EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

domingo, 17 de outubro de 2010

PALAVRA FIANDEIRA - 43

PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 43  - 17/OUTUBRO/2010

NESTA EDIÇÃO:
DIRETAMENTE DE COLÔMBIA

PEDRO ARTURO ESTRADA

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL:
ROCÍO L' AMAR (CHILE)

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PEDRO ARTURO ESTRADA.
Falemos da inveja?



Dizem que a inveja é a mãe do ressentimento, um sentimento que não torce para que o outro seja melhor, mas sim que vá cada vez pior. Assim mesmo, esse sentimento também implica desagrado por não ter algo e, além disso, o anseio de possuir esse algo. Entretanto, geralmente, o invejoso não é um sujeito, sim um objeto material ou intelectual. Porém qualquer que seja o caso, a inveja é um sentimento que nunca produz nada positivo no que padece mas uma intransponível amargura.

Alcance psicológico

Uma das peculiaridades da atuação invejosa é que necessariamente se disfarça ou se oculta, e não apenas diante de terceiros, mas também diante de si mesmo. A forma de ocultação mais comum é a negação: nega-se diante dos demais e diante de si mesmo sentir inveja.


A inveja demonstra uma deficiência da pessoa, do ser invejoso, que não está disposto a admitir. Se o invejoso estivesse disposto a saber de si, a reconhecer-se, assumiria diante dos demais e de si mesmo suas carências.

A dependência unidirecional do invejoso com respeito ao invejado persiste ainda quando o invejado tenha deixado de existir. E esta circunstância - a inexistência empírica do sujeito invejado e a persistência, no obstante, da inveja com respeito dele descobrir o verdadeiro objeto da inveja, que não é o bem que possui o invejado, senão que o sujeito que o possui.


O invejoso acude para o ataque a aspectos dificilmente comprováveis da privacidade do invejado, que contribuiriam, de aceitar-se, a decrescer a positividade da imagem que os demais tenham dele (o invejoso tende a fazer-se passar pelo mais bem "informado", advertindo às vezes que "ainda sabe mais"). Porém aonde realmente direciona o invejoso suas intenções de demolição é à imagem que os demais, menos informados que ele, ou mais ingênio, tenham construído sobre bases equivocadas.

Como consegui-lo? Mediante a difamação, originalmente difamação. Com efeito, a fama é o resultado da imagem. A fama, por excelência é "boa reputação", "bom homem", "crédito". A difamação é o processo mediante o qual se objetiva desacreditar gravemente a boa reputação de uma pessoa.

Vamos agora onde está realmente o verdadeiro objeto da inveja. Não no bem que o outro possui, mas no (modo de) ser do invejado, que lhe capacita para o objetivo desse bem.


O invejoso é um homem carente de (algum ou alguns) atributos e, portanto, sem os signos diferenciais do invejado. Sabemos o que carece o invejoso a partir daquilo que ele inveja no próximo. Porém, além disso, esse discurso destaca a tática e implícita afirmação de que o atributo que o invejado possui se devesse possuir ele, e, mais ainda, pode declara que inclusive o possui, porém que, injustificadamente "não o reconhecem". Está é a razão pela qual o discurso invejoso é permanentemente crítico ou inclusive hipercrítico sobre o invejado, e remete sempre a si mesmo. Aquele a quem poderíamos denominar "o perfeito invejoso" constrói um discurso razoável, bem estruturado, pleno de observações negativas que há que se reconhecer muitas vezes como exatas.

Não apenas o sujeito invejoso é inicialmente deficiente naquilo que o invejado possui, mas que o fortalecimento da inveja, isto é, a dependência do invejosos com respeito ao invejado perpetua e agrava essa deficiência. Dizia Vives: " Com razão têm afirmado alguns que a inveja é uma coisa muito justa porque carrega consigo o suplício que merece o invejoso".

Uma das invalidades do invejoso é sua singular inibição para a espontaneidade criadora. Já é de por si bastante inibidor criar em e pela competividade, pela emulação. A verdadeira criação, que é sempre, e, por definição, original, surge de si mesmo, quaisquer que sejam as fontes das quais cada um se nutre. Não em função de algo ou de alguém que não seja a si mesmo. Pois, no caso de não seja assim, se faz para e pelo outro, não por si. Todo sujeito, enquanto construção singular é inimitável, é original, sempre e quando não se empenhe em ser como outro: uma forma de plágio de identidade que conduz à simulação e ao bloqueio da originalidade.

O tratamento eficaz da inveja acredita vê-lo o que padece na destruição do invejado ( Se pudesse chegaria inclusive à destruição física), para o qual tece um discurso constante e interminável sobre os negativos do invejado. É um dos custos da inveja, um autêntico desperdício, porque rara vez o discurso do invejoso chega a ser útil, e com frequência o pretendido efeito perlocucionário - a desqualificação da imagem do invejado - resulta num fracasso total.

A inveja tem sido frequentemente tema literário.

Dante Alghiere no poema de O Purgatório, define a inveja como "Amor pelos próprios bens pervertido ao desejo de privar a outros dos seus". O castigo para os invejados é que ele ao fechar seus olhos e costurá-los, porque haviam recebido prazer ao ver a outros caírem.

Na idade média o famoso caçador de bruxas, o cardeal Peter Beasbal, atribuiu à inveja ao demônio chamado Leviatã, um demônio marinhos, e que era apenas controlado por Deus.

Bertrand Russel sustentava que a inveja é uma das mais potentes causas da infelicidade. Sendo universal, é o mais desafortunado aspecto da natureza humana, porque aquele que inveja não apenas sucumbe à infelicidade que produz sua inveja, mas que além disso, alimenta o desejo de produzir o mal a outros.


José Antonio Marina sustenta certa nomenclatura afetiva em sua obra "O labirinto Sentimental", na qual divide os fenômenos afetivos em: afeto, sensações de dor prazer, desejos e sentimentos, subdividindo estes em quatro grupos segundo sua intensidade como: estados sentimentais, emoções e paixões. Este último grupo, las paixões, são definidas como "sentimentos intensos, veementes, tendenciais, com um influxo poderoso sobre o individuo". Seria neste grupo em que a inveja ficaria configurada.



O relato de Caim e Abel, que aparece no Gênesis da Bíblia.

Miguel de Unamuno afirmava que era o risco de caráter mais próprio dos espanhóis e escreveu para exemplificar seu romance Abel Sánchez, em que o verdadeiro protagonista, que significativamente não dá título à obra, ansioso de fazer o bem pela humanidade, apenas recebe desprezo e falta de afeto por isso, enquanto que o falso protagonista, que dá título à obra, recebe todo tipo de recompensas e afeto pelo que não fez. Como prevenir a inveja.



A inveja é consequência de dois processos psicológicos necessários para o desenvolvimento dos seres humanos: o desejo e a comparação. Para prevenir a inveja não se podem suprimir esses processos, mas sim deve-se controlar seus efeitos. Para que os dois processos mencionados produzam uma inveja sã, convém desenvolver habilidades que ajudem a se descobrir o que se sente e porque se sente: transformar o mal- estar emocional produzido pela inveja em um motor para conseguir o que alguém deseja ter, e controlar a hostilidade que tal situação pode gerar, evitando que se venha a se deteriorar as relações com os demais. A inveja é incompatível com a empatia, que desempenha um papel importante no desenvolvimento na compreensão de si mesmo e dos outros. Para prevenir a inveja é importante se tratar de estimular a empatia, e, através dela, a capacidade para se pôr em lugar do outro. A inveja se produz sempre em situações que são vividas como uma ameaça. Por isso, para preveni-la é preciso favorecer a confiança básica em si mesmo e nos demais, desenvolver expectativas e modelos positivos sobre as relações sociais e adquirir habilidades para responder à tensão emocional. Características que começam a se desenvolver desde a primeira infância. Um dos melhores remédios contra a inveja é aprender a confrontar diversas situações com otimismo, concentrando a atenção nos aspectos positivos da realidade. A inveja se produz sempre em direção à pessoas que ocupam posições próximas, em relações que se esperam de igualdade, porém que se convertem em de desigualdades ( assimétricas) , nas que se ocupa um posição inferior que não se aceita. Por isso, para se prevenir a inveja é preciso estabelecer desde a infância relações adequadas com os iguais. Para prevenir a inveja deve se aprender a relativizar as diferenças sociais e adquirir habilidades para se eleger adequadamente com quem, como e quando comparar-se, para evitar que tal comparação tenha um efeito destrutivo ( Extraído de "Que é a inveja?--- Uma enfermidade? de Beatriz Farah)

Frases sobre a inveja.

A inveja nos homens mostra quão miseráveis se sentem, e sua constante atenção ao que fazem ou deixam de fazer os demais, mostra o quanto se aborrecem. (Arthur Schopenhauer)

Castiga aos que têm inveja fazendo-lhes bem. ( Provérbio árabe)

A inveja é tão fraca e amarela porque morde e não come. ( Francisco de Quevedo)
Enquanto nasce a virtude,, nasce contra ela a inveja, e antes perderá o corpo sua sombra que a virtude sua inveja. ( Leonardo Da Vinci)

A inveja é mil vezes mais terrível que a fome, porque é fome espiritual ( Miguel de Unamuno)


O silêncio do invejoso está pleno de ruídos, ( Khalil Gibran)


O tema da inveja é muito espanhol. Os espanhóis sempre estão pensando na inveja. Para dizer que algo é bom, dizem: "É invejável". ( Jorge Luis Borges)

O invejoso pode morrer, porém a inveja nunca. ( Molière)

A inveja, o mais mesquinho dos vícios, se arrasta pelo solo como uma serpente. ( Ovídeo)

Branco de inveja


Se olharmos retrospectivamente o recorrido da inveja, ciúmes, entre escritores/ poetas, tem abarcado quase a totalidade da história literária, desde diversas perspectivas, que não é outra coisa que sua concepção e todo o que se desprende disso, um quebra-cabeças com todas sua peças. Naturalmente, consciente deste atoleiro, necessita-se primeiro localizar as dobras e despregá-las com essa habilidade de observar seu vestiário, , sua indumentária, visto que isso não é uma questão de intuição mas sim de reflexão.


A inveja, a encontramos em todos os campos onde estão o homem e a mulher, isto é, em qualquer atividade literária, educativa, crítica literária, filosofia, sociologia, entre outras, manifesta seu antagonismo, confrontações, esse desejo potencialmente provocador, ainda que isto não signifique que em si mesma seja má, se fosse sã, se os desejos não fossem fixados, permanentemente em uma espécie de obsessão ou mania, com sua matizes e formas, que fazem ver ao outro e à outra como rival , como objeto cobiçado.



Alguém disse - digo porque não relembro seu nome - que a forma em que concebe e interpreta o mundo o ser humano é a partir de sua convivência com outros membros da comunidade em busca de um bem comum, ainda que exista quem imita ao outro para obter a mesma coisa que ele ou ela têm. Se imitam e adotam valores, se imitam e adotam ações, se imitam e adotam perfis ou traços peculiares de outra pessoa, se imitam e adotam correntes literárias e conjuntos de ideias e estilos que são próprios de cada criador/a, se imitam e adotam inclinações e práticas sob o amparo da arte. Então o risco viria a ser não perceber o disfarce da inveja, nesta sorte de onda expansiva abertas às páginas literárias em internet.


Um conto para pensar


Assassinato no circo.

Eram gêmeos idênticos e haviam nascido em um circo, fruto do amor de um par de trapezistas.
A vida de um deles girava ao redor desse mágico cenário de arena e havia conseguido fama como palhaço. O outro era o exitoso proprietário do circo.


Desde pequenos, como uma brincadeira, fizeram um acordo: substituírem-se em seus papéis, e nunca algum havia notado a diferença. Não obstante, não reinava o amor entre eles senão a inveja, e ainda que ambos à sua maneira eram famosos, esse maligno sentimento havia conseguido obscurecer seus corações.


Numa fria e escura noite de inverno, depois da função, quando todos estavam entregues ao repouso, uma afiada lâmina de faca brilhou à luz da lua. O Certeiro impacto, cortou o coração de um dos irmãos que descansava confiante.
O outro não chorou no funeral, porém no fundo de seus olhos se podia ver um sombra.
O crime nunca se esclareceu e tampouco nunca se soube com certeza, quem dos dois havia morrido.


Que papel desempenha a inveja nas relações interpessoais para o êxito ou fracasso de seus vínculos?


Interessante assunto. Matéria ou ideia sobre a que vamos conversar nesta ocasião.
Razão pela qual temos convidado a Pedro Arturo Estrada, poeta colombiano. Sem dúvida será uma experiência em fins de aprendizagem conhecer as opiniões que sugere a entrevista para um tema que não apenas provoca conflito, mas, como um fantasma - a inveja- atua secretamente violando direitos humanos, intelectuais e outros, em seu próprio benefício. A palavra inveja procede do vocabulário latino "invidere", que significa "olhar com olhos maus". Entretanto, nós temos olhado com bons olhos a sensação de admiração que sentimos por Pedro Arturo Estrada para convidá-lo a conhecer seus pensamentos, razões e reflexões sociais e culturais para tratar de conseguir um rumo a nosso objetivo. Que não é um propósito hostil uma insídia, nem nada que suponha conotações negativa nem julgamentos. Em suma, estender, expandir e difundir, através deste ofício de escrever, um dos pecados capitais.

1 - A inveja, este sentimento tão antigo e tão comum é um dos mais difíceis de ser eliminados, e o que mais tem causado sofrimento à humanidade. Que pensa você, Pedro Arturo Estrada, desta percepção?

A inveja é o "pesar pelo bem alheio", disse a sabedoria, porém penso que é co-natural ao ser humano, desde sempre. Como o desejo, como o amor, o ódio, o medo. Todos eles causas de sofrimentos sem fim.
Sentimentos, emoções que conformam para o bem ou para o mal nossa condição. Que a inveja, segundo a Bíblia, tenha provocado o primeiro assassinato, e seja a origem secreta das guerras, dos ódios mais profundos , não deveria nos surpreender tanto. Estamos maduros para aceitar isso, para saber como contestá-la e inclusive começar a exorcizá-la dentro do âmbito de nossas relações. Porque a inveja é algo infantil, algo próprio da falta de maturidade, inclusive da imbecilidade senão mental pelo menos moral. Porque há também os imbecis morais.
Alguém diria que se trata de um sentimento oposto à admiração , porém no fundo, creio que seja também uma forma que tem a inferioridade de reconhecer-se ante o valioso, ante o mérito alheio. Daí ao perigo da lisonja, do elogio gratuito, da hipócrita admiração que costuma dar-se, às vezes, com um excesso enjoativo. "Não me admire tanto, não me queira tanto, não me elevem tanto" teriam que dizer muitas pessoas hoje em dia para defender-se. A pior inveja é aquela que se oculta sob um disfarce da cortesia, da amizade por conveniência, do amor calculado.




2. A inveja tortura a quem a tem, esquenta o coração, seca as carnes, fatiga o entendimento, rouba a paz de consciência, faz triste os dia da vida e distancia da alma o contentamento e a alegria". Como definiria você a inveja?


Parece-me curioso que esses sintomas da inveja coincidam com os do amor contrariado. É quase uma descrição quevediana do ciúme. A inveja é uma irmã de sangue do amor; é a tia cricri, solteirona e amargurada do amor. O invejoso, um enamorado ao contrário.


3. Os autores clássicos estão de acordo em afirmar que os invejosos estão condenados a odiar de forma insaciável, pois o ódio provocado pela ira se apazigua facilmente mediante a reparação, porém o ódio nascido da inveja não se amansa nem admite um pedido de desculpas. Pergunto-lhe: em que âmbitos pensa você que a inveja se desenvolve com mais força?


Em todos os âmbitos: sociais, profissionais, religiosos, artísticos...e diria inclusive que até nos âmbitos celestes. Recordemos a queda de Lúcifer do paraíso. A rebelião dos anjos contada por Milton. A inveja nos abriu as portas do inferno, da morte, poderíamos dizer.



4. Compara-se a inveja a um câncer silencioso ou a uma úlcera afetiva que corrói a convivência e e remove a paz. Qual é sua metáfora?


Me vem a mente a metáfora de Quevedo: "A inveja é fraca e amarela porque apenas pode morder, porém não come". É isso. Um animal que nos devora interiormente, um fogo gelado que congela o coração enquanto é objeto da inveja se ergue triunfal entre os olhos. Uma raiva impotente, escura e silenciosa que afoga a alma; um sangramento no subsolo do ser sob o esplendor do dia: um envenenamento secreto do espírito pela luz que lhe penetra dolorosamente de fora. Dependência, frustração, desejo masoquista de decompor a água que ampliará a sede. O invejoso deseja privar do bem que crê merecer para si ao possuidor legitimo, entretanto também deseja destruir ao possuidor, tomando seu lugar. O invejoso se crê inclusive vítima de uma injustiça que urge ser reparada.


5. Antístenes, dizia que "a inveja consome ao invejoso como o óxido ao ferro". Ovídeo, em sua obra Metamorfoses, nos apresenta a inveja como uma divindade terrível e venenosa, depreciada e odiada pelos mesmos deuses. Há alguma outra tese de algum escritor que lhe interesse compara conosco com respeito ao tema?



Já se disse o suficiente sobre isso, imagino. É um tanto redundante adicionar mais frases retumbantes a respeito e só é útil, acaso, nos afastar um pouco das admoestações ocas, bem intencionadas, ao estilo dos manuais de "auto-ajuda" tão em voga. Melhor é reconhecer-nos de uma perspectiva menos idealizada inclusive, de nossos méritos. Baixar um pouco a vaidade do ego, e até acreditar que no fundo os invejosos fazem parte do "equilíbrio ecológico". Porque o céu está repleto de globos de fantasia e a natureza costuma prover-se, como menina travessa, ajuizada. No fundo, o que penso é que devemos relevar essas coisas da inveja com menos pesadelo e sim com mais humor. O antídoto contra a inveja é o riso.



6. Convém recordar que, na atualidade, a inveja tem sido objeto de constantes debates e palestras, especialmente nos meios artísticos. Pensa você que é um atavismo, uma carga, um endosso que vem com o ser humano, a propósito de Caim e Abel, e que tem como cenário o âmbito da cultura, entre outros?



A cultura, entendida como um produto e uma expressão da vida social tem por força que estar entrelaçada por sentimentos e emoções de todas as espécies, os mais nobres e os mais vis também. Não poderia conceber-se uma cultura meramente "pura", "santa", "inocente", isso é sumamente perigoso como tem demonstrado de forma sangrenta a história das utopias religiosas e políticas. O que lhe dá expressão, vigor, interesse, força, variedade, legitimidade, identidade e beleza à cultura e suas expressões, é precisamente essa amálgama de substâncias, esse entrecruzamento de matérias imprevisíveis. E todo é atávico, até o desejo de perfeição e de beleza.


7. Ainda que saibamos que nada pode saber-se com certeza, mesmo assim as contendas exageradas entre poetas são conhecidas... estou pensando em meus compatriotas Pablo Neruda e suas rivalidade com Vicente Hidobro, Pablo de Rokha, e outros, especialmente, pelo gênio e qualidade de suas poesias. Em seu país se tem dado estes debates pelo assento da poesia que defendem com unhas e dentes os poetas?


É inevitável em todos os países e épocas a "guerra entre poetas", como dizia Gombrowicz. Não há uma batalha mais aferrada, incansável e malévola ao largo dos séculos. Recordemos a animosidade entre Lope e Cervantes ou a guerra dos vanguardistas de ontem e de hoje em quase todas as disciplinas. Na Colômbia, as invejas, os ressentimentos, as críticas mais exacerbadas nunca faltaram entre os diferentes grupos. O Festival de Poesia de Medellín, por exemplo, suscita toda classe de ataques, inclusive por conta dos mesmos poetas que alguma vez participaram dele. As diferenças ideológicas primam sobre as posições estéticas, o insulto pessoal, a calúnia entre uns e outros são o pão cotidiano. Poucas vezes a crítica se ocupa das obras em si mesmas. Em troca, são as desqualificações ad hominen o que se habitua.


8. Crê você que possa dar-se a amizade entre os Internautas? Existem os amigos virtuais?


Não sou tão otimista. Na rede tudo está por definir-se ainda. Há de tudo e para todos, porém cada vez mais se distorce a palavra real, se perde o sentido da proporção, a harmonia da linguagem pessoal, básica, poética, sincera. Tudo tende a tornar-se um território de ninguém, muito funcional, muito efêmero e mecânico para meu gosto, donde o padronizado, o anônimo é lei.
Entretanto, poderia ser que uns quantos alcancem a estabelecer um meio dessa extraterritorialidade, uns nexos excepcionais. Não o descarto.


9 - Neste universo de discursos e de atos artísticos, - familiarizado já com estes modelos-, como reconhece você o filantrópico que oferecem os diferentes blogs de poesia na Internet?



É um belo esforço, uma intenção por salvar precisamente essa palavra pessoal, como reservatórios da memória, do sentimento. Os blogs, sem dúvida, estão sendo substituídos pelo twitter e o chat descontinuo e fugaz, onde a instantaneidade fragmenta o discurso coerente, impede o pensamento, a reflexão profunda e sustentada. Creio que antes de nos precipitar à robotização absoluta do pensamento teledirigido, somos os poetas, os filósofos, os últimos moicanos da cultura tal como até agora tem sido entendida.

10. Por outra parte, não existem opiniões fechadas que nos levem a um certeiro pensamento sobre poesia, naturalmente gostaria de saber qual é a gênesis, seu princípio, o gérmen, seu embrião literário, o que o "condena" a escrever.

Só a necessidade de encontrar na linguagem minha própria explicação da vida que vivo, do mundo que fatal e milagrosamente me tem correspondido assumir. Essa constatação não se prende unicamente ao que trato de "escrever", obviamente, mas, sobretudo, ao que trato de "ler e compreender" no infinito texto que a arte, a história, a natureza, o pensamento e a literatura humana têm me oferecido desde aquela manhã de minha infância em um pequeno povoado perdido entre montanhas quando descobri os livros após escutar os contos da avó e de meus pais.



11. Em que pé acredita que esteja a poesia em seu país?


Com exceção de umas poucas vozes realmente originais, como a de Aurélio Arturo, falecido nos anos 70; José Manuel Arango, falecido em 2002; Rogelio Echavarría, Álvaro Mutis, Giovanni Quessep, Jaime Jaramillo Escobar, Juan Manuel Roca, Darío Jaramillo Agudelo, Piedad Bonnett, entre outros, a voz da poesia colombiana tem sido um tanto monofônica durante anos... Porém, já está sintonizando-se com a grande polifonia de América e do mundo faz um bom tempo.


12. Finalmente, deixo o espaço aberto para que exiba seu coração nesta entrevista.



SE CHAMA POESIA

Homenagem a Aldo Pellegrino

Se chama poesia tudo aquilo que fecha a porta aos imbecis, sim.
Tudo aquilo que abre, em troca, a visão e o segredo do mundo aos inocentes, àqueles que apostam tudo a nada, os que não guardam, não se cuidam, não se escondem e não calculam e evidentemente estão sempre ao ponto de encontrar como por casualidade inclusive o amor, a morte, a vida mesma.
Se chama poesia tudo aquilo que tira os pés após o impossível o que revela o outro lado das coisas,
o que canta ao final do desastre sem motivo algum. O que te joga fora de teu ser de forma inclemente ou invade em silêncio - maré estranha - o interior até afogar-se os olhos.
Se chama poesia tudo aquilo que estala de golpe com a palavra, sem aviso e sem lógica. O que não pode explicar-se propriamente aos prontos, aos que sempre têm a razão.
Se chama poesia tudo aquele que volta logo do exílio, a derrota, os medos. A luz que um dia retorna aos quartos fechados da velha memória; a antiga, recuperada simplicidade dos dias. O vento que reaviva uma chama na noite. O que nos sobrevive, o que sempre nos deixa mais cá da ferida, a perda mais profunda, como uma última, calada, oculta fortaleza.

* (Do libro: Oscura edad y otros poemas, Universidad Nacional de Colombia, Bogotá, 2006)




BIOGRAFIA


Pedro Arturo Estrada Z. - Girardota (Ant.), Colombia, 1956. Poeta, narrador, ensaista e coordenador de oficinas literárias. Tem publicado: Poemas em branco e preto (Ed.Universidad de Antioquia, 1994) Fatum (Colección Autores Antioqueños, 2000), Escura idade e outros poemas
(Universidad Nacional de Colombia, Bogotá, 2006) e O tempo total (Universidad Externado de Colombia y Revista El Malpensante, Bogotá, 2009).
Prêmio de Poesia Ciro Mendía en 2004 e Luciano Pulgar en 2007.
Colaborador de diversas revistas de poesia e jornais do país, assim como de diversos eventos e
encontros, como o Festival Internacional de Poesia de Medellin. Seus textos têm aparecidos em diversas antologias nacionais e do exterior . Poemas de outra/parte é seu livro que já está no prelo, onde recolhe novos poemas e textos que haviam ficado de fora de suas publicações anteriores.
De sua poesia escreveu José Manuel Arango: "Seus poemas são os de alguém que viveu uma experiência da que alguém sente que volta com algum desencanto: alguém que deixou atrás, para dizer com um belo verso seu, " O sonho mal sonhado da juventude", e agora busca saber ' O que realmente nos pertence é o que temos perdido'. Com trechos amargos, sua poesia se orienta certamente até o mistério, como se tratasse de decifrar ' a aritmética exata da morte' porém também ' Os sinais que Deus escreve/em penumbrosos quartos'.




LOCUS SOLUS

I

Bem vinda, perfeita irrealidade,
diluição da certeza na fumaça angelical, espelhismo,
claridade mutante até a treva absoluta.
Bem vinda inconsistência do tato, visão duvidosa
que nos salva do dogma,
de crer que cremos.

Bem vinda, refração íntima da luz
no núcleo seroso do câncer que aniquila
a fé, o confiado vigor do músculo
e o impulso sensual.

Bem vinda, fatiga sábia
que começa a crescer mais densa,
tranquila nas artérias.

Amiga que dá tempo
depois de todo o tempo.


II

Já que permites ir a nenhuma parte e ao centro
da nebulosa onde só há silêncio.
Já que deixas reinar no sancta sanctorum do corpo
o vago sol da náusea, já que deixas morrer sem ruido
esse animal voraz que dentelha sob a pele: o amor e todas suas crias deletérias,
já que afixias a raiva,
já que apodreces antes que alcancem a brilhar
os perigosos, ambiciosos oníricos do cérebro,
já que humilhas o sangue com a mão invisível
que também poda os jardins, já que sobes pelos dedos afinando a música
que perderá os sentidos, já que
dobras o primeiro olhar
que busca afora a saída do labirinto, já que anda podem, nada podemos ante ti,
contra ti,

Não deixes livres então
nenhuma fissura
nenhuma ferida esquecida

Nenhum pavor solto.



ENQUANTO CIORAM EMUDECE

I

Nos picos do desespero
também o silêncio,
a embriaguez do silêncio.

Nos picos da lucidez
também a alegria
de não ser nada.

Nos picos da solidão
também o riso,
a máscara do riso.

Nos picos do vazio
o arredondamento de um corpo,
o desejo.

Nos picos do desejo
também o arredondamento
de seu vazio.



II

Depois não há mais que o suave balbúcio,
escutar e calar,
não acrescentar nada,
não concluir nada.

Há um momento de cruzes,
um tranquilo e frágil instante de maturidade íntima.
Admissão do outro.
Dimensão serena do eu
sob o sol frio de novembro.

Há uma ocultação,
um desligamento suave
que nos salva (ou nos perde)

- ao fim.



O BANQUETE


Algum dia a vida
será tão insípida como um vinho aguado.
Algo velho, algo rançoso arruinará o banquete
dos sonhadores vindos de todos os lugares.
O cansaço virá invadindo os olhos, as bocas,
as mãos dos convidados, uma ligeira tontura
aflorará os gestos. Niguém, entretando,
ousará erguer-se, permitir-se a grosseria
de um arroto, uma arcada, nem sequer uma tosse
ou um pigarro desatinado na metade do silêncio.
E a tensão acumulada que sem remédio
inchará os corpos até o insuportável
explodirá na felicidade demente
por séculos mantida à distância.

Beberá do vinho azul de um tempo
disputado ás lágrimas, se fartará
a vida da vida mesma...

Porém os poetas, ah, os poetas
às feras.




NOTURNO

Os passos, lá fora, a noite,
a aberta extensão do mistério
em sua profundidade mesma.
a maravilhosa rede do céu.

O estremecimento sempre novo
do desejo e seu súbito objeto,
a mão, o olho, a língua,
a voz que levanta essa palavra ao ar.

Mas também
a boca de sombra que te nomeia,
te fala em teu próprio idioma
e te conta do outro,
te grita e te revela
o estranho que todavia és.







REGRESSO

Este lado do horror
temos voltado a nos olhar.

Trazemos à casa um pouco de luz suja
recolhida na rua.
Abrimos uma janela
frente ao vazio
como se fosse um jardim.

Tomamos o café
lemos o jornal dominical
ignorando a hora em ponto em que tudo
começou a ladear-se,

- a ir-se.




RECONTO

É o dia a dia
sem perguntas demasiado escuras.
Só mínimas cerimônias,
minúcias, salvadoras rotinas.

E o sol sobre o corpo
como o ouro mais vivo
como o único abraço.

O ar que nos resta.
Cochilar sob as árvores finais
do parque rançoso e sujo.

Ler sob a desmemória,
não olhar demasiado
esse poço de sombra
que nos chama e cresce
sem freios
sob os pés

- e o silêncio.







DEIXA-TE IR, DIZEM


Insidiosas vozes do dia
novamente te reclamam.
Giras também
e te diria o êxtase,
a primeira manhã,
o vibrante fulgor
dessa palavra.

Deixa-te levar como a um menino,
te sussurra o anjo,
a voz da árvore próxima.

Deixa- te ir
suba também
dizem lá em cima.

Porém tu resiste
preso ao último fio
de incerteza

- insalvável.




LUGARES DO CORPO

Para Javier Naranjo

Cego lugar
donde cada palavra despe
o doloroso resplandecer do instante.

Donde estremece
o infinito que não diz
enquanto o corpo
vagueia entre ondas de luz
e sombra,

- silencioso.






ANDARILHOS

Nem rotas nem sinal certos:
Ir apenas adiante,
sem voltar atrás
a cabeça,
porque tampouco fica
cabeça ou apenas
uma sombra,
um vento frio,
uma fogueira
sobre os ombros
e os passos atados
ao medo que se abre

- debaixo.




OUTRA VEZ AS PALAVRAS

As mesmas palavras,
animais de ar,
mordentes, ávidas
escalando o nada.

Porém também aquelas
que todavia iluminas de noite
como tesouros de pirata:

Entrudo, distâncias, opalescência,
imprecisão, êxtase,
pântano, alvorecer.

Palavras
renascidas do pó,
palavras abandonadas

- Abandonando-nos.

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ROCÍO L' AMAR

Entrevista realizada por Rocío L' Amar
Jornalista, poeta, escritora e Presidente da 
Sociedade dos Escritores de San Pedro de La Paz (Chile)
É correspondente e colaboradora de PALAVRA FIANDEIRA
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PALAVRA FIANDEIRA
Fundada em 25 de Outubro de 2009
por Marciano Vasques
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domingo, 10 de outubro de 2010

PALAVRA FIANDEIRA - 42



 PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1- Nº 42 - 12/OUTUBRO/2010

NESTA EDIÇÃO:
CRIANÇA!

CONVIDADOS:

 __________________________


LA ILUSIÓN DE LOS AÑOS NIÑOS
(Que hable la historia)

ROCÍO L´AMAR


La verdadera patria del hombre es la infancia.
Rainer Maria Rilke

La infancia tiene sus propias maneras de ver, pensar y sentir;
nada hay más insensato que pretender sustituirlas por las nuestras.
Jean Jacques Rousseau

Los niños no tienen pasado ni futuro, por eso gozan del presente,
cosa que rara vez nos ocurre a nosotros.
Jean de la Bruyere


La infancia ha sido influida por mudanzas políticas, culturales y religiosas, y obedeciendo a la localización geográfica en la que nos ubicamos, y lo evolucionado de los padres.

Sin embargo, la historia de la infancia, a lo largo de los siglos, desde el punto de vista pedagógico, no ha tenido una biografía propia. Sabemos de la infancia, «dice Lloyd de Mause», a través de diarios, pintura, literatura, legislación y escritos dejados como testimonio del cuidado de reyes y personajes significativos. Todo esto se ha plasmado en obras llenas de realismo mágico y complejidad.

Cabe subrayar que l@s niñ@s fueron utilizados por parte de los adultos en todas las épocas. La introducción de la castración y la circuncisión en los varones, por un lado, y la infibulación o ablación en las niñas, por otro. El paradigma sexual será relevante y constante a lo largo de los siglos al igual que el infanticidio, y la venta de órganos.

La entrada de las religiones, produjo algunos cambios, desde la época romana hasta la Edad Media. Los romanos aportan como positivo dos cualidades: tolerancia respecto del crecimiento y disfrute de la infancia como parte de la vida familiar, una mentalidad que se produce también en la antigüedad en general. Les preocupaba la fecundidad, la patria potestad y las normas de educación pero introducen una serie de leyes que muestran una conducta cruel con respecto a l@s niñ@s.

En la era cristiana no mejoró en absoluto el estado de l@s niñ@s, pero como nuevos adeptos desempeñan una función importante en el mundo cristiano. La responsabilidad del cuidado de l@s niñ@s recae en el padre que debe educarlos en la ética y virtud. Se tolera el castigo físico, pero con mesura. En esta época toma gran relevancia el tema de los abusos que se llega a legislar. Se ve claramente la presencia del infanticidio y del abandono, no obstante la Iglesia comienza a presionar para que se promulguen leyes que eviten los males de l@s niñ@s, incluido el aborto.

En la Edad Media continúan los abusos pese a la presión de la Iglesia, cambia en esta postura, el papel de la madre en la crianza. La Iglesia continúa castigando el aborto pero de manera menos severa.

En el siglo IX al XIII, continúa la desatención, explotación y abandono de l@s niñ@s, unido a la alta tasa de mortalidad infantil y materna. Se produce en cambio un inicio en el rechazo de estas prácticas, aunque se seguía considerando al/la niñ@ como una posesión. Las religiones surgidas en la época lejos de trasmitir un sentido de compasión actuaron como meros déspotas a la conducta infantil.

En el siglo XIV y comienzo del XVII, el destino de l@s bebés suponía un trauma para l@s infantes acostumbrad@s a las nodrizas. Había una gran problemática con el sistema familiar ya que se enviudaba pronto y se producían nuevas familias. La preocupación por l@s hij@s de las viudas y sus padrastros y hermanastr@s fue muy patente en la época. La madre se convierte en el eje de la educación. Incide sobre los hábitos de l@s hij@s, controla sus inquietudes, los educa para adaptarse ante la adversidad. El padre sólo entra en escena para los períodos de enfermedad y calamidades o cuando la salud de la madre impedía sus labores. El padre imponía la disciplina y la corrección, y esto era apoyado por la Iglesia y la sociedad.

En los siglos XV y XVI, l@s niñ@s poseen la misma importancia que l@s ancian@s y las mujeres, la infancia era considerada un estado que hay que soportar, pero no gozar de ella. L@s niñ@s eran valorad@s como la escala más baja de la jerarquía social. Si el/la niñ@ era noble, lo más importante era el sexo. Predomina la idea del/la niñ@ inocente sin actividad sexual y la apología del bautismo como liberador de las impurezas. La bonanza económica de la época hace que l@s niñ@s reciban más cantidad de cuidados y educación. Se produce en esta época el nacimiento de la pediatría moderna y se toman diversas precauciones tanto en el período de gestación como en los partos. Se introduce al padre en la sala de alumbramiento, a mediados del XVI, y se acepta como profesional la figura de la partera que debe suministrar una serie de cuidados tanto al/la niñ@, como a la madre. Se juzgan numerosos casos por esta época, lo que nos hace ver, la importancia que empieza a tener para la sociedad la figura del infante. Los padres comienzan a mostrar interés por la educación de sus hijos y además ésta serviría para el ascenso en la escala social. Se basa en una Educación humanista y clásica. Los adultos compartían todo con l@s niñ@s, incluso los juegos. La idea de que el/la niñ@ se echaría a perder si no tenía disciplina, fue firme a lo largo de este período. Pero pronto se toma como poco efectivo y se inicia la manipulación psicológica por medio del miedo. Renace el ascetismo religioso que provoca una gran influencia en los hombres y mujeres instruidos a comienzos del siglo XVII. La potestad del padre empieza a ser considerable y aparecen leyes que permiten el asesinato de hijos no deseados. Sin embargo, serían pocos l@s hij@s ilegítim@s que gozasen del derecho a la vida.

En el siglo XVIII, se produce un cambio de actitud de l@s hij@s con respecto de los progenitores y viceversa. El/la niñ@ al hacerse adult@ busca una independencia, esto provoca un cambio de actitud en los padres. Se reduce el infanticidio pero prosigue la costumbre de enviar al/la niñ@ fuera del hogar: a una escuela, un pariente o, cuando adolescentes, se les confía a un maestro. Aparecen las guarderías como tal y muchos padres llevan a sus hij@s, por consiguiente, se multiplica la flojedad por el cuidado de l@s hij@s. Pero se produce también un deseo inconfesable de aferrarse a l@s hij@s, incluso en la edad adulta. Esto es una contradicción que no ha sido posible explicar pero que se hace latente. Asimismo, algunos padres y madres comienzan a tener un comportamiento más racional, juegan con l@s niñ@s, celebran sus cumpleaños,... En los primeros años se llevan a cabo una serie de propuestas para acabar o frenar la mortalidad infantil, se crean hogares para huérfanos e hijos ilegítimos. El comportamiento de los padres en esta época se marca por el distanciamiento de éstos sobre lo@ hij@s. Por necesidad, la mujer, trabaja, por lo que no puede estar muy vinculada a l@s pequeñ@s. Pero siguen los asesinatos e infanticidios y una actitud ante el comportamiento muy restrictiva. Sin embargo esta situación cambiaría cuando a los individuos se les dio un poco de autonomía, la experiencia escolar y el servicio al Estado, ya no se acepta la autoridad absoluta de los padres.

El desarrollo de la infancia en el siglo XIX nos ilustra una realidad casi cercana, la aparición de necesidades para l@s niñ@s. Se continúa con las amas de cría. Seguimos en una época de puritanismo religioso. Los castigos corporales pierden posiciones pero continúan y a éstos se añaden los castigos psicológicos. Durante este siglo se amplió la responsabilidad del Estado ante los hijos ajenos. Este siglo se puede considerar como el comienzo en que los poderes públicos empezaron a pensar en l@s niñ@s como tales, con necesidades. Esto sería el inicio del cambio hacia la sociedad que conocemos.

En el siglo XX se desarrolló un gran interés por la infancia, como lo anticipó Ellen Key, que se evidenció en el desarrollo de numerosas instituciones, formas de socialización y patrones culturales que tuvieron a l@s niñ@s, como su centro de atracción. A lo largo del siglo XX, la doctrina de los derechos del/la niñ@ traspasó la frontera de la discusión intelectual para representar una nueva visión que ha implicado cambios trascendentales, en la forma de concebir el lugar que ell@s tienen en nuestra sociedad. Paradójicamente esto se desarrolla en momentos en que el número de niñ@s ha disminuido notablemente debido al control de la natalidad. Y en este siglo, en el ámbito de la literatura, surge la narrativa infantil, que tuvo importantes cultore/as, como Gabriela Mistral en Chile, Marcela Paz, Hernán del Solar, entre otr@s. La socialización a través de la lectura, programas de radio y televisión, videojuegos y la expansión computacional comenzó a erradicar el ocio infantil.

Educad a los niños y no será necesario castigar a los hombres.
Pitágoras

No obstante la concepción histórica de la infancia lleva a pensar en lo mucho que nos acercamos a los animales o lo poco que nos parecemos a la hora de proteger a nuestras crías. El abandono y la desolación son constantes a lo largo del tiempo y son vistos como una realidad aceptada. La Iglesia casi siempre está presente cuando nos referimos a represión y trabazón de las inquietudes del alma. Siempre se ha intentado ver la cara positiva de la Iglesia, pero no hay que olvidar los continuos casos de pederastia y pedofilia que se dan en el seno del Catolicismo.


Rocío L' Amar
Presidenta Sociedad Escritores San Pedro de la Paz
Chile


CRIANÇA: 
UMA PLANTA EM FORMAÇÃO

MARIA THEREZA CAVALHEIRO

Criança é a semente que em solo fértil reverdece, transforma-se em planta e se alça à procura do sol.
A adolescência é a época da floração; a maturescência, o tempo dos frutos.
Como planta, deve ser bem cuidada, cultivada com carinho, protegida dos ventos e borrascas.
Deve receber nutrientes e ficar fora do alcance de predadores, de pragas...
No caso da criança, os predadores podem ser representados pelas más companhias, os colegas que induzem ao vício - como a bebida, o fumo, as drogas ilícitas.
Toda criança deve ser bem orientada, porque não tem ainda a noção exata do bem e do mal. Ela deve, aliás, aprender a ser boa, ser induzida a fazer ações positivas.
A criança por vezes não faz distinção do que é justo, do que não é. Por vezes grita, chora, por desejar o que não lhe convém.
Há criança que quer ser sempre o centro das atenções, e perturba os pais com modos inadequados, principalmente quando conversam com outras pessoas.
A criança deve ser ensinada a respeitar o próximo, ainda mais quando se trata de pessoas mais velhas. E aí se incluem os próprios pais (nunca permitir que ela lhes levante a mão, mesmo quando bebê!); em seguida os avós, tios, primos, professores, amigos...


O pequeno deve aprender desde cedo a dizer “obrigado”, ”por favor”, “desculpe-me”.
Muitos pais não se lembram disso, e muita criança não é dada a essas expressões, que não são mera etiqueta, mas demonstram bons sentimentos, contribuem para a formação do caráter.
De modo geral, as pessoas partem do princípio de que um petiz é sempre inocente. Não é bem assim. Há criança enredadeira, mentirosa, ciumenta, manhosa, que maltrata a babá e os pequenos animais da casa.
Se não for levada a ser boa, pode desenvolver um mau instinto. E mais tarde vir a ser aquele jovem-problema, que tantas vezes faz degringolar uma família.
Por tudo isso, os pais devem estar sempre atentos à educação de seu rebento. “É de pequenino que se torce o pepino” - diz o ditado.
Hoje em dia, há muito aluno que não respeita os mestres e os trata com falta de consideração. Que até diz: “Você não manda em mim, meu pai está pagando esta escola, eu faço o que eu quero”. E há pais que ainda vão queixar-se à diretoria de que o professor não serve...
Há criança malcriada em sala de aula, que joga bolas de papel (até com pedras dentro) nas costas do mestre quando este escreve no quadro. Ou põe chiclete, ou cola, em sua cadeira. Certa ocasião, alguns meninões, insatisfeitos com as exigências da professora, colocaram na Internet mensagens injuriosas sobre ela - e ainda acrescentaram suas próprias fotos!
Por tantos motivos (e outros mais), a criança deve ser modelada desde o berço; deve aprender a distinguir o bem do mal, o certo do errado, o que pode e o que não pode pela ética e pela lei. É preciso desenvolver, no pequeno ser em formação, o altruísmo, a cortesia, o respeito ao próximo, a fraternidade, a indulgência; o amor a Deus!

Maria Thereza Cavalheiro é escritora, poeta e trovadora

O ESTILINGUE 

e outras conversas desarmadas

 EDSON GABRIEL GARCIA

Peço desculpas ao leitor por começar estes escritos sem a clareza necessária do que aqui vou escrever, no que diz respeito ao gênero do texto. Ou seja, aos gloriosos estudiosos dessa matéria do conhecimento, digo que não sei se este texto é uma narrativa, uma crônica, uma reflexão ou uma dissertação. Que posso fazer? Perdoem-me pela sinceridade. Quero apenas escrever. O que vai sair do meu pensamento e do teclado do computador será mera obra da vontade de escrever, sem nenhuma preocupação em qualificar o gênero textual do que escreverei.

Pois bem... deixei minha memória retroagir, voltar aos anos de minha deliciosa infância, nos tempos em que menino, era morador de uma chácara, de onde tirávamos o sustento da família (escrevi “tirávamos” porque ajudei muito meu pai na tarefa de vender produtos da chácara ou com eles fazer os escambos para a obtenção de outras coisas que não tínhamos e precisávamos). Dinheiro vivo, conta em banco, uso de cheques... isso era coisa para poucos. Mas não é sobre a economia quase informal que quero memorializar. É sobre os rituais de iniciação da pré-juventude.

Pouco se fala – e muito menos se escreve – sobre os rituais impostos pelos meninos mais velhos aos meninos mais novos, quando estes começam a deixar para trás a infância. Um deles, entre tantos outros, era a obrigação de se construir um estilingue próprio e com ele matar passarinhos. É provável que a criançada de hoje, perdidamente apaixonada pelas coisas dos jogos virtuais, não tenha a menor idéia do que seja um estilingue, até porque a nossa literatura para crianças está muito distante disse, focando quase que exclusivamente o cotidiano urbano. Mas como estou a escrever de uma infância distante mais ou menos uns cinqüenta anos, o estilingue tem papel protagonista. Pois bem... ninguém dava estilingue para o outro, por mais amigo que fosse. Menino de verdade tinha que ralar muita procura, vasculhar muitos pomares, muitos arvoredos e queimar muito chão até achar uma forquilha adequada, bem formada, simétrica e firme o bastante para sustentar as duas tiras de borracha de câmara de ar de pneu de carro e o couro que servia de suporte do apoio da pedra. E bem lembrado: borracha de câmara de ar de pneu de bicicleta não servia. Era muito fina, arrebentava logo, não dava firmeza e com freqüência induzia ao erro no tiro. Quantos galhos produtivos de boas árvores poderiam ter vida mais longa não fosse uma faca ou facão, quase sempre pouco afiada ou afiado, que o galho escolhido para servir de forquilha. E o trabalho continuava: desfolhamento, raspagem e alisamento, corte no tamanho preciso e entalhe preparativo das cunhas em que as tiras de borracha seriam amarradas. O melhor mesmo era uma forquilha feita de um galho seco encontrado perdido em algum lugar. A madeira seca encurtava o tempo e o trabalho da preparação e dava a certeza e que era madeira boa, firme, sólida, já definida em sua utilidade.

Galho para uma boa forquilha os meninos até encontravam. Dava trabalho, mas encontravam. O duro mesmo era encontrar pedaços de câmara de ar de pneu, geralmente de caminhões, que pudessem fornecer a outra matéria prima: o elástico que permitia atirar longe uma pedra, uma bolinha de gude. Os caminhões e os carros não eram tantos, não andavam muito e por isso as câmaras de ar eram objetos raros. Raríssimos ainda mais nas mãos dos meninos. Mas... vez ou outra era possível encontrar um bom pedaço desse artigo e primeiríssima dano sopa e com ele construirmos o tão sonhado estilingue, a primeira e verdadeira arma letal que um ser humano do sexo masculino teria em mãos, com a permissão da sociedade. Aos olhos adultos, matar passarinhos com estilingue não passava de uma inocente brincadeira. Brincadeira para os meninos, já que os passarinhos eram vítimas das pedradas.

Estilingue feito, era só pendurá-lo no pescoço e sair andando nos caminhos da cidade, da vila, do bairro, exibindo a poderosa e permitida arma no peito. E a cada passarinho atingido, uma marca era feita na forquilha, à moda dos matadores profissionais, como se nas forquilhas pudesse ser lido: veja como eu sou um grande matador de passarinhos. Como s isso fosse o passaporte para a juventude. Que culpa os passarinhos tinham nessa necessidade de os humanos se mostrarem desde pequenos matadores de animais? Nunca ninguém me disse. A rigor nunca perguntei a ninguém. Só agora pergunto, já com essas lembranças quase sumidas, tanto quanto essa prática.

Lembro-me (ou me lembro?) que fui um exímio encontrador de boas forquilhas, mas um péssimo atirador de estilingue. Estilingues, tive vários, sempre bem feitos. Por alguma razão de que não me recordo, meu pai sempre conseguia pedaços de câmaras de pneu das quais eu me servia e servia uma parcela pequena de amigos. Apesar dos bons estilingues, meus tiros nunca foram bons. E quase nunca acertei os passarinhos. Hoje, e tão somente hoje, a propósito destes escritos, penso que errava de propósito, porque não tinha resposta para a matança dos bichos. Às vezes era a rapidez do pássaro, que voava antes da chegada da minha pedra; outras vezes era o tiro mal preparado ou atrapalhado por força das folhas de árvores entre a pedra e o passarinho. Errava quase sempre. Talvez porque soubesse a razão dos erros nunca me senti mal ou nunca me vi como menos menino que os demais. E na falta de vítimas, às escondidas, eu entalhava marcas na forquilha para marcar minha iniciação. Só uma vez acertei um pobre pardal, bicho tão frágil que nunca me fizera mal nenhum e recebera uma pedrada do meu estilingue. Errei o tiro e acertei sem querer o pobre bicho de asas. A tristeza só não foi muito grande pois tão logo se recobrou do susto e da pancada, o pardal levantou vôo, meio trôpego, mas salvando-se para bem longe. Depois dessa vez fiz muita força para nunca mais acertar o alvo. E sobrevivi, os passarinhos também.

Volto a pensar, diante da tela silenciosa e cúmplice do computador, com meus botões, sobre essa mania que os humanos temos de impor e viver ritos de iniciação. Por acaso me lembrei do glorioso estilingue, mas poderia lembrar de tantos outros a que somos submetidos ao longo da vida, para provarmos que somos mais homem ou simplesmente para provar que somos homem. De onde teria vindo isso? Dos primórdios da civilização? Do prazer sádico de uns sobre outros? Da necessidade de se mostrar capaz disso ou daquilo? Certamente há explicações para isso e estudiosos dispostos a nos convencer de suas versões.

Interessante como essas desnecessidades acabam gerando traumas em nossas histórias de vida e pequenas manchas de vergonha nas lembranças. Espero com esses registros, marcar na forquilha de um estilingue inexistente minha vingança contra essas bobagens e... desejo ardentemente que o pardal acidentalmente acertado por mim há uns bons cinqüenta anos atrás tenha sobrevivido e se transformado num encantador de humanos, exímio contador de histórias de ninar marmanjos.



EDSON GABRIEL GARCIA

(Escritor e educador)


Setembro e outubro das crianças!


CATHIA ABREU

Halloween é o cacete! Viva a cultura nacional! Já li mais de uma vez esta frase escrita nos muros do Rio de Janeiro, uma provocação ao Dia das Bruxas importado. Radicalismos a parte, a frase muitas vezes me fez refletir sobre como setembro e outubro são meses festivos no Brasil, dedicados às crianças.
O Dia de Cosme e Damião é um exemplo. Comemorado no dia 27 de setembro, é uma festa de origem católica, mas que foi abraçada por vários segmentos religiosos. A tradição de distribuir doces parece ser mais forte nos bairros de subúrbio ou em cidades pequenas, em lugares onde as criança ainda podem andar pelas ruas e os vizinhos se conhecem melhor. Mas qual o motivo da distribuição? Os motivos são muitos. Há quem dê doce porque fez promessa, porque alguém disse que é bom ou simplesmente porque gostam de ver a bagunça na porta de casa. Meu falecido avô, certa vez, teve a cerca da casa derrubada por conta do alvoroço das crianças. De outra, ficou de calças arriadas com peso da meninada que se pendurou nele. No meio da farra, alguns adultos também participam e pedem, pedem muito: “Dá um saquinho para a filha da minha prima em teceiro grau que não veio porque está em casa doente coitaaada...!”. Dito assim mesmo, sem pausa para respirar, mas isso é só um charme a mais da festa.
Na verdade, o 27 de setembro é o dia da alegria. Dia da molecada tomar as ruas e perguntar em qualquer portão: “Tá dando doce aí, moça?” É fácil ver cinco, dez ou mais crianças juntas, mochilas nas costas em busca de doces. Para muitos deles, é um dia incomum porque é a oportunidade de saírem sozinhos com os amigos maiores um pouco. Estes, por sua vez, ouvem mil recomendações das mães preocupadas: “João, olha lá, meu filho está sob sua responsabilidade”. Tanta responsabilidade vale a pena: em geral retornam sãos e salvos, e com a sacola carregada de doces.
A festa ganha contornos diferentes Brasil afora. Na Bahia, por exemplo, mais forte que a tradição dos doces é a do “caruru das crianças”, uma iguaria feita com quiabo. Em outros estados, as igrejas são enfeitadas para receber os fiéis e devotos de São Cosme e São Damião, enquanto os centros de umbanda e de candomblé se preparam para celebrar a presença dos Ibejis – gêmeos divinos da tradição africana. Criança em qualquer dimensão só traz felicidade!
Outubro começa e as comemorações não terminam. Pudera! Quem não cumpriu sua promessa para Cosme e Damião ou com os Ibejis aproveita o mês das crianças para se redimir com o astral. Além disso, tem feriado nacional no dia 12, uma comemoração dupla: da padroeira católica Nossa Senhora Aparecida e do comercial Dia das Crianças. As famílias aproveitam o descanso para se divertirem com seus filhos, dar presentes e agrados. Quanta festa!!
Ah, é verdade! Ainda tem o Halloween, no dia 31 de outubro. Mas, apesar da globalização que parece incluir até certos comemorações, acho eu, que essa festa ainda é para a minoria. Entretanto, há quem comemore e em estilo americano. A abordagem é bem outra, mais agressiva, afinal estamos falando de uma mentalidade vencedora, acostumada a lidar com desafios. Na porta das casas, as crianças gritam “Doces ou travessuras?”. É um sobressalto para os vizinhos! Fiquei sabendo que em algumas cidades do Brasil, as crianças saem a moda USA, se vestem de bruxas e monstros, pedem doces e fazem mesmo travessuras caso não recebam nada da vizinhança. É cocô arremessado no quintal, janela quebrada, saco de água amarrado no rabo do gato... Já pensou se essa moda pega?

Cathia Abreu é jornalista e trabalha na revista 
Ciência Hoje das Crianças, 
veículo de divulgação científica para crianças de 8 a 12 anos.


Abordagens sobre a Infância

CARMEN EZEQUIEL

Eu creio que ele aproveitou, para a sua evasão, uma migração de pássaros selvagens.”

Não são de modo nenhum parecidos com a minha rosa, ainda não são nada, disse-lhes ele. Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. São como era a minha raposa. Era uma raposa parecida com cem mil outras. Mas fiz dela minha amiga e agora ela é única no mundo.”
In O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry

As crianças são admiráveis por natureza.
Ainda no outro dia estava eu com o filho de uns amigos meus (miúdo de 16 meses, diga-se!) e, que na sua inocente presença de explorador de cantos e recantos, corria de um lado para o outro, escondendo-se por entre os pés das cadeiras, mesas e afins ao mesmo tempo que, registando tudo o que nós fazíamos, nos imitava. Por vezes, agarrava-se às nossas pernas e aí permanecia até que fugindo novamente, corria para outro canto qualquer, rindo ou chorando conforme lhe apetecia.
Assim são as crianças. Simples. Espontâneas. Verdadeiras.
É tão fácil ser criança! (ou, talvez não? Quantas permitimos que morram de fome?)
Neste tema é inevitável que pegue no livro de Saint-Exupéry, O Principezinho, e realce a simplicidade com que o autor nos transmite a essência do que é ser verdadeiro. Invoca a infância como um apelo à memória dos adultos, que esqueceram as suas próprias pirralhices e o ser criança.
Fica fácil ser criança! (ou, porém, talvez não! Quantas deixamos vivendo na rua?)
Fica fácil para uma criança criar a imagem do Principezinho a evadir-se do seu planeta com a ajuda de pássaros selvagens. Para um adulto, isso não lhe cabe na mente. É impossível, mesmo que haja uma ínfima possibilidade desse impossível acontecer. Que mal há? Em sermos crianças de quando em vez? De sermos espontâneos, sem vergonha do que temos de dizer ou fazer? De se ser simples e verdadeiro em vez de se pensar se é insensatez.
Criança?! (quem me dera ser mais adulto e esquecer as maldades que lhes fazemos, as drogas que lhes oferecemos, as armas que lhes entregamos)
Basta um único olhar para nos cativar e quando isso acontece o nosso coração não pode mais ficar indiferente. Não pode ficar fechado, embasbacado, oprimido, tem de se libertar e deixar a luz, de uma criança, entrar.
Quando somos cativados, sabemos a importância que isso tem e que ficámos presos a essa sedução.
Aparte o cansaço, as longas horas sem dormir, a gritaria ou choradeira, as preocupações, os anseios e as rebeliões, as crianças deveriam (re) ensinar-nos a ser naturais; em que o amor e a capacidade de aceitar esse mesmo afeto pode surgir com simples palavras ou acções (um sorriso, um riso, uma gargalhada, um chorar de birra ou dor, um dormir sereno, uma correria, a gritaria ou o silêncio, uma brincadeira ou imitação…).
Tanto que nos oferecem as crianças… (porque acreditam).
E, o que lhes oferecemos nós, os adultos ingratos, insatisfeitos, envergonhados, terrivelmente complicados? (olhamos para o lado quando não nos agrada…)
Escrevo como adulta que sou, com mente de criança, para adultos que são e esconderam a vossa infância (porque continuo a acreditar).
Com rima para os pequenos. Sem rima para os grandes.
A mensagem inscrita pode, ou não, ser escrita por todos nós (enquanto não a escrevermos veremos, certamente, crianças a evadir-se deste mundo para um outro (deles) melhor).
Termino com um texto que escrevi outrora mas que me parece intemporal.




SER CRIANÇA


Todos nós, um dia, fomos crianças. E, que bom que é recordar a nossa infância!
Tempos difíceis para uns, melhores para outros, mas é uma fase única (como tantas outras) que faz e fez de nós os adultos de hoje.
Ser criança é muito mais do que ser pequeno.
É ser livre!
É rir e chorar. É aprender e, ainda assim, nos ensinar. É brincar, jogar; ser adulto pequenino ou criança bebezinho. É descobrir o desconhecido, crescer devagarinho, sem pressas pelo caminho…
Quando olhamos as nossas crianças vemos o amanhã e, por isso, cabe a cada um de nós, adultos (pais, irmãos, professores, educadores, avós, … ensinar-lhes, pacientemente, as leis da vida.
Não é bater ou castigar, criticar ou ficar indiferente, premiar pela ausência; é ter atenção e ficar alerta, ser tolerante e compreensivo. É promover o diálogo, permitir o sonho e a fantasia, dar a mão e um carinho em todos os novos dias. Impulsionar o sentido crítico e o misticismo do que se desconhece.
As crianças têm muito a aprender. Nós, adultos, temos muito a ensinar-lhes.
As crianças têm muito a receber. Nós, adultos, temos de dar com paixão, compreensão, amor e sinceridade.
As crianças têm o coração puro e livre; têm muito a dar. Nós, adultos, temos de (re)aprender a receber.
Observemos, com atenção, as nossas crianças. Analisemos o contributo que nós, adultos, estamos a dar ao amanhã.
Será que tudo está bem? Será que estamos a dar o nosso melhor?



Carmen Ezequiel 
é escritora e poeta de Portugal

A ILUSÃO DOS ANOS INFANTIS
(Que fale a História)
 ROCÍO L´AMAR

A verdadeira pátria do homem é a infância
Rainer Maria Rilke


A infância tem suas próprias maneiras de ver, pensar e sentir:
Nada há mais insensato do que pretender substitui-las pelas nossas.
Jean Jacques Rousseau

As crianças não têm passado nem futuro, por isso gozam do presente, coisa que rara vez nos ocorre,a nós, os adultos.
Jean de la Bruyere

A infância foi influenciada pela mudanças políticas, culturais e religiosas, e obedecendo à localização geográfica nas que nos localizamos e a evolução dos pais.

Entretanto, a história da infância, no transcorrer dos séculos, desde o ponto de vista pedagógico, não teve uma biografia própria. Sabemos da infância, «disse Lloyd de Mause», através de diários, pintura, literatura, legislação e escritos deixados como testemunhas do cuidado de reis e personagens significativos. Tudo isso tem sido traduzido em obras plenas de realismo mágico e complexidade.
Cabe assinalar que as crianças foram utilizadas por parte dos adultos em todas as épocas. A introdução da castração e a circuncisão nos varões, por um lado, e a infibulação ou ablação nas meninas, por outro. O paradigma sexual será relevante e constante ao largo dos séculos tanto quanto o infanticídio, e venda de órgãos.

A entrada das religiões, produziu algumas mudanças, desde a época romana até a Idade Média. Os romanos fornecem como positivo duas qualidades: tolerância e respeito ao crescimento e desfrute da infância como parte da vida familiar, uma mentalidade que se produz também na antiguidade em geral. Era preocupação a fecundidade, a custódia e as normas de educação porém introduzem uma série de leis que mostram uma conduta cruel com respeito às crianças.
Na era cristã não melhorou em absoluto o estado das crianças, porém como novos adeptos desempenham uma função importante no mundo cristão. A responsabilidade do cuidado das crianças recai no pai que deve educá-las na ética e na virtude. Tolera-se o castigo físico, porém com moderação. Nessa época toma grande relevância o tema dos abusos que se chega a legislar. Se vê claramente a presença do infanticídio e do abandono, não obstante a igreja começa a pressionar para se promulguem leis que evitem os males das crianças, incluindo o aborto.
Na idade média continuam os abusos pese à opressão da igreja, mudando nesta postura, o papel da mãe na criança. A igreja continua castigando o aborto, porém de maneira menos severa.
Do século IX ao XIII, continua a desatenção, exploração e abandono das crianças, unido à alta taixa de mortalidade infantil e materna. Se produz em troca um início na rejeição destas práticas, ainda que se seguia considerando a criança como uma posse. As religiões surgidas na época, longe de transmitir um sentido de compaixão atuaram como meros déspotas à conduta infantil.

No século XIV ao começo do XVII, o destino dos bebês supunha um trauma para os pequenos acostumados às enfermeiras. Havia uma grande problemática com o sistema familiar já que se enviuvava logo e se produziam novas famílias. A preocupação pelos filhos das viúvas e seus padrastos e irmãos foi muito patente na época. A mãe se converte no foco da educação. Incide sobre os hábitos dos filhos, controla suas inquietudes, os educa para adaptarem-se diante da adversidade. O pai apenas entra em cena para os períodos de enfermidade e calamidades ou quando a saúde da mãe impedia os seus afazeres. O pai impunha a disciplina e a correção, e isto era apoiado pela igreja e a sociedade.
Nos séculos XV e XVI , as crianças possuem a mesma importância que os anciãos e as mulheres. A infância passa a ser considerada um estágio que se há de suportar, porém não gozar dele. As crianças eram valorizadas como a escala mais baixa da hierarquia social. Se a criança era nobre, o mais importante era o sexo. Predomina a ideia da criança inocente sem atividade sexual e a apologia do batizado como purificador das impurezas. A bonança econômica da época faz com que as crianças recebam mais cuidados e educação. Por essa época se produz o nascimento da pediatria moderna e se tomam diversas precauções tanto no período de gestação como nos partos. O pai é introduzido na sala de partos, em meados do XVI, e passa a ser aceita como profissional a figura da parteira que deve administrar uma série de cuidados tanto ao menino quanto à menina, qaunto também com relação à mãe. Se julgam diversos casos por essa época, o que nos faz ver importância que passa a ter para a sociedade a figura da criança. Os pais começam a mostrar interesse pela educação de seus filhos e ademais esta serviria para a ascensão na escala social. Se baseia numa educação humanista e clássica . Os adultos compartilham tudo com as crianças, inclusive os brinquedos. A ideia de que a criança seria perdida se não tivesse disciplina, foi firme ao largo desse período. Porém logo se toma como pouco efetivo e se inicia a manipulação psicológica por meio do medo. Renasce o ascetismo religioso, que provoca uma grande influência nos homens e mulheres instruídos ao começo do século XVII. O poder do pai começa a ser considerável e surgem leis que permitem o assassinato de filhos não desejados. Entretanto, seriam poucos os filhos ilegítimos que gozariam do direito á vida.
No século XVIII, se produz uma mudança de atitude das crianças com respeito aos progenitores e vice-versa. O menino ou a menina ao tornar-se adulto busca uma independência, isto provoca uma mudança de atitude entre os pais. Reduz-se o infanticídio, porém prossegue o costume de enviar o menino ou a menina para fora do lar: uma escola, um parente ou, quando adolescentes, lhes confiam um mestre. Aparecem as creches como tais e muitos pais levam seus filhos, por conseguinte, multiplica-se a elasticidade pelo cuidado dos filhos. Porém, também se produz um inconfessável desejo de prender-se aos filhos, inclusive na idade adulta. Isto é uma contradição que não foi possível explicar , porém se faz latente. Assim mesmo, alguns pais e mães começam a ter um comportamento mais racional, brincam com as crianças, comemoram seus aniversários...Nos primeiros anos ocorrem uma série de propostas para acabar ou frear a mortalidade infantil, criam-se orfanatos para crianças órfãs e filhos ilegítimos. O comportamento dos pais nessa época é marcado pelo distanciamento destes sobre os filhos. Por necessidade, a mulher, trabalha, pelo que não pode estar muito vinculada aos pequenos. Porém seguem os assassinatos e infanticídios e uma atitude diante do comportamento muito restritiva. Entretanto, essa situação mudaria quando aos indivíduos recebem um pouco de autonomia, a experiência escolar e o serviço ao Estado, já que não se aceita a autoridade absoluta dos pais.

O desenvolvimento da infância no século XIX nos ilustra uma realidade quase próxima, o surgimento de necessidades para as crianças. Se continua com as amas de leite. Seguimos em uma época de puritanismo religioso. Os castigos corporais perdem posições, todavia continuam e a isto se acrescentam os castigos psicológicos. Durante esse século se ampliou a responsabilidade do Estado perante os filhos distante. Este século se pode considerar como o começo em que os poderes públicos começaram a pensar nas crianças como tais, com necessidades. Isto seria o início da mudança até a sociedade que conhecemos.
No século XX se desenvolveu um grande interesse pela infância, como antecipou Ellen Key, o que se evidenciou no desenvolvimento de numerosas instituições, formas de sociabilidade e padrões culturais que tiveram às crianças como seu centro de atração. Ao transcorrer do século XX, a doutrina dos direitos do menino e da menina ultrapassou a fronteira da discussão intelectual para representar uma nova visão que implicou em mudanças transcendentais, na forma de conceber o lugar que elas teriam em nossa sociedade. Paradoxalmente, isto se desenvolve em momento em que o número de crianças foi diminuindo notavelmente devido ao controle de natalidade. E neste século, no âmbito da literatura surge a narrativa infantil, que teve importantes cultores, como Gabriela Mistral no Chile, Marcela Paz, Hernán de Solar, entre outras. A socialização através da leitura, programas de rádio e televisão, videogames e a expansão da informática começou a erradicar o ócio infantil.


" Educai as crianças e não será necessário punir aos homens" - Pitágoras

Entrementes, a concepção histórica da infância leva a pensar no muito que nos aproximamos aos animais ou o pouco que nos parecemos à hora de proteger as nossas crias. O abandono e a desolação são constantes ao largo do tempo e são vistos como uma realidade aceita. A igreja quase sempre está presente quando nos referimos à repressão e bloqueio das inquietudes da alma. Sempre se tentou ver a face positiva da igreja, porém não há que se esquecer os contínuos casos de pederastia e pedofilia que ocorrem no seio do Catolicismo.

Rocío L' Amar
Presidenta da Sociedade Escritores San Pedro de La Paz.
CHILE

A literatura infantil e a criança

PAULA IVONY LARANJEIRA

As crianças são sujeitos agentes e, por tal, críticas e (co)construtoras de seu “universo” tão diferenciado do vivenciado pela lógica adulta, ressignificando assim, a realidade que lhes é apresentada para melhor entendê-la, ou como diria Walter Benjamim, constroem um pequeno mundo inserido no grande. Daí vem sua maneira individualizada de pensar, agir, falar, sonhar, imaginar, criar, e interagir. Sobre esta questão Ferreira reforça:

Ao significar que as crianças não se ‘limitam’ a reproduzir o mundo dos ‘grandes’ à sua escala mas, ‘pelo avesso’, o reconstroem e ressiginificam através de múltiplas e complexas interações com os pares, permite mostrá-las não só como autoras das suas próprias infâncias mas também como actores sociais com interesses e modos de pensar, agir e sentir específicos e comuns, capazes de gerar relações e conteúdos de relação, sentido de segurança que estão na sua gênese como grupo social. Ou seja, com um modo de governo que lhes é próprio, com características distintas de outros grupos sociais, como é o caso dos adultos, mas como quem nunca deixaram de desenvolver relações particulares (2002, p. 59).




Porém, por alguns séculos a criança foi considerada um “adulto em miniatura”, “tábua rasa”, “bibelô”, até que no século XVII, segundo Pilippe Ariès, o infantil surge enquanto faixa etária. E já que o conceito de infância e criança como temos hoje, inexistia, era impossível também que houvesse uma literatura voltada para elas. Assim, a Literatura Infantil surge no momento em que a criança é diferenciada do adulto e tem a necessidade de uma literatura própria que a ajude na composição de sua autonomia enquanto individuo.
Data do século XVII a primeira manifestação da Literatura Infantil, com Perroult e seu Conto maravilhoso ou Conto de fadas: narrativa simples, direta, que usa o mito e o cotidiano familiar para exemplificar comportamentos, com características especificamente voltadas para o imaginário. Aos poucos os deuses foram substituídos por heróis, animais miraculosos, personagens que não pertencem ao cotidiano, agindo assim, em tempo e espaço míticos.
Cabe dizer que a Literatura Infantil só tem seu inicio de fato com o surgimento da escola, já que nesta havia a necessidade de livros para inserir seus conceitos ideológicos. Inicialmente no século XVII, muitas criança (de diferentes classes sociais) tem acesso ao mesmo tipo de educação escolar, porém no século XVIII estas crianças são divididas em ricas e pobres, de um lado as aristocratas e burguesas e do outro lado as menos favorecidas, com isso o acesso aos livros foi sendo modificado, ao ponto de restar ás crianças pobres apenas o acesso às histórias folclóricas via oralidade. Vale ressaltar que a escola com a ascensão burguesia passa a ser uma necessidade para a classe emergente ganhar “status” e visibilidade, além disso, esta classe tinha a necessidade de instituir a moral, a religião, o amor à pátria, encarregando a escola de fazer esse papel, “moldando” as novas gerações de acordo seus interesses, e o modo escolhido foi por meio dos livros com histórias infantis, camufladas.
No século XVIII com o Iluminismo, a literatura passa a ser fonte de conhecimento, rompendo assim, com a fantasia dos Contos de fadas, daí seu caráter didático (Fábulas, aventuras, Contos moralistas) como distintivo desta que tinha por principio fazer da criança um adulto intelectualmente formado. Neste século os autores que mais se destacam são: Perroult, Daniel Defoe (aventura do pioneirismo), Hermam Meville (aventura ideológica), Alexandre Dumas (aventura histórica) e Conan Doyle (aventura policial).
Já no século XIX, com o espírito romântico e todo seu idealismo, se reestabelece a fantasia na Literatura Infantil. E se antes a nobreza era destaque absoluto neste mundo literário voltado para as crianças, neste momento, se dá a valorização do popular, da “cor local”. Assim, temos entre suas temáticas mais expressivas: Folclore (Alemanha), Liberalismo (França), Nacionalismo (Itália) e Critica (Inglaterra), sendo seus representantes mais conhecidos: Andersen (lirismo), Lorenzini (caridade, família, nacionalismo), Lewis Carrol (ridicularização), Dickens (miséria, injustiça) e os irmãos Luis Jacob e Guilherme Carlos Grimm.
No que se refere ao Brasil, a Literatura Infantil chega com a Família Real e a criação de escolas, porém sua primeira forma é exercida pelo jornalismo (1831: Jornal O adolescente, 1846: Jornal O mentor da infância, 1870: Jornal Imprensa juvenil, entre outros) e pelas traduções. O primeiro livro para crianças com autor nacional, visto que os livros infantis eram traduções, é publicado no Brasil, segundo Barbara Carvalho (1985) por Alberto Figueiredo Pimentel e se intitula Contos da Carochinha, seguido por outros do mesmo autor.
Posteriormente, Manuel José Gondim Fonseca escreveu o Conto do país das fadas, e vários outros. Ainda se destaca neste inicio Thales de Andrade, que começa a publicar em 1918; Viriato Correa, com o seu Arca de Noé, dentre vários títulos; é possível citar ainda, Erico Veríssimo, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Lygia Bonjuga, Ruth Rocha, e muitos outros.
Mas de onde surge este tipo de escrita? A Literatura Infantil foi influenciada por obras feita para adultos, por exemplo: As viagens de Gulliver (séc. VXIII) recebeu influência da História verdadeira (séc. II), de Luciano; do Oriente para o Ocidente veio Panchatantra, que na tradução1 do sâscrito até o espanhol recebeu o nome de Calila e Dimna, o qual influenciou os escrritores Esopo e La Fontaine; o Sendebar traduzido para o espanhol como Livro dos desenganos e Assanhamento das mulheres, muito semelhante ao As mil e uma noites, e que na tradução para o espanhol recebeu o nome de Barlaam e Josafá, que por sua vez se identifica com Lalita Visitara (a lenda do príncipe Josafá e a de Buda); a obra de Dom Ruan Manuel (séc. XIV), O Livro do patrimônio ou o livro do Conde Lucan, já influenciado por Calila e Dinma, Sendebar e As mil e uma noites, também influenciou Andersen e Perroult. Outro livro não escrito para crianças e que também influenciou Andersen e Perroult foi o Decameron, de Boccacio. Perroult juntamente com os Irmãos Grimm também foram influenciados pelo Pentameão, de Basile.
Seguindo modelos adultos a LI dá os primeiros passos, mas a caminhada é efetivada com a diferenciação da criança com o adulto, e mais especificamente com a criação da escola. À medida que a sociedade vai mudando seus conceitos filosóficos e ideológicos, também ela, vai se transformando. No século XX, com os novos estudos psicológicos sobre infância e criança, a literatura dedicada a este grupo etário ganha temáticas voltadas para uma ressignificação do mundo interior da criança bem como para estímulos exteriores capazes de lhe causar mudanças comportamentais avigorando sua capacidade de imaginação e criação, buscando assim, contribuir de forma psico-social para a formação destes, além de fomentar a aquisição de conhecimento e/ou cultura. De acordo com SOUZA (1996)


A Criança conhece o mundo enquanto cria, e, ao criar o mundo, ela nos revela a verdade sempre provisória da realidade em que se encontra. Construindo seu universo particular no interior de um universo maior reificado, ela é capaz de resgatar uma compreensão polifônica do mundo, devolvendo, por meio do jogo que estabelece na relação com os outros e com as coisas, os múltiplos sentidos que a realidade física e social pode adquirir.


Por isso, a necessidade de “semear livros” para que as crianças possam atribuir os sentidos que lhes são manifestados durante o mágico encontro com mundos distantes, diferentes, maravilhosos, para que possam desde já conhecer a capacidade da LI em abrir caminhos e alargar nossa visão de mundo, dos mundos.
Assim, uma difusão da leitura que seja realmente democrática é urgente em nosso país, pois os livros têm sido escritos, mas poucos são os leitores, poucos são os incentivadores – no que se refere à família, sociedade e políticas públicas.
A preocupação com o alheamento do homem em relação a natureza e sua natureza interior tem tocado diretamente o mundo da criança. A influência que a cultura exerce através de instruções escolares, da mídia, de valores que incitam o consumo desenfreado, da falta de tempo e espaço para ser criança, tem mudado o foco da leitura e compreensão da essência mais profunda com que cada criança adentra neste mundo literário
O que se observa é que atualmente tem-se formado mais telespectadores do que leitores. Conclusão: cidadãos mais passivos, crianças cada vez gozando menos da infância, lendo cada dia menos, padronizadas, e o pior, portadoras daquilo que Pierra Weil chama de “normose”, ou seja, conjunto de normas, valores, hábitos de pensar e agir, de caráter automático e inconsciente que leva o individuo a considerar normal certos modos de vida, como: não ter tempo livre, não conviver com a família, comer fora de casa (fast-food), crianças sobrecarregadas de atividades, ver todo tipo de programa de TV, iniciar vida sexual precocemente, etc.
Se a Literatura Infantil segue as necessidades da criança, e pensando a criança não mais tão infantil, tão plural, mas padronizadas e já caminhando para tornar-se um adulto precocemente, questiona-se: quais serão as novas características e temáticas da literatura de cunho infanto-juvenil neste século que se inicia? O esperado, depois deste percurso historiográfico, já que as utopias nos fazem ver e viver com esperança é que ela esteja comprometida com a propagação da solidariedade, amor e consciência, dando sentido assim, à nossa existência.

Bibliografia

ARIÈS, Philippe. A História Social da Infância e da Família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
Benjamin, Walter. Reflexões Sobre A Criança, O Brinquedo E A Educação. São Paulo: Duas Cidades, 2002.
CARVALHO, Barbara V. A literatura Infantil: visão histórica e crítica. São Paulo: Global, 1985,p. 47-132.
FERREIRA, Manuela. Do “Avesso” do Brincar ou...as Relações entre Pares, as Rotinas da Cultura Infantil(ais) Instituinte(s) das Criança no Jardim-de-Infância. In:SARMENTO, Manuel Jacinto. CERISARA, Ana Beatriz. Crianças e Miúdos. Portugal: ASA, 2002
FRIEDMANN, Adriana – “O universo simbólico da criança: olhares sensíveis para a infância”. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2005.
SOUZA, Solange Jobim. Re-significando a Psicologia do Desenvolvimento: Uma contribuição crítica à pesquisa da infância. In: KRAMER, S. & LEITE, I. M. (org.). Infância: fios e desafios a pesquisa. Campinas – SP, Papirus, p 39-55,1996


1 O termo tradução neste contexto se refere ao processo de compilação, comum na época. Desta forma os textos iam sendo modificados, não era uma tradução fiel à obra original.

Paula Laranjeira é poeta e colaboradora de PALAVRA FIANDEIRA

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Tradução do texto de Rocío L' Amar para o Português: Marciano Vasques