliente y a deseo.
Es mar infinito, y eterna cumbre nevada.
Se alimenta de esperanzas, sueños y tropiezos.
No hace trampa, aunque algunos sean tramposos.
Da, pide, entrega, reclama y vuelve a dar.
Enciende las luces del universo y puede su ausencia ser la más absoluta oscuridad.
Es paciente y ansioso, débil y fuerte.
Lejano, interno, efímero y eterno.
A su paso nada permanece igual.
Basta una sonrisa, una intención, un anhelo.
Sacude lo más profundo, renueva con su aliento.
Cura, sana, es estigma y aura.
Se hace letra, poesía, canto amargo o letanía.
Entibia el frío más intenso, anima, acompaña y es alimento.
Acuna, abraza, eriza, calla.
Aprende, enseña y vuelve a aprender.
Es palabra, silencio y acción.
Danza, gatea, vuela, ruega.
Es, fue y será…simplemente EL AMOR.

Um instante pode ser infinito...
A terra inteira pode caber num olhar.
As batidas do coração podem galopar enolouquecidamente ou de forma calma marcar o ritmo dos anos.
Uma recordação, um aroma, uma canção...
Mãos suaves em toques macios, fortes acompanhando o trabalho ou frágeis e letárgicas.
Habitualmente lágrimas, prantos e gargalhadas.
Tem odor de incenso, de guloseima, de campo após o aguaceiro, de comida quente e de desejo.
É mar infinito e eterno pico nevado.
Alimenta-se de esperanças, sonhos e tropeços.
Não iludem, embora alguns sejam traiçoeiros.
Dá, pede, reclama e torna a dar.
Acende as luzes do universo epode a sua ausência tornar-se a mais profunda escuridão.
É paciente e ansioso, frágil e forte.
Distante, eterno, efêmero e eterno.
Ao seu passo nada permanece igual.
Basta um sorriso, uma intenção, uma saudade.
Agita o mais profundo, renova com seu fôlego.
Cura, sara, é estigma e aura.
Se faz letra, poesia, canto amargo ou ladaínha.
Aquece o frio mais intenso, anima, acompanha e é alimento.
Acolhe, abraça, arrepia, cala.
Aprende, ensina, e volta a aprender.
É palavra, silêncio e ação.
Dança, rasteja, voa, implora.
É, foi e será...Simplesmente o AMOR.
El amor es fuego inagotable, fuente de toda inspiración, basta recorrer la literatura para descubrir cientos de escritos en su nombre: tragedias, dramas, comedias, novelas, poemas, cuentos. En cambio pocas veces el amor es tapa de diarios y revistas. No es noticia, aunque sea el motor que todo lo mueve.
Puede disfrazarse de mil colores, vestirse de blanco o andar en harapos. Es extraño es tan antiguo como la humanidad y a veces esta parece desconocerlo.
Es omnipresente, pasado, presente y futuro, aunque todavía en algunos rincones del planeta se desangre, y algunos jueguen a vencerlo.
Nos antecede y nos precederá.
Creo, afirmo, proclamo como primicia universal: El amor es una realidad y es oportuno festejarlo. Ya sea como parejas, como madres e hijos, amigos, vecinos, maestros, escritores, ancianos y jóvenes, religiosos, ateos, soñadores y pesimistas…, humanos, naturaleza entera, universo: celebremos al amor!!!

Norma Lugo


O amor é fogo inesgotável, fonte de toda inspiração, basta percorrer a literatura para descobrir centenas de escritos em seu nome: tragédias, dramas, comédias, romances, poemas, contos. Em troca, poucas vezes o amor é capa de jornais e revistas. Não é mais notícia, ainda que seja o motor que a tudo move.
Pode distaraçar-se de mil cores, vestir-se de branco e andar esfarrapado. é estranho e tão antigo como a humanidade e às vezes esta parece desconhecê-lo.
É onipresente, passado, presente e futuro, ainda que, todavia, em alguns cantos do planeta esteja a sangrar, e alguns se jugam capazes de vencê-lo.
Nos antecede e nos precederá.
Creio, afirmo, proclamo como primícia universal. O amor é uma realidade e julgo oportuno festejá-lo. Seja como pares, como pais e filhos, amigos, vizinhos, mestres , escritores, idosos e jovens, religiosos, ateus, sonhadores e pessimistas....humanos, natureza inteira, universo: celebremos o amor!

NORMA LUGO


DANILO VASQUES

Rascunho

Gostava de me crer romântico. E por isso quis uma trilha para acompanhar as linhas que a partir de agora esboço: Something. Pego o rascunho que tingi numa folha de caderno, releio e desprezo a tinta já gasta, permito-me apenas a introdução: O que os tolos sabemos sobre o amor? Tolos os que acreditamos na influência que tal palavra, amor, exerce sobre os homens que somos sem mesmo sabê-la dizer ao certo.

Pois é, creio no amor.

De pronto, lembro de um repentista alagoano que certa vez comoveu uma pequena plateia ao elencar uma carta fictícia como o suporte para versar sobre o tema em sua viola. Homem sábio, Mestre Verdelinho, cujo recurso peço licença de usar. Faço de uma carta não escrita modo de falar sobre o assunto:

Querida, saudades.

Hoje, comemoramos o dia dos namorados. Estou feliz, ainda que a vida de agora esteja difícil. Sei que a dor nos tem acompanhado, contudo, não seria assim o combinado silencioso? Amor, parece-me trazer em si uma porção de tristeza que insiste em nos lembrar quão bom é um acalanto. Dias dos namorados, os dias que tivemos.

Recordo o sol entre as árvores naquela fria tarde que nos cobriu por semanas, não esqueço a grama doirada e os pelos brilhando arrepiados no seu braço. Dia dos namorados, o primeiro beijo. O perfume que respinguei na carta que levei aos Correios. Amassei três folhas até acertar a letra. Dia dos namorados, o cheiro do pão quente que buscamos naquela manhã do outono passado, a bicicleta que sonhamos, o carro que batemos. Namorados que fomos antes mesmo de nos dizermos assim.

Penso em você. Esse violão que não traduz o que sinto, os dedos tortos, os acordes mal tocados. Ainda tenho aquele recorte, guardei seu poema, procurei sua canção, perdi o ingresso do cinema. Não esqueço suas lágrimas. Chão de estrelas. Não gosto de como você assopra o leite, adoro sua companhia num café. Terminei seu livro.

Queria lhe plantar um jardim, precisamos batalhar a casa, não pensemos nos filhos agora. Gostei do telefone azul. Preciso ouvir Sinatra, aquele show no Japão. Sem a nossa canção, não vou dormir. Você parecia feliz dormindo. Está frio. Amanhã acordamos cedo. Saudades de quem erámos no dia do ponto de ônibus. Você fica bem de rosa. Vamos ver o Chaplin hoje.

Também gosto de chocolate. Não vou perder o jogo. Gostei do seu cabelo. Vou faltar amanhã. Passa em casa. Sim, acredito. A grana está curta, a gente vai no ano que vem. Não tenho medo de avião. Piaf. Michael. Virgínia. Meio copo apenas. Preciso ir agora. Não esqueço.

Saudades.
Feliz dia dos namorados.



JÉSSICA LIMA

ABORDAGENS SOBRE O AMOR.

O amor... Parece fácil, mas tão difícil falar sobre. Sempre costumo dizer que o amor deveria ser como o que vemos através da arte: na pintura, na literatura, no cinema, na música, sendo esta última de uma força avassaladora e um poder tão grande. O que mais gosto na arte é que ela pinta o amor puro, o amor forte, o amor verdadeiro. O amor que, muitas vezes, falta na realidade. As diversas formas de artes trazem um amor tão sensível, tão profundo. Claro, a arte também mostra um outro lado, a falta de amor.

Quando se ama e se é amado, também há divergências - é a vida, afinal. Mas, o que falta é compreensão, conversa, justiça. Então, como dizer que é amor? Quando digo isso, me refiro aos diversos amores que há na vida: o amor de pais e filhos, de casais, de irmãos, de amigos. O amor para com o meio ambiente, com os animais, com as coisas, com o próximo. E é pensando nisso que digo que o mundo está sem amor. É só sair nas ruas para perceber este fato: é a praça que as pessoas jogam lixo, os animais abandonados nas ruas, aqueles que tentam superar os colegas de trabalho, em vez de cada um tentar superar a si próprio. É o noticiário com notícias cada vez mais absurdas de acreditar. O amor é humano, mas as coisas andam meio desumanas.

Os casais caem na rotina e esquecem que estão vivos, deixam palavras de carinho se perderem com o passar do tempo.
As pessoas buscam seus interesses, se rendem ao que o mundo capitalista tem a oferecer, e buscam isso, muitas vezes, passando por cima dos outros, não se importam com o próximo. Até o ‘amor divino’ é brigado por pessoas de diferentes religiões. E isso é amor? O amor não é egoísta, já dizia a Bíblia.

A rotina nos deixa tão voltados para nós mesmos que não percebemos o mundo ao nosso redor. Mas o mundo está acontecendo, e temos que olhá-lo com atenção. Falta solidariedade nas pessoas. O dinheiro é o que impera. Desde que o mundo é mundo, matam-se milhares de pessoas por causa de dinheiro.

Muitos namoros se abalam pelas traições, pelas mentiras, pela desconfiança. Os namorados esqueceram o que é fazer um piquenique no parque; As pessoas cansadas, de tão cansadas, deixam o amor para outro dia qualquer. O stress levou o respeito, a paciência.

Claro que nos dias de hoje ainda vemos o amor dentro de uma família, o amor inabalável de uma mãe, de uma esposa, de um amigo, de um filho, de um namorado. Não intento generalizar.

Esses dias terminei de ler “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez, onde as linhas contavam um amor que esperou mais de cinquenta anos para ser vivido, mas de tão forte, não desistiu nunca. Na música, um grande destaque é o Roberto Carlos, que para mim, é um dos maiores intérpretes do amor que há no mundo. São tantos os exemplos através dos tempos que fica difícil citar todos os pintores, escritores, compositores... É o amor perdido, o amor doado, o amor concebido, o amor feliz, a luta, a busca, a saudade. Pelo mundo afora, a arte em seus vários aspectos diz muito do amor.

E mais uma vez cito Edith Piaf, cantora francesa e compositora do “Hymne A L’amour” (Hino ao Amor), que quando perguntada sobre qual conselho daria a uma mulher, a uma jovem e a uma criança, simplesmente respondeu: “Ame”. Que fique o conselho de Piaf. Saber amar leva as pessoas a uma vida que vale a pena.

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PALAVRA FIANDEIRA reuniu jornalistas, publicitários, ativistas culturais, blogueiros, trovadores, artistas plásticos, escritores, e orgulhosamente apresenta a sua Segunda Edição Temática, lançada no Dia dos Namorados (No Brasil).
 12 de Junho de 2010. 
MARCIANO VASQUES

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