EDITORIAL

PALAVRA FIANDEIRA é um espaço essencialmente democrático, de liberdade de expressão, onde transitam diversas linguagens e diversos olhares, múltiplos olhares, um plural de opiniões e de dizeres. Aqui a palavra é um pássaro sem fronteiras. Aqui busca-se a difusão da poesia, da literatura e da arte, e a exposição do pensamento contemporâneo em suas diversas manifestações.
Embora obviamente não concorde necessariamente com todas as opiniões emitidas em suas edições, PALAVRA FIANDEIRA afirma-se como um espaço na blogosfera onde a palavra é privilegiada.

domingo, 9 de maio de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 28



PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 28 - 09/MAIO/2010

NESTA EDIÇÃO:
JOTA ENE

Sintra é uma vila portuguesa no distrito de Lisboa. 
A vila de Sintra é Patrimônio Mundial da UNESCO
FOTO DE JOTA ENE

JOTA ENE
LISBOA - PORTUGAL
"Custa-me conviver com pessoas que fazem da mentira o seu modo de vida"  
(JOTA ENE)


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1. Quem é Jota Ene?

No Miradouro da Graça (Lisboa)


- Jota Ene basicamente considera-se uma pessoa simples, educada, afável e discreta... atributos fundamentais para ter sucesso na vida. Quanto aos meus defeitos, porque os tenho, deixo para as pessoas que convivem comigo diariamente ter a última palavra. Haverá um certamente que não me perdoo, sou assim e não sei como ultrapassar, a pessoa que me trai quer sentimentalmente, quer em termos de amizade, dificilmente dou ou darei uma segunda oportunidade.


2. O senhor é rigoroso e perfeccionista. Eis algo bom em nossa contemporaneidade, porém esse rigor, esse perfil meticuloso, organizado, é aplicado ao seu trabalho com a foto, ou seja, somente em sua produção artística, ou também na vida cotidiana? No caso, poderia nos citar alguns exemplos?

- Essencialmente no quotidiano da vida, sou extremamente perfeccionista e de grande rigor... direi que sou o meu maior crítico;
Contudo...
Sou melhor do que as pessoas pensam ... Pior do que elas imaginam ...
As criticas nao me abalam ... E os elogios não me iludem ...
Sou o que sou... E não o que falam ...
Vivo o presente ... Enfrento o futuro ... E recordo o passado!!!

3. Obviamente é uma apaixonado pela fotografia e bem o disse. Poderia, por gentileza, nos contar como surgiu essa paixão, em que circunstância de sua vida, em qual momento, com qual idade?

- Sim, sou um apaixonado pela fotografia, terei iniciado estas lides na década 70/80, primeiramente com fotos exclusivamente de familia, seguidamente com fotos de amigas e ex-namoradas que se prontificavam para posar na vertente do nú artístico, hoje fotografo de tudo um pouco, não há uma temática que se sobreponha. Entretanto, com o aparecimento das câmaras digitais fui evoluindo, tendo hoje um acervo de cerca de 7.000 fotos (ficheiros).


4. Como é o seu interesse em cachecóis? O senhor os coleciona? São as cores que o atraem? Afinal, a sua vida é de cores...


- Fundamentalmente, sou um colecionador por excelência. O interesse por cachecóis nasceu em 2008, tendo nesta altura cerca de 600 exemplares diferentes, referentes ao meu clube (time) de coração: o BENFICA, clube onde jogam actualmente dois jogadores da Seleção Brasileira que estarão presentes na Copa do Mundo da África do Sul (Luisão e Ramires).
Falando de cores... as cores não comandam a minha vida, mas tenho muita simpatia pelo preto.

5. Gosta de futebol. Poderia comentar ao leitor algo sobre a sua visão desse fenômeno que não tem classes sociais, pois é popular e agrada também aos poderosos...De onde viria a magia do futebol?

- Sim, adoro o futebol, é essencial como lazer e faz parte de toda a minha vida desde que me conheço, tanto como praticante, como espectador assíduo.

O MELHOR JOGADOR DO BENFICA
BENFICA é o clube do coração do JOTA ENE, um apaixonado por futebol. 
A divertida foto é de sua autoria.

6. Sou amigo do maior colecionar de gibis de "FANTASMA" - personagem de Lee Falk - , no mundo, e reparo que Jota Ene é também um bravo colecionar, que valoriza objetos, bilhetes, passagens, notas...De onde vem esse apreço por colecionar? Isso reflete um apego à memória, tão desvalorizada em nossa época?

- Sim, sou um colecionador nato, senão vejamos, a minha primeira coleção foi de "caricas (cápsulas) de refrigerantes e cervejas", teria eu 10 anos. A rivalidade com a minha irmã na busca das mesmas levou-nos a juntar mais de 1000! Até que um dia terminou. Penso que tudo tem um ciclo na vida.
...:::...
O porquê das coleções?... este é o meu ponto de vista: direi que a necessidade de colecionar objectos utilitários ou outros é contemporâneo e acompanham o homem primitivo desde sempre. Com o tempo essas coleções passam a ter significado, são regulamentadas, repetidas, aperfeiçoadas e revestidas de simbolismo que pode ser transferido a elementos palpáveis.
...:::...
O colecionismo ligou-se, desde o início, à idéia de posse que, por sua vez, gerou o conceito de propriedade. Possuir objetos tornou-se manifestação de poder. Assim, a coleção foi ultrapassando sua funcionalidade e tornando mais evidente seu lado simbólico.
...:::...
O patrimônio gerado por mim ao longo dos anos é constituído por bens passíveis de serem transmitidos ao herdeiro (filho) e, num sentido mais amplo, é tudo o que me cerca, que reivindico como meu.



7. Seus blogs são encantadores, e sua fotos enchem os olhos, tanto que algumas já foram divulgadas em CASA AZUL DA LITERATURA. Tem fotos publicadas em revistas?

- Sim, tenho registros em duas ou três publicações.
 

8. Tem fotos de lugares, como Sintra, considerada patrímônio mundial, detalhes de museus, conventos, candeeiro ( Baia de Cascais), bela foto, como todas, e divulgada em CASA AZUL DA LITERATURA. O que representam os lugares para Jota Ene? Nostagia? Felicidade?...

CANDEEIRO
Foto de Autoria de JOTA ENE 
publicada em CASA AZUL DA LITERATURA


- Fundamentalmente são lugares lindíssimos e dignos de serem visitados, quem sabe são lugares de pura nostalgia, mas essencialmente para passeios com a família.


9. A impressão é que seu trabalho com fotos é um hobbie, todavia o observador mais atento verifica logo a seguir, que, além do bom gosto e da qualidade, trata-se de um trabalho rigoroso que realiza. A ideia de captar o momento, fixá-lo na imagem da foto, tem alguma ressonância com a ideia de eternizar?


- É, a fotografia tem necessariamente de contar uma história, nem sempre isso acontece, tudo depende do "feeling" e "timing" certo.


10. Aprecia palíndromos e jogos linguísticos, as brincadeiras com o idioma, com a Língua, a arte com a palavra. Já pensou em publicar um livro sobre isso, expondo o seu acervo?


- Palíndromos e capicuas têm-me acompanhado pela vida inteira, coincidência ou não, é um facto. Quanto à publicação de um livro, penso que teria que ter apoios e ser do interesse de um público aficionado e isso para já não existe nesta vertente.



11. Falando em livro, como vê as profecias que anunciam o fim da livro para dentro de uns cem anos no máximo, levando em consideração o avanço tecnológico e as conquistas digitais. O que pensa a respeito? O Livro, em seu formato tradicional, de papel, sobreviverá?


- Sim, com certeza sobreviverá, é pena se assim não acontecer; tenho livros centenários e até uma Bíblia quinhentista (ou não fosse eu um colecionador nato)... penso que os hábitos de leitura sem ser em suporte digital irão perdurar eternamente.


12. Participa de alguma associação, alguma entidade de fotógrafos?

- Sim, sou "freelancer" de uma entidade virada para a fotografia de nome "ImageStock" sediada nos Estados Unidos, onde apresento alguns trabalhos sempre que tenho disponibilidade.


13. Conheço a obra de alguns poucos poetas de Portugal, como Eugenio de Andrade, que morreu num 13 de Junho, exatamente no mesmo dia da absolvição de Michael Jackson, um evento importante sem dúvida a absolvição do astro, mas a morte do poeta ganhou por aqui pequenas notas em jornais. Gosta de poesia? Tem algum poeta de Portugal, da atualidade ou não, de quem mais gosta?


- Penso que é uma pecha (uma lacuna) nos meus conhecimentos, gostaria que a poesia fizesse mais sentido na minha vida, mas infelizmente tenho outras prioridades no tocante a leituras, lamento. Porém, isso não invalida que tenha preferência por dois poetas portugueses com conteúdos diametralmente opostos, refiro-me a Fernando Pessoa e ao poeta Bocage.

14. Um de meus projetos mais antigos é um livro de Poemas a partir das imagens de fotos. Não é um projeto inovador, pois já há livros assim, mas muito quero ainda ter um livro em parceria com algum fotógrafo aqui no Brasil, no qual cada foto apresenta um poema, revelando assim ao leitor dois olhares, o olhar do fotógrafo e o olhar do escritor, do poeta. Já pensou em, aí em Portugal, desenvolver algum projeto em parceria com um poeta ou outro artista? De repente, a fotografia e a música...

- Não, nunca pensei seriamente nessa possibilidade, contudo, será sempre necessário conversar bem, articular pensamentos e alinhavar projetos, é uma hipótese viável dependendo dos respectivos convites.

15. "A alta tecnologia do mundo digital serve para registar, os momentos mais bonitos das pessoas e da vida!". Tem um belo site de fotos, chamado OLHARES, o que demonstra de vez que é um apaixonado por fotografia, e , mais que isso, é um aficionado do mundo digital. Sendo assim, acredita que o objetivo original da tecnologia seja mesmo melhorar a vida do ser humano?


- Sim, penso que a evolução tecnológica acontece fundamentalmente para melhorar a nossa vida em todas os aspectos. É importantíssimo, refiro-me ao mundo dos computadores e da fotografia, onde o "dia de amanhã se torna logo o dia de hoje" completamente obsoleto.

16. Há uma imensa discussão sobre o rumo e o destino dos direitos autorais na internet. Há quem afirme, com lógica argumentativa, que a noção de autoria está passando por uma transformação revolucionária. Está se modificando, e o autor, tal como o conhecemos nos séculos e séculos, será um vulto do passado. O que pensa a respeito?

- Penso que os direitos autorais são fundamentais e um direito que nos assiste. Ninguém gosta de ver os seus trabalhos (escrita, fotografia e afins) serem reproduzidos noutro lado sem no mínimo um pedido de autorização ou referir os respectivos créditos, infelizmente isso ainda acontece. Penso que nessa matéria, as entidades competentes são um pouco permissivas quanto às coimas (multas, penalidades)  a aplicar.

17. Uma fotografia que capta o momento da beleza do plainar de uma libélula, de um pirilampo, ou a inflorescência de uma flor, ou anterozóides depois da chuva, é obviamente, tão importante como a que registra o sofrimento, a dor, a fome, a barbárie. Se também assim pensa, poderia nos revelar uma foto pelo menos, que não seja de sua autoria, que muito o tenha encantado, e que para você tenha se tornado inesquecível?

- As fotos de guerra infelizmente são as que me marcam mais. Sim, há uma foto que me marcou de um amigo meu, ex-fotógrafo dum jornal diário português (Diário de Notícias) e que de algum modo vem-me sempre à memória. Passou-se na antiga guerra colonial de Angola (país hoje independente, mas na época sob domínio de Portugal) a foto "relatava" um enforcamento dum guerrilheiro montado num cavalo, com a respectiva corda presa a uma árvore e com a outra ponta enrolada ao pescoço do mesmo, na altura em que o cavalo era afugentado, esse amigo fotógrafo a mais de 150 metros e com uma potente tele-objectiva registou a morte desse guerrilheiro. Tive conhecimento que esta foto foi premiada pelo "timming" certo, apesar da mesma lidar com a morte de uma pessoa, ou seja, de um ser humano.

18. Uma foto pode mudar o mundo? Pode modificar o rumo da consciência de uma pessoa? Por aqui se diz: "Uma imagem vale por mil palavras". Eu, por exemplo, jamais esqueci da foto da menina correndo queimada pelo bombardeio. Poderia falar de uma foto, certamente no universo jornalístico, que tenha contribuído para o aprimoramento da consciência humana?


- A resposta anterior responde a esta.

19. O que é para Jota Ene a felicidade?

- Bom, tenho uma máxima que, felicidade plena não existe, existirá porventura laivos de felicidade e essa sim temos que saber aproveitá-la.

20. Gosta de cinema? De que forma vê o cinema hoje, com tantos efeitos especiais, tanta sofisticação? Poderia nos falar de alguns filmes que o emocionaram?

- É curioso, não sou apreciador de cinema, tenho centenas de filmes em suporte digital (DVD) e nem um 1/3 desses filmes visualizei.


21. Passa a ideia de ser um bon vivant, no sentido de ser um apreciador da vida, do lado bom da vida, isso é evidente em seus blogs (Benfica do Jota)... Como falei anteriormente sobre o Dedy Edson, o maior colecionador de FANTASMA do mundo, gostaria de saber se JOTA ENE aprecia Revistas em Quadrinhos (gibis), e se tem heróis prediletos, inclusive do Velho oeste...

- Rs... sem duvida sou um apreciador do lado bom da vida, afinal todos nós somos, tento também passar através dos meus blogues, o meu estado de espírito perante a vida, nunca esquecendo que esta vida é efêmera e temos que saber aproveitá-la ao máximo.
Sim, enquanto adolescente era um consumidor (consumista) de Banda Desenhada, havia um Super-Héroi que sem duvida era o meu favorito perante a constelação de Super-Heróis da época... era inevitavelmente o Super-Homem, todo aquele personagem com os seus super-poderes me intrigava e despertava a curiosidade.



22. De tudo que acontece no mundo em nossos dias, ou nos relacionamentos pessoais, ou, enfim, na vida, o que mais entristece Jota Ene?

- No mundo infelizmente entristece-me a fome e as desigualdades sociais, na vida e nas relações pessoais entristece-me lidar com pessoas, cínicas e hipócritas. Custa-me conviver com pessoas que fazem da mentira o seu modo de vida, não lido nada bem com a mentira, talvez por ser o inverso desses pressupostos.


23. Que mensagem deixaria para os amantes da fotografia que pretendem iniciar suas trajetórias?

- Bom, para iniciar um hobbie como a fotografia, não é necessário começar por uma boa câmara fotográfica. O segredo é "bater" muitas fotos e o digital encarrega-se de corrigir os nossos erros sem muitas despesas adicionais. Eu próprio sou (fui) um autodidata da fotografia, aprendi (aprendo), ainda hoje, com os meus erros... Só errando se melhora.


24. Deixe ao leitor de PALAVRA FIANDEIRA a sua mensagem.

- Deixar uma palavra de apreço ao autor desta entrevista, que infelizmente conheço muito pouco, penso que conduziu a mesma de uma forma hábil, brilhante e que mostrou muito conhecimento sobre os meus hábitos, de forma intuitiva ou não, até a mim meu caro Marciano Vasques, me surpreendeu.
Tentei sintetizar esta entrevista para que a mesma não se tornasse fastidiosa.



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JOTA ENE É O CRIADOR DO BLOG
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MARCIANO VASQUES


Marciano Vasques é o fundador de PALAVRA FIANDEIRA

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sábado, 1 de maio de 2010

PALAVRA FIANDEIRA - 27


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PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 27- 1º/MAIO/2010

NESTA EDIÇÃO:



MARIA CRISTINA OGALDE

CHILE
Por Rocío L' AMAR

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VIOLENTAMENTE PACIFISTA, 
MARIA CRISTINA OGALDE,




A ironia como ferramenta literária .

Ao que chamamos ironia?

Segundo o dicionário da língua Espanhola, o vocábulo ironia é uma figura que consiste em dar a entender o contrário do que se diz, porém, também se pode observar como uma brincadeira sofisticada e dissimulada.
Se atentarmos ao dito por Jaime Rest, o termo ironia, utilizado em literatura se presta a diversas e completas disposições, porém baseados na manifestação de condutas ou enunciados que parecem negar ou prescindir um manifestado conhecimento de quem na verdade acontece ou acontecerá o contrário do que foi expresso.

A ironia é um efeito típico da tragédia grega, donde os acontecimentos narrados eram conhecidos pelos espectadores e intérpretes, porém que pese a isso, os personagens se representavam na ficção cênica como se desconhecessem as consequências nefastas de seus atos,

Traçado histórico da ironia.

A ironia é um conceito que pode ser aplicado a realidades muito heterogêneas. Tem sido ligado à Filosofia e à Psicologia, ao ser considerado como um estado de ânimo, e à Literatura e à Linguística, por ser um fenômeno literário e estilístico.

A palavra eiron eironeía se fala anotada ao grego desde o ano de 400 a. C. O irônico eíron viria a descrever tanto na moral como na sofística, assim como também na comédia helênica a um caráter mais bem negativo, isto é, o de uma pessoa que finge o dissimula até ao grau máximo, aparentemente o simulador por excelência. Observa o humor de alguém em aparência desvalida, porém que ocultando-se e dissimulando bem seu jogo e intenção, consegue estrategicamente aquilo que se traz entre as mãos. Na retórica clássica distingue- se entre ironia como figura de palavras (tropos) e a ironia como figura de pensamento (schéma). A capacidade filosófica do irônico se mostra pela primeira vez, nos diálogos platônicos, quando Sócrates acolhe as expressões características do irônico e mostra os sinais para os leitores - ouvintes acostumados a uma leitura crítica. A atitude do eiron socrático era a de um completo equilíbrio entre certa confiança no instrumento do pensar que apreende a realidade e, ao mesmo tempo, a consciência do limitado de tal ferramenta, o limitado da razão. Aparecem aqui os elementos que constituem a ironia: a dissimulação como caráter do eíron, que persegue de forma permanente o pôr à prova a seu adversário, alterando o conjunto do discutido. Entretanto, a ironia não tardou em cair no descrédito geral, vendo-se nela um simples meio de disputa retórica, sendo considerada mais tarde, entre os estóicos como uma forma velada de sofisma.


Aristóteles não trata do tema em particular. Contudo, pode ver-se de alguma forma o interior da teoria das virtudes como um desvio da veracidade do equilíbrio com o qual se há de construír a virtude. A ironia, é validada como um instrumento e, desta forma, como uma espécie mais requintada e distinguida de simulação. E será permitida como expressão possível de humildade. Por outra parte, Cicerón e Quintiliano desenvolveram o conceito de ironia como figura literária. Para o primeiro, a ironia é um ornamento e um instrumento da eloquencia; para o segundo, uma parte da retórica. Na atualidade, esta concepção da ironia como tropo está representada pelos trabalhos de C. Kebrat Orecchioni, que é quem estudou este conceito como um fenômeno especificamente verbal.

Na retórica tardia vai se sistematizar a ironia como um caso especial de discurso alegórico, e desde esse momento até nossos dias, o fenômeno irônico vai significar um tema de grande interesse tanto para filósofos como os estudiosos da linguagem.
Como temos observado, desde Sócrates a ironia tem o alcance de uma lógica que, como recurso metódico tenta estabelecer os limites da própria razão, portanto, reconhece nela uma tendência essencial ao excesso bombástico a que deve ser corrigida antes de começar a filosofar. A razão irônica, por outro lado, tenta estabelecer as possibilidades que determinam a fronteira do conhecimento alcançavel. Deste modo, a constituição do discurso que encadeia argumentoss põe em evidência, se é interrogado até o final ao modo socrático, sua mesma falência. A ironia então, revela o caráter pseudo do discurso na mesma medida que transpõe a ordem do que se pretende.


E quanto a ironia verbal.



A ironia não tem um fim externo, mas sim um objetivo em si mesma. A ironia envolve um ato de reconstrução de significado desde a intenção do enunciador, sobre a base dos conteúdos implícitos e explícitos que se expressam.
A ironia tenta quebrar por dentro a rede quer tecem as palavras, de modo a torná-las transparentes, para isto não só diz, mas atua ao contrastar o mero dizer com um dizer implícito.

A ironia é um recurso estilístico que serve ao remetente de uma mensagem o discurso, para argumentar e persuadir sobre determinadas questões que em alguns casos é preferível expô-las de um modo linguisticamente diferente, de modo que possa provocar risos no auditório desvirtuando o verdadeiro significado dos enunciados e dos argumentos.

Quando a literatura admite brincadeiras: a ironia ou o sarcasmo são argumentos.
Em " A Caverna do Humorismo", Pio Baroja (1919), disse que em literatura cada humorista é uma ilha. Existe a ilha de Shakespeare, a ilha de Cervantes, a ilha de Rabelais. a ilha de Juan Pablo Richter e a ilha de Dickens. perssoalmente, agregaria - no mesmo tom - a ilha de Jorge Luis Borges, a ilha de Francisco de Quevedo, a ilha de Juan Pablo Richter, a ilha de Nicanor Parra, entre outros.

Então cabe assinalar como o humor e a ironia têm acompanhado sempre a obra literária do/a escritor(a): Se revisamos a história cubana encontramos que o humor foi e é uma constante, peneira na vida cotiidana, se alimenta e é alimentado, ao mostrar o cômico ou ridículo que resultam determinadas situações "Se alguém decide a observá-las a certa luz ou de um ângulo que não seja o habitual", sinaliza Manuel Díaz Martínez em PANORAMA HISTÓRICO DA LITERATURA CUBANA.

Pelo posto, seja esta lúcida em sua atitude, luz e sombra, boca e eco, verdades ou mentiras, sarcasmo choroso ou pungente, humilde cinismo ou sabedoria cética, ironia bem - aceita, mordida criola, caretas requintadas, zombaria benigna, impudência, contradição, humorismo, trágica ou cômica, brilhante ou fosca, se faz verbo para habitar entre os poetas/escritores, à hora de construir uma literatura capaz de dar contar das transformações sociais e culturais que sacodem o imaginário coletivo e individual da pós-modernidade global na qual vivemos.


Ao que parece, a ironia seria uma truta molhada que não é fácil de se capturar, também poderia ser uma luva branca ou uma mão sábia, ou uma mercadoria escassa. Uma reflexão educada e mordaz do que se pode fazer. A encontramos em Cervantes, donde o humor é tela de universos contrafeitos; no Quixote, como uma sequência didática adicional, entre outros autores.

E o sarcasmo seria uma pedrada, inclusive contra um@ mesma, que provoca hematomas, assim mesmo, uma desenfreada chacota, crítica implacável, caracteres e posturas, atendereia a uma sede de vingança, um estalido de cólera, algo impensádo e violento, seria caprichoso como o grandalhão de barro que impõe a sua vontade sacrificando a justiça. O sarcasmo seria útil se de lastimar se tratasse.

Apresentação.


Esta escolha - como as anteriores entrevistas - tão pouco é aleatória. Responde ao caráter dialógico e controvertido de uma escritora chilena, Maria Cristina Ogalde. A ironia, o sarcasmo e o humor supõem um bom exemplo para poder demonstrar como a situração, a intenção comunicativa, o contexto verbal e o conhecimento do mundo, entre outros fatores, são fundamentais como elementos extra - linguisticos, determinando o uso da linguagem.


1. Disse Hernán Montecinos, que em nome da ironia nos vendem gatos por lebre. E ás vezes em lugar de gatos nos dão cachorros, porque quando a ironia late a chamam sarcasmo. Do ponto de vista de sua alta capacidade cognitiva, Maria Cristina, que entende você por ironia e por sarcasmo?

- A ironia é uma trincheira onde se esondem todas as ralés do mundo, ali cabem os analítcos introvertidos que de sua riqueza interior têm a valentia de falar de tudo, os valentes que se atrevem a falar de tudo com inteligência, os inteligentes não sabem sutilmente dizer as coisas com humor negro, os humoristas, os bons humoristas que falam sobre tudo despidamente e nos fazem rir de nós mesmos, a ironia é dinâmica, é poesia em movimento, a ironia é arte, é sutileza, é filosofia e psicologia fundidas, o resto é apenas sardonismo a boca larga, palavreado, verborragia de covardes que se escudam em palavras vís para vomitar seus ressentimentos.


2. A ironia usufrui social, cultural e literariamente de máximo apreço: toda existência inteligente deve ser irônica, chegando-se por este caminho a uma afirmação implícita que a sacraliza: ironia é inteligência seriam a mesma coisa. Porém é a ironia realmente o que os escritores irônicos afirmam que é: um mero dizer que disse outra coisa que não pode ser dita?

- É muito mais que um mero, é a forma de dizer iluminada para iluminar até aos mais estúpidos, aqueles aos quais custa "cair a ficha".

3. A ironia obriga também ao leitor a acionar a uma série de conhecimeentos: históricos, filológicos, linguisticos, psicológicos, sociológicos ou estéticos, que são vistos no momento de sua interpretação. Quem não leu alguma vez nos retalhos de um romance que o autor é ponderável por sua "espumante ironia", ou por sua "visão irônica ou mordaz", ou por seu "irônico sentido do humor". Acredita você que o leitor participa nesse jogo de cumplicidades a que se lança o escritor?

- Lógico que sim, pelo menos a maioria, por que a ironia veste roupas simples, alcançável a todo cérebro, temos o exemplo de quem escreveu os textos da celebrada obra teatral "TRÊS MARIAS E UMA ROSA", quem mostrou situações cotidianas, vividas por todos os chilenos, seja já de uma vereda ou outra, saturada de ironia que faz rir até chorar e continuar o pranto pelas coisa terríveis que estava mostrando com tanta sutileza, a ironia de Alejandro Ananías, que calmamente e com paz nos mostra terríveis verdades, que qualquer um pode entender, ou Mario Vargas llosa, que tem tanta ironia em seus escritos, repetidas vezes que é como estar estudando os apontamentos para a prova em meus tempos de esola, a ironia é a forma divertida para cativar ao leitor, claro está que para as crianças não, para elas está a moral, que é ironia miudinha.

4. "Era pessoa de uma tranquila idiotice"( citação de Borges). Que razão gera em você esta frase?

A palavra "tranquila" me cativa, a idiotice me distancia, porém juntas podem ser um potente disfarce ou um casco para refugio da ironia, oxalá consiga esse justo equilíbrio.

5. Existe o homem/mulher puramente crítico(a) ou o homem/mulher puramente passional do ponto de vista do componente literário, dos elementos ideológicos, das potências estilísticas individuais?

- Sim, os temperamentos nunca são puros: os fleumaticos possuem caracteres de apaixonados coléricos e os coléricos têm traços fleumáticos, e se as ciências se apoiam umas nas outras, não creio na pureza das coisas, mas sim na predominância de caracterísicas.


6. Quem, para seu gosto, ostenta a coroa da ironia e a coroa do sarcasmo na literatura universal?

Thomas Mann, sem dúvidas.

7. Como sempre ocorre, as manifestações originais têm imitadores. Estou pensando no sarcasmo, como uma expressão que pôs na literatura as contradições de uma época - hoje velhas concepcões ou utopias em seguidas - Qual crê você que seja a paixão essencial que envolve o sarcasmo e que se trata de manter até hoje em dia como linguagem nova e fresca...Poderia nomear algum(a) autor (a) chileno (a)?

- Não gosto do sarcasmo. É violento, sua linguagem é irritável, ofensiva, irrita os ouvidos, é uma pálida mostra da sutil ironia, a ironia nos faz refletir, nos abre espaços, o sarcasmo nos mata, nos encaixota, nos transmite ressentimento, a partir de que terminei de ler Henry Miller e Jean-Paul Sartre nunca mais os abri, e nisso já se passam mais de quarenta anos. O ressentimento, a amargura, a frustração, o desespero, a falta de fé. O romancista Fernando Jerez.

8. Sátira ou paródia? Humor crítico ou irônico?

Ambos. Gosto muito das cenas dos trabalhadores em "Sonho de uma noite de Verão", de Tchaikovsky, Refletem perfeitamente as quatro alternativas que mencionas.

9. " O aço é um discurso que serve nas duas extremidades, da matança pela ponta, pela trava de proteção" (Sor Joana). Faço referência a este epígrafe pensando no discurso cadente, contudo na raiva temperada, martelada pelos minuciosos martelos da ironia no discurso feminino; jogo de palavras donde se diz o contrário do que se pretende dizer". Como observa você nesse "eu" como escritora, considerando que profere palestras sobre violência das escrituras, lhe agrada ler a Tchaikovsky, e escreve contos pesados, impetuosos, violentos?

Que contradição de vida, não? Justamente eu, que toda minha vida tenho tratado de educar-me na paz, me atingiu caminhar pela verdade da violência, tenho querido ser fleumática e entretanto resultei ser dominantemente apaixonada, tenho querido ser cordeira porém a cauda de loba aparece por debaixo da saia, por isso que Piotr Ilich Tchaikovsky me harmoniza e meus contos humanizam a violência.

10. Qual é a sua comunhão secreta, seu estilete, seu motor principal, a mão que lhe dá de beber, afinal de conta, para escrever?

As contradiçoes da vida, a minha ou a dos outros.

11. O que anda escrevendo você - como tema - com a mão na ferida, e qual é o seu objetivo?

Os contos de "O musgo cresce ainda sem água" foram absolutamente uma exorcização, se até me parece tê-los escrito com o sangue que emanava de todas as minhas chagas e que a misericórdia de meu parceiro revestido de Deus limpou e curou.

12. E para concluir a entrevista, entre o anedótico, o saboroso - positivo ou negativo - em seu processo de criação. O que nos pode contar?


Em El Salvador, depois de uma semana de cativeiro e tortura enfrentei a um guerrilheiro arrebatando-lhe a metralhadora para defender a vida, venci o pânico à morte para matar e hoje estou aterrorizada pelo terremoto e não consigo vencê-lo, com cada réplica começo a suar, me falta o ar, me dói o peito, tenho pânico que a casa caia sobre mim. Não considera isso terrível? Enfrentei um montão de animais com uma metralhadora que nem sabia usar e senti grande liberdade, agora respira  a "pacha mama" e não consigo vencer o medo de morrer: ironias da vida.


Biografia



María Cristina Ogalde nasce em Talcahuano, Chile. Escritora, contadora de histórias, gestora cultura, Diretora de la Revista Digital Periferia, com estudos de Teologia e Psicologia na Universidade Católica de Valparaíso, na Pontifícia Universidade de Roma e na Universidade do Rio Grande do Sul, Brasil. Por mais de vinte anos atua como missionária na Revista Mensagem, e em diversas revistas europeia e latino-americanas. Tem incursionado em ofinas literárias do Brasil e estudado a cultura escrita do cordão de favelas em Restinga.

É fundadora e presidenta do Centro de Investigações Culturais "A Cadeira", do Coletivo "A Cadeira", diretora de edições "A Cadeira", assessora do CC Amigos por Talcahuano, educadora popular no Município de Talcahuano. Colabora com a Revista Catalejo da Cidade. Como gestora cultural obteve o prêmio "Conselho Nacional do Livro e a Leitura 2008. Publicou no Chile, o livro de contos "O Musgo cresce ainda sem água" e " Cadernos de Crônicas". Atualmente, é diretora e coordenadora de oficinas literárias. Escreve um ensaio sobre a violência contra a mulher no Chile e América Latina.



Publicações em Revistas:

-Artemisa 2006


-Catalejo-2007



IRONIA

Caminhando, caramirando
Busco em meu bolso
O anel que me deste em sonhos
Para não sentir a angústia de te perder algum dia
Caminhando, caramirando
Verto minhas mãos em minhas mãos
E só encontro o fruto de meu cansaço.






PASTAGENS SECAS


O andarilho suava sob o ardente sol de Galícia, as pedras lhe atravessavam as sandálias e retumbavam em seus joelhos. A trilha de rebanhos lhe parecia interminável. O amarelo das pastagens secas lhe agregava ao rosto e avermelhava os olhos. Tinha sede. Muita sede. Sentia a língua gorda e esfarrapada. Lhe doia o esqueleto. O balido das ovelhas o tinha incrustado nos ouvidos, sorriu ao pensar que logo tudo o trocaria pela música da pianola no prostíbulo do povoado enquanto se afogava em cerveja gelada...bem gelada.


OS PEIXES


A anciã estava sentada desde o amanhecer na única rocha ao longo da extensa praia , lisa e envelhecida pelos golpes das ondas. Permanecia instantes em silêncio, momentos murmurando repreensões com as mãos cruzadas sobre os joelhos, embrulhada em espesso manto com mais anos que ela. Inclinou-se para olhar nas águas calmas o reflexo da lua, não o conseguiu, a poluição a tornava mais escura e espessa como a mesma noite que a envolvia. A pesca que se instalou nas proximidades era a responsável. Não apenas arruinou a água como também a vida dos pescadores dessa pequena angra. Os peixes morreram ou desertaram mar adentro. A anciã se enrolou um pouco mais, esperava examinando o horizonte em busca da luz que anunciaria a chegada do bote. Permanecera dois dias e duas noites assim.
Em suas costas ainda se refletem luzes dos barracos, refúgio de seus vizinhos.
Dona Joana saiu de um deles e se aproximou com dor.
-Vamos, dona! Entre que está chegando a madrugada.
- Já estou indo, dona - respondeu a anciã - Só um pouquinho mais, deixe-me despedir- acrescentou com um suspiro.
- Venha para comer algo, senhora. - capaz que adoeça aí - berrou a mulher entrando novamente no barraco.
A anciã resmungou uma vez mais començando a levantar-se. Por sua mente, passava o resto de sua vida sem "seu " velho, que se lançou ao mar em busca de sustento.
- Que onda gigante! Que vendaval te levou ao fundo, meu velho? - Peguntou ao vento.
- Qual será o meu futuro? - se perguntava - Forças para trabalhar já não tenho. A fome ameaçadora terminaria com as poucos que ainda lhe restavam.
- Bom velhinho, que iremos fazer? Boa noite, descanse, velhinho meu.
Mal terminava de pronuciar essa despedida, quando da água negra emal cheirosa saltaram peixes refletidos ao luar, centenas caiam na areia, esvoaçantes, ofegantes fora da água.
A anciá, assustada, recolheu o mais que pôde em seu avental estendido nos braços. Nessa madrugada, o cheiro de pescado recém - cozido, inundou a angra, aromático, forte,. Convidou aos vizinhos para tomarem o café da manhã. Ao meio dia o seu quintal estava repleto de peixes pendurados ao sol para secarem e serem vendidos na cidade. Assim a anciã nas noites enluaradas, sentada na mesma rocha e na mesma hora, contemplando as águas mortas, secas de vida, em um rito sagrado, repetia:
- Boa noite, velho! Descanse, velhinho meu.
No mesmo instante, saltavam peixes dourados e prateados, para ela e seus vizinhos, para vender e convidar.

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ROCÍO L' AMAR
Rocío L' Amar:
Jornalista, ativista cultural, correspondente 
e
colaboradora de 
PALAVRA FIANDEIRA
no Chile
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Tradução do original em Espanhol por
MARCIANO VASQUES
Marciano Vasques:
Escritor e
o fundador de 
PALAVRA FIANDEIRA


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quarta-feira, 21 de abril de 2010

PALAVRA FIANDEIRA 26


PALAVRA FIANDEIRA
REVISTA DE LITERATURA
ANO 1 - Nº 26 - 21/ABRIL/2010


NESTA EDIÇÃO:

MICHELLE BEHAR
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MARCIANO VASQUES ENTREVISTA:


1. Quem é Michelle Behar?



Uma apresentação básica que aparece nos meus sites:
Michelle Behar, artista plástica, nascida na Guatemala em 1955. Naturalizou-se brasileira e mora em Curitiba, Paraná. Atualmente trabalha como Gravadora, Desenhista, Pintora e Ilustração Free-Lance. Ministrou cursos de extensão de gravura na Universidade Federal do Paraná e dá cursos particulares de Pintura em Computador. Desenvolve ilustrações para livros, pinturas, gravuras em linóleo e artes plásticas digitais.

2. - Michelle, você é guatemalteca, e vive em Curitiba. Quando veio ao Brasil e o que a levou a tomar a decisão de aqui viver? Pode nos contar essa história?

Com 18 anos sai da minha terra natal, para ir morar na Suíça com meu pai que foi transferido para a Organização Mundial da Saúde. Foi lá que conheci um brasileiro, paulista, músico com quem casei e que veio a ser o pai dos meus filhos. Não era possível ficar morando na Suíça já casados, por isso vim com ele para o Brasil, para São Paulo, inicialmente durante dois anos. Mas ele foi transferido para trabalhar em Curitiba, e ao chegar aqui, eu pensei: é aqui que quero morar o resto da minha vida. Eu tinha 23 anos à época.

3. Andou em Genebra, na Suíça, poderia falar dessas suas andanças?

Estando em Genebra tive a oportunidade de freqüentar o curso de Belas Artes. Fiz cursos extracurriculares de desenho e escultura com modelo nu. Mas a principal oportunidade que tive morando lá na Europa foi poder conhecer as principais cidades e museus europeus, o que é uma experiência única, culturalmente falando.

4. Sob orientação de Eva Funari frequentou um atelier, um curso. Conte-nos essa passagem em sua vida.

Morando já em São Paulo procurei algum lugar onde poderia continuar meu trabalho artístico. E foi assim que conheci o Atelier Lassar Segal. Local deixado pelo artista para ajudar jovens artistas a ter um local para desenvolver seu trabalho utilizando as prensas de gravura e os espaços que eram o atelier dele. Foi lá que conheci e fiz amizade com Eva Furnari. Isto foi mais ou menos em 1977. Na época ela ainda não trabalhava como ilustradora, mas vendo o maravilhoso desenho dela, trocamos muitas idéias sobre ela se encaminhar para essa área, e preparar um portfólio para apresentar às editoras.

Ela seguiu esse caminho, eu segui o meu como gravadora, mudando para Curitiba e procurando então o atelier da Lais Peretti, que tinha um atelier de litografia particular. Foi com ela que, mais tarde, o grupo todo foi trabalhar no Solar do Barão, da Fundação Cultural de Curitiba.

5. Já participou de exposições em San Salvador, em Havana - Cuba. Considera que para um artista as exposições individuais ou coletivas sejam relevantes?
Um artista sempre quer que sua arte chegue ao público de uma forma que sensibilize as pessoas. E só pode acontecer isso se o trabalho é mostrado em exposições, sejam coletivas o individuais. Mas um artista nunca é um bom comerciante, e ele deveria poder contar com um marchand para fazer essa parte de divulgação e venda do trabalho. Ocorre que, infelizmente no Brasil, a arte ainda não tem seu devido valor para que o artista possa ser só artista.

6. Já recebeu algum prêmio pela sua arte?

Ainda na Guatemala recebi um premio importante de cartazes, com o tema dos 150 anos da independência da Guatemala. O que esse premio marcou em mim foi que além da quantia em dinheiro que veio, ganhava 100 copias da reprodução do meu cartaz. Tive a oportunidade de visitar o atelier litográfico que estava fazendo isso e ver como era feita a separação de cores e as placas litográficas comerciais. Foi uma experiência que marcou pelo encantamento de ver o trabalho reproduzido em múltiplos. Acho que isso que me deu o gosto pela gravura e depois pela ilustração também.

7. Tem alguma arte de sua produção  em acervo?

Tenho uma obra de gravura que foi doada para o Museu Colméia em Lages, que iniciava sua coleção na época. Nem sei se ainda existe esse museu por lá.
Uma das minhas gravuras de litografia coloridas passou a fazer parte do acervo do Museu da Gravura da Fundação Cultural de Curitiba após ter dado um curso lá no Solar do Barão.
A mais importante, é a litografia que passou a fazer parte do acervo do Walt Disney. Eu deixei algumas obras para vender numa galeria da Guatemala. E foi la que o filho do Walt Disney viu e comprou uma gravura minha para fazer parte do acervo deixado pelo pai dele.

8. Em tempos de mídia digital, como vê a importância dos museus para a cultura?

Poder ver e apreciar uma obra de arte, ter acesso a ela por mídia digital, é sempre uma enorme vantagem. Mas a emoção de poder visitar um museu e ver obras de uma forma física, sejam elas pinturas convencionais, gravuras, fotografias e pinturas por computador impressas, sempre será uma experiência diferente e mexe mais com a emoção. E para mim arte é isso, mexer com os sentimentos.

9. E o livro, o que poderia nos dizer? Ele sobreviverá na sua forma tradicional?

Existem muitos tipos de livros. As enciclopédias, por exemplo, são livros que já morreram, com o melhor sistema de busca e informação que o homem já viu no Google. Os didáticos estão perdendo para as apostilas, o que eu acho uma pena. Tem livros que são só para se  ler uma única vez, como entretenimento, esses podem ser lidos digitalmente num Palm ou celular. Agora, existem os livros que são uma jóia, pelas suas ilustrações ou fotografias, acompanhados de informação ou historia. Esses em minha opinião, nunca vão morrer.

10. Ilustrou o livro A CIDADE DAS CANTIGAS, que agora é também uma peça de teatro, um musical aprovado pelo Ministério da Cultura. Conte-nos, por favor, essa experiência de ver sua arte num livro, que depois também é transformado numa peça teatral.

Página do livro "A Cidade das Cantigas"
O maior desafio na ilustração de "A Cidade das Cantigas" foi representar nele a neta do autor e a minha filha, como as meninas que são as personagens do livro. E eu adorei poder fazer isso, e brincar com o imaginário das canções infantis.

11. Você acaba de lançar um livro, que é o seu primeiro. Fale, por gentileza, desse livro. É um livro com suas obras de arte? 

Michelle Behar autografando no lançamento do seu livro

Este livro Zoomorfosis surgiu num processo contrario ao normal de um livro ilustrado. Pois foram as obras de arte já prontas que sugeriram a historinha que é relatada no livro. Foi um processo longo de mais de um ano de criação de obras de gravura originais. Depois veio a criação da historia que eu nunca tinha tentado me expressar na escrita, a tradução para o espanhol, minha língua natal. E depois todo o processo de diagramação, edição, registro, ficha catalográfica, enfim, o processo completo de criação de um livro que foi uma experiência muito interessante.

12. Pergunta padrão em PALAVRA FIANDEIRA: O que é para Michelle Behar a felicidade?

Para a felicidade eu tenho um pequeno poema escrito que descreve bem o que penso:

De dentro para fora
Procurando andava um dia
onde achar a alegria;
a procurei de norte a sul
do Pacifico até a Oceania.

E também a felicidade
que nem no amor eu a via,
pensei que alguém a possuía
ou lá longe a escondia.


Mas o que eu não sabia
e que em nenhum lugar estaria.
Pois a felicidade e a alegria
estão onde menos pensaria.


Com muita surpresa eu vi
que a chave eu já tinha,
e a fechadura, quem diria!
só de dentro para fora abria.

15/10/08
Michelle Behar

E olhando de dentro para fora cheguei a conclusão que a felicidade maior consiste em poder trabalhar no que mais gostamos, e fazer isso com muito amor.

13. Atualmente você aprecia mais a arte digital, ou ainda gosta de desenhar no papel?


A arte de Michelle Behar


A arte digital é uma ferramenta muito poderosa de criação. Da muita liberdade de criar e refazer quando é necessário. A utilizo muito na ilustração, pois sempre são necessárias mudanças que digitalmente são mais fácil de fazer sem ter que desenhar tudo de novo. Mas também utilizo essa arte digital para fazer projetos de pinturas e gravuras que depois eu vou tornar realidade física no papel ou na tela.

14. Como vê a produção de Literatura Infantil no Brasil? Poderia citar alguns autores, escritores, e também ilustradores, cujo trabalho você acompanha?

Eu acho que a literatura infantil no Brasil tem excelentes autores e ilustradores, apesar de nem sempre serem bem remunerados, como é o caso no exterior, quando um ilustrador pode viver bem com o que ganha ao ilustrar um livro por ano. E isso permite a ele o tempo e dedicação de fazer um trabalho muito caprichado.
Acompanho sempre o trabalho da Eva Furnari com quem ainda mantenho amizade, e da Marcia Széliga como ilustradora, cujo trabalho eu admiro. Como autores, eu gosto muito do jeito que o Marciano Vasques escreve, e também da Liana Leão. 


 Marcia Széliga, escritora e ilustradora de Livros infantis

15. É sócia, membro de alguma Associação, alguma entidade dos ilustradores?

Freqüento as reuniões do Costelão Ilustrado, onde um grupo de ilustradores de Curitiba se reúne uma vez por mês para beber, comer, conversar, trocar experiências e desenhar nos papeis Kraft que forram as mesas. Esses papeis logo farão parte de uma exposição muito interessante e diferente.

16. Você atua em diversas formas de produzir arte, passando pelo desenho digital e outros, como o desenho vetorial, falando nisso: o que é um desenho vetorial?

Existem duas formas básicas de criar imagens no computador, as de bitmap e as vetoriais. A diferença principal consiste na forma como o computador vai lembrar dessas imagens. O bitmap é registrada num quadro de coordenadas x e y, onde cada pontinho que compõe a imagem tem um valor de cor, saturação e luminosidade. Isto permite criar de uma forma mais natural para o artista, com um desenho mais livre, mas não permite aumentar muito a imagem do tamanho que foi criada sem perder qualidade. É o sistema utilizado também para fotos.
Já as vetoriais são lembradas pelo computador por formulas matemáticas parabólicas. Mas para isso, tem que ser criadas em programas próprios, e compor a imagem como um quebra-cabeça de linhas e preenchimentos que se somam para formar a imagem. Isto permite ao computador lembrar só as formulas e cores, podendo fazer essa imagem ficar em qualquer tamanho sem perder qualidade.

17. Está no Twitter? O que significa para você essa onda atual de alguém ter, por exemplo, dois mil e até vinte mil seguidores, e alguém ter no mundo virtual centenas e centenas de amigos?

Estou no Twitter sim, mas não sigo tanto como vejo que meus filhos o fazem. Estou também no Facebook e no Orkut, no GTalk e no MSN. Comecei nessas redes principalmente para acompanhar atividades da família que esta longe, mas sempre vão aparecendo amizades novas em cada lugar. Acho que os familiares e as amizades ficam mais perto dessa forma. Pois considero que a amizade é algo que sempre tem que ser cultivado, e poder ter um contato e resposta imediata ajuda muito. As amizades, mesmo sendo virtuais, sem nunca ter conhecido pessoalmente, são muito reais quando se encontra uma afinidade boa. Tenho amigos na internet de faz mais de 15 anos, que nunca vi pessoalmente,  mas que acompanho a vida deles sempre com carinho. Tenho amigos ate na Islândia!

18. Acompanha a Arte Contemporânea? Muitos não gostam, alguns criticam, outros não entendem, há quem diga que ela privilegia a estética do feio. Que comentário faria a respeito?

Para mim a arte é sentimento, e se uma arte não consegue mexer com esse sentimento, não adianta. Mas esse sentimento nem sempre precisa ser bom, ai depende de como o expectador se identifica, pois tem gostos para tudo. Eu pessoalmente aprecio o que me passa uma sensação boa e bela. E dentro disso pode ser algo abstrato ou figurativo. Mas acho que o figurativo, por ser mais facilmente sentido, esta voltando a ter força no meio das artes contemporâneas.

19. Certamente é uma considerável leitora. Poderia nos citar pelo menos um livro que tenha lido e que realmente possa ter influenciado a sua vida?

Eu lembro que os livros do Richard Bach, principalmente o "Fernão Capelo Gaivota", mexeram e influenciaram muito na minha juventude. Foi onde vi que uma historia pode voar muito mais longe na imaginação do que as formas convencionais de novelas que seguem uma linha dentro da realidade, mesmo sendo ficção.

20. Você fez um desenho que atiçou a curiosidades de muitos, que é o "Mickey Feio". O que quis transmitir com esse trabalho?




O "Mickey Feio" foi só uma forma de mostrar aos ilustradores participantes esse jeito de ilustrar com estilo de gravura, que fica muito adequado para historias de medo, que a garotada hoje em dia curte muito.

21. Fale de algo de nossa época que realmente a deixa muito triste.

Eu acho que não tem nada na nossa época que não tenha tido em outras anteriores, que são as atitudes de desrespeito de algumas pessoas que não conseguem viver dentro de um principio básico de ética moral onde amar ao próximo como a si mesmo é a base. Mas o homem tem evoluído muito lentamente desde que esse principio foi estabelecido. Tenho fé que um dia chegamos lá, por isso não fico triste. Ao conseguir isso, o respeito será total, tanto pelo homem como pela natureza, pois somos todos parte de uma coisa só, o Universo.

22. Quando, em que momento em sua vida, desabrochou, ou seja, surgiu a Michelle artista plástica? Em que momento a arte entrou em sua vida?

A arte não surgiu na minha vida, a arte nasceu comigo, e desde que tenho consciência, eu tenho pintado e desenhado sempre, até antes de aprender a segurar um lápis, eu já pintava com pinturas de dedo. Sempre tive certeza que era isso que eu queria fazer na minha vida. Como aplicar isso para poder viver é que foi aparecendo aos poucos, primeiro como gravadora e depois como ilustradora e professora também, pois gosto muito de poder ensinar o que sei.

23. Como vê a produção cinematográfica para o público infantil?

Acho que a produção cinematográfica desde que surgiu, encanta tanto adultos quanto crianças. É um mundo que eu adoro, e onde tem possibilidades infinitas de expressão e criação também.

24. Deixe a sua mensagem final para os leitores de PALAVRA FIANDEIRA.

Minha mensagem final para os leitores seria meu conselho de viver a vida intensamente. Viver cada momento como algo único e dedicar a vida ao que se gosta com amor. Assim encontramos uma paz e felicidade que dá sentido a nossa vida. 

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Entrevista realizada por Marciano Vasques
Marciano Vasques é escritor